Review: Guardiões da Galáxia Vol. 2

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23 de mai de 2017

Review: The Keepers, série documental da Netflix, é o pedaço de TV mais importante do ano

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por Caio Coletti

No alto do pôster de The Keepers, nova série documental da Netflix, o serviço de streaming se orgulha de ser a casa de outra produção do gênero celebrada (e vencedora de Emmys), Making a Murderer. A exaustiva série em 10 episódios sobre o caso Steven Avery foi um dos pedaços de audiovisual mais vistos, discutidos e polêmicos do ano passado, e assisti-la é sem dúvida uma experiência única. “Morbidamente fascinante” é uma expressão tão adequada para Making a Murderer quanto “absolutamente fundamental”, no sentido em que abre uma discussão franca sobre a eficiência da justiça em fiscalizar seus próprios atos. De certa forma, a série sobre Avery é um sermão de 10 horas sobre a prepotência da justiça como instituição, e suas latentes falhas.

O que Making a Murderer é também, no entanto, é uma peça de advocacia descarada que esconde evidências, detalhes e sutilezas que podem influenciar o julgamento do espectador sobre o caso que vê em tela. É um convincente e, em partes, tocante discurso apaixonado em defesa de seu protagonista, mas não aspira ser nada além disso – e, talvez, perca a oportunidade de ser uma obra-prima de verdade no caminho. The Keepers não sofre desse mal. O diretor Ryan White aborda o caso do assassinato da Irmã Cathy Cesnik em 1969 e seus desdobramentos atuais da forma como um diretor de cinema deve fazê-lo: como uma história, uma narrativa que, por acaso, é real.

Nessa condição, ele destrincha personagens e detalhes com a voracidade de um investigador e a sutileza de um artista, buscando os temas centrais dessa saga e as qualidades nucleares de cada sujeito em frente à câmera. Se alguns episódios de Making a Murderer, para o bem ou para o mal, pareciam-se com digressões longas acerca de pequenos detalhes das evidências, The Keepers não tem um minuto que não seja essencial para seu desenvolvimento como obra de arte. Tão frequentemente esquecemo-nos da dimensão cinematográfica do cinema documental, da forma como ele pode inspirar, chocar, emocionar e marcar não só pela força de sua história real, como também pela forma como ela é contada. The Keepers nos lembra de tudo isso, e recupera a grandeza dessa forma de arte no caminho.

O que mais impressiona é que The Keepers faz isso mesmo quando não precisava fazer. As questões reais levantadas pela história da freira assassinada são centrais o bastante para uma discussão social mais contemporânea impossível (abuso sexual, especialmente de menores, e ainda mais especificamente dentro da igreja católica) para que o documentário se sustentasse sozinho. No entanto, Ryan White escolhe aproveitar a oportunidade para mergulhar fundo também no significado da memória, na passagem inclemente do tempo, na propriedade corrosiva dos segredos que carregamos de outra época e do trauma que marinamos no nosso íntimo, e na forma como esses sentimentos todos podem morrer com quem os guardou, para sempre não resolvidos.

Da forma como foi feita, The Keepers é uma elegia e uma exaltação daqueles e daquelas que tiveram coragem de externar esses traumas, segredos e memórias. É muito mais uma história de sobreviventes do que de uma freira morta, que se tornou símbolo de uma resistência que ela nunca foi capaz de concretizar em vida. É tão devastadoramente atual, relevante e explosivo quanto Making a Murderer, especialmente quando analisa a forma como as leis parecem desdenhar das vítimas e proteger os abusadores. É sensorialmente assustadora e amarga, usando reconstruções em preto e branco e o olhar inclemente de uma câmera detalhista para puxar o espectador para dentro da história.

The Keepers é o pedaço de televisão mais importante que você vai ver em 2017. Ainda mais que isso, no entanto, é o melhor. É quando a importância de um tema e a maestria de um artista se juntam dessa forma que precisamos celebrar a capacidade humana de contar histórias, reais ou inventadas, e se transformar constantemente com elas.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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The Keepers (EUA, 2017)
Direção: Ryan White
7 episódios

11 de mai de 2017

Review: Guardiões da Galáxia Vol. 2 não pede desculpas por ser brega – e nem deveria

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por Caio Coletti

Por nove anos e quinze filmes, a Marvel Studios tem construído seu universo com um barulho enganador. Apesar de ser a franquia mais amada e vigiada da atualidade, o universo cinematográfico Marvel normalmente é tão sutil quanto um blockbuster jamais poderia ser na costura de seus temas e discussões maiores. Ler nas entrelinhas (e nas entrelinhas das entrelinhas) para encontrar metáforas sobre identidade, militarização, liderança e justiça já é uma segunda natureza para os espectadores mais atentos – e talvez por isso seja tão refrescante constatar que, no cenário dessa franquia, um filme como Guardiões da Galáxia Vol. 2 ainda pode existir.

A segunda aventura dos heróis intergalácticos comandada por James Gunn mostra o protagonista, Peter Quill (Chris Pratt) finalmente encontrando seu pai, o ser todo-poderoso Ego (Kurt Russell), que engravidou e deixou a mãe do herói para trás décadas antes. A ideia de uma família formada por laços emocionais (ao invés de biológicos) já era forte no primeiro filme, mas, ao assumir sozinho o roteiro dessa continuação, Gunn escancara as portas de um sentimentalismo genuíno, abandonando o estilo contido e “realista” dos relacionamentos dentro do contexto da Marvel em favor de uma abordagem estilizada e ultradramática que, surpreendentemente, funciona.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um pastiche de ideias complexas e emoções primárias, que busca um diálogo franco com o espectador como raramente vemos na era de blockbusters cínicos em que vivemos. O uso espetacular dos efeitos especiais, criando um mundo muito mais sinérgico e colorido do que estamos acostumados no gênero, é um bônus – Gunn tem faro para a coisa, e estava na hora de algum esteticista habilidoso quebrar o padrão das cores “mudas” e das sombras onipresentes no mundo dos super-heróis pós-O Cavaleiro das Trevas.

É claro que o filme não funciona o tempo todo. Em alguns momentos, essa abordagem “aberta” de Gunn ao lidar com clichês do gênero cria piadas e cenas descartáveis, e o adorável Bebê Groot dublado por Vin Diesel (?!) cheira um pouco demais a golpe publicitário para ser completamente abraçado pelo espectador médio. O mais bacana, no entanto, é que Gunn sabe quais convenções chutar para escanteio e quais adotar para si – por todo o seu sentimentalismo, Guardiões da Galáxia Vol. 2 nunca parece manipulador, e procura encontrar tridimensionalidade em todos os seus personagens, com uma trama descomplicada que permite que a jornada de cada um se desenvolva.

As duas mulheres protagonistas do filme, Gamora (Zoe Saldana) e Nebula (Karen Gillan), por suas vezes, ganham arcos mais fortes do que a maioria das personagens femininas da Marvel. Saldana parece especialmente acomodada ao papel, entregando uma Gamora que pode rankear com facilidade entre as grandes heroínas da ficção científica. A autonomia dessas guerreiras não precisa ser provada dentro do roteiro de Gunn – ao posicioná-las como forças já a serem reconhecidas na história, o diretor dá espaço para suas intérpretes trabalharem, e a relação entre as duas é marcantemente complexa para um blockbuster de verão.

Lidando de forma esperta com temas como arrogância, poder, comunidade e vingança, Guardiões da Galáxia Vol. 2 deixa todas as suas cartas na mesa para o espectador. Em seu abraço entusiasmado das possibilidades de contar uma história, o filme pode ser lido como jocoso, ou brincalhão demais, ou mesmo brega – mas Gunn e companhia não só tem essa consciência, como não pedem desculpas por isso. Pensar que a Marvel, sempre tão habilidosa em esconder suas ambições narrativas nas sombras de um bom e velho “arrasa quarteirão descompromissado”, ainda é capaz de se abrir para o ridículo e o maravilhoso de suas próprias histórias, deveria ser animador para qualquer amante de cinema (e quadrinhos) por aí.

✰✰✰✰ (4/5)

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Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2, EUA, 2017)
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn, baseado nos quadrinhos de Dan Abnett & Andy Lanning
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Elizabeth Debicki, Chris Sullivan, Sean Gunn
136 minutos

3 de mai de 2017

Diário de filmes do mês: Abril/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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Monster Trucks (EUA/Canadá, 2016)
Direção: Chris Wedge
Roteiro: Derek Connolly
Elenco: Lucas Till, Jane Levy, Thomas Lennon, Barry Pepper, Rob Lowe, Danny Glover, Amy Ryan, Frank Whaley
104 minutos

A relação do cinemão americano com seus clichês mais tóxicos está deteriorando. Essa é a conclusão à qual um espectador esperto deve chegar ao fim de Monster Trucks, fracasso de bilheteria dirigido por Chris Wedge, conhecido pelo trabalho na animação A Era do Gelo, entre outros títulos do gênero. Aqui, ele encontra espaço para cenas de ação dinâmicas e demonstra seu domínio do trabalho de efeitos visuais, mas esbarra em um roteiro tão teimosamente inano e convencional que chega a doer. O responsável é Derek Connolly, que ascendeu à fama após Jurassic World, e enquanto a continuação da saga dos dinossauros tentava se disfarçar de pastiche hollywoodiano, Monster Trucks não está sob a mesma ilusão. Pelo contrário, o filme abraça as tradições mais irritantes do blockbuster, entre elas a construção de um protagonista masculino (e branco) cuja alta opinião de si mesmo é “justificada” por suas habilidades, mostradas como extraordinárias. Monster Trucks não está interessado em mostrar essa arrogância como defeito, mas em recompensá-la como um traço da tradição americana, exatamente como faz com os carrões bebedores de gasolina do título.

O protagonista Lucas Till vê seu carisma natural preso a esse personagem a quem não é solicitado nenhum arco de evolução ou amadurecimento – ele é Tripp, assistente de ferro velho em uma pequena cidade americana que tem a economia sustentada por uma empresa de exploração de petróleo. Após um acidente na perfuração do solo, curiosas criaturas aquáticas emergem, e uma delas se mostra amigável o bastante com o protagonista. A partir daí, a mistura de clichês e detalhes mal resolvidos é contagiosa de uma forma que nem mesmo a natural amabilidade do elenco (incluindo uma desafortunada Jane Levy, na pele da mal desenvolvida namoradinha do protagonista) consegue salvar. Ganha pontos pela direção, mas não vale o tempo que pede para o espectador investir nele.

✰✰✰ (2,5/5)

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Brazil: O Filme (Brazil, Inglaterra, 1985)
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Tom Stoppard, Charles McKeown
Elenco: Jonathan Pryce, Robert De Niro, Katherine Helmond, Ian Holm, Bob Hoskins, Michael Palin, Peter Vaughan, Kim Greist, Jim Broadbent
132 minutos

Em muitos sentidos, Brazil é o filme mais emblemático da carreira de Terry Gilliam, um dos grandes autores cinematográficos do século XX. O filme exemplifica as virtudes e defeitos da visão do diretor, sua excentricidade e sua aguda consciência social, assim como o seu gosto por uma direção de arte que lida com elementos kitsch do cinema de gênero clássico, produzindo quase sempre um cenário de dark fantasy muito peculiar. Assistir ao filme hoje em dia, mais de 30 anos depois de seu lançamento, no entanto, é também concluir que é uma obra prima incompleta. Como fábula futurista distópica sobre um estado travado por burocracia, o tempo o enfraqueceu um pouco – assim como enfraqueceu o romance central, um tanto raso e machista para os padrões atuais. Como exercício de estilo, no entanto, o filme continua um excitante passeio por uma mente única, pela visão difusa do futuro e da humanidade que Gilliam imprime às suas elaborações visuais, e por personagens tão idiossincráticos quanto inesquecíveis.

Jonathan Pryce, hoje em dia interpretando o Alto Pardal em Game of Thrones, brilha como o exasperado protagonista, Sam Lowry, um burocrata que se vê envolvido com um erro fatal da máquina governamental. Em seu caminho escuso por rebeldias absurdistas, conhece um “encanador clandestino” (Robert De Niro, hilário) e se apaixona por uma mulher misteriosa (Kim Greist). O pessimismo inerente das histórias distópicas contamina o roteiro de Gilliam, Tom Stoppard e Charles McKeown, mas o filme encontra originalidade nos detalhes com os quais imbui seu universo e sua narrativa – em última instância, é um conto psicodélico sobre uma sociedade em que as mais simples autonomias se tornaram ilegais.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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The Girl with All the Gifts (Inglaterra/EUA, 2016)
Direção: Colm McCarthy
Roteiro: Mike Carey, baseado em seu próprio livro
Elenco: Sennia Nanua, Gemma Arterton, Glenn Close, Paddy Considine, Anamaria Marinca
111 minutos

Abordagens originais no subgênero de zumbis são raridades mais de meio século depois de George A. Romero ter dado vida às criaturas pela primeira vez. The Girl with All the Gifts, que o autor Mike Carey adaptou para o cinema a partir de seu próprio livro, é uma dessas raridades. A história acompanha a jovem Melanie (a carismática estreante Sennia Nanua), que representa uma geração de crianças que nasceu infectada com o mesmo vírus que transformou quase toda a humanidade em vorazes devoradores de cérebros. Essas crianças, embora possuam semelhante fome por carne humana, não apresentam os sintomas que transformam adultos em criaturas vagantes e sedadas. Quando um grupo desses zumbis mais “perigosos” invadem um acampamento do governo onde testes cruéis são administrados nas crianças em questão, Melanie foge com um grupo de adultos – e a história toma rumos imprevisíveis a partir daí. O mais bacana é que The Girl with All the Gifts usa esse cenário único para discutir um tema social que ainda não foi explorado pelo naturalmente político subgênero dos zumbis: o conflito geracional.

Na direção discreta de Colm McCarthy, o filme se transforma em uma fábula essencial sobre a ordem natural do mundo, a substituição dos valores que ocorre com o passar do tempo e, especialmente, do bastão de controle social de uma geração para outra. A feroz e independente Melanie existe como um contraste à dócil professora interpretada por Gemma Arterton ou à ambiciosa doutora encarnada com o comprometimento e excelência de sempre por Glenn Close. Na melhor tradição do gênero, The Girl with All the Gifts é uma inteligente e visceral tradução de uma ansiedade muito real que assola nossa sociedade – é uma pena que encontre aspectos formulaicos em sua estrutura e realização que o impedem de ser a obra prima que merecemos.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Quatro Vidas de um Cachorro (A Dog’s Purpose, EUA, 2017)
Direção: Lasse Hallström
Roteiro: W. Bruce Cameron, Cathryn Michon, Audrey Wells, Maya Forbes, Wallo Wolodarsky, baseados no livro de W. Bruce Cameron
Elenco: Josh Gad, Dennis Quaid, Peggy Lipton, K.J. Apa, Luke Kirby, Britt Robertson
100 minutos

Quatro Vidas de um Cachorro carrega as marcas de um filme de antologia, mesmo que não seja. A visão sempre maleável do talentoso Lasse Hallstrom na direção ajuda com essa impressão – em cada um dos “capítulos” da vida do cachorro no centro  do filme, o filme toma um espírito e estilo diferente, certamente também influenciado pelo roteiro dividido entre quatro autores, incluindo W. Bruce Cameron, que assinou o livro que inspira o filme. Isolados, cada um dos capítulos tem seu charme, e certo nível de verdade emocional. Por toda a sua amabilidade, no entanto, Quatro Vidas de um Cachorro não escapa da noção confortavelmente convencional de um drama americano que prioriza uma história tipicamente (caucasiano-)americana sobre as outras, negligenciando de certa forma a vida sentimental dos personagens à beira dessa história. E sem pessoas ricas em vida emocional, um filme como Quatro Vidas de um Cachorro naufraga, exatamente como faz a cada momento em que apressa ou diminui as histórias “coadjuvantes” para poder retornar à principal.

O filme acompanha, como explicita o título, quatro reencarnações do cachorro dublado por Josh Gad – naquela que toma precedência frente às outras, ele é o companheiro de Ethan (KJ Apa), um jovem com carreira promissora no esporte que acaba tendo que largar tudo após problemas familiares e se tornar proprietário da fazenda dos avós, perdendo a namoradinha (Britt Robertson) no processo. É a história de decepção e triunfo que assombra a mitologia do meio-Oeste americano desde sempre, e talvez por isso Quatro Vidas de um Cachorro soe falso quando se concentra nela ao invés das mais vibrantes e interessantes que vem depois dela. Fizesse uma divisão mais igualitária entre seus “capítulos”, o filme de Hallstrom poderia se tornar um importante documento dos muitos cantos e estilos de vida dos EUA – da forma como está, não consegue escapar de ser emocionalmente frustrante.

✰✰✰ (2,5/5)

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Pérfida (The Little Foxes, EUA, 1941)
Direção: William Wyler
Roteiro: Lillian Hellman, baseada em sua própria peça
Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, Teresa Wright, Richard Carlson, Dan Duryea, Patricia Collinge
116 minutos

Reza a lenda que Bette Davis não gostava de sua performance como Regina Giddens em Pérfida, adaptação para o cinema da peça de teatro tornada lendária por Tallulah Bankhead, uma das grandes intérpretes da dramaturgia americana. Fã incondicional de Bankhead, Davis admitiu ter deixado escapar momentos no filme em que apenas imitava os trejeitos e entonações particulares da colega de profissão -  na tela, no entanto, sua Regina ainda é impecavelmente fria, imponente, sexual de uma maneira ameaçadora, e eventualmente compreensível. Uma mulher que se esconde atrás do dinheiro porque o mundo lhe ensinou que esse seria o único tipo de poder que ela poderia ter, Regina é uma personagem antológica e inesquecível, eternizada na tela por uma Davis impecável, hipnotizante, digna da atenção indivisível do espectador mesmo diante de outros bons intérpretes. O destaque fica por conta de Patricia Collinge, que herdou o papel de Birdie do teatro e cria um contraponto digno de pena e afeição para a frieza de Regina – ao contrário da protagonista, Collinge desaba em detalhes emocionais, provendo um yin para o yang dos efeitos da opressão representado pela personagem de Davis.

A lendária Lillian Hellman adaptou para o cinema a peça de sua própria autoria, garantindo que o final de seu equilíbrio de moralidades continuasse tão discretamente ambíguo quanto era nos palcos. A trama acompanha Regina e seus irmãos tentando convencer o marido da protagonista, um homem adoentado com valores muito diferentes da família mesquinha da esposa, a investir em um negócio que lhes trará lucro obsceno. Na direção, o mestre William Wyler imbui com profundidade os poucos cenários da história, elaborando a relação entre os personagens com signos visuais como a enorme escada da residência Giddens – em uma inversão fascinante, quanto mais alto na escada o personagem está, menos controle da interação ele tem. A subversão de convenções combina com uma fábula em que vilões são os protagonistas, e a esperança da trama na humanidade é cruelmente limitada.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Desafiando a Arte (The Family Fang, EUA, 2015)
Direção: Jason Bateman
Roteiro: David Lindsay-Abaire, baseado no livro de Kevin Wilson
Elenco: Jason Bateman, Nicole Kidman, Kathryn Hahn, Christopher Walken, Marin Ireland, Michael Chernus, Maryann Plunkett
105 minutos

Desafiando a Arte é um pequeno filme que levanta grandes questões, mas nunca deixa essas questões subirem à cabeça. Dependendo da sua visão sobre ele, o filme pode ser: uma análise estoicamente determinista sobre os limites da arte e sua “genuinidade”; um retrato impiedoso de um relacionamento abusivo entre marido e esposa/pai e filhos; um conto otimista sobre encontrar seu caminho na vida através de apoio emocional e pragmatismo; ou tudo isso ao mesmo tempo, o que provavelmente é mais justo ao produto final. Em seu caminho para desenredar essas questões, no entanto, Desafiando a Arte toma cuidado de não soar pretensioso, construindo em seus personagens os aspectos fundamentais de todas esses exames profundos de temas complexos. Se a estética do filme, dirigido pelo também protagonista Jason Bateman, usa e abusa dos clichês da dramédia independente, o roteiro do talentoso David Lindsay-Abaire (Reencontrando a Felicidade) passa longe da exaustiva reflexão dessas mesmas convenções.

Na trama, acompanhamos os filhos de um casal de artistas contemporâneos de performance, que usavam os dois, quando crianças, para montar encenações/pegadinhas elaboradas, que passavam por instalações artísticas. Hoje, Annie (Nicole Kidman) é uma atriz com problemas de alcoolismo, e Baxter (Jason Bateman) é um escritor com bloqueio criativo – por um acaso do destino, os dois acabam visitando os pais, Caleb (Christopher Walken) e Camille (Maryann Plunkett), pouco antes de ambos sumirem em um incidente misterioso.  O quarteto de atuações principais é um triunfo: a quieta sensibilidade de Bateman contrasta com a sempre transparente e detalhista performance de Kidman, enquanto Walken domina a tela com seu retrato convincente de um homem cujo ego e ideias estão sempre acima do bem estar daqueles a sua volta. Para Desafiando a Arte funcionar, a excentricidade de Walken precisava deixar o disfarce inofensivo de seus personagens mais recentes – e ele encontra a ameaça e manipulação com facilidade assustadora aqui.

✰✰✰✰ (4/5)

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A Última Ressaca do Ano (Office Christmas Party, EUA, 2016)
Direção: Josh Gordon, Will Speck
Roteiro: Justin Malen, Laura Solon, Dan Mazer
Elenco: Jason Bateman, Olivia Munn, T.J. Miller, Jennifer Aniston, Kate McKinnon, Courtney B. Vance, Jillian Bell, Rob Corddry, Vanessa Bayer, Randall Park, Jamie Chung, Abbey Lee
105 minutos

Não há nada de errado com uma comédia que faz paradas eventuais no caos de suas situações para nos atualizar na história de verdade que existe no seu cerne. O problema de A Última Ressaca do Ano, portanto, não é que ele ambicione enredar uma trama além das palhaçadas anárquicas da festa de escritório que dá o título original ao filme, mas sim que tal trama falha em convencer até o mais envolvido dos espectadores. Aqui, vemos a filial de uma empresa, em época natalina, sob ameaça de fechamento após a visita da CEO da companhia, interpretada por Jennifer Aniston – é quanto um investidor em potencial (Courtney B. Vance) aparece e diz que gostaria de “experimentar o ambiente” da empresa antes de fechar o negócio que poderia salvá-la. A solução do gerente T.J. Miller é dar uma festa de arromba, e é desnecessário dizer que as coisas saem do controle a partir daí – o roteiro de Justin Malen, Laura Solon e Dan Mazer tem menos boas ideias cômicas do que deveria, mas ainda encontra certo espírito de descontração que torna a maioria das cenas na festa agradáveis.

É quando os conflitos fraternais, românticos ou mesmo tecnológicos da trama prática se colocam na frente dessa “curtição” que o caldo azeda um pouco. Ancorado nos talentos consideráveis de Aniston, Kate McKinnon (como a “certinha” chefe dos recursos humanos) e Jillian Bell (na pele de uma hilária cafetina), membros mais inspirados de um elenco cheio de talento, A Última Ressaca do Ano quer misturar comédia absurdista com elaboração corporativa inconvincente, e o resultado é um filme consideravelmente menos divertido ou significativo do que poderia ser. Uma equipe cômica como essa certamente merecia (muito) melhor.

✰✰✰ (2,5/5)

16 de abr de 2017

Lady Gaga – The Cure: Onde erramos quando falamos de música pop?

chellaLady Gaga em seu show no Coachella 2017

por Caio Coletti

Nesse domingo de Páscoa (16), acordei com a notícia de que Lady Gaga havia estreado uma nova música na sua aparição no Festival de Coachella 2017. O show, transmitido para todo o mundo na internet, teve a cantora desfilando criações de seus quatro álbuns, com uma ênfase especial no Joanne, lançado no ano passado. E então veio “The Cure” (que você pode ouvir mais abaixo), supostamente o primeiro single de um EP ou edição especial do disco, no estilo The Fame Monster, lançado como complemento e oposição ao The Fame, disco de estreia de Gaga.

“The Cure” começa com sintetizadores agudos entoando um micro-gancho repetitivo que alude a algumas das canções pop mais bem sucedidas (e mais imediatamente esquecíveis) dos últimos anos, das criações do The Chainsmokers à “Sorry”, do Justin Bieber. Em seguida, a música desagua em uma melodia redondinha levada com garra por Gaga, sempre convicta nos vocais – em termos de composição, o refrão é formalmente esperto, fugindo discretamente da rigidez do estilo, mas “The Cure” nunca quebra o molde contemporâneo do pop-eletrônico de forma significativa.

Eu não quero dizer, caro leitor, que você não pode gostar de “The Cure”. Não tenho autoridade nenhuma para dizer isso, nem se quisesse. É uma canção competente cuja conexão pessoal com você depende de inúmeros fatores externos à criação da artista, do momento que você está passando em sua vida até o conjunto de gostos e conceitos que você acumulou com os anos. O objetivo de qualquer crítica que possa se seguir nesse texto não é atacar seu gosto pessoal pela canção, mas observar o contexto em que ela aparece, e o que ela significa para a carreira e a narrativa de Lady Gaga.

Esse é o problema que me incentivou a dar a esse texto o título que ele tem. Nosso erro ao falar de música pop é que nos perdemos em paixões e pessoalidades, em discussões cheias de respostas rasas, e não somos capazes de admitir as falhas naquilo que gostamos. “The Cure” não é o meu tipo de pop inofensivo, e é por isso que eu, particularmente, não gosto dela. No entanto, muito além disso, eu me posiciono como crítico a ela porque o pop, na minha visão, não pode e não deve ser inofensivo, mesmo que haja pop inofensivo por aí que eu goste de ouvir.

Já expliquei nesse site centenas de vezes qual é a minha visão sobre o pop como arte – mais recentemente, em um artigo sobre a própria Gaga. A ideia do pop como “música descartável” não me desce porque ele tem o poder de deixar uma marca indelével na cultura, nas pessoas e, por consequência, no mundo. Ele tem a potencialidade de ajudar a quebrar tabus, e alimenta de forma definitiva as produções artísticas que virão depois dele. Como a própria Gaga costumava colocar: “No pop, você sabe que foi bem sucedido quando sua arte tem um elemento de crime”.

Há elemento de crime (cultural) em “Perfect Illusion”. O lead single do Joanne é uma óbvia e inteligente reversão de expectativas, inserindo um pop com pulso e garra de rock n’ roll, mudança de tom ao estilo anos 80, e uma letra sobre o passageiro sentimento de êxtase do mundo contemporâneo, sempre em velocidade alucinante (como a canção, inclusive). No dia do lançamento de “Perfect Illusion”, cada repetição da música nos meus fones de ouvido era uma nova camada no meu entendimento dela. Em “The Cure”, essa dimensão profunda e fascinante não existe, não importa quantas audições você faça.

Eu não acho que Lady Gaga fez “The Cure” para “relaxar e se divertir”. Acho que fez de forma calculada para ganhar um hit tradicional nas paradas americanas – o que, a longo prazo, pode ser uma jogada acertada. É de se lamentar, no entanto, que uma artista tão única e genuína quanto ela precise fazer pop “inofensivo” para chegar lá, e o meu medo é que, quanto mais elogiarmos e aclamarmos decisões como essa, mais fundo no poço do “mais do mesmo” o nosso pop ficará.

Lady Gaga é a artista pop mais importante do nosso tempo porque ela faz escolhas diferentes. Porque tira prazer em chocar ouvidos despreparados e conquistá-los mesmo assim. Porque tem afetado e moldado a nossa cultura de forma mais definitiva do que qualquer outra artista pop. Se esse lançamento for indicativo de um novo caminho pelo qual Gaga pretende seguir, seja por pressão comercial ou vontade própria, e não importa o quanto eu ou você goste ou desgoste da canção, nós acabamos de perder uma das nossas grandes inovadoras. Na trajetória dela, “The Cure” precisa ser a exceção, e não a regra.

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4 de abr de 2017

“Em terra de cego…”: Legion não é tudo isso que você ouviu (e, ao mesmo tempo, é)

legionDan Stevens como David Haller e Aubrey Plaza como Lenny

por Caio Coletti

“Em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Essa é a frase, um daqueles ditados de “sabedoria” popular/clichês literários, que continuava surgindo na minha cabeça enquanto eu assistia ao oitavo e último episódio da primeira temporada de Legion, da FX. Um pouco de contexto para quem caiu de pàra-quedas nesse texto: a série em questão é uma parceria da emissora americana com a Marvel Studios, adaptando um personagem do cânone dos X-Men, um filho do Professor Xavier que tem a mente dividida em várias personalidades, cada uma controladora de um tipo de poder. Legion toma várias liberdades com o personagem, é claro, mas essa não é a questão aqui.

A aclamação quase universal da produção da FX, comandada por Noah Hawley (Fargo), me incomodou durante todas as oito semanas em que a série ficou no ar. Tanto da parte da crítica quanto (principalmente) do público, Legion se tornou unanimidade – uma produção tão absurdamene diferente e completamente genial que virou uma das paradas obrigatórias de 2017 para quem é ligado em cultura pop. A ideia difundida  era que Hawley, com liberdade criativa após o sucesso de Fargo, havia virado a fórmula da história de super-heróis de cabeça para baixo, introduzindo elementos bizarros e engenhosidades psicológicas à história do mutante David Haller, criando um espetáculo visual como nenhum outro no gênero até hoje.

rotator_xlarge_uncannyDavid Haller, o Legion, nos quadrinhos

Em muitos sentidos, essa ideia está correta. Se você, caro leitor, passeou pelos oito episódios de Legion durante os últimos dois meses, sabe do que estou falando – os diretores da série, especialmente Michael Uppendahl, constroem um mundo hipnotizante para os olhos, tirando ideias de uma fonte inesgotável de criatividade. Embora o uso de câmera lenta seja talvez excessivo, Legion tira belas invenções visuais de outros cantos, seja do trabalho excepcional de cabelo & maquiagem na série ou das brincadeiras conceituais com filmes mudos (em uma inesquecível sequência no episódio 7 da temporada) e referências estéticas do cinema de horror. Que testamento glorioso para a era de ouro da televisão o fato que Hawley, Upeendahl e companhia tiveram liberdade para fazer tudo isso dentro de sua plataforma.

Narrativamente, Legion é construída em terreno mais instável do que visualmente, e é aí que começa o meu problema com a série. Em muitos sentidos, a jornada de David durante esses oito primeiros episódios é uma metáfora esperta para a convivência de um homem com uma doença mental, e o isolamento que ele sente da mulher que ama (a Syd Barrett de Rachel Keller) é de quebrar o coração para quem conhece histórias reais tão similares, ainda que separadas por todo um universo de fantasia. Fosse coesa e genuinamente interessada nessa temática, Legion poderia ser uma obra prima – no entanto, Hawley e companhia parecem usar a metáfora inteligente que encontraram apenas como escada, assim como fazem com outras temáticas nas quais tocam, mas nunca desenvolvem (de co-dependência psicológica à corrupção institucional, passando por política de coexistência).

legion402O deliciosamente exagerado Jemaine Clement como Oliver

Mais decepcionante ainda é perceber que o lugar aonde Legion quer chegar usando essas escadas é absolutamente convencional. Pode não parecer, em meio as maluquices do roteiro e da direção, mas você já viu isso antes – em seu coração, Legion é só mais uma história de um salvador bem intencionado e dado ao auto sacrifício, só mais uma história da namoradinha do herói que tem exatamente o poder certo para salvá-lo, só mais uma história de um vilão megalomaníaco que deseja ser Deus. Certos momentos são gritantes dessa tendência da série ao clichê, seja o confronto final entre David e sua “personalidade má” ou na missão de salvamento que seus amigos montam não uma, mas várias vezes, para o protagonista. Hawley estica e distorce essas histórias sobre sua lente freaky, mas elas ainda são as mesmas histórias que estamos ouvindo há décadas, e elas fogem insistentemente do impulso de dizer algo novo.

Essa característica é também muito reflexiva do público de quadrinhos, e portanto dos produtos audiovisuais derivados deles – ao mesmo tempo em que clamamos por inovação, parecemos viver em constante terror que as editoras façam uma mudança definitiva em seus personagens e padrões narrativos. Essa desconfiança pública amedronta as companhias de entretenimento, que ficam presas em um meio termo entre novidade e tradição impossível de se arquivar sem comprometer a integridade artística, mesmo quando ela é o principal ponto de venda do produto, como com Legion. Da forma como pode ser feita, a série da FX é um banquete para os olhos e uma frustração para os ouvidos genuinamente cansados de ouvir histórias repetitivas no subgênero mais importante da nossa cultura pop.

6549c0dc-74b8-4840-895f-510344982883Heróis se encaram em imagem promocional de Capitão América: Guerra Civil

A aclamação de Legion é óbvia e imediatista, e a série não é “tudo isso” que você tem ouvido, pelo menos não se você parar por um segundo para prestar atenção nela. Dito isso, seu sucesso com uma abordagem visual tão única ainda pode trazer bons frutos para a evolução do gênero, porque embora discutam temas muito mais bem trançados e importantes (militarização, identidade e ética governamental, para citar os primeiros que vem à mente), os filmes do Universo Marvel ainda são ridiculamente indistinguíveis em sua abordagem estética e narrativa. Se um sucesso impactará ou não o outro, só o tempo dirá, tanto quanto as inovações lineares e metalinguísticas de Deadpool podem inspirar outros estúdios a apostarem em uma quebra dos valores e padrões da narrativa de super heróis.

Por enquanto, eu continuarei assistindo Legion, em grande parte pela virtude das performances de Dan Stevens, Aubrey Plaza e Jemaine Clement, que mesmo presos nas convenções quadrinescas conseguem criar ícones instantâneos em tela, buscando o exagero para contrapor os aspectos menos empolgantes da narrativa. Continuarei assistindo também para o caso da série resolver contar uma história tão deliciosamente ousada quanto sua estética, a princípio, sugeriu – mas, que fique avisado, até paciência de fã tem limite.

31 de mar de 2017

5 motivos para começar Harlots, nova série de época da Hulu

harlots

por Caio Coletti

Não é sempre que pilotos de séries me impressionam de verdade. A maioria das produções televisivas apresentam um episódio inicial agradável o bastante para me manter assistindo, mas só isso – a evolução e envolvimento com a série vão se desenvolvendo conforme as semanas se passam. Harlots, nova produção do serviço de streaming Hulu em parceria com a emissora britânica ITV Encore, é diferente: o primeiro capítulo, lançado na última terça feira (28) , foi uma deliciosa surpresa, e a série já ter chegado à toda velocidade faz crer que o que está por vir é ainda melhor.

Harlots tem como protagonista a cafetina Margaret Wells (Samantha Morton), que administra uma das casas de prostituição mais movimentadas da Londres do século XVIII, estabelecida pela série como uma metrópole de sexualidade aflorada (para dizer o mínimo), onde 1/5 das mulheres, sem outras opções para a independência financeira, ganham a vida vendendo o próprio corpo. O conflito é introduzido na rivalidade entre Wells e Lydia Quigley (Lesley Manville), outra cafetina que, por sua vez, financia na surdina a luta de uma radical religiosa contra a prostituição – ou melhor, contra as casas rivais a sua.

Abaixo, você encontra cinco, dentre muitos, motivos para começar a ver Harlots agora mesmo:

harlots 3Da esquerda para a direita: Eloise Smyth como Lucy Wells e Jessica Brown Findlay como Charlotte

1. A série explora o tema sem maniqueísmos

É natural que uma série com a premissa de Harlots, cause discussões ideológicas e políticas. Afinal, a questão da prostituição é polêmica, e a série da Hulu não quer fugir disso – pelo contrário, procura expor as buscas e ambições das mulheres que retrata sem deixar de lado a natureza fundamentalmente abusiva de sua profissão, e a falta de escolhas que levou a ela. Moralismos passam longe das personagens da série, que encontram em seu humor, tragédia e resiliência uma humanidade tremenda.

O conflito entre a protagonista Margaret Wells e suas duas filhas, Charlotte e Lucy, deixa isso bem claro. Harlots aborda uma mudança de atitude entre duas gerações de mulheres, sem denegrir a ambição realista de Margaret, o idealismo independente de Charlotte ou o arco de amadurecimento que começa a desenhar para Lucy. Embora o piloto não deixe tempo para que as coadjuvantes sejam desenvolvidas em mais do que uma dimensão, a série com certeza terá espaço para contar suas histórias na primeira temporada de 8 episódios que tem planejada.

20110916-bafta-bfi-screenwriters-lecture-series-moira-buffini-16x9A criadora e roteirista Moira Buffini

2. Moira Buffini e mais mulheres no comando

Moira Buffini é uma roteirista britânica, responsável por filmes como a comédia dramática O Retorno de Tamara (2010) e as adaptações Jane Eyre (2011) e Byzantium (2012), essa última baseada em uma peça de sua própria autoria. Ela é também uma das criadoras de Harlots, ao lado da estreante Alison Newman, e assina o roteiro dos dois primeiros episódios – a experiência e talento comprovados de Buffini ficam claros durante os 48 minutos do piloto, conforme ela tece diálogos espertos para suportar uma apresentação excitante ao mundo e ao tom particulares da série. Buffini é uma das melhores roteiristas (entre mulheres e homens) em atividade em Hollywood, e é bacana ver o que ela faz com o formato televisivo.

Vale sublinhar que, além de Buffini e Newman, a série lista uma equipe completamente feminina de diretoras e roteiristas por enquanto: Cat Jones, Jane English e Debbie O’Malley vão escrever episódios, enquanto as câmeras ficarão com Coky Giedrovic (que faz um trabalho espetacular no piloto), China Moo-Young e Jill Robertson. Em tempos de aclamação por mais representatividade, Harlots saiu muito na frente das concorrentes.

harlots 4Holli Dempsey como Emily Lacey

3. A produção é de encher os olhos (e ouvidos)

Os americanos ficam com a fama, mas a verdade é que ninguém produz filmes e séries como os britânicos. E ao usar “produzem” eu quero destacar o detalhismo empreendido em aspectos como figurino, maquiagem, design de produção, fotografia, trilha sonora. Essas partes técnicas adicionam e dão suporte para a arte de se contar uma história – no piloto de Harlots, fica claro que a parte inglesa da produção agiu com a genialidade de sempre. Os figurinos de Edward K. Gibbon, especialmente, impressionam pela rica paleta de cores, texturas e camadas, conversando com a mistura de cenário de época com sensibilidade moderna da série.

O estilo iconoclasta do diretor de fotografia Hubert Taczanowski, ao lado dos takes rápidos do editor Gareth C. Scales, criam uma tensão e dinamismo que raramente se veem em produções pomposas do tipo, como Downton Abbey. Adicione uma trilha sonora anormalmente eletrônica e grave do compositor Rael Jones, e o resultado é um piloto cinético e hipnotizante, que enche os olhos e os ouvidos do espectador a fim de  introduzi-lo com inteligência a um mundo único. É um mundo sujo, injusto e cheio de sombras, mas também vibrante, carregado de contrastes e paixões à flor da pele.

harlots 2As protagonistas de Harlots

4. História de época com toques modernos

Falem a verdade: vocês também amam quando as séries e filmes fazem isso. Do Maria Antonieta (2006) de Sofia Coppola à primeira temporada de Reign, da CW, a ideia de usar elementos e marcadores culturais ou sociais do século XXI para ajudar a caracterizar uma visão diferente sobre situações e personagens vivendo em outras eras é muito sedutora. Isso especialmente porque, é claro, esperamos de nossos personagens um tipo de agência, autonomia e arco de desenvolvimento que nem sempre é possível ao se respeitar as possibilidades e estreitas permissões da época retratada.

De fato, a ideia de contar uma história antiga com toques contemporâneos é genial porque ajuda a redefinir as atitudes e opiniões que temos sobra aquela época e nos faz enxergar a consequência dela nos dias de hoje. Aplicar esse processo à história de duas rainhas oprimidas é uma coisa, mas aplicá-la à história de prostitutas marginalizadas socialmente é quase revolucionário.

samSamantha Morton como Margaret Wells

5. Samantha Morton

Samantha Morton foi indicada ao Oscar duas vezes (por Poucas e Boas, em 2000; e Terra de Sonhos, em 2004), venceu o Globo de Ouro e foi indicada ao Emmy pela minissérie Longford, em 2008, e levou BAFTA por sua estreia na direção, o telefilme The Unloved, em 2009. Mesmo assim, parece que essa tremenda atriz britânica é muitas vezes esquecida ou subestimada, raramente conseguindo grandes papeis que mostrem de verdade seu talento – recentemente, por exemplo, ela apareceu em Animais Fantásticos e Onde Habitam, como a vilã Mary Lou, um papel de pouca expressão que não tirou vantagem da atriz que o interpretava.

Em Harlots, sua Margaret Wells é instantaneamente icônica. Nesse piloto, Morton explora e dá dicas de dimensões mais profundas da personagem nas sutilezas de sua interpretação, mas abusa do carisma e da linguagem corporal para ter certeza que Margaret fique marcada na nossa memória quando os créditos começam a subir. É o trabalho de uma mestre em sua arte, uma profissional e tanto que parece farta de ser ignorada ou jogada para escanteio – aqui, Morton está sob o holofote, no centro do palco, e é difícil entender, em meio à admiração por sua performance, porque demorou tanto para alguém colocá-la ali.

O segundo episódio de Harlots vai ao ar no dia 04 de abril, terça-feira.