Os 20 melhores álbuns de 2016

Nossa lista chegou atrasadinha, mas chegou também muito completa.

Review: Moonlight

Com ou sem Oscar, o drama de Barry Jenkins é a maior obra-prima do ano.

Review: La La Land

O musical de Damien Chazelle era o favorito ao Oscar 2017!

As 15 melhores séries de 2016

A HBO pode ter dominado o nosso top 5, mas o primeiro lugar ficou com outra emissora - confira!

As 10 melhores canções de 2016

The 1975, Lady Gaga e Rihanna dominam essa prévia da nossa lista de álbuns do ano

16 de abr de 2017

Lady Gaga – The Cure: Onde erramos quando falamos de música pop?

chellaLady Gaga em seu show no Coachella 2017

por Caio Coletti

Nesse domingo de Páscoa (16), acordei com a notícia de que Lady Gaga havia estreado uma nova música na sua aparição no Festival de Coachella 2017. O show, transmitido para todo o mundo na internet, teve a cantora desfilando criações de seus quatro álbuns, com uma ênfase especial no Joanne, lançado no ano passado. E então veio “The Cure” (que você pode ouvir mais abaixo), supostamente o primeiro single de um EP ou edição especial do disco, no estilo The Fame Monster, lançado como complemento e oposição ao The Fame, disco de estreia de Gaga.

“The Cure” começa com sintetizadores agudos entoando um micro-gancho repetitivo que alude a algumas das canções pop mais bem sucedidas (e mais imediatamente esquecíveis) dos últimos anos, das criações do The Chainsmokers à “Sorry”, do Justin Bieber. Em seguida, a música desagua em uma melodia redondinha levada com garra por Gaga, sempre convicta nos vocais – em termos de composição, o refrão é formalmente esperto, fugindo discretamente da rigidez do estilo, mas “The Cure” nunca quebra o molde contemporâneo do pop-eletrônico de forma significativa.

Eu não quero dizer, caro leitor, que você não pode gostar de “The Cure”. Não tenho autoridade nenhuma para dizer isso, nem se quisesse. É uma canção competente cuja conexão pessoal com você depende de inúmeros fatores externos à criação da artista, do momento que você está passando em sua vida até o conjunto de gostos e conceitos que você acumulou com os anos. O objetivo de qualquer crítica que possa se seguir nesse texto não é atacar seu gosto pessoal pela canção, mas observar o contexto em que ela aparece, e o que ela significa para a carreira e a narrativa de Lady Gaga.

Esse é o problema que me incentivou a dar a esse texto o título que ele tem. Nosso erro ao falar de música pop é que nos perdemos em paixões e pessoalidades, em discussões cheias de respostas rasas, e não somos capazes de admitir as falhas naquilo que gostamos. “The Cure” não é o meu tipo de pop inofensivo, e é por isso que eu, particularmente, não gosto dela. No entanto, muito além disso, eu me posiciono como crítico a ela porque o pop, na minha visão, não pode e não deve ser inofensivo, mesmo que haja pop inofensivo por aí que eu goste de ouvir.

Já expliquei nesse site centenas de vezes qual é a minha visão sobre o pop como arte – mais recentemente, em um artigo sobre a própria Gaga. A ideia do pop como “música descartável” não me desce porque ele tem o poder de deixar uma marca indelével na cultura, nas pessoas e, por consequência, no mundo. Ele tem a potencialidade de ajudar a quebrar tabus, e alimenta de forma definitiva as produções artísticas que virão depois dele. Como a própria Gaga costumava colocar: “No pop, você sabe que foi bem sucedido quando sua arte tem um elemento de crime”.

Há elemento de crime (cultural) em “Perfect Illusion”. O lead single do Joanne é uma óbvia e inteligente reversão de expectativas, inserindo um pop com pulso e garra de rock n’ roll, mudança de tom ao estilo anos 80, e uma letra sobre o passageiro sentimento de êxtase do mundo contemporâneo, sempre em velocidade alucinante (como a canção, inclusive). No dia do lançamento de “Perfect Illusion”, cada repetição da música nos meus fones de ouvido era uma nova camada no meu entendimento dela. Em “The Cure”, essa dimensão profunda e fascinante não existe, não importa quantas audições você faça.

Eu não acho que Lady Gaga fez “The Cure” para “relaxar e se divertir”. Acho que fez de forma calculada para ganhar um hit tradicional nas paradas americanas – o que, a longo prazo, pode ser uma jogada acertada. É de se lamentar, no entanto, que uma artista tão única e genuína quanto ela precise fazer pop “inofensivo” para chegar lá, e o meu medo é que, quanto mais elogiarmos e aclamarmos decisões como essa, mais fundo no poço do “mais do mesmo” o nosso pop ficará.

Lady Gaga é a artista pop mais importante do nosso tempo porque ela faz escolhas diferentes. Porque tira prazer em chocar ouvidos despreparados e conquistá-los mesmo assim. Porque tem afetado e moldado a nossa cultura de forma mais definitiva do que qualquer outra artista pop. Se esse lançamento for indicativo de um novo caminho pelo qual Gaga pretende seguir, seja por pressão comercial ou vontade própria, e não importa o quanto eu ou você goste ou desgoste da canção, nós acabamos de perder uma das nossas grandes inovadoras. Na trajetória dela, “The Cure” precisa ser a exceção, e não a regra.

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4 de abr de 2017

“Em terra de cego…”: Legion não é tudo isso que você ouviu (e, ao mesmo tempo, é)

legionDan Stevens como David Haller e Aubrey Plaza como Lenny

por Caio Coletti

“Em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Essa é a frase, um daqueles ditados de “sabedoria” popular/clichês literários, que continuava surgindo na minha cabeça enquanto eu assistia ao oitavo e último episódio da primeira temporada de Legion, da FX. Um pouco de contexto para quem caiu de pàra-quedas nesse texto: a série em questão é uma parceria da emissora americana com a Marvel Studios, adaptando um personagem do cânone dos X-Men, um filho do Professor Xavier que tem a mente dividida em várias personalidades, cada uma controladora de um tipo de poder. Legion toma várias liberdades com o personagem, é claro, mas essa não é a questão aqui.

A aclamação quase universal da produção da FX, comandada por Noah Hawley (Fargo), me incomodou durante todas as oito semanas em que a série ficou no ar. Tanto da parte da crítica quanto (principalmente) do público, Legion se tornou unanimidade – uma produção tão absurdamene diferente e completamente genial que virou uma das paradas obrigatórias de 2017 para quem é ligado em cultura pop. A ideia difundida  era que Hawley, com liberdade criativa após o sucesso de Fargo, havia virado a fórmula da história de super-heróis de cabeça para baixo, introduzindo elementos bizarros e engenhosidades psicológicas à história do mutante David Haller, criando um espetáculo visual como nenhum outro no gênero até hoje.

rotator_xlarge_uncannyDavid Haller, o Legion, nos quadrinhos

Em muitos sentidos, essa ideia está correta. Se você, caro leitor, passeou pelos oito episódios de Legion durante os últimos dois meses, sabe do que estou falando – os diretores da série, especialmente Michael Uppendahl, constroem um mundo hipnotizante para os olhos, tirando ideias de uma fonte inesgotável de criatividade. Embora o uso de câmera lenta seja talvez excessivo, Legion tira belas invenções visuais de outros cantos, seja do trabalho excepcional de cabelo & maquiagem na série ou das brincadeiras conceituais com filmes mudos (em uma inesquecível sequência no episódio 7 da temporada) e referências estéticas do cinema de horror. Que testamento glorioso para a era de ouro da televisão o fato que Hawley, Upeendahl e companhia tiveram liberdade para fazer tudo isso dentro de sua plataforma.

Narrativamente, Legion é construída em terreno mais instável do que visualmente, e é aí que começa o meu problema com a série. Em muitos sentidos, a jornada de David durante esses oito primeiros episódios é uma metáfora esperta para a convivência de um homem com uma doença mental, e o isolamento que ele sente da mulher que ama (a Syd Barrett de Rachel Keller) é de quebrar o coração para quem conhece histórias reais tão similares, ainda que separadas por todo um universo de fantasia. Fosse coesa e genuinamente interessada nessa temática, Legion poderia ser uma obra prima – no entanto, Hawley e companhia parecem usar a metáfora inteligente que encontraram apenas como escada, assim como fazem com outras temáticas nas quais tocam, mas nunca desenvolvem (de co-dependência psicológica à corrupção institucional, passando por política de coexistência).

legion402O deliciosamente exagerado Jemaine Clement como Oliver

Mais decepcionante ainda é perceber que o lugar aonde Legion quer chegar usando essas escadas é absolutamente convencional. Pode não parecer, em meio as maluquices do roteiro e da direção, mas você já viu isso antes – em seu coração, Legion é só mais uma história de um salvador bem intencionado e dado ao auto sacrifício, só mais uma história da namoradinha do herói que tem exatamente o poder certo para salvá-lo, só mais uma história de um vilão megalomaníaco que deseja ser Deus. Certos momentos são gritantes dessa tendência da série ao clichê, seja o confronto final entre David e sua “personalidade má” ou na missão de salvamento que seus amigos montam não uma, mas várias vezes, para o protagonista. Hawley estica e distorce essas histórias sobre sua lente freaky, mas elas ainda são as mesmas histórias que estamos ouvindo há décadas, e elas fogem insistentemente do impulso de dizer algo novo.

Essa característica é também muito reflexiva do público de quadrinhos, e portanto dos produtos audiovisuais derivados deles – ao mesmo tempo em que clamamos por inovação, parecemos viver em constante terror que as editoras façam uma mudança definitiva em seus personagens e padrões narrativos. Essa desconfiança pública amedronta as companhias de entretenimento, que ficam presas em um meio termo entre novidade e tradição impossível de se arquivar sem comprometer a integridade artística, mesmo quando ela é o principal ponto de venda do produto, como com Legion. Da forma como pode ser feita, a série da FX é um banquete para os olhos e uma frustração para os ouvidos genuinamente cansados de ouvir histórias repetitivas no subgênero mais importante da nossa cultura pop.

6549c0dc-74b8-4840-895f-510344982883Heróis se encaram em imagem promocional de Capitão América: Guerra Civil

A aclamação de Legion é óbvia e imediatista, e a série não é “tudo isso” que você tem ouvido, pelo menos não se você parar por um segundo para prestar atenção nela. Dito isso, seu sucesso com uma abordagem visual tão única ainda pode trazer bons frutos para a evolução do gênero, porque embora discutam temas muito mais bem trançados e importantes (militarização, identidade e ética governamental, para citar os primeiros que vem à mente), os filmes do Universo Marvel ainda são ridiculamente indistinguíveis em sua abordagem estética e narrativa. Se um sucesso impactará ou não o outro, só o tempo dirá, tanto quanto as inovações lineares e metalinguísticas de Deadpool podem inspirar outros estúdios a apostarem em uma quebra dos valores e padrões da narrativa de super heróis.

Por enquanto, eu continuarei assistindo Legion, em grande parte pela virtude das performances de Dan Stevens, Aubrey Plaza e Jemaine Clement, que mesmo presos nas convenções quadrinescas conseguem criar ícones instantâneos em tela, buscando o exagero para contrapor os aspectos menos empolgantes da narrativa. Continuarei assistindo também para o caso da série resolver contar uma história tão deliciosamente ousada quanto sua estética, a princípio, sugeriu – mas, que fique avisado, até paciência de fã tem limite.

31 de mar de 2017

5 motivos para começar Harlots, nova série de época da Hulu

harlots

por Caio Coletti

Não é sempre que pilotos de séries me impressionam de verdade. A maioria das produções televisivas apresentam um episódio inicial agradável o bastante para me manter assistindo, mas só isso – a evolução e envolvimento com a série vão se desenvolvendo conforme as semanas se passam. Harlots, nova produção do serviço de streaming Hulu em parceria com a emissora britânica ITV Encore, é diferente: o primeiro capítulo, lançado na última terça feira (28) , foi uma deliciosa surpresa, e a série já ter chegado à toda velocidade faz crer que o que está por vir é ainda melhor.

Harlots tem como protagonista a cafetina Margaret Wells (Samantha Morton), que administra uma das casas de prostituição mais movimentadas da Londres do século XVIII, estabelecida pela série como uma metrópole de sexualidade aflorada (para dizer o mínimo), onde 1/5 das mulheres, sem outras opções para a independência financeira, ganham a vida vendendo o próprio corpo. O conflito é introduzido na rivalidade entre Wells e Lydia Quigley (Lesley Manville), outra cafetina que, por sua vez, financia na surdina a luta de uma radical religiosa contra a prostituição – ou melhor, contra as casas rivais a sua.

Abaixo, você encontra cinco, dentre muitos, motivos para começar a ver Harlots agora mesmo:

harlots 3Da esquerda para a direita: Eloise Smyth como Lucy Wells e Jessica Brown Findlay como Charlotte

1. A série explora o tema sem maniqueísmos

É natural que uma série com a premissa de Harlots, cause discussões ideológicas e políticas. Afinal, a questão da prostituição é polêmica, e a série da Hulu não quer fugir disso – pelo contrário, procura expor as buscas e ambições das mulheres que retrata sem deixar de lado a natureza fundamentalmente abusiva de sua profissão, e a falta de escolhas que levou a ela. Moralismos passam longe das personagens da série, que encontram em seu humor, tragédia e resiliência uma humanidade tremenda.

O conflito entre a protagonista Margaret Wells e suas duas filhas, Charlotte e Lucy, deixa isso bem claro. Harlots aborda uma mudança de atitude entre duas gerações de mulheres, sem denegrir a ambição realista de Margaret, o idealismo independente de Charlotte ou o arco de amadurecimento que começa a desenhar para Lucy. Embora o piloto não deixe tempo para que as coadjuvantes sejam desenvolvidas em mais do que uma dimensão, a série com certeza terá espaço para contar suas histórias na primeira temporada de 8 episódios que tem planejada.

20110916-bafta-bfi-screenwriters-lecture-series-moira-buffini-16x9A criadora e roteirista Moira Buffini

2. Moira Buffini e mais mulheres no comando

Moira Buffini é uma roteirista britânica, responsável por filmes como a comédia dramática O Retorno de Tamara (2010) e as adaptações Jane Eyre (2011) e Byzantium (2012), essa última baseada em uma peça de sua própria autoria. Ela é também uma das criadoras de Harlots, ao lado da estreante Alison Newman, e assina o roteiro dos dois primeiros episódios – a experiência e talento comprovados de Buffini ficam claros durante os 48 minutos do piloto, conforme ela tece diálogos espertos para suportar uma apresentação excitante ao mundo e ao tom particulares da série. Buffini é uma das melhores roteiristas (entre mulheres e homens) em atividade em Hollywood, e é bacana ver o que ela faz com o formato televisivo.

Vale sublinhar que, além de Buffini e Newman, a série lista uma equipe completamente feminina de diretoras e roteiristas por enquanto: Cat Jones, Jane English e Debbie O’Malley vão escrever episódios, enquanto as câmeras ficarão com Coky Giedrovic (que faz um trabalho espetacular no piloto), China Moo-Young e Jill Robertson. Em tempos de aclamação por mais representatividade, Harlots saiu muito na frente das concorrentes.

harlots 4Holli Dempsey como Emily Lacey

3. A produção é de encher os olhos (e ouvidos)

Os americanos ficam com a fama, mas a verdade é que ninguém produz filmes e séries como os britânicos. E ao usar “produzem” eu quero destacar o detalhismo empreendido em aspectos como figurino, maquiagem, design de produção, fotografia, trilha sonora. Essas partes técnicas adicionam e dão suporte para a arte de se contar uma história – no piloto de Harlots, fica claro que a parte inglesa da produção agiu com a genialidade de sempre. Os figurinos de Edward K. Gibbon, especialmente, impressionam pela rica paleta de cores, texturas e camadas, conversando com a mistura de cenário de época com sensibilidade moderna da série.

O estilo iconoclasta do diretor de fotografia Hubert Taczanowski, ao lado dos takes rápidos do editor Gareth C. Scales, criam uma tensão e dinamismo que raramente se veem em produções pomposas do tipo, como Downton Abbey. Adicione uma trilha sonora anormalmente eletrônica e grave do compositor Rael Jones, e o resultado é um piloto cinético e hipnotizante, que enche os olhos e os ouvidos do espectador a fim de  introduzi-lo com inteligência a um mundo único. É um mundo sujo, injusto e cheio de sombras, mas também vibrante, carregado de contrastes e paixões à flor da pele.

harlots 2As protagonistas de Harlots

4. História de época com toques modernos

Falem a verdade: vocês também amam quando as séries e filmes fazem isso. Do Maria Antonieta (2006) de Sofia Coppola à primeira temporada de Reign, da CW, a ideia de usar elementos e marcadores culturais ou sociais do século XXI para ajudar a caracterizar uma visão diferente sobre situações e personagens vivendo em outras eras é muito sedutora. Isso especialmente porque, é claro, esperamos de nossos personagens um tipo de agência, autonomia e arco de desenvolvimento que nem sempre é possível ao se respeitar as possibilidades e estreitas permissões da época retratada.

De fato, a ideia de contar uma história antiga com toques contemporâneos é genial porque ajuda a redefinir as atitudes e opiniões que temos sobra aquela época e nos faz enxergar a consequência dela nos dias de hoje. Aplicar esse processo à história de duas rainhas oprimidas é uma coisa, mas aplicá-la à história de prostitutas marginalizadas socialmente é quase revolucionário.

samSamantha Morton como Margaret Wells

5. Samantha Morton

Samantha Morton foi indicada ao Oscar duas vezes (por Poucas e Boas, em 2000; e Terra de Sonhos, em 2004), venceu o Globo de Ouro e foi indicada ao Emmy pela minissérie Longford, em 2008, e levou BAFTA por sua estreia na direção, o telefilme The Unloved, em 2009. Mesmo assim, parece que essa tremenda atriz britânica é muitas vezes esquecida ou subestimada, raramente conseguindo grandes papeis que mostrem de verdade seu talento – recentemente, por exemplo, ela apareceu em Animais Fantásticos e Onde Habitam, como a vilã Mary Lou, um papel de pouca expressão que não tirou vantagem da atriz que o interpretava.

Em Harlots, sua Margaret Wells é instantaneamente icônica. Nesse piloto, Morton explora e dá dicas de dimensões mais profundas da personagem nas sutilezas de sua interpretação, mas abusa do carisma e da linguagem corporal para ter certeza que Margaret fique marcada na nossa memória quando os créditos começam a subir. É o trabalho de uma mestre em sua arte, uma profissional e tanto que parece farta de ser ignorada ou jogada para escanteio – aqui, Morton está sob o holofote, no centro do palco, e é difícil entender, em meio à admiração por sua performance, porque demorou tanto para alguém colocá-la ali.

O segundo episódio de Harlots vai ao ar no dia 04 de abril, terça-feira.

30 de mar de 2017

Diários de filmes do mês: Março/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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Animais Noturnos (Nocturnal Animals, EUA, 2016)
Direção: Tom Ford
Roteiro: Tom Ford, baseado em livro de Austin Wright
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Armie Hammer, Laura Linney, Andrea Riseborough, Michael Sheen
116 minutos

Em muitos sentidos, Animais Noturnos é a evolução natural de Direito de Amar, filme de estreia do estilista Tom Ford na direção, lançado em 2009. Assim como seu predecessor, Animais Noturnos é esteticamente perfeito, a um ponto em que os ângulos incansavelmente retos e a frieza de Ford na direção se colocam no caminho da conexão emocional com a história que passa em tela. É claro, Animais Noturnos é mais sombrio, violento e tenso do que Direito de Amar jamais poderia ser, mas Ford nunca permite que o filme seja rústico – pelo contrário, é um conto sofisticado de personagens sofisticados, uma fábula adulta sobre a completa falta de sentido nos padrões de felicidade, beleza e comportamento impostos pela sociedade. Nesse sentido, a artificialidade construída pelo diretor funciona a favor da elaboração lógica e crítica do filme, mas deixa à deriva os momentos mais viscerais de sua obra, especialmente aqueles localizados na violenta “história dentro da história” que acompanhamos durante os 116 minutos de metragem.

A ostensiva protagonista do filme é Susan (Amy Adams), uma bem-sucedida dona de galeria que recebe o manuscrito do novo livro de seu ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal). O filme acompanha o passado do relacionamento dos dois, a vazia vida levada por Susan atualmente com o novo esposo, interpretado por Armie Hammer, e a trama do livro em questão, um thriller sobre um homem (também Gyllenhaal) buscando vingança após sua esposa e filha serem sequestradas e mortas por um grupo de delinquentes liderado por Aaron Taylor-Johnson. Ford tem extremo cuidado estético com o filme, coordenando uma fotografia habilidosa no uso de cores (de Seamus McGarvey) com espertas elaborações de figurino, maquiagem e edição, criando um filme de ritmo seguro.

O peso de vender a história para o espectador em uma dimensão emocional, no entanto, acaba caindo apenas sobre as atuações, e esse é um fardo pesado mesmo para os atores excepcionais que Ford reúne. O rosto reativamente expressivo de Adams é perfeito para um papel que exige muita carga emocional silenciosa, mas mesmo em seus melhores momentos a atriz se vê sem muito o que fazer com Susan, enquanto Gyllenhaal e Michael Shannon abocanham papeis mais suculentos, que ganham vida na narrativa quase pulp do livro que ela lê. Na forma como eles se entregam a esses personagens mora um versão ainda mais excepcional de Animais Noturnos – do jeito que está, no entanto, o filme merece uma olhada.

✰✰✰✰ (4/5)

pass

Passageiros (Passengers, EUA, 2016)
Direção: Morten Tydlum
Roteiro: Jon Spaiths
Elenco: Jennifer Lawrence, Chris Pratt, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia
116 minutos

Eis o motivo pelo qual Passageiros é tão decepcionante, mesmo que você entre nele sabendo que a crítica no geral picou o filme em pedacinhos na época de seu lançamento: nas mãos de um roteirista ousado, ele poderia ser fascinante. Como qualquer trama bem sacada de ficção científica, o filme é impregnado de possibilidades filosóficas e sociais – a diferença dele para seus contemporâneos é que Passageiros foge de todas elas como o diabo foge da cruz. É verdade que se trata de um filme de estúdio, capitaneado por dois dos maiores astros da nova geração de Hollywood, o que em parte explica seu receio em desvendar os cantos mais escuros sugeridos por sua premissa, empurrando ao invés disso a trama de Jon Spaiths (Doutor Estranho) por um caminho tóxico, cheio de mensagens dúbias e, talvez ainda pior que tudo isso, previsível e monótono. A partir do momento em que Passageiros habilidosa e frustrantemente contorna as questões polêmicas e intrigantes em seu cerne, é fácil definir para onde a trama está indo, e o sentimentalismo barato que infesta o terceiro ato do filme não combina com a execução sofisticada que marca os aspectos técnicos dele.

A trama acompanha Jim Preston (Chris Pratt), um engenheiro que assinou junto a milhares de outras pessoas para ser um dos pioneiros colonizadores de um planeta distante. O problema é que, por conta de um mal funcionamento da nave, sua câmara criogênica para de funcionar 90 anos antes da chegada ao planeta em questão, e é impossível apenas ligá-la novamente. Durante o primeiro ato do filme, o talento e carisma de Pratt carregam um personagem mais ou menos envolvente em seus dilemas existenciais, até chegar a um que é muito mais ético (e espinhoso). Sem o perigo de soltar spoilers, Passageiros poderia lidar com questões de consentimento, moralidade, até idealização romântica – mas, em meio a direção elegante de Morten Tydlum e a um design de produção espetacularmente inventivo, o filme escolhe um caminho muito mais fácil (e entediante, e nocivo).

✰✰ (2/5)

cobra

King Cobra (EUA, 2016)
Direção: Justin Kelly
Roteiro: Justin Kelly, baseado no livro de Andrew E. Stoner & Peter A. Conway
Elenco: Garrett Clayton, Christian Slater, Molly Ringwald, Keegan Allen, James Franco, Alicia Silverstone
91 minutos

Embora não tenha afinado totalmente sua sensibilidade ainda, o diretor e roteirista Justin Kelly é um nome para se observar no cinema LGBT da nova geração. Com King Cobra, seu segundo longa metragem, ele mostra que sabe equilibrar tons e brincadeiras de gênero com uma história genuinamente fascinante que transporta personagens reais para um contexto crível e complexo. Por vezes engraçado ao analisar a vaidade de alguns de seus sujeitos, por vezes perturbador ao expor o abuso sistemático que existe dentro da indústria que retrata, o filme é ágil, sexy, envolvente e recompensador. Sem contar, é claro, que é um olhar esclarecedor e refrescantemente representativo sobre o mundo da pornografia gay, através de uma história real icônica desse universo – em parte por ser um homem gay, a visão de Kelly sobre o assunto é exemplarmente equilibrada, buscando entender os anseios, repressões e desejos que levam esses personagens marginalizados a se envolver com essa indústria, e desvendando os aspectos genuínos e nocivos dela.

A trama acompanha Sean Paul Lockhart (Garrett Clayton), que é “descoberto” pelo produtor pornô Stephen (Christian Slater) e se torna um dos primeiros super-astros da pornografia gay virtual sob o pseudônimo de Brent Corrigan. Quando a relação entre os dois se torna abusiva e insustentável para Lockhart, ele recebe proposta do casal Joe (James Franco) e Harlow (Keegan Allen) para se juntar a uma outra produtora, e as coisas se tornam um pouco mais sombrias e violentas do que qualquer um deles poderia imaginar. O filme agarra cada oportunidade que a história apresenta para destrinchar relações familiares e afetivas, ambições e receios de seus personagens, e por isso se torna um poderoso retrato dos seres humanos no centro dessa indústria.

Embora a caricatura de Franco seja um pouco cansativa conforme o filme progride, seus companheiros de elenco entendem a mensagem do roteiro e constroem personagens críveis e envolventes. Slater, especialmente, encontra tremenda profundidade nas perversões, violências, egocentrismos e vitimizações sofridas e infligidas por Stephen, enquanto Clayton é um achado com seu sorriso maliciosamente ambicioso (e, ao mesmo tempo, vulnerável) na pele de Lockhart/Corrigan. Kelly ainda tem que afinar suas colaborações com diretores de fotografia, editores e designers de produção, de forma que King Cobra ainda parece uma obra tecnicamente incompleta, mas o caminho que ele está trilhando como contador de histórias certamente é excitante (em mais de um sentido).

✰✰✰✰ (3,5/5)

tarzan

A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan, Inglaterra/Canadá/EUA, 2016)
Direção: David Yates
Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer, baseados nos livros de Edgar Rice Burroughs
Elenco: Alexander Skarsgard, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou, Simon Russell Beale
110 minutos

Alexander Skarsgard entrega a pior atuação de 2016 em A Lenda de Tarzan, e o meu maior problema com isso é que Alexander Skarsgard não é um mau ator. De seu papel em True Blood até a recente Big Little Lies, o sueco provou que, com o papel certo, ele sabe modular seu físico impossivelmente impressionante e sua beleza clássica em uma subversão cuidadosa e inteligente de si mesmo. Como Tarzan, no entanto, no filme terrivelmente inano montado por David Yates, ele não encontra oportunidade nenhuma de fazer essa subversão, e a verdade é que Skarsgard é muito, muito ruim em ser um galã clássico. Seu ato de “forte e caladão” não convence, e é talvez o problema mais claro de um filme cheio deles. Nas mãos de Yates, que dirigiu boa parte da franquia Harry Potter (do quinto filme em diante, para ser específico), o pulp das histórias clássicas de Tarzan é misturado com um senso de seriedade irritante, e os aspectos mais preconceituosos e ultrapassados delas ficam mais claros em tela.

Dessa vez, conhecemos Tarzan quando ele já é Lord John Clayton, levado de volta para a “civilização” após passar boa parte de sua vida na selva e conhecer Jane (Margot Robbie). Embora a história clássica seja contada em flashbacks, o filme foca no retorno de Tarzan para a África, onde ele é inadvertidamente usado de “isca” por um capanga (Christoph Waltz) do rei da Bélgica, que dominava aquela região do continente – ele pretende usar Tarzan para conquistar os favores de uma tribo poderosa, comandada por Djimon Hounsou. A pobre Robbie está presa no papel de uma Jane que ensaia atos rebeldes de poder feminino mas, no fim das contas, ainda precisa de seu marido musculoso para salvá-la, e embora os efeitos especiais que recriam animais selvagens serem impressionantes, Yates lida todos eles com o mesmo olhar pseudo-realista-entediante que ele imprimiu aos filmes finais de Potter. A diferença é que, aqui, não há uma J.K. Rowling para ajudar.

✰✰✰ (2,5/5)

boss

A Chefa (The Boss, EUA, 2016)
Direção: Ben Falcone
Roteiro: Melissa McCarthy, Ben Falcone, Steve Mallory
Elenco: Melissa McCarthy, Kristen Bell, Peter Dinklage, Ella Anderson, Kathy Bates, Cecily Strong, Kristen Schaal
99 minutos

Melissa McCarthy é o tipo de comediante que conseguiria envolver o público mesmo com a mais rasa e repetitiva das personagens (em outras palavras, ela é o tipo de comediante que carregou uma série de Chuck Lorre nas costas por cinco temporadas). Em A Chefa, dirigido e co-escrito por seu marido Ben Falcone, ela testa novamente essa habilidade ao lado de uma sempre adorável Kristen Bell, e dos tristemente caricatos Peter Dinklage e Kathy Bates. A aposta funciona em muitos sentidos, uma vez que somos levados, pela pura magia de sua intérprete, a torcer pela grosseira ex-magnata que perde tudo e precisa recorrer a sua ex-assistente (Bell) para se reerguer com um negócio de venda de brownies. Nas mãos de McCarthy, a pitoresca Michelle Darnell não é só uma presença simpática em tela, como também (e principalmente) uma presença muito engraçada, mesmo quando o roteiro está em seus piores momentos de inspiração. Ao contrário de Dinklage e Bates, atores dramáticos habilidosos perdidos em caracterizações e piadas nada sutis, McCarthy encontra espaço para Darnell registrar como personagem crível.

E ainda bem que encontra, porque Falcone não faz a menor ideia de como dirigir uma comédia, ou como discursar através dela. Falta tanta inspiração a sua câmera que mesmo os momentos de comédia física são filmados e editados de maneira que diminuem o impacto das piadas, e não o contrário – a impressão é que A Chefa desperdiça oportunidades valiosas quando McCarthy não está em tela. Se o filme funciona como uma afirmação de poder e união feminina, é porque  a química entre as duas protagonistas e o desenho rudimentar do roteiro caminham nessa direção. Por essas qualidades, o filme vale a pena uma conferida.

✰✰✰ (3/5)

rogue

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, EUA/Inglaterra, 2016)
Direção: Gareth Edwards
Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy
Elenco: Feliciy Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Wen Jiang, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen, Jimmy Smits, Genevieve O’Riley
133 minutos

Rogue One é o primeiro filme da saga Star Wars a lidar de frente com um tema que, para qualquer fã minucioso, sempre fez parte do DNA da história que George Lucas começou a contar lá em 1977: a ética de uma revolução. Para ser justo, Rogue One é também o primeiro filme que nos leva para o coração do movimento da Aliança Rebelde, que lutou contra a dominação do Império instaurado por Darth Vader e Palpatine – nas aventuras anteriores, a ideia da Aliança era quase abstrata, definida de forma rudimentar pelas missões em que nossos protagonistas eram enviados. Nós conhecemos uma de suas líderes, a Princesa Leia, mas não soubemos o que ela fez ou deixou de fazer por esse movimento ao qual se juntou. Rogue One, por sua vez, é todo sobre sacrifícios e compromissos morais assumidos pelos rebeldes, e a abordagem que o roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy faz ao tema é esperta, ainda que não seja terrivelmente complexa e fascinante como poderia ser. Por esse motivo, Rogue One já marcou seu lugar na história colossal de uma das maiores franquias e marcas da história do cinema, preenchendo não só um buraco de trama como um buraco temático dentro do universo Star Wars.

Nessa missão temática, no entanto, Weitz e Gilroy negligenciam seus personagens, e a maior afetada por isso é a ostensiva protagonista do filme, Jyn Erso, interpretada por Felicity Jones. Erso é a filha de um renomado cientista (Mads Mikkelsen) sequestrado pelo Império, que os ajudou a construir a temida Estrela da Morte. Um piloto da Aliança Rebelde, Cassian Andor (Diego Luna), resgata a solitária Erso de uma prisão para que ela entre em contato com um antigo amigo de seu pai, o extremista Saw Gerrera (Forest Whitaker) – a missão em que todos partem depois dessa fatídica visita à Gerrera é uma que se conecta diretamente com o Guerra nas Estrelas original, de 1977. A estrutura de Rogue One é um pouco desconjuntada, e as refilmagens e reajustes no roteiro pelos quais o filme passou na pós-produção ficam claros nesse sentido.

Esse não seria um problema tão grande, no entanto, se não levasse a um problema de desenvolvimento de personagem, especialmente para Jyn – da rebelde sarcástica que vimos no trailer pouco resta, e seu arco de uma outsider cínica para uma líder nata não convence. De fato, ela tem pouca ou nenhuma agência na história, e é completamente definida pelos caminhos que aqueles a sua volta (em sua imensa maioria, homens) traçam para ela, seja por antagonismo ou motivação. Assim como em Godzilla, seu filme anterior, Gareth Edwards quer fazer um filme de guerra realista dentro de um contexto fantástico, kitsch, e essa é uma ideia fascinante, que leva a temáticas ainda mais. Assim como Godzilla, no entanto, Rogue One é um empreendimento tristemente incompleto e, em última instância, um pouco frustrante.

✰✰✰✰ (3,5/5)

tmhwia

A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos (The Most Hated Woman in America, EUA, 2017)
Direção: Tommy O’Haver
Roteiro: Tommy O’Haver, Irene Turner
Elenco: Melissa Leo, Brandon Mychal Smith, Juno Temple, Michael Chernus, Rory Cochrane, Alex Frost, Josh Lucas, Vincent Kartheiser, Adam Scott
91 minutos

Melissa Leo domina a tela em A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos, novo filme produzido pela Netflix – e essa é uma maneira adequada de caracterizar sua performance, ainda mais do que o normal, porque sua personagem aqui é também maior que a vida, e quase opressivamente dominante daqueles ao seu redor. Ela encarna Madalyn Murray O’Hair, conhecida por ser a ativista responsável por banir orações e leituras bíblicas obrigatórias nas escolas americanas. O filme foca não só na carreira de O’Hair como polemista de primeira e ativista pela separação de Igreja e Estado sem tomar uma oposição maniqueísta, expondo as falcatruas morais e financeiras de O’Hair tanto quanto sua importância social e sua fibra ideológica. Foca também no impressionante caso que resultou na morte dela, de seu filho mais novo e de sua neta, quando os três foram sequestrados por um grupo de criminosos liderado por um ex-empregado de O’Hair, aqui interpretado por Josh Lucas – desaparecidos por mais de duas semanas, O’Hair e companhia acabaram vítimas do temperamento volátil de um dos sequestradores, e da falta de escrúpulos de outro.

O diretor e co-roteirista Tommy O’Haver, conhecido pelo chocante Um Crime Americano, equilibra seu filme com maestria, deixando que Leo mastigue o cenário e extraindo performances mais contidas, ainda que muito bem caracterizadas, dos coadjuvantes. Lucas encontra espaço para estruturar um vilão kitsch, envolvente e revoltante, tudo ao mesmo tempo, entendendo que o tom sensacionalista do filme é disfarce para uma análise profunda da mulher em seu cerne. A Mulher Mais Odiada dos Estados Unidos entende O’Hair como alguém que tirava um prazer quase perverso em ser adversária ideológica da convenção social, uma mulher que, esmagada pela sociedade que lhe exigia ser algo que ela não era, arrastou aqueles a sua volta consigo em uma revolta importante (fundamental, até), mas não sem consequências. Ela merecia alguém tão extravagante quanto Melissa Leo para interpretá-la – e ainda bem que conseguiu.

✰✰✰✰ (4/5)

25 de mar de 2017

Não é mais whitewashing: No persistente racismo de Hollywood, o buraco agora é mais embaixo

death noteNat Wolff em Death Note, adaptação da Netflix para o anime japonês

por Caio Coletti

Nos próximos meses, veremos duas adaptações hollywoodianas de materiais originalmente japoneses chegarem ao público. A Paramount Pictures lança em 30 de março, no Brasil, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, e a Netflix estreia sua adaptação de Death Note em 25 de agosto. Ambas as produções são versões com atores para animes marcantes da tradição oriental, originalmente criados por artistas japoneses e cuja mitologia e formato devem muito à cultura em que nasceram. Mais importante ainda que isso, ambos tem personagens que foram claramente desenhados, nomeados e/ou concebidos para serem japoneses – e ambos vão chegar aos cinemas com atores caucasianos nos papeis principais.

O termo americano whitewashing tem se tornado habitual em dicussões on-line sobre cultura pop nos últimos anos. Como qualquer expressão apropriada pela internet, a definição de whitewashing se ampliou e se modificou com o tempo, sendo usada por movimentos sociais para definir uma série de situações racistas persistentes na indústria do entretenimento. Originalmente, no entanto, o whitewashing definia a prática de escalar atores caucasianos para interpretar personagens de outras etnias – prática essa que pode parecer morta hoje em dia, mas vale lembrar que filmes recentes como Êxodo: Deuses e Reis (2014) e Deuses do Egito (2016) escalaram atores americanos e britânicos para interpretar personagens advindos do Oriente Médio.

emmaEmma Stone em Aloha, como uma personagem asiática

É uma mania hollywoodiana que é motivada, como tudo na terra do cinema, pelo dinheiro. A lógica por trás de decisões como essas dentro de um grande estúdio americano é fácil de entender: a sufocante maioria dos astros e estrelas de cinema são brancos, e historicamente é um risco fazer um filme de US$100 milhões ou mais sem um grande astro ou estrela no elenco. No entanto, apesar desse tipo de decisão sempre ter sido moralmente condenável, agora as consequências tem sido sentidas também na bilheteria – Êxodo, Deuses do Egito e outros casos similares, como a comédia romântica Aloha (com Emma Stone no papel de uma personagem asiática), tem afundado comercialmente após acusações de whitewashing.

Há exceções, a maioria delas motivada pela força de uma franquia, mas a verdade é que Hollywood está começando a perceber que o whitewashing deixou de ser uma decisão comercial inteligente. Essa mudança cultural coloca executivos e produtores em uma posição ainda mais radical, divididos entre princípios artísticos/sociais e preocupações comerciais, e a solução que esses profissionais tem encontrado é a de sublimar o seu instinto de whitewashing em outras circunstâncias e justificativas – e a ideia aqui não é aliviar a culpa deles, e sim perceber que a apropriação e apagamento de histórias e profissionais não-caucasianos em Hollywood ocorre de formas muito mais sutis do que aquela que identificamos mais facilmente.

Na adaptação de Death Note, por exemplo, a ideia é que a trama original do anime, lançado em 2006, teria sido transportada do Japão para Detroit (EUA), o que justificaria a decisão de escalar atores americanos, incluindo o afro-americano Lakeith Stanfield na pele do detetive L, para o elenco. O protagonista Light Yagami, um adolescente que encontra um caderno mágico capaz de matar qualquer pessoa que tenha seu nome escrito nele, virou Light Turner, e ganhou o rosto de Nat Wolff, conhecido pelos papeis em A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel. Vale lembrar também que o anime já ganhou versão elogiada e muito bem sucedida com atores no Japão, estrelada por Tatsuya Fujiwara e Ken’ichi Mastuyama – a necessidade de adaptar a história para um contexto americano e escalar atores (em sua maioria) caucasianos fala a uma racionalização do whitewashing que não é nova, mas parece cada vez mais presente.

Algo parecido aconteceu recentemente com Doutor Estranho, por exemplo. O personagem d’O Ancião, nos quadrinhos originais, era um homem asiático que ensinava ao americano Dr. Stephen Strange as artes mágicas em um templo místico chamado Kamar Taj. Embora tenham mantido o nome e a localização tibetana do templo, os roteiristas da Marvel Studios transformaram o Ancião em Anciã, e escalaram a caucasiana Tilda Swinton para o papel. A racionalização dessa vez é que o personagem não é o mesmo dos quadrinhos, e que O Ancião é muito mais um título do que uma pessoa ou personagem específicos – no caso, essa “encarnação” que vemos no filme é uma mulher celta, e não um homem asiático. A Marvel ainda argumentou que a mudança de etnia os auxiliava na missão de fugir do estereótipo cansado do místico asiático, visto que O Ancião havia sido criado décadas atrás, quando não havia essa preocupação social.

doutorTilda Swinton como A Anciã em Doutor Estranho

A ginástica retórica esconde que, ao invés de aprofundar e dar embasamento para O Ancião, a fim de fazê-lo mais do que um estereótipo, os roteiristas preferiram trocar sua etnia. Mais curioso ainda é que, em Doutor Estranho, A Anciã de Swinton é uma personagem complicada, parte fundamental do tema no cerne do filme, que é sobre as virtudes de uma liderança pragmática – como personagem feminina, é de longe uma das mais bem construídas e complexas do universo Marvel, então por que não poderia ser asiática? Os roteiristas de Doutor Estranho se preocuparam em quebrar estereótipos com Wong, que era visto como “criado” de Dr. Strange nos quadrinhos, mas preferiram trocar a etnia da Anciã? É um disfarce mal ajeitado para uma decisão mercadológica – excêntrica ou não, Tilda Swinton ainda é um grande nome (e mais uma vencedora do Oscar, diga-se de passagem) para o rol da Marvel.

Aliás, é oportuno falar em Doutor Estranho, porque a narrativa de 2016 da Marvel no cinema guarda semelhanças com aquela que a editora costurou na TV em 2017, com Punho de Ferro, e com uma outra prática racista muito comum, muito sutil e muito diferente. A história do white savior, como é chamada por estudiosos dos clichês e padrões narrativos da cultura pop, apresenta um personagem caucasiano que, por circunstâncias extraordinárias, é introduzido e integrado a uma cultura não-caucasiana e, mostrando aptidão, atinge o posto de maior honra dentro dessa cultura (ou a salva da ameaça de, geralmente, outros personagens caucasianos). Filmes como O Ùltimo Samurai (2003) e A Grande Muralha (2016), além de qualquer adaptação do personagem Tarzan, são exemplos claros dessa prática, que tem o efeito de apagar heróis e lendas de outras culturas em favor de um protagonista “identificável” para o público caucasiano.

Doutor Estranho e A Grande Muralha mascaram seus aspectos racistas, como fez o Peter Pan de 2015 ao escalar Rooney Mara como a princesa indígena Tiger Lily, com a falácia de que suas histórias e comunidades são “multiculturais”, uma palavra em voga no mundo globalizado. A inserção de personagens asiáticos e de outras etnias nas margens do protagonista caucasiano serve como “desculpa” para a narrativa nociva que esses títulos que reproduzem. O mesmo tem acontecido com Ghost in the Shell – embora os traços do anime original sejam menos definitivamente asiáticos que outros exemplos do gênero, a escalação de atores caucasianos sob a justificativa de “essa não ser uma história japonesa, e sim global” é rasa, no mínimo, e abertamente cretina, no máximo.

scarlett-johanson-ghost-in-the-shell-majorScarlett Johansson (à esquerda) no novo Ghost in the Shell, e a Major original do anime de 1995

A Major Motoko Kusanagi, no anime original de Ghost in the Shell, lançado em 1995, é uma ciborgue em um mundo distópico lutando contra questões profundas de identidade que cobrem gênero, sexualidade, livre arbítrio e memória. É uma mulher asiática em uma história passada em um ambiente marcadamente asiático, inspirado por Hong Kong – ambiente este que será transformado em uma metrópole cosmopolita no filme de Rupert Sanders, incluindo personagens para o americano Michael Pitt, a francesa Juliette Binoche e o dinamarquês Pilou Asbaek. É whitewashing motivado por questões financeiras, mas agindo sob o disfarce de uma enganosa “globalização” da história, como se o impacto do Ghost in the Shell original já não tivesse sido sentido pela ficção científica e produção cinematográfica do mundo todo. Globalizar uma história não significa “branqueá-la”, e sim apreciá-la com respeito à cultura que a criou.

Essa é a questão maior que algumas pessoas parecem não entender na discussão da “apropriação cultural”, aliás. O intercâmbio de elementos e artigos próprios de uma determinada etnia é positivo a partir do momento em que não desfigura, prejudica ou diminui o impacto da cultura original – não é difícil entender porque a aclamação de Elvis Presley o como o “o rei do rock” foi nociva para o legado dos músicos negros que faziam rock antes dele, ainda que tenha sido positiva para o seu sucesso comercial imediato. Trazer histórias criadas em culturas diversas para o mundo ocidental caucasiano substituindo os heróis e vilões deles pelos nossos é a saída rápida que produtores encontraram para continuar perpetuando uma hegemonia de astros, estrelas e narrativas brancas no cinema e na TV.

Não é mais whitewashing, exatamente, mas ainda precisamos ficar de olho – e punir, na bilheteria, mais essa estratégia suja que denota não só mau-caratismo como covardia e preguiça criativa em uma indústria que precisa urgentemente fugir de todos esses vícios.

Review: Vencedor de Sundance, Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo nunca se cansa de surpreender

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por Caio Coletti

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo não é seu típico vencedor do prêmio principal do Festival de Sundance. O queridinho do festival independente americano de 2017 é uma experiência ousada de gênero que encontra sua primazia na forma como compõe linhas temáticas dramáticas (e sombriamente cômicas) por baixo de uma trama que, em última instância, tem cara de thriller B. Não deveria ser surpresa, já que o diretor e roteirista Macon Blair é mais conhecido pelos papeis em filmes como Ruína Azul e Sala Verde, ambos suspenses de alta tensão dirigidos por Jeremy Saulnier. No entanto, o filme de estreia de Blair tem cartas na manga o bastante para nos envolver em sua esperta reflexão sobre as relações interpessoais no século XXI.

Sem qualquer aroma de condescendência, Blair acompanha com um olhar afiado as desventuras de Ruth (Melanie Lynskey), uma enfermeira que está cansada de testemunhar comportamentos estúpidos da parte de todos ao seu redor – uma cena de Ruth no supermercado (e seu estacionamento) é especialmente efetiva em passar essa mensagem. Quando sua casa é assaltada, e ela perde seu notebook e as porcelanas de sua avó, Ruth se junta a um vizinho roqueiro excêntrico (Elijah Wood) em uma missão de vingança com as próprias mãos (ou quase isso). A graça e o drama de Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo vem do mesmo lugar, uma contraposição delicada de cinismo e encanto pelos detalhes e improbabilidades do mundo que retrata.

O coração do filme está com Lynskey, que entrega uma performance envolvente e genial na pele de Ruth. A frustração da personagem em tela é palpável, de sua linguagem corporal aos seus olhos dardejantes incrustados no rosto expressivo, quase sempre articulando alguma espécie de decepção ou conformação com o mundo selvagem e egoísta que a cerca. Nas mãos de Lynskey, no entanto, Ruth foge do esnobismo que poderia acabar sendo a marca da personagem, assim como o Tony de Elijah Wood foge da caricatura graças às sutilezas do subestimado ator. Ao redor deles, os coadjuvantes são desenhados com traços simplistas, mas o roteiro de Macon Blair é esperto o bastante para fazê-los críveis dentro da lógica ligeiramente offbeat do filme.

Decidido a não entediar o espectador, Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo toma caminhos improváveis e absurdistas conforme vai se aproximando do terceiro ato, e não apresenta soluções fáceis ou filosofias baratas no final. O filme de Blair eventualmente encontra esperança no mundo agressivo que retrata, mas é pelos caminhos mais escusos e surpreendentes que chega lá, sem abrir mão nem de seu fundamental realismo temático, nem de sua excentricidade tonal. O fato de que um diretor estreante consegue equilibrar tudo isso em uma comédia/drama/thriller de pouco mais de 90 minutos é extraordinário em si próprio, mas Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo justifica o status como titular do prêmio maior do Festival de Sundance tanto por sua técnica quanto por sua história, que merece ser ouvida, absorvida e deliciosamente apreciada.

✰✰✰✰ (4/5)

I Don't Feel at Home in This World Anymore - Still 1

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (I Don’t Feel at Home in This World Anymore, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Macon Blair
Elenco: Melanie Lynskey, Elijah Wood, Gary Anthony Williams, Jane Levy, David Yow, Devon Graye, Christine Woods, Robert Longstreet
93 minutos