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24 de set de 2017

Diário de filmes do mês: Setembro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

annabelle

Annabelle (EUA, 2014)
Direção: John R. Leonetti
Roteiro: Gary Dauberman
Elenco: Annabelle Wallis, Ward Horton, Tony Amendola, Alfre Woodard
99 minutos

Há um filme de horror interessante dentro de Annabelle, o primeiro derivado da franquia Invocação do Mal, mas a ele não é permitido o espaço para respirar sobre as confecções preguiçosas do diretor John R. Leonetti. Difícil culpá-lo, no entanto: com apenas US$6.5 milhões à disposição no orçamento e a pressão para criar um filme que apele a uma grande audiência, ele usa os mais baixos denominadores comuns do gênero para produzir sustos sem trabalhar o suspense ou os personagens com a mesma habilidade e paciência de seu colega de profissão, o criador da franquia James Wan. Onde Wan é engenhoso com a colocação da câmera e a sugestão, Leonetti é óbvio na forma colo “telegrafa” a história dos personagens, os temas de sacrifício e maternidade do roteiro de Gary Dauberman, e a presença quase não sentida da boneca amaldiçoada do título. Na trama, vemos como Annabelle “absorve” o espírito de uma discípula de um culto satanista que morre dentro da casa da protagonista, Mia (Annabelle Wallis), enquanto ela ainda está grávida. Os acontecimentos bizarros que ocorrem ao redor da boneca não seguem uma lógica própria, e o mundo sobrenatural de Annabelle se parece exatamente com o que é: uma confecção apressada que buscou capitalizar no sucesso da “personagem” durante o filme original.

A talentosíssima Alfre Woodard é o destaque do elenco, imbuindo sua personagem com um certo censo de autoparódia, com todas as suas expressões espantadas e diálogos ominosos – se não fosse por ela, o final trágico do filme não funcionaria em nenhuma dimensão. É fácil creditar a fotografia óbvia e o design de produção pouquíssimo inspirado ao baixo orçamento, mas filmes independentes dentro e fora dos EUA nos mostram rotineiramente que dinheiro não é obstáculo para uma mente criativa. Fazer um filme de terror com propósito, climatização e habilidade artesanal sem muito dinheiro não é impossível – para que aconteça, só é preciso tempo e vontade, duas coisas que aparentemente faltam aqui.

✰✰✰ (2,5/5)

discovery

The Discovery (EUA, 2017)
Direção: Charlie McDowell
Roteiro: Justin Lader, Charlie McDowell
Elenco: Jason Segel, Robert Redford, Rooney Mara, Jesse Plemons, Riley Keough, Mary Steenburgen
102 minutos

Antes de The Discovery, o diretor Charlie McDowell e seu parceiro de roteiro, Justin Lader, criaram outra pequena ficção científica que causou comoção na época do lançamento: Complicações do Amor, lançada em 2014, sobre um casal que vai a um retiro para recuperar seu matrimônio e encontra uma cabana em que coisas bizarras acontecem (não queremos estragar nada). Como The Discovery, era uma premissa engenhosa executada com precisão e bravura, que não fugia da ambiguidade ou da ironia de seu final. Como The Discovery, era um filme ao qual faltava alguma coisa – nos 102 minutos de sua nova ficção científica, McDowell e Lader conseguem explorar os cantos escuros da mortalidade, do suicídio, da própria condição humana. O que não conseguem, no entanto, é construir personagens com jornadas que realmente envolvem o espectador. O resultado é um filme paradoxal: profundamente humano pela natureza de sua trama, mas estranhamente frio, como se a ideia (a tal descoberta) importasse mais do que as pessoas envolvidas nela – o que pode funcionar na ciência, mas não funciona na arte. Will (Jason Segel), o protagonista, vai visitar seu pai, Thomas (Robert Redford), um renomado cientista que conseguiu comprovar a existência da vida após a morte, um evento que deu início a uma epidemia de suicídios. Chegando lá, conhece Isla (Rooney Mara), que logo se junta ao grupo de “seguidores” que o pai de Will reuniu ao redor de si.

O elenco tenta de forma dedicada construir a jornada desses personagens a partir dos poucos detalhes dado pelo roteiro – Segel entrega uma performance dramática que é particularmente precisa, e Redford também destaca-se com uma de suas melhores e mais sutis performances em tempos. Assim como em Lion, a Mara é dado o papel de criar suporte às elaborações emocionais de seu protagonista masculino, o que não serve bem a uma atriz tão habilidosa, cheia de recursos para criar personagens complexos (lembram-se de Carol?). O estilo meditativo de The Discovery casa bem com as intervenções escarças da câmera de McDowell e sua diretora de fotografia, Sturla Brandth Grovlen. É um filme que quer deixar espaço para sua história ganhar vida, mas não dá a ela sangue o bastante para tal – ainda que um pouco frustrante, é um exercício interessante de cinema, vindo de um gênero e um cenário que explode de ideias inovadoras todos os anos.

✰✰✰✰ (3,5/5)

gits

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell, Inglaterra/China/Índia/Hong Kong/EUA, 2017)
Direção: Rupert Sanders
Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler, Ehren Kruger, baseados no mangá de Shirow Masamune
Elenco: Scarlett Johansson, Pilou Asbaek, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt
107 minutos

Faz alguns meses que eu me obriguei a assistir Ghost in the Shell, o original japonês, duas vezes para entendê-lo (leia o review). Foram precisas duas sessões porque o filme de Mamoru Oshii me pegou desprevenido na primeira vez, com seus longos diálogos e trechos contemplativos, combinados com a ação árida, os traços retos e a consideração profunda sobre identidade de gênero, sexualidade, livre arbítrio, corrupção governamental, engenharia social que a história fazia. Posso apostar que a versão americana de Ghost in the Shell, nunca vai prontificar alguém e dizer, quando sobem os créditos: “Bom, eu preciso ver isso de novo”. Isso não só porque o filme de Rupert Sanders é menos extraordinário como peça de cinema, mas porque o roteiro de Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger vai de encontro ao mangá original de Shirow Masamune e reduz sua firma contestação filosófica a uma batida reafirmação de humanidade acima da artificialidade que já vimos um milhão de vezes na ficção científica hollywoodiana. Pudera: pensar que um roteirista de Transformers (Kruger) era uma boa escolha para adaptar uma obra como essa, ou mesmo tirar algo de diferente e igualmente excitante dela, é algo que só Hollywood faria. A trama envolve a Major (Scarlett Johansson), uma mulher de corpo inteiramente biônico, porém consciência humana, transplantada para o invólucro artificial após um acidente mortal – ela trabalha com uma organização governamental que caça o criminoso Kuze (Michael Pitt), capaz de hackear a mente de pessoas e controlá-las.

A história ligando Major e o vilão é óbvia o bastante para que o espectador médio veja a “reviravolta” chegando de longe, e o final não é nem metade tão subversão do status quo quanto o do original. Para piorar a situação, o diretor Rupert Sanders aborda o futuro de Ghost in the Shell com sua sensibilidade visual aguçada, porém voltada a um uso impecável dos melhores efeitos especiais que Hollywood pode oferecer. O resultado é um filme superficialmente deslumbrante, com seus plásticos lustrosos e curvas sinuosas – é sedutor elogiá-lo por isso, mas a verdade é que pouca ou nenhuma inventividade visual está envolvida na concepção desse futuro de Sanders, que divide o (des)crédito com o designer de produção Jan Roefls. O Ghost in the Shell americano não precisava ser igual ao original – de fato, há de se argumentar que o que o filme precisava fazer para honrar seu predecessor era criar algo nunca visto antes, no espírito de Oshii. Foi aí que (de novo) Hollywood falhou.

✰✰ (2/5)

ican

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Trey Edward Shults
Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Riley Keough, Kelvin Harrison Jr
91 minutos

Seria fácil dizer que o grande trunfo de Ao Cair da Noite, como outros terrores e suspenses independentes antes dele, é o senso de expectativa que ele cria. De fato, o diretor e roteirista Trey Edward Shults é inteligente na forma como movimenta a câmera através dos espaços confinados do filme, no mistério inclemente com o qual cerca a ameaça externa enfrentada pelos protagonistas, nos poucos flashes de imagens obvia e visceralmente perturbadoras que escolhe mostrar. O incômodo causado pelo filme de Shults, no entanto, tem muito mais a ver com o que ele significa do que com a forma na qual ele é conduzido – habilidosamente, ele criou um suspense que traça as origens do medo e da raiva que impulsionam tantas atitudes e pensamentos isolacionistas e preconceituosos, muito especialmente a xenofobia que é a força motriz por trás de tantas campanhas políticas bem sucedidas mundo afora no momento atual. Ao Cair da Noite incomoda porque expõe as consequências mais extremas de um pensamento protetivo que existe na própria natureza da humanidade, e que costuma se exacerbar nos momentos mais sombrios de dificuldade (ó título do filme não é aquele por acaso). O roteiro de Shults desenha paralelos complexos desse pensamento com a estrutura machista da sociedade, tanto a que ele apresenta quanto a nossa, e tem a delicadeza de concentrar em seu protagonista adolescente a reflexão sobre como ideologias de ódio e medo tem um profundo impacto na nossa formação psicológica.

Na trama, Paul (Joel Edgerton), Sarah (Carmen Ejogo) e o jovem Travis (Kelvin Harrison Jr) vivem juntos em uma casa isolada – o mundo sucumbiu a algum tipo de vírus e os poucos sobreviventes vivem quase sem contato com o exterior. É quando Will (Christopher Abbott), com sua esposa Kim (Riley Keough) e o filho ainda criança, aparecem propondo uma parceria para sobreviver – Shults desenha a desconfiança e as sutis maneiras de segregação que os recém-chegados enfrentam com sutileza, e deixa seu filme rapidamente tomar uma direção sombria quando o primeiro evento “estranho” acontece na residência dividida das famílias. A escalação violenta, em junção com duas performances explosivas de Edgerton e Abbott, criam um clímax tão chocante quanto claramente inevitável. Quando os créditos de Ao Cair da Noite sobem, uma mistura de náuseas, tristeza e impotência toma conta do espectador – com sua fábula fatalista, Shults criou o épico de terror mais representativo da nossa época.

✰✰✰✰ (4/5)

tdt

A Torre Negra (The Dark Tower, EUA, 2017)
Direção: Nikolaj Arcel
Roteiro: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jansen, Nokolaj Arcel, baseados nos livros de Stephen King 
Elenco: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Abbey Lee, Katheryn Winnick
95 minutos

Adaptar A Torre Negra, saga de sete livros assinados por Stephen King, sempre foi uma tarefa ridiculamente difícil – os livros são supremamente bizarros, uma mistura curiosa, excitante e inesquecível de épico de fantasia, faroeste e a escrita sempre recheada de cultura pop de King. Seria tolice esperar que um filme hollywoodiano de 95 minutos, como o A Torre Negra de Nikolaj Arcel, fosse capaz de capturar essa bizarrice e esse exato encanto. Talvez por isso a decisão dos roteiristas de criar uma nova história com os mesmos personagens tenha sido acertada, mas do jeito como foi feito, A Torre Negra não se destaca de seus parceiros blockbusters nem em feitura nem em narrativa. A construção de Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jansen e do próprio Nikolaj Arcel no roteiro é inana, conformando os personagens em moldes pré-concebidos. Pior ainda, o script não consegue se decidir qual dos moldes quer dar para cada um deles – o pistoleiro Roland vai de herói estoico a alívio cômico/peixe fora d’água, enquanto o jovem Jake (Tom Taylor) começa como aprendiz subestimado e acaba como mais um “Prometido” trágico da fantasia, um Harry Potter sem a gana adolescente do protagonista de J.K. Rowling.Enquanto isso, Matthew McConaughey mal é um personagem – o filme não lhe dá espaço ou material para ser, e o ator se reduz a ajustar seus maneirismos usuais em um contexto vilanesco arrogante. O Homem de Preto de McConaughey quer destruir a Torre Negra, construção que mantém os múltiplos universos livres de monstros, enquanto Roland jurou impedí-lo, e Jake é jogado em meio a essa batalha de homens poderosos quando percebe que tem habilidades psíquicas especiais. A jornada de Jake e Roland por dois desses múltiplos universos (o nosso e um outro, que parece genericamente pós-apocalíptico) não encontra virtualmente nenhum módico de originalidade.

Se a construção clichê não desmorona completamente, culpe Idris Elba. O ator encontra no Roland errante do roteiro um personagem envolvente, colando as partes distintas de seu passado com habilidade – contra todas as possibilidades, o ator britânico consegue comunicar a tragédia, relutância, extraordinária habilidade e até a comédia de Roland; muitas vezes todas elas ao mesmo tempo. É uma performance incomum em um filme desesperadoramente comum, ao qual o diretor Arcel faz pouco para injetar vida – seu trabalho ao lado do cinematógrafo Rasmus Vidabaek é belamente controlado, mas o mesmo não pode-se dizer da concepção e uso dos efeitos especiais, por exemplo. Mudar o universo de Stephen King não foi o problema em A Torre Negra – privá-lo de sua humanidade, sim.

✰✰✰ (2,5/5)

whtm

Onde Está Segunda? (What Happened to Monday, Inglaterra/França/Bélgica/EUA, 2017)
Direção: Tommy Wirkola
Roteiro: Max Botkin, Kerry Williamson
Elenco: Noomi Rapace, Glenn Close, Willem Dafoe, Marwan Kenzari
123 minutos

O diretor Tommy Wirkola não tem exatamente o melhor dos currículos. Seja a “franquia” Zumbis na Neve ou o terrível João e Maria: Caçadores de Bruxas, o norueguês é conhecido por construções baratas e “sujas” de ação, erguidas sem o cuidado de outros diretores contemporâneos do gênero. Onde Está Segunda? não é tão diferente – Wirkola encontra-se com um roteiro básico de Max Botkin e Kerry Williamson e não faz muito esforço para surpreender com ele. Seu filme é eventualmente divertido e envolvente, mas some da memória do espectador minutos depois dos créditos subirem. A falta de imagens ou momentos indeléveis também não favorece a atriz Noomi Rapace, que já provou ser talentosa sob as condições corretas. Aqui, ela encara um papel sétuplo que não lhe dá espaço para desenvolver nenhuma das irmãs Settman propriamente – Rapace é boa em simular o desespero pelo qual as irmãs passam, a busca incessante por conexão humana, o cansado companheirismo entre elas, mas são emoções primárias e coletivas que se esquivam das complexidades do particular de cada uma. Conforme o roteiro despacha cada uma das gêmeas Settman, a impressão é que nunca realmente as conhecemos – o que é uma pena, porque o roteiro é de exemplar diversidade. Não ajuda que o filme desperdice Glenn Close, sempre excelente independente do material, na pele de uma vilã cujas motivações podemos entender, e cuja frustração com a monstruosidade de seus próprios atos é palpável.

Na trama, Close é uma cientista que provém a solução definitiva para o problema de superpopulação na Terra: permitir que cada família tenha apenas um filho, e congelar qualquer eventual irmão em criogenia, para ser acordado quando a situação estiver normalizada. Quando as gêmeas Settman nascem, a mãe morre no parto, e o avô (Willem Dafoe) as cria para se esconderem do mundo – todas elas assumirão a identidade de Karen Settman, e só sairão de casa um dia por semana. O “plano perfeito” funciona por décadas, até que um dia a irmã para a qual é designada a Segunda-Feira desaparece do mapa. Daí para frente, Wirkola dirige uma série de cenas de ação brutais e dinâmicas, mas desencontra de vez a urgência e humanidade de sua história.

✰✰✰ (3/5)

30 de jul de 2017

Review: O documentário Quem é JonBenet entende que a empatia é o traço mais humano de todos

casting

por Caio Coletti

O misterioso caso do assassinato de JonBenét Ramsey tem fascinado o público americano e mundial há mais de 20 anos. Uma breve contextualização: Ramsey era uma garota de apenas 6 anos, conhecida no circuito de concursos de beleza para crianças dos EUA, que foi encontrada morta em 1996 em sua própria casa, em um caso nunca solucionado. Teorias incluem a possibilidade de que os pais, Patsey e John, estivessem envolvidos, ou de que o irmão, Burke, a teria matado acidentalmente e os pais estavam encobrindo as evidências, e levantam também a possibilidade assustadora da existência de um círculo de prostituição infantil em Boulder, Colorado (EUA), onde a menina vivia com a família.

O documentário Quem é JonBenet, da diretora Kitty Green, explora todas essas possibilidades, ao mesmo tempo em que se estrutura de forma única para o gênero. Ao invés de trazer entrevistas com pessoas de fato envolvidas no caso, a diretora colocou uma chamada de elenco para um filme sobre JonBenet no jornal local, e entrevistou e reencenou momentos chaves do caso com aqueles que responderam. O resultado é uma análise profunda de temas como memória, preconceito, escolhas narrativas e a influência da mídia na nossa percepção de mundo, mas é também um testemunho de força inexplicável sobre a maior e mais delicada das qualidades humanas: a empatia.

Conforme conduz as entrevistas e encenações, Green escolhe se embrenhar não só na vida da família Ramsay como ela é contada por atores amadores e profissionais de Boulder, como também nas questões de foro pessoal que levam cada um deles a fazer certas escolhas em suas atuações. Incansável, a documentarista coloca uma lente de aumento sobre os pontos de contato das histórias desses indivíduos em frente a suas câmeras e a história da família imperfeita e incógnita que está no centro desse caso. Quem é JonBenet entende a imperfeição e a peculiaridade da condição humana que dá combustível para a fascinação em torno da morte de JonBenet, e prefere sublinhar essa fascinação do que buscar respostas inéditas ou insights baratos.

Planejado e executado à perfeição, o experimento cinematográfico de Green exige habilidade que sobra à diretora, tanto para editar a vastidão de material que com certeza conseguiu em suas entrevistas quanto para escolher os detalhes minuciosamente destacados pela fotografia. Assistida pelo editor Davis Coombe e pelo diretor de fotografia Michael Latham, Green encontra seu ponto de equilíbrio com facilidade, comandando uma progressão confiante de emoções entrelaçadas que atingem um clímax impecável. Atenção especial para o ator Dixon White, que faz teste para viver John Mark Karr, um pedófilo que confessou (falsamente) ter matado JonBenét. White mergulha na psique perturbada e nos motivos obscuros de Karr com uma vontade e fascinação que o fazem uma força da natureza – e um parceiro criativo perfeito para Green. Em meio a uma sinfonia cinematográfica de engenhosidade inegável, é um dueto de ator e diretor delicioso de se assistir.

✰✰✰✰✰ (5/5)

casting

Quem é JonBenet (Casting JonBenet, EUA/Austrália/China, 2017)
Direção e roteiro: Kitty Green
80 minutos

Diário de filmes do mês: Julho/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

okja

Okja (Coreia do Sul/EUA, 2017)
Direção: Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito, Steven Yeun, Paul Dano, Lily Collins
120 minutos

A tomada final de Okja é um dos maiores triunfos de estrutura fotográfica do cinema contemporâneo. Ao mesmo tempo, ela vem de uma tradição centenária do cinema oriental – estudantes da filmografia japonesa vão identificar com facilidade a homenagem ao mestre Yasujiro Ozu, mas não é preciso ser um intelectual para entender o brilhantismo do coreano Joon-ho Bong, um dos maiores talentos de sua geração. Seu faro perfeito para a criação de mundos e personagens únicos brilhou anteriormente em O Hospedeiro e Expresso do Amanhã, entre suas outras obras, e em Okja ele está especialmente afiado. Colorido por performances devidamente exageradas de Jake Gyllenhaal, Paul Dano e da genial Tilda Swinton, cujo estilo de atuação sempre cai como uma luva na sensibilidade do diretor, o filme é um equilíbrio prodigioso de tons e gêneros, uma experiência de encenação elaborada, e uma história genuinamente tocante. A habilidade de casar tudo isso em um todo coerente, lançando mão tanto de técnicas clássicas quanto de inovações, é o que faz um grande cineasta contemporâneo como Bong parecer mais vital a cada obra acertada.

Okja é a história de um animal artificialmente criado por uma corporação da indústria alimentícia, que após dez anos sendo criado com carinho por um avô e sua neta, precisa viajar para os EUA a fim de reproduzir-se e acabar confortavelmente na mesa de jantar de alguma família de comercial de margarina. Bong, também coautor do roteiro, não esteriliza o processo, suas crueldades e suas hipocrisias, mas empresta ao filme a ambiguidade humana necessária para entender o sistema maior em que esse processo está inserido. É um filme corajosamente criativo, mas talvez ainda mais bravamente realista – e um testemunho e tanto do talento de seu diretor.

✰✰✰✰ (4/5)

holyHoly Hell (EUA, 2016)
Direção: Will Allen
100 minutos

Há um valor inestimável intrínseco ao material apresentado em Holy Hell, documentário do diretor Will Allen sobre os 22 anos que ele mesmo passou dentro de um culto liderado por um ex-ator pornográfico americano. Sim, você leu certo. O Buddhafield começou como uma espécie de “acampamento” espiritual, mas ao longo das décadas se tornou a própria definição do culto de personalidade nos séculos XX e XXI. Como cineasta-residente do grupo, Allen tem material farto para contar sua história, e como sobrevivente ele tem uma conexão pessoal inexorável com ela, assim como contato a outros que passaram pela mesma experiência. O resultado é uma narrativa minuciosa e compreensiva, tremendamente bem ilustrada, editada e refletida pelas entrevistas dos ex-membros do culto. Por vezes ligeiramente polido demais, e com poucos insights formais, Holy Hell supera suas (poucas) deficiências como cinema através de suas (muitas) virtudes como documento histórico, e seu absurdo poder de fascinação. É um exercício de empatia em muitos sentidos entender a forma como as pessoas que vemos em frente às câmeras puderam passar duas décadas sob o feitiço de um psico-hipnotista e seu discurso pseudo-religioso. Allen nos conduz em direção a essa empatia com a mão segura que só poderia vir de alguém que também a pede do espectador ao contar sua própria história.

Em sua abundância de material, Holy Hell serve também como uma janela para a cultura da época que produziu o Buddhafield e tantos casos semelhantes, ao mesmo tempo em que frisa as características perenes da condição humana que tornaram eles possíveis. Da euforia do início nos anos 80 ao apego na década seguinte a conceitos que rapidamente se tornavam ultrapassados no zeitgeist contemporâneo, o que levou a uma posição radicalmente isolacionista nos anos 2000, a história do Buddhafield atravessando os anos é também a história da civilização ocidental nesse período de tempo. Pelo testemunho de sobrevivência, pelos insights humanos de suas testemunhas ou por esse valor histórico, Holy Hell merece ser assistido.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

ticklesTickled (Nova Zelândia, 2016)
Direção: David Farrier, Dylan Reeve
92 minutos

É impossível não desejar que Tickled, o documentário, tivesse sido feito por outra pessoa. David Farrier e Dylan Reeve merecem os louros de terem perseguido a história mais improvável do ano passado, mas seus instintos de repórteres não são os mesmos que um documentarista de verdade teria inserido no filme. A linguagem jornalística de Tickled é seu calcanhar de Aquiles, mas a força da história que Farrier e Reeve descobrem o faz também inescapavelmente fascinante e envolvente. Tudo começa quando Farrier, jornalista de matérias “curiosas” na Nova Zelândia, encontra na internet vídeos de jovens rapazes enfrentando maratonas de cócegas – e a companhia que banca esses vídeos jura que é um esporte legítimo. A partir daí, dizer mais seria estragar a jornada: Tickled se torna uma por vezes curiosa, por vezes revoltante jornada pelos cantos mais escuros do corporativismo e do privilégio capitalista nos EUA, além de uma reflexão engajada sobre a facilidade de destruir a vida e a reputação de uma pessoa na era da internet (isto é, quando ela não tem dinheiro o bastante para contra-atacar). É ao mesmo tempo a velha história de Davi versus Golias do mundo industrial, e uma nova e aterrorizante faceta dela – ao traçar o início de sua história junto ao início da internet, Farrier mostra instintos de pesquisa perfeitos e contextualiza a história com inteligência.

O filme escolhe acompanhá-lo durante a investigação, como se uma equipe de filmagens entrasse nos momentos íntimos em que os caminhos de uma história jornalística se desenvolve. Não sobram insights sobre esse processo, visto que o foco da câmera está constantemente nas barreiras e reviravoltas que os dois jornalistas encontram, e não na forma como as superam. Em suma, talvez o formato pareça mais uma necessidade do que uma escolha criativa – e nesse caminho Tickled se torna um documentário pouco notável tanto quanto é uma história, de sua própria forma, essencial. Paradoxal, talvez. Como o filme mostra, muitas coisas no mundo contemporâneo são.

✰✰✰✰ (4/5)

weiner

Weiner (EUA, 2016)
Direção: Josh Kriegman, Elyse Steinberg
96 minutos

Ao contrário dos outros documentários que dominam o nosso diário do mês de julho, Weiner não é diretamente argumentativo ou investigativo. Os diretores Josh Kriegman e Elyse Steinberg preferem outra abordagem clássica do gênero: o estilo “mosca-na-parede”, que coloca a câmera como mera observadora, e os cineastas como agentes raramente intrusivos na situação real que registram. Nesse modo, o cinema documental funciona como crônica, revelando a visão única de seus autores de forma mais sutil – na forma como estrutura a narrativa através da edição, ou nos detalhes que decidem ou não filmar. A crônica aqui é da campanha de Anthony Weiner para prefeito de Nova York em 2013/2014, e os subsequentes escândalos que revelaram que o ex-congressista democrata traía a esposa com várias mulheres através da internet. Weiner havia passado por acusações semelhantes anos antes, e foi obrigado a renunciar do cargo no Congresso, mas achou que estava na hora de voltar para a política. Kriegman e Steinberg registram a vida esparsa, as mentiras e o instinto de lutador de Weiner com um mesmo distanciamento cuidadoso, criando um estranho anti-herói com um ponto válido a fazer, mas a reputação errada para fazê-lo. No caminho, os diretores revelam a complexidade da vida pública, do sistema de governo, e de nossa relação com a imprensa quando decidindo posições políticas.

O apelo carismático do personagem no centro do documentário, assim como o quanto desse apelo é fachada, ficam claros ao final de Weiner, que acaba também testemunhando o começo da ruína de um casamento e a provação pública de uma mulher humilhada pelos segredos do marido, mas nada disposta a se deixar abater por eles. Ao invadir o espaço particular de Weiner e sua família, o documentário por vezes se parece com uma sátira sombria das ações da imprensa que acompanhou o ex-congressista em sua nova campanha, mas o desastre todo é tão envolvente que é impossível de desgrudar os olhos da tela. Talvez porque Weiner represente um símbolo tão perfeito do lugar que estamos, como civilização, na “marketização” da política, sua história é infinitamente fascinante, e inexplicavelmente essencial.

✰✰✰✰✰ (5/5)

roger

Get Me Roger Stone (EUA, 2017)
Direção: Dylan Bank, Daniel DiMauro, Morgan Pehme
92 minutos

Get Me Roger Stone é um filme cruel. Isso porque, assim como seu protagonista, o filme embrulha uma profundamente pessimista mensagem sobre o mundo e a humanidade em um pacote vagamente sensacionalista de personalidade ultrajante. O Roger Stone do título é um operativo político cuja carreira em Washington data dos anos 70, quando foi um ator para lá de coadjuvante no escândalo Watergate, que derrubou Richard Nixon. Desde então, Stone se tornou lobista, fazendo milhões ao defender interesses de ditadores sanguinários junto a congressistas americanos, e mais recentemente participou da campanha de Donald Trump para a presidência dos EUA. Os codiretores Dylan Bank, Daniel DiMauro e Morgan Pehme são fascinados por essa figura do vale-tudo político e pelo que ela representa, mais estão ainda mais interessados em entender o que ele realmente sente sobre o país que desempenhou papel fundamental para criar. Uma mistura de desdém, interesses egocêntricos e a amarga realização de que ele estava certo desde o começo é o que se vê no homem para além da figura quase cartunesca que ele cria para se defender dos críticos e realizar seus estratagemas políticos.

A ideologia cínica da política-por-lucro de Stone, suas ataques sujos aos adversários, sua visão imperdoável dos instintos mais básicos da natureza humana e do quanto eles dirigem as atitudes daqueles a sua volta – tudo isso entra em perspectiva com a vitória de Trump, e o clima político que se vive no mundo ocidental hoje em dia, ao mesmo tempo cria direta e vitória ideológica de Stone. Fazendo uma análise minuciosa da história que nos trouxe até aqui através da biografia de seu protagonista, Get Me Roger Stone é um frio e sombriamente bem-humorado feito de cinema documental que não nos deixa, ou ao próprio Stone, escaparmos de uma verdade inconveniente: a tragédia do cínico é sempre, invariavelmente, que ele está certo.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Nobody Speak: Trials of the Free Press (Holanda/EUA, 2017)
Direção: Brian Knappenberger
95 minutos

O diretor Brian Knappenberger pode ser visto como um documentarista um pouco argumentativo demais por vezes. Sua tendência de fazer da câmera um palanque, ainda mais sem todo o senso de entretenimento de um Michael Moore, compromete um pouco a importância de Nobody Speak: Trials of the Free Press, mas a força das histórias que ele conta em muitos momentos fala por si mesma. Em uma combinação raramente criativa de entrevistas e imagens de arquivo, o filme reconta o julgamento do site de fofocas Gawker pela publicação de uma sex tape do lutador profissional Hulk Hogan, e usa o caso de trampolim para observar como milionários estão tentando impor censuras à imprensa nos EUA e no mundo. O filme tem a coragem de mostrar o Gawker, desprezado por muitos como “lixo jornalístico”, pelo que ele era: um espaço onde era permitido jogar sujo com os ricos, famosos e privilegiados, e um site que, por toda sua fama de fútil, ainda revelou o hábito de drogas de um prefeito em exercício e denunciou atos de machismo e hipocrisia do conglomerado tecnológico Vale do Silício. Era a imprensa livre em suas consequências mais incômodas, mais ambíguas, mais provocativas e mais absolutamente fundamentais para sobrevivência da democracia como a conhecemos.

Seguindo o exemplo do site, Knappenberger desenterra evidências e ligações das quais um diretor com menos vontade de enfrentar o estabelecimento social talvez não dispusesse. Essa é a maior importância de Nobody Speak – seu status como representante da mesma liberdade de expressão que aos poucos é cerceada pelos mesmos setores da sociedade que colam o rótulo de “censura” no politicamente correto contemporâneo. Como desafio ideológico, portanto, o filme triunfa em passar sua mensagem, ainda que como obra cinematográfica lhe falte talvez a legitimidade de discurso que um trabalho mais equilibrado e focado em insights “merecidos” poderia trazer.

✰✰✰✰ (4/5)

sam

Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, EUA/Suécia, 2016)
Direção e roteiro: Daniel Kwan, Daniel Scheinert
Elenco: Daniel Radcliffe, Paul Dano, Mary Elizabeth Winstead, Richard Gross
97 minutos

É um chavão barato da crítica cinematográfica dizer que “você nunca viu um filme como esse antes” – o que é uma pena, porque às vezes, só às vezes, ele é verdade. Swiss Army Man, traduzido pobremente como Um Cadáver Para Sobreviver no Brasil, é um desses filmes. O que há de único nele? Nas mãos dos diretores e roteiristas Daniel Kwan e Daniel Scheinert, é a sua estranhamente comovente celebração da verdadeira diferença, livre dos constrangimentos da sociedade, e seu reconhecimento da artificialidade do mundo civilizado que construímos para nós mesmos. A trama mostra o náufrago interpretado por Paul Dano encontrando um cadáver, interpretado por Daniel Radcliffe, e usando suas surpreendentes “habilidades especiais” para tentar retornar ao mundo que deixou para trás. Piadas baratas não estão abaixo dos roteiristas, mas a dupla de atores não só vende os momentos mais pueris de Swiss Army Man como segue a deixa do roteiro e encontra uma complicada ressonância emocional neles. Não dá para dizer que é a obra-prima mais sofisticada dos últimos anos, mas você definitivamente nunca viu um filme exatamente assim.

O forte de Radcliffe como ator nesses anos pós-Harry Potter tem sido a fisicalidade, e aqui ele tem material farto para brincar com as caretas desconjuntadas de seu cadáver e as posições desconfortáveis em que o corpo é deixado. Dano, por sua vez, encontra uma sutil compreensão emocional de seu personagem e da jornada construída para ele durante os enganosamente densos 97 minutos de filme. Com um design de produção explosivamente criativo e a determinação de surpreender o espectador até onde a trama lhe permitir, Swiss Army Man é uma curiosa peça de cinema que merece ser experimentada – mesmo que você vá odiá-la.

✰✰✰✰ (4/5)

    

audrie

Audrie & Daisy (EUA, 2016)
Direção: Bonni Cohen, Jon Shenk
95 minutos

Não dá para escapar do sentimento que Audrie & Daisy renderia um documentário muito mais poderoso na mão de diretores mais organizados e sensíveis do que Bonni Cohen e Jon Shenk. A intenção é absolutamente nobre: o filme conta a história de duas entre muitas garotas que, ainda adolescentes, foram abusadas sexualmente. Uma delas não faz denúncia e, pressionada pelos colegas de escola que compartilhavam vídeos do ocorrido, acaba tirando a própria vida. Outra vai às autoridades, mas sua cidade prefere ficar ao lado dos astros do futebol americano que ela acusa, e a pressão quase a leva para o mesmo caminho. O filme, em suma, é um testemunho denso e necessário do processo de humilhação pública que muitas vítimas de abuso sexual passam mesmo após decidirem fazer a denúncia e identificarem os culpados, e dos caminhos que elas encontram para a sobreviver e tomar de volta uma agência sobre seus próprios destinos que foi tirada não só pelos criminosos, como por aqueles que os apoiaram. A dupla de diretores ouve e recria com sensibilidade o testemunho dessas garotas, mas não encontra meios para nos dar a dimensão exata, ou o sentimento aproximado, do que é ter uma história de violência como essa negada ou defendida por aqueles da comunidade a sua volta que deveriam te proteger.

Com meros 95 minutos, o filme não tem a força de um The Killing Ground, por exemplo, que lida com temas semelhantes. O apelo emocional está aqui por conta das histórias que o filme escolhe contar, mas o contexto da cultura em que elas nasceram, tão essencial para entender como elas foram e continuam sendo possíveis, não aparece com clareza e detalhismo suficientes. Para um filme cuja missão mais fundamental é denunciar a cultura do estupro, Audrie & Daisy mergulha muito pouco nos seus significados e ramificações contemporâneos – o que é uma pena, visto o enorme poder do cinema documental de elevar casos e problemas sociais na discussão popular.

✰✰✰✰ (4/5)

wwdits

O Que Fazemos nas Sombras (What We Do in the Shadows, Nova Zelândia/EUA, 2014)
Direção e roteiro: Jemaine Clement, Taika Waititi
Elenco: Jemaine Clement, Taika Waititi, Jonny Brugh, Cori Gonzalez-Macuer, Stu Rutherford, Ben Fransham, Jackie van Beek
86 minutos

A premissa mais interessante da comédia O Que Fazemos nas Sombras é que vampiros não são mais cool. Os galanteadores medievais viraram ídolos adolescentes radiantes (literalmente), e agora sua lenda foi exposta pela fragilidade trágica que sempre teve. No hilário filme de Jemaine Clement e Taika Waititi, os vampiros são os excluídos, seus costumes anacrônicos rejeitados pela sociedade conectada ao redor deles, e essa banalização de suas figuras abre caminho para uma série de piadas que (quase) ninguém ousou fazer antes. Nesse falso documentário, acompanhamos quatro vampiros que vivem juntos em uma casa – ao receberem um quinto membro na família, eles se veem confrontados com o mundo do qual tão frequentemente se escondem. Sobra espaço para sátira social no roteiro, mas Waititi e Clement sabem o valor de uma piada boba no momento certo, especialmente aquelas que conectam aos usos dos poderes vampirescos nos momentos mais banais, de brigas entre amigos àquele momento muito identificável em que você só deseja que a pessoa com quem você está conversando pare de falar.

Em ritmo alucinante, os dois diretores constroem personagens curiosos e bem definidos, interpretados por eles mesmos ao lado de um grupo de atores mantidos na ponta dos pés pela natureza imprevisível do filme em que se encontram. Tirando sarro dos estereótipos em que esses personagens se encaixam, e aproveitando para introduzir um subtexto queer muito óbvio que sempre foi intrínseco às histórias de vampiro, O Que Fazemos nas Sombras mostra que a forma mais fácil de fazer qualquer tema se tornar engraçado é explorar as reentrâncias mais humanas de sua mitologia. Raramente vampiros foram tão envolventes quanto aqui.

✰✰✰✰ (4/5)

truth

Conspiração e Poder (Truth, Austrália/EUA, 2015)
Direção: James Vanderbilt
Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro de Mary Mapes
Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Topher Grace, Dennis Quaid, Elizabeth Moss, Bruce Greenwood, Stacy Keach, John Benjamin Hickey, Dermot Mulroney
125 minutos

O caso de Mary Mapes e Dan Rather, produtora e âncora do programa 60 Minutes durante a crise envolvendo uma reportagem sobre o serviço militar do presidente George W. Bush no ano de 2004, é um dos mais famosos da mitologia jornalística contemporânea. Após a estreia do programa, que questionava se Bush havia cumprido mesmo suas obrigações militares, evidências começaram a surgir que os documentos conseguidos pelos repórteres, dados por um ex-tenente do exército, eram falsos. Mapes e Rather deixaram a emissora, e foram investigados por uma comissão independente que, se você acreditar no retrato visto no filme Conspiração e Poder, estava predisposta a condená-los mesmo que sua conduta jornalística não tenha sido teoricamente equivocada. O filme, é claro, é baseado no livro da própria Mapes contando o acontecido, e talvez more só na atuação de Cate Blanchett a noção de que esse é um debate mais profundo do que aquele apresentado pelo roteiro de James Vanderbilt. Pelos olhos de Blanchett, que está excepcional como de costume, podemos ver uma Mapes inteligente e determinada, mas entendemos também de onde vem a noção de que ela pode ter se aproximado desse tema com menos cautela por conta de suas posições políticas e personalidade.

Dirigido de forma um tanto burocrática pelo próprio Vanderbilt e com uma série de atores coadjuvantes que por vezes parecem desperdiçados em seus papeis (Dennis Quaid está especialmente competente), o filme serve como documento histórico de um caso que encarna um dilema do jornalismo político que não surgiu com os tempos contemporâneos, mas que certamente está mais proeminente neles: como encontrar um equilíbrio na busca pela verdade? E o quanto as nossas posições particulares, como indivíduos, podem e devem ser removidas do nosso trabalho como repórteres? O filme advoga por uma resposta muito simples para uma questão tão complexa, mas ainda merece ser visto – mesmo que seja só para ver a melhor atriz em atividade em tela.

✰✰✰✰ (3,5/5)

experimenter

Experimentos (Experimenter, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Michael Almereyda
Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Jim Gaffigan, John Leguizamo, Anton Yelchin, Kellan Lutz, Dennis Haysbert
98 minutos

Peter Sarsgaard é um dos grandes atores americanos da atualidade, e uma parcela ínfima da crítica, que dirá do público, lhe dá o devido crédito. Em Experimentos, ele é o psicólogo Stanley Milgram, que famosamente conduziu uma série de testes comportamentais em voluntários que mostravam o quanto nós, como seres humanos, estávamos dispostos a obedecer ordens de terceiros mesmo quando o resultado delas parecia cruel. Nas mãos de Sarsgaard, Milgram é um homem quietamente, placidamente apaixonado e fascinado pelo seu próprio trabalho, e mais tarde frustrado pela recepção dele e as críticas que recebe. O filme de Michael Almereyda usa o tempo todo recursos narrativos peculiares, entre eles fazer o próprio Milgram “quebrar a quarta parede” e conversar conosco, o espectador – é nessas cenas que Sarsgaard mostra que o filme não funcionaria com outro ator na pele do protagonista, medindo com cuidado o ritmo dessa narração e a relação de olhares e linguagens corporais que cria com o espectador. Ele, e em uma escala menor sua companheira de cena, Winona Ryder, equilibram a artificialidade proposital da encenação e da direção de arte com retratos profundamente humanos, mesmo que terrivelmente excêntricos, desses personagens reais.

Sobre essa tal artificialidade: o filme usa cenários reduzidos a pinturas de fundo e uns poucos móveis, ou desconstrói o espaço percorrido pelos personagens, criando intrincados diálogos que passeiam pela percepção do espectador atento de forma confiante. É um filme que nunca se cansa de surpreender e recompensar um olhar afiado com pequenos detalhes subversivos, que se entrelaçam espertamente com a trama e a percepção de mundo de Milgram, um homem acostumado a despir a condição humana a seus traços mais básicos, instintivos e deterministas. O diretor e roteirista Almereyda fez um filme único que faz jus ao homem único que representa, e uma brincadeira artística que ele, certamente, apreciaria.

✰✰✰✰✰ (5/5)

5 de jul de 2017

Mais Mulher-Gato, menos Michael Bay: Hollywood precisa de gente com a coragem de fazer filmes ruins

ed woodEdward D. Wood Jr, o rei dos filmes ruins

por Caio Coletti

Durante a infância, eu lembro de me sentar no sofá da sala e ligar a TV em qualquer programa do tipo Sessão da Tarde que estivesse no ar. Não só essas lembranças são os momentos formativos da minha paixão pelo cinema, como são os momentos formativos da minha paixão pelo cinema ruim. Eu assistia Power Rangers: O Filme (1995), ou A Incrível Jornada (1993), ou Pequenos Guerreiros (1998), ou A Chave Mágica (1995), ou A História Sem Fim (1984), ou Guerreiros da Virtude (1997), ou qualquer um dos dois filmes do Batman dirigidos por Joel Schumacher (1995, 1997). Na pré-adolescência, vi Resident Evil (2002), Mulher-Gato (2004), Adrenalina (2006) e Anjos da Noite (2003). Conforme fui mergulhando mais fundo no cinema, me “graduei” para os clássicos de Ed Wood, John Waters, Sam Raimi e Peter Jackson, e para trashs como O Monstro do Armário (1986).

Eu amo cinema. Amo cinema cult, cinema francês, cinema documental, Cinema Novo, cinema experimental e, porque não, cinema ruim. Ou melhor, uma certa estirpe de cinema ruim – nessa estirpe a que me refiro moram os trabalhos de cineastas que buscam incessantemente realizar suas próprias visões, e em grande parte conseguem. O problema é que tais visões são absolutamente equivocadas: bregas, de mau gosto, nauseantes, amadoras, ou simplesmente desconectadas com a demanda do público na época em que foram lançadas. Dentro desses filmes ruins, mora arte, e mora a noção de que nem toda arte é para o gosto de todo mundo (algumas, inclusive, não são para o gosto de ninguém).

Eu sinto falta desse tipo de filme ruim no cinemão hollywoodiano hoje em dia. O filme ruim do estúdio americano atualmente é um filme ruim muito chato – é a bolha espúria de efeitos visuais vazios e narrativas machonas da franquia Transformers e de tudo o mais em que Michael Bay coloca o dedo. O diretor, inclusive, é talvez o grande responsável pela morte do cinema ruim como eu o conheci na infância e pré-adolescência, fazendo nascer uma padronização hollywoodiana que escapou aos anos 80 e 90, talvez influenciados pela matilha de cineastas rebeldes dos 70, que fizeram filmes muito mais conceituados mas não deixaram de ter um impacto na “cultura baixa”, por assim dizer.

O meu tipo de filme ruim sobreviveu ao começo dos anos 2000 com pequenas obras que quebraram o teto de vidro de Hollywood (e alguns arrasa quarteirões anômalos no meio do caminho), mas morreu com a “gourmetização” do cinema independente com selo de qualidade Sundance. Não desprezo o cenário indie como ele existe hoje, mesmo porque é dele que algumas das grandes obras-primas dos últimos anos saíram, mas é preciso ter a consciência de que ele está se tornando um “clubinho” tão exclusivo e acadêmico quanto o sistema de estúdios do qual supostamente surge como alternativa.

Sem espaço para respirar nesse ambiente, o meu tipo de filme ruim morreu. Até os “mestres” cujas obras eu me sentava para assistir no passado foram assimilados por uma Hollywood de padrões rígidos ou simplesmente se aposentaram. Basta dar uma procurada:

  • Joel Schumacher (Batman Eternamente, Batman & Robin) não dirige desde 2011, quando lançou Reféns, com Nicole Kidman e Nicolas Cage. Aos 77 anos, é improvável que volte da aposentadoria.
  • Frank Oz (A Chave Mágica) parou em 2007, quando saiu a comédia de humor negro Morte no Funeral. Aos 73 anos, está mais do que contente em apenas emprestar a voz ao Mestre Yoda, de Star Wars.
  • Joe Dante (Pequenos Guerreiros) trabalha regularmente na TV, mas seu último filme foi Enterrando Minha Ex, de 2014. Rumores de uma continuação de Gremlins circulam por aí.
  • John Waters (Pink Flamingos, Cry-Baby) não dirige desde Clube dos Pervertidos, de 2004. 71 anos de idade.
  • Wolfgang Petersen (A História Sem Fim) não dá sinal de vida desde que lançou Poseidon em 2006. 76 anos de idade.
  • Peter Jackson (Trash) e Sam Raimi (Uma Noite Alucinante) foram absorvidos pela máquina hollywoodiana, com resultados variáveis.

Sobre a safra de diretores que fez filmes corajosamente ruins já nos anos 2000, o destino foi ainda mais cruel com eles: a maioria foi rejeitada por Hollywood, e poucos dirigiram novamente. Treze anos depois de seu lançamento, eu preferia sofrer por outro filme assinado pelo francês Pitof, cuja câmera alucinante fez de Mulher-Gato uma espetacularmente horrenda aventura cinematográfica, do que pelas cores mudas e aguda falta de criatividade de um A Lenda de Tarzan ou um A Múmia, só para citar os exemplos mais recentes. Me dê uma escolha entre um filme medíocre por seu medo do diferente e um filme ruim pelos riscos que corre e eu vou, sempre, escolher esse último. Arte não precisa ser sempre boa – só precisa ser sempre, irrevogavelmente, arte.

tumblr_mkyrahHW8b1qd8s62o1_500Jim Carrey em Batman Eternamente

30 de jun de 2017

Antes da segunda temporada, vale lembrar: Stranger Things é a série mais gay da TV

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por Caio Coletti

Eu demorei quase um ano para finalmente me obrigar a ver Stranger Things, série da Netflix que causou comoção sem precedentes na internet em julho de 2016. Desde o primeiro episódio, foi fácil identificar os motivos pelo qual a trama capturou a imaginação do público – nas mãos dos irmãos Matt e Ross Duffer, Stranger Things é tanto uma viagem nostálgica (visual e sentimental) pela mentalidade cinemática americana dos anos 80, quanto uma envolvente história de crescimento que é, fundamentalmente, atemporal. Passada em 1983, a série retrata o desaparecimento de Will Byers (Noah Schnapp), e os esforços de sua família e amigos para encontrá-lo, envolvendo-se em uma trama conspiratória encabeçada por um cientista sinistro (Matthew Modine) e por uma estranha garota com poderes chamada Eleven (Millie Bobby Brown).

Stranger Things conversa com a cultura pop de sua época de forma tremendamente inteligente, não só porque encontra as referências e rimas visuais certas para inserir em determinados momentos da trama, mas principalmente porque mergulha mais fundo na cultura que explora para encontrar uma metáfora poderosa que está no coração da sociedade americana (e ocidental como um todo). Em 1983, perceba-se, os EUA viviam a Guerra Fria contra a União Soviética, um conflito ideológico cujas ramificações iam muito além das formas de governo defendidas por cada uma das superpotências. Sob o comando de Ronald Reagan, os EUA também viviam os primeiros anos da epidemia do HIV/AIDS, que mataria mais de 20.000 americanos até 1989, quando o republicano saiu da presidência sem nunca sequer ter reconhecido a existência da doença.

A genialidade de Stranger Things está em não ignorar e interconexão entre esses aspectos mais profundos escondidos por trás das fachadas decadentes da pequena cidade de Hawkins, Indiana, e a cultura dos filmes de horror e ficção científica que a série busca homenagear com tanto carinho. O resultado é uma das obras mais deliciosa e ferrenhamente queers do cenário televisivo americano atualmente.

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[Joyce] “Ele [Will] é um garoto sensível. Lonnie costumava dizer que ele era queer. Chamava ele de viado”
[Hopper] ”Ele é?”
[Joyce] ”Ele é um garoto desaparecido!”
(Stranger Things 1x01 – The Vanishing of Will Byers)

Nos meses seguintes ao lançamento de Stranger Things, grande parte da discussão em torno do subtexto queer da série girou em torno de Will, o garoto que é “sequestrado” logo no primeiro episódio. Isso porque a série dá a entender, em quase todas as vezes em que o menino é mencionado ou discutido pelos outros personagens, que há dúvidas na comunidade de Hawkins sobre sua sexualidade. Não só o o pai ausente de Will o chamava de “viado”, como Joyce (sua mãe, feita por Winona Ryder) revela, como um par de bullies na sua escola dizem aos amigos do garoto que “Will está na terra das fadas agora” após seu desaparecimento (1x04 – The Body).

Note-se que o ator Noah Schnapp, que interpreta Will, escreveu em seu Instagram sobre a possibilidade do personagem ser, de fato, um garoto gay. “Para mim, Will ser gay ou não não é o ponto. Stranger Things é uma série sobre um monte de crianças que são excluídas e encontram umas as outras por terem sido atormentadas por serem diferentes. Ser sensível, ou solitário, ou um adolescente que curte fotografia, ou uma garota de cabelo vermelho com óculos, te faz gay? Eu só tenho 12 anos mas sei que todos podemos nos relacionar com a sensação de ser diferente”, disse o articulado ator mirim.

Talvez a rotulação de um personagem em específico não seja mesmo o ponto de Stranger Things. No entanto, para ser fidedigno ao que a série mostra, é preciso admitir que o contexto histórico e a situação retratada, assim como as metáforas construídas pelo roteiro, localizam esse elemento de “crianças excluídas” firmemente dentro da lógica da comunidade LGBT. Em seus melhores momentos, Stranger Things é envolvente por mostrar personagens procurando formas de lidar com uma afeição mal vista socialmente, seja ela reprimida por um senso de masculinidade datado ou pelos estigmas de uma sociedade pós-contracultura.

Stranger Things

Em outras palavras: não pode ser coincidência que o Demogorgon tenha levado justamente Will e Barb para o “ponta-cabeça”, seu aterrorizante mundo invertido. Um conceito que, aliás, já tem bastante peso metafórico por si só – por ser uma réplica perfeita do mundo que vemos na superfície, o “ponta-cabeça” permite que aqueles sequestrados passeiem por suas próprias casas, ou ao lado de amigos e família, sem nunca serem notados ou vistos. É uma poderosa alegorização da invisibilidade da experiência queer, da pessoa LGBT que não se sente confortável em mostrar seu verdadeiro “eu” nos lugares em que deveria se sentir mais à vontade – em suma, é como um gigantesco armário.

Os personagens de Stranger Things o tempo todo lutam contra os preceitos que os mantém presos em vidas escolhidas para eles, e não por eles. O triângulo amoroso entre Nancy, Jonathan e Steve é exemplar nesse sentido, uma batalha de afeições que deixa nas entrelinhas o papel que o machismo e a obsessão suburbana por perfeição tiveram na escolha da garota. Homens que viveram com uma masculinidade tóxica e sufocante a vida toda encontram formas de lidar e construir suas próprias identidades, ainda que desesperadamente superficiais, enquanto mulheres encaram de frente o desafio de serem heroínas de suas próprias histórias, donas de sua própria sanidade, independente de expectativas sociais ou opiniões alheias.

Os irmãos Duffer buscam nesses conflitos o verdadeiro combustível para a sua narrativa, fazendo das referências visuais oitentistas meros detalhes frente a um poderoso comentário cultural. Ao entender a mentalidade opressiva por trás dos contos de terror dos anos 80, Stranger Things tem algo a dizer sobre a forma como encaramos as diferenças na sociedade de hoje. Se todos lamentamos o fim trágico de Barb, personagem coadjuvante de Shannon Purser que virou um improvável ícone cultural, talvez devêssemos prestar mais atenção na forma como lidamos com aqueles “sensíveis e solitários” em nosso meio. Para Barb e para Will, cada qual a sua forma, uma cultura que não lhes acolhia foi o que os condenou a um final trágico.

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29 de jun de 2017

Review: Mesmo cancelada cedo, Downward Dog é uma das melhores séries do ano

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por Caio Coletti

O ato mais corajoso de Downward Dog, comédia que a emissora americana ABC estreou no último dia 17 de maio e levou pouco mais de um mês para cancelar, poderia ter sido desafiar as expectativas para uma produção envolvendo um cachorro falante. O estigma em torno desse elemento narrativo usado por tantos filmes da Sessão da Tarde segue bastante enraizado na mentalidade popular, e caso conseguisse meramente superar esse preconceito raso de quem lhe desse uma chance, Downward Dog já teria motivos para comemorar. Claro, apenas como desafio estético ela não seria uma obra completa, e o que a série criada por Samm Hodges e Michael Killen arquivou em seus oito episódios no ar foi muito mais do que isso.

Não só Downward Dog nos apresenta um cachorro falante que é também um personagem adorável, complexo e envolvente, como também se propõe a discutir, através dele e de seu relacionamento com a dona, Nan (Alison Tolman), conceitos de masculinidade e feminilidade contemporâneos. Funcionando sempre em dois níveis ao passar dos inventivos episódios, a série é uma reprodução reconhecível das dinâmicas cachorro-dono que amantes dos animais vão apreciar, mas também expande esse retrato para um nível alegórico em que o cão Martin está lidando com dilemas parecidos com o do homem moderno e sua luta com o próprio ego, enquanto os conflitos de Nan são largamente postos no âmbito profissional. A subtrama romântica entre ela e Jason (Lucas Neff) colide com essas elaborações da série de forma elegante, se aproveitando da química impecável entre os dois atores.

Nas mãos de apenas três diretores diferentes (o co-criador Killen, além de John Fortenberry e Paul Murphy), Downward Dog busca se localizar visualmente como uma constante brincadeira metalinguística. Seja no enquadramento dos “confessionais” de Martin, que fala direto para a câmera sobre seus conflitos com Nan e sua auto-estima, ou na realização esperta de cenas como o confronto entre o cachorro e sua aqui inimiga felina, que ganha a voz da comediante Maria Bamford, a série encontra grande parte de seu humor em referências e exageros que nos colocam dentro da mentalidade de Martin. É através dessa sátira que Downward Dog busca discutir e satirizar os complexos temas com os quais esbarra, e o resultado é uma deliciosa comédia de costumes contemporâneos.

Enquanto isso, as cartas na manga da série são as performances dos protagonistas. Tolman, que se destacou em Fargo, merecia mais tempo à frente de uma sitcom da TV aberta – aqui, ela entrega uma atuação honesta e expressiva, cujo rigor dramático aparece por baixo de um carisma relaxado. Na voz de Martin, o co-criador Samm Hodges usa um perfeitamente replicado dialeto millennial que serve tanto para satirizar as preocupações fúteis do cachorro quanto para sublinhar suas tendências egocêntricas. Em seu equilíbrio perfeito, Downward Dog não deixa que seus personagens se percam nessas egotrips, o que a faria só mais uma comédia cínica na TV americana, preferindo destacar o que eles tem de comum com todos nós: a busca incessante por um lugar onde se encaixam no mundo complexo do século XXI.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Downward Dog – 1ª temporada (EUA, 2017)
Direção: Michael Killen, John Fortenberry, Paul Murphy
Roteiro: Samm Hodges, Michael Killen, Daisy Gardner, Morgan Murphy, Annabel Oakes, Laura Kittrell
Elenco: Allison Tolman, Lucas Neff, Kirby Howell-Baptiste, Barry Rothbart, Samm Hodges, Maria Bamford
8 episódios