Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Star Wars: Os Últimos Jedi

Rian Johnson eleva a saga mais popular do cinema a um nível inédito no oitavo longa.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

Review: Thor: Ragnarok

Sim, o filme do deus do trovão é hilário - mas também se encaixa perfeitamente nos temas mais sérios da Marvel.

7 de jan de 2018

Review: Para Lady Bird, maturidade é sobre aceitação depois da rebeldia

bird

por Caio Coletti

O cinema já contou histórias de amadurecimento centenas, provavelmente milhares, de vezes. A fascinação artística sobre essa parte da vida em que encaramos pela primeira vez quem somos como adultos é natural tanto pela própria estrutura da narrativa dramática quanto pela sua dimensão humanitária. Por um lado, um personagem descobrindo a si mesmo é sempre um bom arco para se desenhar, e em nenhum momento da vida isso acontece de forma mais dramática do que na parte final da adolescência; por outro, em certo sentido o cinema como arte existe para que, através da história de outro, possamos nos ver, nos entender ou mesmo nos identificar, sem a necessidade de nos resolver. Quando passamos pelo processo de amadurecimento, dificilmente pensamos muito nele – é uma transição instintiva, bagunçada, imensurável por qualquer unidade compreensível. No cinema, podemos ver, de fora, o que aconteceu conosco, e entender melhor o que nos tornamos depois disso.

Lady Bird é o exemplo mais recente desse tipo de cinema de amadurecimento, mas é também uma obra absolutamente única dentro do sub-gênero. Mérito absoluto da diretora e roteirista Greta Gerwig – queridinha do cinema indie desde que apareceu em filmes como Hannah Sobe as Escadas (2006), Gerwig é uma roteirista de mão cheia. Seus trabalhos ao lado do namorado Noah Baumbach em Frances Ha (2012) e Mistress America (2015) refletem sobre o mito da autocriação a partir de um ponto de vista maduro, tragicômico, cheio de insight sobre a condição humana específica de uma geração de virada do milênio cujo sentimento de “não pertencer” a definiu por tanto tempo que, quando uma realidade mais complexa do que nunca bate à porta, não só é difícil encará-la como ainda mais complicado navegá-la sem ilusões, artifícios, ingenuidade. Em muitos e muitos sentidos, como na obra de qualquer grande artista, Lady Bird é uma continuação de todos esses temas.

O filme acompanha Christine (Saoirse Ronan), que prefere ser chamada de “Lady Bird” ao invés do nome dado a ela por seus pais. Ela navega seu último ano de escola entre paixonites, problemas acadêmicos e amizades inconstantes enquanto entra em confronto com a mãe, Marion (Laurie Metcalf) sobre sua escolha de faculdade – Lady Bird quer ir para Nova York, mas sua mãe acha que ela deve ficar por perto, em Sacramento (na costa oposta dos EUA). O roteiro de Gerwig é tão ferrenhamente dedicado a essa relação mãe-e-filha porque a história de Christine é, em seu cerne, sobre uma mulher fazendo às pazes com tudo o que tem em comum com uma mãe cujas ambições e cuja vivência, muito por esforço dela mesma, foram completamente diferentes das da filha. Há outros aspectos na vida de Christine que flutuam por Lady Bird, o filme, mas Gerwig nunca perde de vista essa dimensão que considera fundamental do amadurecimento.

Esse é um filme sobre a aceitação após a rebeldia. Sobre perceber que nem sempre podemos decidir por nós mesmos o que somos, que muito de nossa personalidade, nossa psicologia, nossa apresentação externa e elaboração interna, tem a ver com coisas sobre as quais não temos qualquer controle: quem são nossos pais, onde nascemos, onde estudamos, de quem nos aproximamos no ambiente social inclemente da escola, por quem nos apaixonamos na adolescência… Por isso a sutileza na performance de Ronan, que até hoje encarnou personagens mais expressivas em filmes mais obviamente emocionais – não é menos genial sua contenção aqui, sua construção cuidadosa de uma jovem confusa, impetuosa, irada com o mundo. Embora muito mais cômica, sua performance completa a de Timothée Chalamet em Me Chame Pelo Seu Nome para criar um retrato muito fiel e vívido da adolescência no cinema de 2017. Ambos, no final de seus filmes, demonstram emoção colossal que até então havia permanecido trancada com força por baixo de gestos e expressões de frustração.

Ronan encontra uma parceira de cena mais do que valiosa em Laurie Metcalf. A veterana do teatro e da TV (onde ganhou três Emmys seguidos pela sitcom Roseanne) constrói uma mãe com as características de sacrifício altruísta que costumamos ver nessas personagens da ficção, mas também consegue incutir no filme a noção de uma mulher de personalidade forte, humor afiado e amargo, orgulho ferido. Nas cenas mais intensas do filme, seu comportamento é tão reconhecível nos mínimos detalhes para qualquer espectador quanto é único dela. Tecnicamente, Lady Bird pega a dica de suas atrizes. É um filme criado com um esmero discreto, que deixa a história brilhar acima de elaborações fotográficas, musicais ou de encenação mirabolantes – só o design de produção ganha destaque, na criação dos ambientes domésticos de classes diferentes nos quais se passam a história.

Como diretora, Gerwig consegue se manter fora do caminho do próprio roteiro, o que é uma virtude e tanto por si só – especialmente porque estamos falando de uma das roteiristas mais essenciais da nossa década de produção cinematográfica.

✰✰✰✰✰ (5/5)

bird

Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Odeya Rush
94 minutos

6 de jan de 2018

Review: Me Chame Pelo Seu Nome é o casamento perfeito entre rigor e caos

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por Caio Coletti

Não há nada fora do lugar em Me Chame Pelo Seu Nome. Nenhuma decisão parece instintiva – pelo contrário, na Itália ensolarada de Luca Guadagnino, tudo é calculado. Há um rigor e uma exatidão com a qual o cineasta guia até as cenas que parecem mais casuais, e isso casa elegantemente com os diálogos impossivelmente maduros e articulados do roteiro de James Ivory, que não abandona aqui o estilo classicista, esbanjando oralidade, que rendeu filmes como Vestígios do Dia e Retorno a Howards End nos anos 1990. E, no entanto, Guadagnino nunca deixa que Me Chame Pelo Seu Nome seja um filme frio, ou que aliene o espectador com rigidez excessiva, deixando para trás seu conteúdo à flor da pele, seu ímpeto de juventude – esse ato de equilíbrio difícil é o que transforma o filme em um dos mais inesquecíveis pedaços de cinema do ano.

A princípio, o que salta aos olhos é a rigidez, já que Guadagnino marca o próprio movimento de seus atores com uma precisão impressionante. Na cena em que Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer) conversam perto de um monumento histórico, suas parábolas ao redor da área circular cercada que contem a estátua são coreografadas com a exatidão de um musical de Busby Berkeley, embora sem sua artificialidade – é aí que entra o visceral do filme. Em seu método quase matemático de cinema, Guadagnino conta com o espaço entre movimentos, falas, expressões e cenas para criar espontaneidade, tensão sexual, compaixão, conexão emocional, melancolia, carinho, amor fraternal e mais uma gama vívida de emoções que se escondem no roteiro de Ivory, mas precisavam de um cineasta curioso e corajoso o bastante para serem expressados em tela.

Na trama, Elio é o filho adolescente do professor Perlman (Michael Stuhlbarg), que traz para as férias de verão na Itália o novo estagiário, Oliver, que deve ajudá-lo em sua pesquisa. Elio e Oliver criam uma conexão complicada, que passa por identificações culturais (são ambos de famílias judias), uma inimizade bem humorada e um magnetismo sexual inegável. É uma trama de amadurecimento tanto quanto é um complicado conto moral sobre a exploração da sexualidade em um tempo como os anos 1980, mesmo no mais relaxado e liberal dos ambientes – as barreiras auto-impostas pelos dois protagonistas falam tão alto no roteiro de Ivory quanto a heterossexualidade compulsória que sabemos, por nosso próprio contexto social, que foi imposta a eles. Me Chame Pelo Seu Nome analisa as consequências devastadoras dessa obrigatoriedade pelo convencional, tanto na dinâmica de poder desequilibrada entre os dois amantes principais quanto no desfecho de seu caso amoroso.

Como Elio, Timothée Chalamet captura a volatilidade da adolescência com a compreensão e sabedoria que só poderiam vir de um ator que já passou por ela (o nova-iorquino está com 22 anos). Sua performance é constrangida e audaciosa na mesma medida, oscila entre arrogante e insegura em uma batida de coração, encontra ao mesmo tempo o orgulho e o medo dos próprios desejos carnais. Poucas vezes no cinema os 17 anos de um personagem foram expressados com tamanha combinação de compaixão e técnica. Enquanto isso, Armie Hammer captura até as sombras mais odiáveis de Oliver com a sede de um ator que esperava por esse personagem há muito tempo, Michael Stuhlbarg encarna uma das mais enigmáticas e versáteis figuras paternas do cinema recente, e Amira Casar faz maravilhas com uma atuação discreta em seu pouco tempo de tela como a mãe de Elio.

Para criar o mundo sensual, quase ofegante, do filme, Guadagnino conta com o diretor de fotografia tailandês Sayombhu Mukdeeprom, celebrado por seu trabalho na trilogia As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, em 2015. Aqui, ele é o agente provocador que cria a atmosfera de cores fortes, composições ligeiramente fora do eixo esperado, exploração comedida, mas inegavelmente sexy, dos corpos em tela – é um trabalho caloroso que, junto com as performances do elenco, brilha pelas frestas de um filme minuciosamente pensado e executado, criando um amálgama irresistível que remete à arte greco-romana que Oliver e o professor Perlman analisam. Me Chame Pelo Seu Nome é um filme que busca a versão cinematográfica da beleza perfeita dos helênicos, mas está interessado demais nas rachaduras e pedaços quebrados dessa arte antiga, e disposto demais a colocar os corpos que retrata em posições distorcidas e incomuns, física e emocionalmente. É uma revolução cinematográfica que venera o padrão acadêmico – é uma grande história para todo mundo, mas, para quem ama cinema, é a tempestade perfeita.

✰✰✰✰✰ (5/5)

cmbyn

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, Itália/França/Brasil/EUA, 2017)
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory, baseado no livro de André Aciman
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel
132 minutos

Diário de filmes do mês: Dezembro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

dunkirk

Dunkirk (Inglaterra/Holanda/França/EUA, 2017)
Direção e roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Kenneth Branagh, James D’Arcy, Barry Keoghan, Harry Styles, Aneurin Barnard, Tom Hardy, Cillian Murphy
106 minutos

Em muitos sentidos, Dunkirk é a prova cabal que Christopher Nolan não escuta (ou não lê) suas próprias críticas. Dilacerado frequentemente por não criar envolvimento emocional o bastante com seus personagens em meio a tramas cronológica e mecanicamente complicadas, Nolan escolheu abordar o gênero do filme de guerra de um ponto de vista mais visceral do que emocional. Dunkirk é uma bela história de solidariedade em meio a um conflito brutal, mas a trama criada por Nolan, dividida em várias frontes diferentes que se passam em tempos diversos, eventualmente se juntando no final, é um mecanismo imediatamente reconhecível e personalíssimo, que funciona com a exatidão de um relógio, e não o coração acelerado de filmes como O Resgate do Soldado Ryan ou Platoon, clássicos do gênero. Em pouco mais de 1h40, Nolan acompanha um soldado (Fionn Whitehead) preso na praia de Dunkirk com milhares de ouros, sendo constantemente atacados pelos alemães; um aviador (Tom Hardy) tentando impedir que os artilheiros nazistas sigam com o ataque na praia; um cidadão comum (Mark Rylance) voluntariando seu barco pessoal para resgatar soldados; e um comandante (Kenneth Branagh) tendo que tomar decisões difíceis para salvar seus comandados. Dunkirk define esses personagens em traços simples e bem definidos, e encara suas jornadas com o bom sendo de honrá-las e até celebrá-las, mas não se preocupa em realmente conhecê-los – o que não deixa de ser, inevitavelmente, um defeito.

Talvez por isso, apenas atores supremamente talentosos são bem sucedidos em envolver o público na jornada de seus personagens – no caso, Rylance e Hardy, que criam personas excêntricas e identificações imediatas com o público, mesmo sem a ajuda expressa do roteiro que interpretam. Já em outras dimensões técnicas, Dunkirk é, pura e simplesmente, perfeito. O infalível diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema retira imagens inacreditáveis do épico árido de Nolan, capturando a grandiosidade da produção tanto quanto a beleza estranha que existe na brutalidade das condições que esses soldados precisam enfrentar. Hans Zimmer deixa os sintetizadores e órgãos de lado para criar uma trilha sonora urgente e essencial para manter o espectador ligado no filme, especialmente nos momentos em que as falhas do roteiro ficam mais visíveis (o relógio de Nolan nem sempre mostra a hora certa, afinal). O trabalho com o som do filme, além da edição de Lee Smith, criam uma costura inteligente e um ritmo eficiente a partir de um material original que vive e morre por essas duas coisas.

Dunkirk vai merecer a indicação a Melhor Filme que conquistará no Oscar 2018 – como cinema puro, é uma realização e tanto de excelência, e o trabalho indubitável de um dos autores mais reconhecíveis (e reconhecidos) da atualidade. Não mereceria, no entanto, se vencesse na categoria. Cinema, afinal, é mais do que técnica, e como contador de histórias Nolan ainda precisa refinar sua arte.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets, França/China/Bélgica/Alemanha/EAU/EUA, 2017)
Direção: Luc Besson
Roteiro: Luc Besson, baseado nos quadrinhos de Pierre Christin, Jean-Claude Mézières
Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Herbie Hancock, Rutger Hauer
137 minutos

Eu queria muito amar Valerian e a Cidade dos Mil Planetas. Com um financiamento curioso de filme indie (o diretor Besson recolheu o dinheiro para seu alto orçamento de quase 10 fontes e investidores diferentes), a proposta de ser baseado em uma história em quadrinhos clássica que se tornou referência admitida para sagas como Star Wars, e o espírito criativo de Luc Besson, Valerian era o tipo de blockbuster “zebra” pelo qual era fácil torcer. A realidade do filme não é tão diferente dessa expectativa, no final das contas – Valerian é mesmo um filme estonteantemente inventivo, curiosamente único, que joga o espectador de para-quedas em um universo desconhecido e complicado, além de uma relação cheia de particularidades entre seus protagonistas. É uma obra genuína de arte, porque reflete a sensibilidade de seu criador ao invés de se submeter à mesmice do arrasa-quarteirão hollywoodiano – é um longa bravamente europeu, pode se dizer. Não é um grande filme de ficção científica, no entanto. Tão magistral em sua manipulação de gênero quanto descuidado em sua confiança em arquétipos, Beeson constrói uma narrativa cansada dentro de seu mundo impressionantemente inovador, criando por exemplo (ainda que seja no instinto de fidelidade aos quadrinhos) uma relação adversária entre seus dois protagonistas para depois jogá-los nos braços um do outro, com a personagem feminina responsável por “ensinar” para o aventureiro mulherengo inveterado o significado do amor romântico.

Por falar no tal aventureiro, é surpreendente o charme de Dane DeHaan em um papel completamente oposto aos esquisitões e almofadinhas que normalmente interpreta no cinema. Impetuoso, beligerante e conquistador exatamente como o roteiro pede, ele é um Valerian perfeito para a história de Besson, que se concentra em um suposto ataque a uma estação espacial intergaláctica que une humanos, humanoides e diversas outras espécies de alienígenas. Cara Delevingne não é uma grande atriz (aliás, muito longe disso), mas a personagem carismática lhe serve melhor que, por exemplo, a vilã esquecível de Esquadrão Suicida; já Rihanna mostra mais uma vez que tem futuro como atriz se insistir o bastante e aprender o bastante com cada novo projeto.

No fim das contas, Valerian é uma “aventura old school”, como esses filmes gostam de se chamar nas campanhas de marketing, em todos os sentidos possíveis – ele remete a uma época em que o cinemão hollywoodiano de ficção científica se permitia mais inventividade e vibração, mas também a uma época em que elaborações simplórias e nocivas de roteiro eram o bastante para envolver a plateia. Seu gosto pelo filme é diametralmente proporcional ao seu desgosto pelo típico blockbuster atual, e seu incômodo por determinados elementos viciosos (ou virtuosos) dele.

✰✰✰✰ (3,5/5)

mud

Mudbound (EUA, 2017)
Direção: Dee Rees
Roteiro: Dee Rees, Virgil Williams, baseados no livro de Hillary Jordan
Elenco: Garrett Hedlund, Jason Mitchell, Carey Mulligan, Jason Clarke, Jonathan Banks, Rob Morgan, Mary J. Blige
134 minutos

Há algo de profundamente instintivo em Mudbound, terceiro longa metragem da diretora Dee Rees (Pariah, Bessie) – o cinema de Rees é naturalmente imbuído desse instinto, um tipo visceral de criatividade que conjura do ar uma sinergia com o espectador e com a história que vemos em tela. Em Mudbound, essa história compreende dois soldados (Garrett Hedlund e Jason Mitchell) que retornam da Segunda Guerra Mundial para o sul dos EUA, onde as tensões entre negros e brancos continuam em um clima pré-direitos civis. É um filme sobre a humilhação da servidão – e uso essa palavra porque é um filme que explora as indignidades que continuaram a acontecer mesmo após a abolição da escravatura – tanto quanto é sobre os mecanismos de sobrevivência em um tempo de opressões mais discretas do que costumavam ser. Em suma, é uma história que precisa ser ouvida na década em que nos encontramos, quando mitos e ilusões sobre nossa própria evolução social estão sendo derrubados por demonstrações horrendas de violência, preconceito e ressentimento. Em Mudbound, Dee Rees encara de frente um grupo de personagens a quem não se permite a completude, e corajosamente expõe as partes que eles escondem do mundo para sobreviver.

Em alguns momentos, o colossal material adaptado do livro de Hillary Jordan parece um pouco demais para Rees e sua câmera à flor da pele lidarem – mas, curiosamente, isso não se traduz em defeito ou em desleixo artístico. Ao invés disso, o senso de caos nos momentos em que a narrativa parece dois passos a frente da câmera de Rees cria um sentimento de urgência e uma noção da magnitude das mensagens e da força emocional do filme que não teríamos de outra forma – calculadamente ou não, Rees cria um filme perfeito ao não esconder as imperfeições de um trabalho hercúleo. O elenco brilha nessa mesma sintonia, em especial Jason Mitchell, Mary J. Blige e Carey Mulligan, que constroem personagens expressivos em suas próprias características – da Laura de Mulligan na fragilidade, a Florence de Blige na resiliência, e o Ronsel de Mitchell em seu refrescante senso de rebeldia e autonomia.

Mudbound não foge de seu final trágico, ou das consequências amargas dele. É um conto afiado como navalha, que Rees maneja ao lado de trabalhos sóbrios e belíssimos de trilha sonora (Tamar-Kali), fotografia (Rachel Morrison) e figurino (Michael T. Boyd). É um pedaço de cinema único e fundamental, que, como de costume, merece mais atenção do que vai receber das grandes premiações do ano.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Andrea Riseborough, Natalie Morales, Sarah Silverman, Bill Pullman, Alan Cumming, Elizabeth Shue, Eric Christian Olsen, Fred Armisen
121 minutos

Nunca é o bastante dizer o quanto os talentos de Jonathan Dayton e Valerie Faris como cineastas são subestimados por conta do tipo de filmes que eles fazem. Surgidos no cenário cinematográfico com o seminal (sim, seminal) Pequena Miss Sunshine, a dupla de diretores é dona de uma sensibilidade quieta e uma excelência e elegância que não sente a necessidade de se esfregar na cara do espectador o tempo todo. É o tipo de cinema que se torna cada vez menos apreciado em um cenário de Christopher Nolan’s e Darren Aronofsky’s (ambos indiscutivelmente talentosos), autores particularíssimos que jogam com cartas mais bombásticas, polêmicas ou extravagantes. O cinema excepcionalmente inteligente de Dayton & Faris, que sempre lida com questões sociais e interpessoais profundas e essenciais para a nossa época, passa largamente despercebido nesse ambiente da indústria, e A Guerra dos Sexos é mais um exemplo perfeito de que isso não pode continuar acontecendo. Como cinema, o longa toma todas as decisões corretas, criando um produto que não é só “redondinho” ou “acadêmico” (em alguns sentidos, nem mesmo é essas coisas), mas sutil, eficaz e envolvente, que demonstra expertise em deixar o espectador imergir no mundo construído por ele.

A trama aborda o confronto real entre Billie Jean King (Emma Stone) e Bobby Riggs (Steve Carell) – ela, número um do mundo entre as mulheres; ele, um tenista aposentado que também havia sido número 1, e que para manter a relevância na mídia resolveu desafiar “qualquer jogadora do circuito feminino” para um confronto. A vitória histórica de Billie Jean não é, como muitos críticos da partida apontam até hoje, sobre mulheres serem superiores em força ou técnica aos homens do tênis – mas sim sobre sua luta simbólica (por respeito) e concreta (por pagamento igualitário) dentro do esporte. O roteiro de Simon Beaufoy comunica isso de forma exemplar, uma mensagem elaborada nos detalhes e entrelinhas das interações de King e Riggs, da construção de personagem dele, dos pormenores da vida pessoal dela, que explorava sua sexualidade na época. É um trabalho completo e inteligente de roteiro, que desenha personagens sólidos e os conduz pela história real que retrata com o equilíbrio certo de verdade e ficção.

Emma Stone e Steve Carell abrilhantam um filme que não carece de brilho. Stone está melhor aqui do que em sua performance oscarizada em La La Land, um mérito para sua atuação aqui, e não um demérito para sua atuação lá – estruturando uma personagem única dentro de seus maneirismos usuais, Stone encontra o tom subliminar certo para expressar a rebeldia de Billie Jean, e toma posse de uma cena perto do final do filme em que vemos a jogadora sozinha, em seu vestiário, para se comunicar com o espectador através de um carisma inacreditável. Essa não é a escolha de papel mais convencional para quem acabou de vencer um Oscar pela ingénue do musical moderno mais academicamente bem-sucedido de Hollywood, e esse desafio à convenção sem dúvida é algo que faz a Billie Jean King de verdade sorrir quando assiste A Guerra dos Sexos.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

bingo

Bingo: O Rei das Manhãs (Brasil, 2017)
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi, Fabio Meira
Elenco: Vladimir Brichta, Leandra leal, Tainá Muller, Ana Lúcia Torre, Pedro Bial, Domingo Montagner
113 minutos

Em sua dimensão mais fundamental, Bingo: O Rei das Manhãs é sobre o ofício muito particular de um ator. Na pele de Augusto Mendes, Vladimir Brichta entende que interpreta um ator cujo talento mais essencial é encontrar a veia do inconsciente coletivo que corre pela cultura popular em seu momento histórico específico. O exercício de relaxamento de Mendes, que vemos em vários momentos do filme antes dele entrar em cena, é simbólico – ele se desprende das tensões de sua vida diária para entrar em contato com algo mais profundo, uma habilidade iconoclasta que é marca de muitos (se não todos os) grandes atores. Vale começar dizendo que, nesse sentido, Brichta é o motivo pelo qual o filme de Daniel Rezende alça voo ao invés de se estatelar no chão – o intérprete conjura novidade dos detalhes de uma jornada de ascensão e queda que já foi contada centenas de vezes no cinema. É uma performance que merece a mal utilizada classificação de tour de force mais do que qualquer outra desse ano, porque a intensidade do ator é o que carrega Bingo para além de sua excelência técnica, em direção de uma conversa mais profunda e transformadora com o espectador.

Vale dizer, também, que a tal “veia do inconsciente coletivo” que Mendes, o ator de pornochanchadas que virtualmente cria o papel do palhaço mais popular das manhãs da TV brasileira (o filme é uma versão disfarçada da história de Arlindo Barreto, o primeiro Bozo), consegue acessar na pele de seu novo personagem é uma de rebeldia “sacana”, incorreção política e “malandragem” que virou sinônimo com o espírito brasileiro – para o bem ou (mais provavelmente) para o mal. A grande virtude do roteiro de Luiz Bolognesi e Fabio Meira talvez seja não fugir desse detalhe importante de sua história, moldando tanto o protagonista quanto a trama para sublinhar o clima pós-ditadura militar que recriou o gosto pela subversão de autoridade no público brasileiro. Uma pena que esse mesmo espírito de subversão não toque os próprios roteiristas, que se acomodam a padrões familiares, por exemplo, na construção das personagens femininas e no retrato hedonista dos excessos de seu protagonista.

Bingo compensa essa falha com uma excelência técnica que simboliza a potencialidade do cinema brasileiro. Rezende, editor de mão cheia que até ao Oscar foi indicado (por Cidade de Deus), estreia na direção com o faro e a ousadia de um profissional experiente – cheio de cenas de delírio e interlúdios banhados em neon e espírito de galhofa, Bingo é belamente encenado, com uma direção de arte (Cassio Amarante) certeira e grandiosa, uma versátil e impressionista fotografia (Lula Carvalho) e uma edição sintonizada com o clima do filme (Marcio Hashimoto). Por mais um ano, o cinema brasileiro impressiona ao produzir histórias distintamente nacionais com uma sensibilidade igualmente nossa, e a excelência artística implacável que aprendemos a esperar.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

tonya

Eu, Tonya (I, Tonya, EUA, 2017)
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Steven Rogers
Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser, Bobby Cannavale
119 minutos

O diretor Craig Gillespie e o roteirista Steven Rogers pouco tem a ver com a inovação óbvia de Eu, Tonya e a eficiente mistura de gêneros que o filme cria – ou melhor, apesar de suas melhores tentativas (e não são trabalhos ruins, de nenhum dos dois), não são eles que fazem o trabalho pesado na criação dessa excêntrica comédia de humor negro que encontra surpreendente pungência em sua história sobre fama, abuso e a natureza da verdade. Ao invés disso, o grosso do trabalho fica com a editora Tatiana S. Riegel, que injeta um ritmo particular ao filme de Gillespie, intercalando suas longas e vertiginosas tomadas acompanhando os personagens com recursos como a câmera lenta, o corte abrupto para ângulos curiosos (muito bem escolhidos pelo cinematógrafo Nicolas Karakatsanis), a mistura em dose certa de narração em off com entrevistas diretamente para a câmera e quebras da quarta parede. Aperfeiçoando o roteiro já afiado de Rogers e injetando personalidade na direção já competente de Gillespie, Riegel é argumentadamente a grande autora de Eu, Tonya, e é delicioso ver uma editora no topo de suas habilidades costurando um filme marcante e notável a partir de materiais brutos promissores, mas nunca excepcionais.

Eu, Tonya é a história real de Tonya Harding (Margot Robbie), patinadora de talento excepcional que ficou infame pelo ataque a uma competidora, Nancy Kerrigan, pouco antes das Olimpíadas de Inverno de 1994. O filme é contado de diversos pontos de vista, montando uma comédia de erros e enganações estúpidas em torno de Tonya, seu marido Jeff Gillooly (Sebastian Stan), sua mãe Lavona (Allison Janney) e seu guarda-costas, Shawn (Paul Walter Hauser). A complicada e contraditória “versão dos fatos” dada por cada um deles, e por alguns outros personagens nessa história, é parte da brincadeira – Eu, Tonya é em parte sobre a forma como a celebridade, o próprio ato de contar (e recontar, e recontar, e recontar) uma história é capaz de mudá-la para muito além de qualquer semelhança com a verdade.

Uma Margot Robbie vibrante emerge como Tonya, elaborando suas emoções complexas em cenas que exploram sua expressividade como nenhum outro papel de sua carreira até agora - mas, muito especialmente, Robbie é excelente em expressar a fúria ressentida que define a Tonya do filme. Fúria pelo seu tratamento no esporte que “escolheu”, furia que é reação direta ao abuso sofrido na infância e na vida adulta, mas também fúria que a compele em uma cruzada que um olhar contemporâneo à história de Tonya sem dúvida julga como justa. É a mesma fúria que Janney brilhantemente esconde em sua Lavona, sublimada por baixo de décadas de decepções e de “fazer o que é preciso” para sobreviver. Em última instância, Eu, Tonya, por baixo do humor caricato, mostra duas das mulheres mais reais e completas do cinema em 2017 – só por isso, já merece ser assistido.

✰✰✰✰ (4/5)

24 de dez de 2017

Review: Star Wars finalmente consegue unir o político e o pessoal em Os Últimos Jedi

jedi

por Caio Coletti

Quando uma história é contada no decorrer de 40 anos de cinema, é óbvio que diferenças sociais serão sentidas na forma como ela é recebida pelo público, e as expectativas desse público, agora multi-geracional, se tornarão cada vez mais discrepantes e impossíveis de manejar. Para a minha geração, que cresceu nos anos 1990 e 2000 com os prelúdios de George Lucas e, só depois, foi conhecer os filmes que os precederam, Star Wars sempre foi sobre política. Em muitos sentidos, ela sempre foi mesmo – vendo os filmes originais, dos anos 1970 e 1980, hoje em dia, fica óbvio que a ambição de Lucas era criar um épico que homenageava aventuras clássicas da ficção, mas que no meio do caminho ele topou com uma narrativa poderosa sobre autoritarismo e as formas de se rebelar contra ele.

Carregar Star Wars para o cinemão moderno e transformá-la em uma saga de nove longas metragens significava então, inevitavelmente, adicionar complexidade a essa reflexão política. O problema da trilogia dos anos 2000 de Lucas é que, na busca por essa complexidade, ele esqueceu de encontrar arcos de personagens emocionais que fizessem o espectador se engajar na trama – e o problema de O Despertar da Força e Rogue One, por suas vezes, era uma confiança muito grande nesse envolvimento emocional, enquanto detalhes e implicações políticas eram deixadas de lado. Em suma, para sobreviver aos próximos 40 anos, Star Wars precisava, tal e qual a Força de sua mitologia, encontrar o equilíbrio entre o lado sombrio (o de reflexão social) e o lado benévolo (o investimento emotivo) de sua história – e Os Últimos Jedi é o filme perfeito para isso.

Na trama, acompanhamos a continuação da luta contra a Primeira Ordem, mas o roteirista e diretor Rian Johnson consegue distingui-la, finalmente, da luta contra o “vilão” da trilogia clássica, o Império. Johnson empresta um toque de decadência e mesquinhez ao mal da Primeira Ordem que não existia nas imponentes forças imperiais, criando um mal muito mais banal e crível, em pleno século XXI, do que aquele clássico terror maniqueísta do cinemão americano. O cineasta se separa dos filmes clássicos também ao emprestar um pouco do cinismo de Lucas quanto aos ensinamentos Jedi e sua validade como instituição – na pele de um Luke (Mark Hamill) iludido, que se recusa a passar sabedoria para uma aprendiz (a Rey de Daisy Ridley) por achar que os Jedi precisam morrer com ele, o novo Star Wars tem a audácia de contestar os métodos, regulamentos e atitudes de seus supostos mocinhos.

A diferença da contestação que vemos aqui para aquela que vimos em A Ameaça Fantasma, O Ataque dos Clones ou A Vingança dos Sith é que Johnson a firma no desenvolvimento dos personagens, e não a despeito deles. Enquanto Rey tenta convencer Luke a ajudar a Resistência liderada por sua irmã, Leia, ela também se comunica com Kylo Ren (Adam Driver), o ostentoso vilão da trilogia, um homem torturado e em crise de identidade, cujas reservas amplas de fúria e ressentimento indicam muito mais uma alma perdida do que um mal absoluto. Quando Ren quebra sua máscara no começo de Os Últimos Jedi, Johnson sinaliza que sua redenção, se um dia vier, terá que vir de cara limpa, e não com uma revelação de fragilidade por baixo de um símbolo maligno, como aconteceu com Darth Vader. O filme representa uma Star Wars com história mais direta, despida de recursos mitológicos ou simbólicos.

Johnson é um grande contador de histórias que encontra rimas visuais e referências brilhantes para construir seu filme. Ao lado do diretor de fotografia Steve Yedlin, seu parceiro de longa data, o cineasta é incansável ao buscar significados em cores, formas e movimentos – seja na aproximação lenta da câmera em direção ao “buraco negro” onde Rey conhece o poder do Lado Escuro da Força ou na abundância de vermelho nas cenas de ação do final do filme, imagens nunca significaram tanto para Star Wars quanto em Os Últimos Jedi. Inspirado por um filme de complexidades e emoções à flor da pele, John Williams cria sua trilha mais genial em muitos anos, evocando emoções complicadas e trazendo à tona sons inesperados para colorir uma história já ricamente desenhada por Johnson.

Por fim, há também o poder que Os Últimos Jedi dispensa às suas personagens femininas, que por décadas passaram os filmes de Star Wars amargando papéis coadjuvantes em relação aos homens – se não fosse a marca própria de humor e personalidade de Carrie Fisher, quão revolucionária seria a Princesa Leia, como escrita no roteiro, no primeiro Star Wars? Aqui, as decisões de liderança que elas precisam tomar são monumentais, e as consequências delas ainda maiores – elas são forças que afetam a jornada dos homens ao redor delas, mas também personagens vívidas e autônomas, com arcos próprios e edificantes. Em certa cena, Leia e Holdo (Laura Dern) tentam dizer, ao mesmo tempo, a frase clássica da série: “Que a Força esteja com você”. Parando na metade, Leia ri da forma como apenas Carrie Fisher era capaz de rir, e faz concessão à amiga: “Eu já disse isso o bastante”. Temos que discordar, Leia – não ouvimos sua voz o bastante desde o começo de Star Wars, lá em 1977. Nem perto disso.

✰✰✰✰✰ (5/5)

jedi

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Rian Johnson
Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Billie Lourd
152 minutos

10 de dez de 2017

Diário de filmes do mês: Novembro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

atomic

Atômica (Atomic Blonde, Alemanha/Suécia/EUA, 2017)
Direção: David Leitch
Roteiro: Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos de Anthony Johnson & Sam Hart
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Sofia Boutella, Bill Skarsgard, Til Schweiger
115 minutos

Atômica começa com Charlize Theron mergulhada em uma banheira de gelo, nua. A câmera do diretor David Leitch, no entanto, não filma a cena iluminada por neon de forma sensual, mas passa seu tempo focando nos enormes hematomas nas costas de Theron, que interpreta a espiã Lorraine Broughton, enviada à Berlim dias antes da queda do muro, em plena Guerra Fria, para recuperar uma lista roubada de agentes secretos e seus nomes reais. Os próximos 115 minutos são passados explicando porque Lorraine acabou indo parar nessa banheira de gelo, com esses hematomas – e Theron faz valer o outlook nada sensual do diretor Leitch ao construir uma anti heroína misteriosa, brutal, imparável, perenemente surpreendente. Com a desonrosa exceção da cena de sexo desnecessária entre Lorraine e Delphine (Sofia Boutella), inserida no roteiro puramente para permitir a fetichização de um relacionamento lésbico, Atômica entrega uma protagonista feminina complexa e naturalmente icônica, que sempre joga no mesmo nível (ou acima) dos homens que a cercam. O oxigênio do filme é a performance física e emocional de Theron, que rouba a cena até da ambientação oitentista espetacularmente construída pelo diretor Leitch.

A direção de arte decadente, cheia de paredes descascadas, coberturas ímpias de arranha-céus, e muito neon (designer de produção: David Scheunemann); a música propulsiva escolhida pelo supervisor John Houlihan (há uma cena de ação ao som de “Major Tom”, de Peter Schilling, que é uma combinação de arrepiar) e, em suas intervenções originais, composta por Tyler Bates; o figurino de Cindy Evans e o trabalho da equipe de cabelo e maquiagem, apresentando visuais icônicos da época sem serem óbvios ou “certinhos” demais, sofisticados demais para a situação. Atômica é um tremendo feito de produção. que revela Leitch não só como um grande diretor de ação (o que já sabíamos, graças a John Wick), mas um cineasta detalhista e elegante. Resta aguardar o refinamento desse talento nos próximos longas metragens de seu currículo.

✰✰✰✰ (4/5)

gerald

Jogo Perigoso (Gerald’s Game, EUA, 2017)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard, baseados no livro de Stephen King
Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Chiara Aurelia, Carel Struycken, Henry Thomas, Kate Siegel
103 minutos

A junção do diretor Mike Flanagan com o escritor Stephen King faz muito sentido – em seus poucos filmes até agora, Flanagan demonstrou um refinamento sem precedentes para brincar com as convenções do gênero de horror, e King sempre casou essa mesma habilidade com um olhar cirúrgico sobre a condição humana e alguns dos temas mais importantes da nossa sociedade. A perspectiva de ver Flanagan brincando com uma das histórias em que o princípio de King de que “o verdadeiro monstro é o ser humano” mais se aplica era excitante, e o resultado – esse Jogo Perigoso, lançado pela Netflix – corresponde às expectativas. É um terror de sobrevivência obviamente tenso, mas surpreendentemente denso, examinando profundamente o passado de sua protagonista e como ele afetou decisões que ela tomou no seu presente. A trama, como todo mundo sabe, compreende uma mulher, Jessie (Carla Gugino) que é deixada algemada à cama quando seu marido, Gerald (Bruce Greenwood), tem um ataque cardíaco fulminante no meio da “hora H”. O filme é notavelmente mais do que isso, no entanto, usando a engenhosa premissa para entender relações masculino-feminino e traumas de abuso sexual com sensibilidade aguda.

Gugino, que sempre foi uma grande atriz mal-aproveitada em pequenos papéis, regozija ao ganhar uma personagem tão complexa, que é o centro das atenções por 103 tensos minutos. Intensamente ponderada em seu legue de emoções intensas, Gugino segura o olhar do espectador com o que parece muito pouco esforço, encontrando as melhores formas de expressar o trauma que guia a personagem, e as formas como ela é maior do que ele. Um deliciosamente teatral Bruce Greenwood dá apoio à protagonista em algumas das cenas mais cáusticas e envolventes do filme, com o diretor de fotografia Michael Fimognari trabalhando habilmente as luzes e sombras do quarto onde a maioria da ação se localiza. Stephen King teve algumas boas adaptações em 2017, mas Jogo Perigoso é talvez a que melhor entende aquilo que o tornou um escritor de tanto apelo popular quanto aclamação crítica – a força de seus personagens, e as histórias em que o medo sobrenatural é também trauma e opressão, terrores muito reais dos quais tentamos sempre nos desvencilhar.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

kingsman

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman, Matthew Vaughn, baseados nos quadrinhos de Mark Millar & Dave Gibbons
Elenco: Taron Egerton, Mark Strong, Hanna Alström, Julianne Moore, Colin Firth, Channing Tatum, Halle Berry, Elton John, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Edward Holcroft, Michael Ganbon, Bruce Greenwood, Emily Watson
141 minutos

Eu não amei o primeiro Kingsman como a maioria das pessoas que eu conheço (e uma boa parte da crítica) amou. Serviço Secreto, de 2014, me atingiu como uma parábola arrogante sobre como “as maneiras fazem o homem”, que reforçava um estereótipo masculino menos agressivamente ofensivo, mas ainda essencialmente tóxico. Sua sátira dos épicos de super espiões, por outro lado, era consideravelmente menos esperta e mais óbvia do que achava ser, e não havia medida de criatividade visual e adrenalina bem dirigida que apagasse tudo isso. No fim das contas, Serviço Secreto era um blockbuster pouco imaginativo que fingia não o ser, o que faz com que a continuação, O Círculo Dourado, represente uma melhora para a franquia – ao menos aqui as gracinhas conceituais do diretor Matthew Vaughn fazem parte da piada, já que o segundo Kingsman abraça seu status como arrasa quarteirões sem ambições metalinguísticas e deixa atores mastigadores de cenário e encantos pura e rasamente estéticos brilharem no lugar de pseudo-ambições de mensagem social. Ele ainda não é um grande filme, mas ao menos não parece tentar ser.

Dessa vez, Eggsy (Taron Egerton) precisa lidar com a traficante de drogas Poppy (Julianne Moore), que tem um plano para obrigar o presidente dos EUA a legalizar os narcóticos (da maconha à heroína, naturalmente). Para isso, os espiões britânicos cruzam o Oceano Atlântico e se juntam a suas contrapartes americanas, que incluem agentes interpretados por Pedro Pascal, Channing Tatum, Halle Berry e Jeff Bridges. Encarnando personagens coloridos que os permitem exageros, esses atores, com destaque especial para uma Moore claramente inspirada pelo Lex Luthor clássico de Gene Hackman, abrilhantam a tela quando O CÍrculo Dourado derrapa nas ambições narrativas para além de seus paradigmas óbvios de pastiche de gênero. O retorno relativamente decepcionante na bilheteria é apropriado: Kingsman não tinha muito mais a dar além disso.

✰✰✰ (3/5)

assassin

O Assassino: O Primeiro Alvo (American Assassin, EUA/Hong Kong, 2017)
Direção: Michael Cuesta
Roteiro: Stephen Schiff, Michael Finch, Edward Zwick, Marshall Herskowitz, baseados no livro de Vince Flynn
Elenco: Dylan O’Brien, Sanaa Lathan, Michael Keaton, Scott Adkins, Taylor Kitsch, Shiva Negar
112 minutos

Virtualmente todas as pessoas envolvidas com O Assassino mereciam um filme melhor – a começar por Dylan O’Brien, o jovem astro de Teen Wolf que tenta lançar uma carreira cinematográfica em cima da força do personagem Mitch Rapp, consagrado nos livros de Vince Flynn. Ele encontra todos os recôncavos mais sombrios do personagem e os expressa com a destreza com a qual encarnou todos os seus papéis até hoje, o que faz ainda mais penoso que O Assassino seja um filme de ritmo tão torturado, mensagem tão conservadora, falhas tão previsíveis em quesitos chave para um bom filme de ação em pleno 2017. O diretor Michael Cuesta, que assinou o bom O Mensageiro, injeta o máximo de propulsão às cenas de adrenalina, nunca deixando seu herói se tornar um super-agente invencível nos moldes de John McClane ou James Bond – na câmera de Cuesta, o protagonista Rapp é um jovem hábil e flexível, cuja ira instintiva é a maior motivação. Entendemos sua falta de cautela, mas o filme não pinta suas ações, que beiram o vigilantismo, como negativas ou moralmente ambíguas.

O que acontece é justamente o contrário, aliás – aqueles que levantam essas preocupações são vistos como obstáculos no caminho da justiça, e essa é a falha fatal de O Assassino como peça de ficção ligada ao nosso momento social. Na pele do “mentor” de Rapp, Michael Keaton é consistentemente mais envolvente do que deveria ser, assim como um Taylor Kitsch que há muito tempo merece papéis mais complexos para interpretar – aqui, eles sabem que são os holofotes brilhantes de exagero cuidadoso em um filme sombrio e contido, e se divertem muito nesses papéis. Fracasso de bilheteria, essa primeira aventura de Mitch Rapp provavelmente não vai gerar continuações – é difícil comemorar, no entanto, quando isso significa algo ruim para a carreira de gente que poderia abrilhantar Hollywood.

✰✰✰ (2,5/5)

23 de nov de 2017

Review: Liga da Justiça erra quando foge do grande filme que poderia ser

justice

por Caio Coletti

Quando Batman vs Superman foi lançado, no ano passado, logo no título do meu review escrevi que o filme “só errava quando não estava totalmente comprometido com sua proposta”. Havia um cinismo na visão dos roteiristas Chris Terrio e David S. Goyer, e na iconoclastia de Zack Snyder, que me encantava – o retrato desses heróis como deuses caídos à Terra, incapazes de proteger o mundo sem destruí-lo, em muitos sentidos perpetuamente aprendendo a mexer em uma “caixinha de brinquedos” perigosa na forma de seus superpoderes, me fazia mais conectado do que nunca a essas figuras em tela. Eles eram míticos no sentido mais puro da palavra, maiores que a vida, mas ao mesmo tempo tão absolutamente familiares a ela.

Por todo o seu alarde de mudança, o que Mulher-Maravilha fez foi pegar esse conceito inovador e muito habilidosamente aplicá-lo de forma mais equilibrada e mais sutil, erguendo um novo mito em torno de Diana Prince e seus ideais mais positivos, embora não menos ambíguos, de heroísmo. Se tivesse aprendido as lições desses dois antecessores, Liga da Justiça poderia ser um grande filme – ao direcionar a visão única de Snyder e Terrio, que retornariam para dirigir e escrever o filme, respectivamente, para uma narrativa que crescia em uma direção mais esperançosa, uma “saída do inferno” que se completaria no fim do filme, os maiores heróis da mitologia dos quadrinhos poderiam fazer jus a esse título também no cinema.

Como costuma acontecer nessas histórias, no entanto, havia uma Warner Bros no caminho do Liga da Justiça que poderia ser sutil o bastante para consertar os erros de Batman vs Superman. A gigante corporativa aproveitou-se da saída de Zack Snyder da produção durante o processo de refilmagens, devido à problemas familiares, para chamar Joss Whedon (Os Vingadores), um diretor e roteirista eficiente quando tem espaço para realizar sua visão, a fim de tornar o filme “mais leve”, nos moldes do seu análogo da Marvel. O problema é que Liga da Justiça, da forma como foi lançado, com suas rasteiras 2 horas de duração, não é o filme de nenhum desses dois cineastas – de fato, é aquele raro produto cinematográfico que, preso entre múltiplas identidades, não consegue alcançar nenhuma.

Em meio à continuada e inteligente reflexão do roteirista Terrio sobre heroísmo e a oposição entre cinismo e esperança que existe no coração dele, as piadas quase “improvisadas” de Whedon não só são inclusões por vezes constrangedoras como são entregues com compreensível inabilidade por atores que passam o restante do tempo construindo personagens conflitantes com elas. Isso é verdade especialmente do Batman de Ben Affleck, no que poderia muito bem ser a pior atuação de sua carreira (se ela não incluísse Contato de Risco, é claro). O Bruce Wayne estoico e calejado que o ator construiu no filme anterior some embaixo de um arco forçado do qual Affleck apenas muito eventualmente consegue extrair qualquer sentido ou substância.

Ezra Miller, Gal Gadot e Jason Momoa encontram formas mais equilibradas de construir seus heróis, em especial os dois rapazes, destaques óbvios do filme, já que à ela é relegado, no pior estilo Whedon, o papel da mulher responsável que reclama das irreverências dos seus colegas de equipe (uma versão piorada da Viúva Negra fetichizada de Whedon em ambos os filmes dos Vingadores). Poucos meses depois de Patty Jenkins lançar o espetacular Mulher-Maravilha, é desencorajador ver um filme que dá tantos passos atrás na representação de mulheres fortes, autônomas e guerreiras, mas que não cabem em estereótipos, nos blockbusters – e essa culpa deve ser dividida entre Snyder e Whedon, diga-se de passagem.

Também é desencorajador perceber que algumas das virtudes técnicas óbvias de Batman vs Superman foram abandonadas após a recepção fraca do filme. A troca de Larry Fong por Fabian Wagner na fotografia, por exemplo, significa que os efeitos especiais não são explorados por sua plasticidade, e sim de uma maneira mais “pedestre”. O estilo de Wagner funciona bem para a tela pequena e para a elaboração realista das batalhas de Game of Thrones, mas não se encaixa no mundo de deuses superpoderosos da DC. O mesmo vale para a troca de Junkie XL & Hans Zimmer por Danny Elfman na trilha sonora – como um todo, Liga da Justiça parece fugir do desafio de ser um filme de gênero orgulhoso como seu predecessor, porque acha que isso significa ódio crítico e do público.

No entanto, pelas frestas dessa fuga sufocante de si mesmo, Liga da Justiça mostra flashes de brilhantismo. Seu arco narrativo fundamental, que viaja do exaspero à esperança, pode parecer apressado e atribulado, mas ainda está lá, e a reminiscência da mensagem original do Superman e de seus companheiros de equipe, nos quadrinhos, é maior do que em qualquer outro filme da DC até aqui. Terrio encontra na junção da humanidade desses super-heróis uma forma de conduzir o mundo sombrio criado por ele no filme anterior a um tipo ambíguo, complicado e belo de luz. O filme desenha a história de cada um dos membros da equipe como definida por perdas metafóricas e literais, e busca entender como essas perdas os propelem adiante no combate a um mal tão mesquinho como o de Lobo da Estepe.

Liga da Justiça ainda é um bom filme, apesar de si mesmo. É triste, no entanto, imaginar o grande filme de heróis que está escondido dentro dele, e que provavelmente nunca veremos sair.

✰✰✰✰ (4/5)

justice

Liga da Justiça (Justice League, EUA/Inglaterra/Canadá, 2017)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J.K. Simmons, Ciarán Hinds, Amber Heard, Joe Morton
120 minutos