Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

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Review: Lady Bird: A Hora de Voar

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Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

26 de mai de 2018

Diário de filmes do mês: Maio/2018

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

Melhor do mês:

1 post

The Post: A Guerra Secreta (The Post, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer
Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross
116 minutos

Á última década de produção de Steven Spielberg, indubitavelmente um dos melhores diretores que o cinemão hollywoodiano já produziu, encontrou um gosto por missões complicadas como The Post: A Guerra Secreta, em que o cineasta absorve uma história importante, mas burocrática, e encontra formas de torná-la cinemática e envolvente. Os resultados são mais ou menos bem sucedidos dependendo do talento com o qual Spielberg se cerca no filme, e de quais recursos ele lança mão para realizá-lo. Em The Post, é claro, o Coringa do jogo de cartas complexo que Spielberg cria atende pelo nome de Meryl Streep – sua performance como Kay Graham agarra a atenção do espectador com firmeza e navega com ele pelas emoções conflitantes e pela jornada de autoafirmação e segurança desenhada pelo roteiro.

Liz Hannah e Josh Singer assinam um script enxuto – The Post ataca as delicadezas mais mundanas do jornalismo com um senso de história e conflito imensos, sem dúvida herdados da experiência de Singer com Spotlight: Segredos Revelados, mas ao mesmo tempo mostra precisão tremenda para contornar os seus personagens e trata suas angústias e atitudes com tanta integridade e dedicação quanto o escândalo político que eles estão investigando. Belos trabalhos de figurino (Ann Roth) e design de produção (o lendário Rick Carter) completam um filme tão indiscutivelmente bem feito que é difícil admitir que Spielberg não foi capaz de torná-lo perfeito.

Não se trata de um descrédito ao trabalho do cineasta. Como de costume, em The Post ele demonstra dominar a linguagem cinematográfica tanto em sua dimensão colaborativa quanto em sua necessidade de visão singular. Esse é um filme distintamente de Spielberg, e é possível ver sua assinatura na marcação das cenas, nos movimentos de câmera e nas formas como os grandes temas do roteiro são visualmente manifestados em tela. As sombras que constantemente cobrem metade do rosto dos atores, como acontecia nos filmes noir, comunicam como o trabalho jornalístico em sua melhor manifestação exige que o profissional entenda e ande na linha da ambiguidade moral; a cena em que Graham é vista saindo do tribunal, com dezenas de mulheres a fitando admiradas, é uma das imagens mais extraordinárias e marcantes do cinema do ano passado.

Mesmo assim, enquanto vemos esses jornalistas desvendar uma conspiração governamental que atravessou as gestões de quatro presidentes americanos e suportou uma das guerras mais impopulares e brutais da história (a do Vietnã), é impossível não notar que The Post: A Guerra Secreta não corre um risco sequer, não experimenta um floreio sequer que poderia produzir a melhor versão possível dessa história. O calcanhar de Aquiles dos filmes “sérios” de Spielberg nos anos 2010 é esse: a vontade de agradar, de “vencer o desafio”, como colocamos lá no começo dessa resenha, é muito maior do que a de fazer um pedaço de cinema plenamente realizado em suas possibilidades criativas.

✰✰✰✰ (4/5)

Pior do mês:

2 anon

Anon (Alemanha, 2018)
Direção e roteiro: Andrew Niccol
Elenco: Clive Owen, Amanda Seyfried, Jonathan Potts, Rachel Roberts, Colm Feore, Sonya Walger
100 minutos

Andrew Niccol é um dos grandes inovadores não reconhecidos de Hollywood. Esse roteirista e diretor neozelandês escreveu e/ou dirigiu filmes que exploraram cantos até então desconhecidos do drama e da ficção científica cinematográficos, como Gattaca – Experiência Genética (1997), O Show de Truman (1998), O Senhor das Armas (2005) e Good Kill – Máxima Precisão (2014). A sede de Niccol por invenção, sua vontade de experimentar linguagens contemporâneas e abordar temas novos,cuja mitologia ainda está em evolução, é admirável – e, nos melhores momentos do seu novo filme, Anon, é isso que pula aos olhos.

Na trama dessa produção distribuída pela Netflix, acompanhamos um policial (Clive Owen), divorciado e deprimido, que vive em um mundo no qual chips implantados em cada pessoa tornam a privacidade algo impraticável. O governo está sempre observando pelos olhos de todo mundo, e crimes são imediatamente detectados, o culpado rapidamente identificado – até a aparição da misteriosa mulher interpretada por Amanda Seyfried, que de alguma forma é capaz de esconder suas informações pessoais e ser um “fantasma” nessa rede de vigilância “tunada”.

Com a ajuda de uma fotografia extraordinária de Christophe Beck, Niccol explora de forma insistente as possibilidades desse mundo em que o ponto de vista de cada pessoa está imediatamente acessível para todas as outras, assim como seu “arquivo”, suas memórias. O visual hermético, quase árido, do design de produção de Philip Ivey ajuda o espectador a entrar no clima deprimente e frio desse futuro imaginado, enquanto Niccol brinca, deleitado, com as possibilidades dele.

O problema é que, por mais que seu anseio por inovação seja admirável e até envolvente por certo tempo, Anon não conjura personagens, histórias ou conclusões que façam jus a sua existência como filme. O mistério que envolve o passado da personagem de Seyfried permite que a atriz dance ao redor dos companheiros de elenco na melhor performance do filme, efetivamente a melhor coisa nele – mas essa missão se torna mais fácil quando as criações que a cercam são tão previsíveis, e o caminho para o qual o filme se direciona também. Para um homem que respira criatividade, Niccol não se esforçou muito para criar algo aqui.

✰✰✰ (3/5)

Surpresa do mês:

3 crooked

Crooked House (Inglaterra, 2017)
Direção: Gilles Paquet-Brenner
Roteiro: Julian Fellowes, Tim Rose Price, Gilles Paquet-Brenner, baseados no livro de Agatha Christie
Elenco: Max Irons, Stefanie Martini, Glenn Close, Honor Kneafsey, Christina Hendricks, Terence Stamp, Julian Sands, Gillian Anderson, Christian McKay, Amanda Abbington, Preston Nyman, Roger Ashton-Griffiths
115 minutos

A adaptação hollywoodiana de Assassinato no Expresso do Oriente mudou tanto, e tão inabilmente, a obra original de Agatha Christie, que um leitor ou espectador usual poderia ser perdoado por pensar que as obras da grande escritora inglesa são “inadaptáveis” ou “difíceis”, aqueles clichês insuportáveis da crítica. Crooked House prova que não é bem por aí – de forma fidedigna ao espírito e às excentricidades de Christie, o diretor Gilles Paquet-Brenner dá vida a uma produção luxuosa, envolvente, com um senso de kitsch essencial, e um entendimento intrínseco da humanidade que sempre foi a chave do sucesso da escritora.

Na trama, um detetive (Max Irons) é chamado por uma ex-namorada (Stefanie Martini) para investigar o assassinato de seu avô, que mantinha todos na larga família sob seu punho de ferro em uma bizarra mansão no interior da Inglaterra. Nessa premissa clássica de Christie, conhecemos aos poucos os personagens excêntricos e coloridos que formam a família, interpretados com gosto por gente do naipe de Glenn Close, Gillian Anderson (especialmente brilhante aqui), Julian Sands e Christina Hendricks.

Enquanto a história adaptada por Paquet-Brenner, Julian Fellowes e Tim Rose Price caminha para o seu inevitavelmente trágico final, o filme se mostra um suspense investigativo cheio de reentrâncias e sofisticações. O cineasta francês, que já fez o subestimado Lugares Escuros (com Charlize Theron), se insinua por essas reentrâncias com floreios fascinantes aqui e ali, mas geralmente presta deferência aos valores de produção e ao elenco, que parece se divertir proporcionalmente ao conteúdo cortante e venenoso dos diálogos.

Realizado com olhar arguto e competência incontestável, Crooked House é uma boa (ainda que não espetacular) surpresa para os fãs de Christie desencorajados pelo outro grande filme baseado em sua obra do ano passado.

✰✰✰✰ (3,5/5)

Decepção do mês:

4 monstro

Um Monstro no Caminho (The Monster, EUA, 2016)
Direção e roteiro: Bryan Bertino
Elenco: Zoe Kazan, Ella Bellentine, Aaron Douglas, Scott Speedman
91 minutos

Quando os créditos começaram a subir no fim de Um Monstro no Caminho, só uma pergunta passou pela minha mente: “Como é possível um filme ser simultaneamente tão profundo e tão… bobo?”. Antes que me acusem de esnobismo crítico, este site é testemunha que não se trata disso – filmes que encaram uma premissa absurda ou normalmente reservada para histórias para o reino do trash e as transformam em obras bem elaboradas, complexas e/ou inovadoras são exatamente o que eu amo mais no cinema. O terror tem passado por um momento particularmente bom nesse sentido: títulos como Corrente do Mal, O Babadook, A Bruxa e tantos, tantos outros, fazem exatamente o que eu disse acima. Um Monstro no Caminho é como uma tentativa improvisada e não totalmente bem-sucedida de aplicar essa magia cinematográfica.

O longa escrito e dirigido por Bryan Bertino ataca questões sérias sobre alcoolismo, responsabilidade e sacrifício parental, e tem uma performance tão envolvente quanto era de se esperar da talentosíssima Zoe Kazan. Bertino, que virou queridinho do gênero com Os Estranhos (2008), aborda a direção de forma dedicada, largamente evitando que seu filme, quase todo passado no meio de uma estrada com iluminação precária, seja escuro, confuso ou entediante demais para o espectador.

É em seu roteiro que mora a parte mais problemática de Um Monstro no Caminho. Na trama, vemos mãe e filha que, dirigindo para a casa do pai da menina (os dois são separados), atropelam acidentalmente um lobo – o carro se quebra, e elas logo percebem que aquele pedaço de estrada tem algo bem mais aterrorizante se escondendo nas sombras. Como é de praxe para filmes modernos do gênero, Um Monstro no Caminho não se preocupa em explicar ou “mitologizar” sua criatura, mas o problema é que Bertino tampouco a usa como gancho para explorações e metáforas contundentes às personagens centrais do filme.

Um Monstro no Caminho é profundo e até tocante, em certos momentos, apesar de sua trama “boba”, como eu coloquei lá em cima – em um mundo em que o cinema de terror já provou que pode ser melhor, vendo uma integração das duas coisas que torna o filme uma experiência completa, é difícil negar a decepção.

✰✰✰ (3/5)

… E mais um:

5 it

It: A Coisa (It, EUA/Canadá, 2017)
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Joji Fukunaga, Gary Dauberman, baseados no livro de Stephen King
Elenco: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Glazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgard, Nicholas Hamilton, Owen Teague
135 minutos

Não dá para negar que It: A Coisa, o filme, se esforça para filtrar uma das obras primas de Stephen King pela ótica nostálgica (pré-)adolescente de Stranger Things. Não dá para negar tampouco, no entanto, que o filme largamente é bem-sucedido nessa empreitada, e que os ajustes à obra original funcionam para tornar a trama mais coesa e mais apropriada ao formato cinematográfico. It: A Coisa é um livro extraordinário, e como tal só caberia na tela do cinema da forma destilada em que nos foi apresentado aqui – ainda por cima, dividido em duas partes, com a segunda marcada para 2019.

A trama segue a mesma: um grupo de crianças que sofre bullying na escola, autointitulados Clube dos Perdedores, se junta para desvendar o mistério do desaparecimento do irmão mais novo de um deles, além de várias outras crianças da cidade. Essa ainda uma fábula sobre novas gerações que sacodem a complacência como status quo; o roteiro de Chase Palmer, Cary fukunaga e Gary Dauberman adiciona toques de comédia observacional adolescente justamente para apelar para o filão que mencionamos mais acima, e são sutis o bastante nisso para convencerem o espectador mais incrédulo.

It: A Coisa tampouco foge das partes mais espinhosas do livro (com uma exceção famosa), discutindo abuso, violência doméstica e mais nos limites de uma história adolescente e sem apelar para as explicitações grosseiras de uma 13 Reasons Why. Na melhor tradição de Maurice Sendak (Onde Vivem os Monstros), as crianças de It: A Coisa “sabem de coisas terríveis”, e elas moldam e fraturam seu amadurecimento como moldaram e fraturaram os nossos. É imediatamente relacionável e envolvente a jornada desses protagonistas – o que deve ser um problema na sequência, já que ela abordará o retorno deles à cidade, já adultos, para mais uma vez confrontar Pennywise.

Por falar no palhaço que cimentou de vez o apelo macabro dessas figuras circenses na literatura de terror, Bill Skarsagard está excelente no papel. Ao invés do teatro de Tim Curry, que marcou o personagem para sempre na minissérie de 1990, o ator sueco aposta no poder dos detalhes para fazer seu Pennywise assustador – são pequenos vícios e hábitos dessa criatura curiosa (a vesguice, o sorriso distorcido) que o tornam tão temível em tela. Como um todo, It: A Coisa é um ponto positivo para o terror mainstream de Hollywood.

✰✰✰✰ (3,5/5)

29 de abr de 2018

Review: Janelle Monáe lança a obra de arte do ano com Dirty Computer [Álbum e Filme]

dirty computer

por Caio Coletti

Em anos escrevendo sobre arte, é só uma a sensação que este humilde repórter que vos fala se vê perseguindo, consciente ou inconscientemente, o tempo todo – a de ver uma obra de arte e perceber que escrever sobre ela não vai ser o bastante. Talvez seja um grande paradoxo, querer tanto que meu próprio ofício seja descartável, mas há algo de especial na arte que desafia as palavras, embora tenha essencialmente vindo delas. Essa arte provem desafio, porque eu também sei assim que ela acaba que vou tentar escrever sobre ela, e provem o que os americanos chamam de reality check, um momento de realização da nossa pequenez frente aos outros e/ou ao mundo – nesse caso, à enormidade da expressão humana e dos dispositivos que inventamos para concretizar nossos pontos de vista em ficção.

Dirty Computer, tanto o disco quanto o média-metragem (ou emotion picture, um trocadilho com motion picture) de Janelle Monáe, é uma dessas obras desafiadoras que me confrontaram com a realidade do meu ego inflado de metido a crítico de arte. Assistindo aos 48 minutos postados no Youtube (assista mais abaixo), a complexidade das partes envolvidas em expressar essa visão específica de futurismo, sexualidade, opressão, política e círculo vicioso bateu tão forte na minha mente quanto a própria mensagem de rebeldia de Monáe, sem dúvida uma das (poucas) verdadeiras artistas pop de seu tempo.

Como música, Dirty Computer tem sido excessivamente creditado como uma grande homenagem a Prince, o recentemente falecido ícone oitentista. É claro que o disco tem referências à musicalidade do americano obcecado pela cor roxa, das guitarras riffadas e falsete esganiçado no refrão de “Make Me Feel” ao baixo funkeado de “Take a Byte”, mas Monáe vai além em seus sonhos futuristas - adiciona sintetizadores luxuosos em faixas como “Crazy, Classic, Life” e “Americans” e compressores de voz delicados em “Pynk”, pesa em influências roqueiras (“Screwed”)  e de hip hop (“Django Jane”), calca com muito mais força nas letras os seus pontos políticos do que Prince faria.

As letras, aliás – esse é o manifesto de juventude e liberdade de Monáe, o disco em que ela se liberta de suas metáforas e alter-egos para contar uma história mais autêntica que revela de sua sexualidade a seu ativismo. Ao mesmo tempo, milagrosamente, é um universo tão bem construído e bizarro quanto o de The ArchAndroid e Electric Lady, onde a cantora encarnou personagens diferentes para endereçar seus pontos de vista por cima de fantasias elaboradas. Mais do que isso ainda, Dirty Computer cria esse improvável universo de detalhes em um contexto distópico e pessimista que é casado sem esforço com a libertação das letras mais pessoais.

É aqui que Monáe canta sua pansexualidade recém-assumida, em que declara que “não precisamos de outro governante/ todos os meus amigos são reis” (em “Crazy, Classic, Life”), em que exorciza a rejeição de uma parte da indústria e da sociedade ao seu estilo (“Lembra quando disseram que eu era masculina demais?/ Magia de garota negra, vocês não aguentam”, na explosiva “Django Jane”). Também é aqui que ela insere sem medo (ou melhor, sem esconder o medo) suas opiniões políticas, riffando de forma esperta na agridoce e insanamente divertida “Screwed” que “nós vamos colocar água nas suas armas/ fazer tudo por diversão/ vamos ser f*didos”.

No filme que acompanha Dirty Computer, Monáe é uma mulher em um futuro distópico que é sequestrada pelo governo totalitário e tem a mente lentamente apagada para esquecer seu caso de amor com Zen (Tessa Thompson) e se tornar mais uma engrenagem na máquina bem azeitada do regime. Esteticamente impressionante, o filme se alimenta de influências de pop art muito mais do que das convenções simples da ficção científica distópica, tomando caminhos inesperados ao introduzir as “memórias” que são apagadas da mente da protagonista, mais recordações sensoriais do que reais. Podendo passear por expressões estéticas tão ousadas, Monáe e sua equipe criativa dão à luz um trabalho que só é “essencial” ou “importante” porque é, antes disso, personalíssimo.

Dirty Computer, como obra, se alimenta de muito do que veio antes dele – mas a característica que o distingue de qualquer outro álbum pop lançado em 2018 (ou em 2017, diga-se de passagem) é que ele também vai alimentar muito do que virá depois. Ele tem aquela qualidade intangível de uma obra que espetou a seringa direto na veia da cultura em que foi produzida, e adicionou ao seu sangue estagnado o próprio néctar da inspiração.

O mundo e a cultura vão ouvir Janelle Monáe nesse ano, não importa o que as paradas de sucesso ou o Grammy do ano que vem te digam a respeito, porque há algo muito menos quantificável envolvido aqui. É difícil imaginar que os próximos oito meses verão o lançamento de uma obra tão pura quanto Dirty Computer – obras melhores talvez surjam, mas nenhuma mais desse tipo que desafia as palavras de um crítico que, normalmente, tem muitas delas. Se você me perguntar, essas são as melhores.

dirty computer 2

Dirty Computer (álbum)
Lançamento: 27 de abril de 2018
Selo: Wondaland/Bad Boy/Atlantic
Produção: Janelle Monáe, Deep Cotton, Nana Kwabena, Roman GianArthur, Jon Jon Traxx, Wynne Bennett, Mattman & Robin
Duração: 48m42s

Dirty Computer (emotion picture)
Direção: Andrew Donoho & Chuck Lightning
Roteiro: Chuck Lightning
Elenco: Janelle Monáe, Tessa Thompson, Jayson Aaron, Michelle Hart, Dyson Posey, Jonah Lee
48 minutos

Diário de filmes do mês: Abril/2018

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

Melhor do mês:

1

Trama Fantasma (Phantom Thread, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Camilla Rutherford, Gina McKee, Brian Gleeson
130 minutos

Poucos cineastas são capazes de apresentar uma experiência tão inclementemente pessoal para os seus espectadores quanto Paul Thomas Anderson. Seus filmes são idiossincráticos além de qualquer dimensão – não porque são excêntricos, como os de Tarantino ou Lynch, mas porque apostam em sutilezas e emoções que só Anderson é capaz de elaborar. Trama Fantasma é um conto perturbado de amor e abuso, com um acompanhamento de sátira amarga e refinadíssima, que confia quase cegamente em seus atores para navegar por esse tom complicadíssimo de narrativa e dar vida a um universo ficcional indefectível, que por 130 minutos (e mais) parece tão real quanto o nosso, embora seja tão implausível e melodramático de suas próprias formas.

Parte dessa elaboração está na trilha de Jonny Greenwood e nos figurinos (oscarizados) de Mark Bridges, que passeiam com elegância e pulso firme pelo filme, explorando caminhos surpreendentes e até então inabitados no cinema. Parte está nas performances magistrais dos três protagonistas – começando com Daniel Day-Lewis, que acerta um último (se você escolher acreditar em sua aposentadoria) strike de imersão em uma carreira cheia deles, criando um Reynolds tão odiável quanto envolvente, tão bizarro quanto crível. É verdade que ele já tem três em casa, mas, atuação por atuação, Day-Lewis é de longe a melhor (de novo) que concorreu ao Oscar de Melhor Ator em 2018.

Ao seu lado, Vicky Krieps e Lesley Manville não só arrumam um jeito de não serem apagadas ou obliteradas por esse gigante da atuação, como encontram espaços únicos para brilharem. Ou melhor, o roteiro de Anderson as concede esses lugares, e elas usam-nos e transcendem-nos com maestria – em particular Krieps, que expressa tremenda habilidade para dominar a cena quieta, quase secretamente, da forma que poucas atrizes na memória recente conseguem. Day-Lewis não consegue dar um golpe perfeito em nenhum momento dessa batalha de atuações, e isso é um tributo às suas adversárias.

O filme feito por Anderson, que também agiu como diretor de fotografia, embora não creditado, em um trabalho verdadeiramente deslumbrante, é uma experiência cinematográfica que merece a entrega completa de seu espectador, uma viagem emocional e sensorial que puxa o tapete do público com um final afiado e inesperado, do tipo que faz perguntar: “O que eu esperava, afinal?”. Mais uma vez, um dos grandes cineastas da nossa época fez o único filme que poderia fazer, da forma mais perfeita que conseguiu.

✰✰✰✰✰ (5/5)

Pior do mês:

2

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, Malta/EUA, 2017)
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Michael Green, baseado no livro de Agatha Christie
Elenco: Kenneth Branagh, Daisy Ridley, Leslie Odom Jr, Manuel Garcia-Ruffo, Penélope Cruz, Josh Gad, Johnny Depp, Derek Jacobi, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Michelle Pfeiffer, Marwan Kenzari, Judi Dench, Olivia Colman, Willem Dafoe
114 minutos

Em minha pré-adolescência, devorei mistérios de Agatha Christie à guisa de café da manhã. Na época, não entendia exatamente todos os méritos da rainha do suspense como escritora, mas sabia instintivamente que seus livros tinha uma qualidade única, uma corrente mais profunda do que eles aparentavam, por baixo do charme de época e das tramas bem urdidas. Assasinato no Expresso do Oriente, a nova versão de um dos maiores clássicos da Christie para o cinema, chega perto de capturar essa observação social inclemente, essa entrelinha emocional poderosa, da literatura da inglesa – mas não perto o bastante para funcionar.

Ao criar e recriar os passageiros do trem do título, todos suspeitos da morte de um de seus companheiros de viagem, o diretor Kenneth Branagh e o roteirista Michael Green se dão espaço para explorar um caleidoscópio enorme de cores, tons, comportamentos. O espírito de Christie parece vivo por um instante, mas o script também sente a necessidade de introduzir ação à história, assim como uma trama de fundo romântica que inexistia no original – e o problema desses elementos não é que eles divergem do livro, mas sim que absolutamente não funcionam em conjunção ao restante dele.

Um filme dividido entre devoção e inovação (e que é extraordinariamente ruim nessa última) só decola nos breves momentos em que confia em um elenco estelar para mais do que meras superficialidades culturais – especificamente, Daisy Ridley e Michelle Pfeiffer são melhores servidas com desenvolvimento de personagens e cenas emocionalmente fortes. O sucesso inesperado de Assassinato no Expresso do Oriente mostra que as criações de Christie ainda tem poder de fascínio – uma pena que tenham chegado tão descaracterizadas e insípidas ao cinema.

✰✰✰ (2,5/5)

Surpresa do mês:

3

Terror nos Bastidores (EUA, 2015)
Direção: Todd Strauss-Schulson
Roteiro: M.A.Fortin, Joshua John Miller
Elenco: Taissa Farmiga, Malin Akerman, Alexander Ludwig, Nina Dobrev, Alia Shawkat, Thomas Middleditch, Adam Devine, Angela Timbur, Chloe Bridges
88 minutos

Paródias de terror e filmes que tentam se aproveitar do trash para fazer um dinheiro rápido em cima de um público muito específico não faltam – mas poucas tem a clareza de visão e a vontade de reinventar a roda como Terror nos Bastidores, do diretor Todd Strauss-Schulson. O longa de rápidos 88 minutos presta homenagem real à linguagem dos filmes de slasher dos anos 1980, não apenas às suas convenções de trama – os ângulos e movimentos de câmera, truques de iluminação e design de produção estão todos aqui, se esparramando em cima de uma trama que é uma confortável sátira das partes que pior envelheceram nessas narrativas.

Muitos filmes pretendem brincar com clichês, mas poucos os endereçam tão diretamente, e os subvertem com tanto prazer, quanto Terror nos Bastidores. A trama compreende a filha (Taissa Farmiga) de uma estrela dos anos 1980 (Malin Akerman) que, anos depois da morte da mãe, comparece a uma exibição especial do filme de terror que ela estrelou décadas atrás, apenas para se ver literalmente transportada para dentro da obra de ficção, onde precisa se juntar à personagem da mãe para fugir de um assassino. Tanto nos papéis centrais de mãe e filha quanto nos amigos ficcionais e reais de ambos, o filme busca retratar (sem perder o bom humor ou a reverência) a busca muito real para transcender uma convenção limitante e preconceituosa.

Ajuda que as protagonistas Akerman e Farmiga dividam não só semelhança física como também trajetória profissional – ambas começaram em projetos que não exploravam seus potenciais dramáticos e encontram, aqui, uma válvula de escape deliciosamente improvável para talentos que Hollywood, largamente, ainda não sabem aproveitar. Com bons papéis nas mãos, essas duas poderiam fazer muito, muito mais do que lhes foi exigido até agora na carreira.

Com um final eletrizante e o melhor uso do clássico oitentista “Bette Davis Eyes” em muito tempo, Terror nos Bastidores é um exemplo de como repaginar clichês e convenções não é necessariamente um sinal de mal cinema. Pelo contrário, há um poder inegável em apelar para a nostalgia e, então, subvertê-la de maneira decisiva para sinalizar a chegada de uma nova era na forma como contamos histórias na sala de cinema. Menos visto do que merece, Terror nos Bastidores é tudo o que você pode pedir de uma sessão de entretenimento – e um delicioso pedacinho de “algo a mais”.

✰✰✰✰ (4/5)

Decepção do mês:

4

O Rei do Show (The Greatest Showman, EUA, 2017)
Direção: Michael Gracey
Roteiro: Jenny Bicks, Bill Condon
Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Zendaya, Rebecca Ferguson, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II, Paul Sparks
105 minutos

Se vocês quiserem, podemos deixar de lado o fato de que O Rei do Show distorce e reabilita a imagem de um dos empresários mais inescrupulosos, exploradores, mentirosos e preconceituosos da história. Sim, P.T. Barnum, o criador do circo, dizia que elefantes e outros animais não podiam sentir dor como forma de justificar o maltrato deles em seus estabelecimentos, e explorava a imagem de indivíduos com deformidades e deficiências ao mesmo tempo em que se recusava a inclui-los nos louros que recebia. Sim, a história de reabilitação e “caída na real” que vemos aqui sobre seu abuso dos funcionários do circo foi totalmente inventada para O Rei do Show – e nós não deveríamos ignorar essa desonestidade histórica, mas tentemos ignorar por um momento. Ainda assim, o longa de Michael Gracey é simplesmente medíocre.

Medíocre à despeito das poucas qualidades realmente inegáveis que tem, diga-se de passagem – a maioria do elenco tem vozes definitivamente impressionantes (Rebecca Ferguson dubla sua canção, “Never Enough”, mas mesmo para isso a equipe encontrou uma grande vocalista, Loren Allred); as música da dupla Pasek & Paul, a mesma de La La Land, fluem de forma melodiosa pela maior parte do tempo; e o elenco brilha, ao lado da equipe de dançarinos, nos números musicais. É tudo o que cerca esse trabalho técnico que não funciona, no entanto, e a insistência de Gracey e companhia em evitar qualquer tipo de risco criativo de qualquer natureza.

Os rápidos 105 minutos do filme combinam com a profundidade nula do roteiro de Jenny Bicks e Bill Condon, que celebra seus protagonista de forma desonesta, auto-congratulatória (afinal, Barnum é creditado como “o criador do showbusiness”) e superficial. O Rei do Show não é um filme desagradável, mas só porque gasta muita energia para não ser, tentando a todo tempo escapar de suas armadilhas morais e caráter dúbio – é o tipo de filme feito para ganhar aplausos, ao invés de contar uma história, e que por isso mesmo parece não merecê-los. Jackman e companhia mereciam (e deviam saber) melhor.

✰✰✰ (3/5)

… E mais alguns:

5

Viva: A Vida é uma Festa (Coco, EUA, 2017)
Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina
Roteiro: Adrian Molina, Matthew Aldrich
Elenco: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camill, Alfonso Arau, Gabriel Iglesias
105 minutos

Há muitas virtudes que são constantemente celebradas em filmes da Pixar, a empresa de animação mais premiada e elogiada do cinemão americano, e nenhuma delas é falsa. A política de priorizar os roteiros, e contar histórias emocionalmente complexas, benéficas e instigantes em uma linguagem que não insulta a inteligência do público infantil é mesmo exemplar; a qualidade pura da animação é mesmo de ponta; a consistência que o estúdio mostra em sua produção é invejável, apesar de derrapadas como a franquia Carros. O que pouco se fala, no entanto, é da capacidade da Pixar de criar universos verdadeiramente completos para seus longas metragens, criações cinematográficas verdadeiras e coerentes, não só encantadoras como plenamente convincentes – e, justamente por isso, tão envolvente.

Viva: A Vida é uma Festa demonstra porque essa construção de universo, capitaneada pelos diretores Lee Unkrich e Adrian Molina, assim como o designer de produção Harley Jessup, precisa ser mais venerada. Isso porque Viva não é um roteiro de emoções e mensagens tão complexas e geniais, transmitidas de forma tão intrinsicamente compreensíveis, quanto Divertida Mente ou Toy Story 3. O roteiro de Molina com Matthew Aldrich é, sim, uma viagem fascinante e respeitosa pela cultura mexicana, uma história povoada por personagens carismáticos que existem para afirmar um ponto positivo sobre criatividade, família e afeição.

Nada disso é excepcional da forma como esperamos que a Pixar seja, no entanto. O que eleva Viva de uma boa história familiar a um grande filme é o trabalho criativo que dá vida a um universo colorido e deslumbrante, mas também rico em passado e tradições, estupendamente idealizado e realizado, e que por isso é mais vívido, mais inextricável da memória, do que incialmente poderia parecer. A sensação de positividade que Viva, com sua bela música tema e seu final feliz, deixa com o subir dos créditos dura mais do que outros filmes com as mesmas qualidades, e foi o diferencial Pixar que criou isso – está na hora de realmente reconhecê-lo.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

6Corpo Elétrico (Brasil, 2017)
Direção: Marcelo Caetano
Roteiro: Marcelo Caetano, Gabriel Domingues, Hilton Lacerda
Elenco: Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ana Flavia Cavalcanti, Ronaldo Serruya, Marcia Pantera, Mc Linn da Quebrada
94 minutos

O “efeito novidade” pode fazer muito por um filme, mas não pode fazer tudo. Corpo Elétrico é uma novidade e tanto no cenário do cinema nacional – nunca antes vimos um retrato tão honesto e direto de uma juventude LGBT de classe média/baixa, que transita por um mundo genuinamente contemporâneo de aceitação, sim, mas também micro agressões homofóbicas e medo. No entanto, por mais que mantenha um tom observacional ao invés de calcar-se em uma trama prática e convencional de três atos, Corpo Elétrico nunca se escora completamente nessa novidade. Ao contrário, é um filme muito vívido, que existe para muito mais do que apenas mostrar o que nunca foi mostrado antes – sua observação, enfim, tem propósito e uma perspectiva única para comunicar ao espectador, e suas escolhas estéticas e de diálogo nos dizem tanto quanto o cenário no qual elas são feitas, e seu efeito na vida real, do outro lado da tela.

O protagonista é Elias (Kelner Macêdo), que mora sozinho em São Paulo e passa seu tempo trabalhando em uma fábrica de roupas, saindo com os amigos, ou pendulando entre um amante e outro. O filme de Caetano acompanha essa pendulação de perto, e com um olhar generoso para as fantasias de Elias, interpretado com natural sensualidade e incerteza por Macêdo, claramente borrando as linhas entre ator e personagem. Se o filme é sobre o seu “corpo elétrico”, sobre sua inquietude, Macêdo compõe um Elias cujo estilo de falar arrastado e gentil esconde uma ânsia de vida gigantesca, do tamanho do mar – ele é uma figura familiar, sem nunca perder por isso sua qualidade de personagem fascinante.

Nas margens de Elias (apenas para efeitos de narrativa), um grupo diverso de personagens, LGBTs ou não, que se movimentam de maneira única para dentro e para fora da vida íntima do protagonista. Impossível não destacar a efervescente Linn da Quebrada como Simplesmente Pantera, trazendo o ativismo irrestrito de sua música para o filme, e um senso de sexualidade desavergonhado que é encantador. Encantador como o todo de Corpo Elétrico, que nos submerge em seu mundo inexplorado com uma mistura bem dosada de ficção e realidade, uma narrativa estruturada por temas mais abstratos e ritmos mais intangíveis do que o cinema costuma exigir, especialmente no século XXI.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

7Sem Fôlego (Wonderstruck, EUA, 2017)
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Brian Selznick, baseado em seu próprio livro
Elenco: Millicent Simmonds, Julianne Moore, Cory Michael Smith, James Urbaniak, Damian Young, Oakes Fegley, Jaden Michael, Michelle Williams, Tom Noonan
116 minutos

Só Todd Haynes poderia ter feito Sem Fôlego. O livro de Brian Selznick, como de costume pouco afeito a adaptações, se transformou em um filme “difícil”, mas verdadeiramente encantador, especialmente pelo cuidado que seu diretor dispensa a cada elemento dele. No fundo, essa é uma história simples e esperta sobre família, memória e a forma como estamos todos ligados pela história dos lugares que frequentamos, como humanidade e como indivíduos. Haynes é o condutor de uma sinfonia afinadíssima em Sem Fôlego, que recompensa o espectador que viajar com ele para os lugares inesperados que pretende nos levar com a história de duas crianças, Rose (Millicent Simmonds) e Ben (Oakes Fegley) passando por jornadas similares ao fugirem de casa para Manhattan (EUA) na busca de pais ou mães distantes. A história de Rose se passa em 1927, é filmada em preto-e-branco e não faz uso do som, criando paralelo com a surdez da personagem; a de Ben se localiza em 1977, é feita em cores e não é muda, embora o jovem também seja parcialmente surdo.

Selznick adapta seu próprio livro sobre o encontro entre essas duas histórias com esmero e clara afeição pelo material, desenhando uma estrutura delicada que nem sempre funciona de forma cinemática da mesma forma que funcionava no âmbito literário. Essas deficiências, no entanto, são superadas por trabalhos francamente espetaculares de fotografia (Ed Lachman), design de produção (Mark Friedberg) e trilha sonora (Carter Burwell, em um trabalho que é pura obra prima), que criam um mundo tão palpável quanto lúdico para combinar com a obsessão do filme por museus, armários e manifestações artificiais da história natural.

Sem Fôlego é uma experiência ainda mais recompensadora graças aos dois protagonistas mirins – Fegley realiza um trabalho perfeitamente adorável e expressivo, mas Simmods em particular impressiona com uma atuação  que percorre um leque extenso de emoções com facilidade e carisma. A performance sentida da protagonista carrega até as partes menos envolventes de Sem Fôlego, que sofreria muito mais com as dores da difícil transição do livro para os cinemas se não fosse tão supremamente bem realizado em todos os sentidos. Resistir ao sono causado pelo estranhamento com o formato do filme, aqui, vale muito a pena.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

24 de mar de 2018

Diário de filmes do mês: Março/2018

Colagens1

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

1Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção e roteiro: Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Caleb Landry Jones, Kerry Condon, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Zeljko Ivanek, Amanda Warren, Peter Dinklage
115 minutos

Nos dias anteriores ao Oscar 2018, estava claro para qualquer um que acompanhasse a corrida que o prêmio de Melhor Filme iria para um de dois concorrentes: A Forma da Água ou Três Anúncios Para Um Crime. O primeiro levou, e não é difícil entender o porquê – para além de qualquer mérito artístico, Três Anúncios não ganhou o Oscar principal da noite porque é um filme que exige que uma conversa seja travada sobre ele. Mais do que isso, exige que o espectador o debata e se debata para “desembrulhá-lo”, em todas as suas camadas, com todas as suas sutilezas. Não é um filme perfeito, mas é inflamatório e inteligente na condição de sê-lo. Três Anúncios perdeu o Oscar porque não é Crash – No Limite, e nem quer ser – as soluções maniqueístas e fáceis do infame longa de Paul Haggis passam longe do de Martin McDonagh, e ainda bem que passam.

Três Anúncios é sobre pessoas terríveis fazendo coisas admiráveis, e sobre pessoas admiráveis fazendo coisas terríveis. É sobre a ira justificada de uma mãe que perdeu sua filha, a frustração compreensível de um xerife que parece ter feito tudo o possível para trazer justiça a ela, e sobre o preconceito virulento de um policial cujas ações são possibilitadas por um sistema tão cruel quanto ele. É também sobre as formas como essas pessoas tentam se conciliar com quem são, com o que sentem, com as partes menos justificadas de suas ações – ao contrário do que você vai ouvir por aí, Três Anúncios não pede que você perdoe ou admire ninguém, nem desenha arcos de redenção. É mais amargo, mais dolorido, e infinitamente melhor, do que isso.

Uma Frances McDormand monumental se ergue no centro do filme. O Oscar mais merecido de 2018 é aquele que foi parar nas mãos dela, que encarna aqui o papel que parece ter nascido para interpretar – uma versão mais ácida, mais melancólica, mais inconsequente e enormemente mais envolvente da persona que ela mesma apresenta ao público. A dor de Mildred se transforma na nossa porque temos a impressão de conhecê-la nas minúcias e na imbatível força de McDormand em tela. Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges e companhia são pouco mais do que performances que colorem ao redor da atriz principal, mas fazem seu trabalho com o gosto e a arte de grandes profissionais.

Três Anúncios mergulha em uma América média cheia de conflitos, e nos ajuda a mergulhar junto com uma fotografia (de Ben Davis) direta e dura, uma trilha sonora (do sempre magistral Carter Burwell) evocativa de faroestes revisionistas, uma direção sentida que não perde o olho para o humor negro de seus personagens e sua história. Como já dito mais acima, não é um filme perfeito – sua força, aquilo que o torna essencial, são justamente as imperfeições que, bravamente, criam um diálogo sem pedir desculpas por ele. Só por isso, merece as cinco estrelas.

✰✰✰✰✰ (5/5)

2Corra! (Get Out, Japão/EUA, 2017)
Direção e roteiro: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, Stephen Root, LilRel Howery
104 minutos

Por mais que estejamos em uma década excepcional para o filme de horror (Babadook, Corrente do Mal, A Bruxa), nós ainda não tínhamos visto um longa que capturasse o espírito do momento tão essencialmente quanto Corra!, estreia de Jordan Peele no gênero. Não à toa, Corra! se tornou a rara obra de terror indicada ao Oscar nas categorias principais, e há muitos fatores para indicar que ela deveria ter vencido o prêmio de Melhor Filme. Ela é sem dúvida o pedaço de cinema mais indispensável do ano passado, aquele pelo qual o ano de 2017 provavelmente será definido no futuro – uma fábula sombria, cruel e afiada que cutuca feridas explícitas e subliminares da sociedade contemporânea e seu racismo velado (ou nem tanto).

Peele é um talento e tanto no roteiro (premiado pela Academia) e na direção, brincando com convenções do gênero com a habilidade de um artesão apaixonado pelo filão em que transita. Corra! manipula o espectador com a trilha sonora (de Michael Abels), a mixagem de som, o design de produção (de Rusty Smith), a edição (de Gregory Plotkin), com Peele se posicionando como o mestre de marionetes que, visto que também assina o roteiro, é capaz de incluir detalhes, referências, discursos em profundidade que recompensam o espectador mais atento e mais versado em cinema ou mais próximo da questão social que ele aborda.

Como já apontado por tantos críticos por aí, a novidade de Corra! é que o racismo que Chris (Daniel Kaluuya) enfrenta na casa da namorada Rose (Allison Williams) é (mal-)disfarçado por um verniz de progressismo social – os vilões aqui são brancos liberais cosmopolitas, e não caipiras sujos armados de espingardas que usam epítetos raciais como vírgula. Sua crítica incomoda, empolga, revolta e mistifica o espectador (branco, ao menos) porque se refere a uma realidade contemporânea, e não uma história antiga de opressão – seu ato mais desafiador é mostrar de forma irrevogável como o passado mostrado em tantos outros filmes informa as interações raciais da atualidade.

Corra! é um feito de pura destreza cinematográfica, com um Daniel Kaluuya apropriadamente à flor da pele no centro de um elenco excepcional que constrói seus personagens com todos os traços certos de caricatura e verdade. É o tipo de discurso para o qual o cinema nasceu, e é o grande filme do ano passado.

✰✰✰✰✰ (5/5)

3Projeto Flórida (The Florida Project, EUA, 2017)
Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker, Chris Bergoch
Elenco: Brooklynn Prince, Christopher Rivera, Bria Vinaite, Willem Dafoe, Valeria Cotto, Mela Murder
111 minutos

O final de Projeto Flórida (spoilers mínimos a seguir) traz um pulo para a fantasia após quase 2 horas tanto de encanto infantil quanto de dura realidade, e Sean Baker sinaliza essa mudança brusca com uma mudança de formato – com a cinematógrafa Alexis Zabe, o cineasta retorna às cores saturadas e à fotografia de iPhone de seu longa anterior, Tangerina, filmado inteiramente com o aparelho. É uma escolha de tirar o fôlego, e tão passional quanto técnica, como muitas das outras que Baker toma durante o filme. A habilidade do diretor de casar uma imensa, quase esmagadora, empatia por seus personagens, com a linguagem cinematográfica incansavelmente criativa, e exponencialmente sofisticada com o passar de sua carreira, que o marca como um dos grandes talentos da atualidade.

Um talento que, diga-se, Holywood ainda não está pronta para celebrar. Só assim para entender a ausência em larga escala de Projeto Flórida nas premiações principais do ano – essa história de uma jovem mãe tentando criar a filha em um motel do estado americano do título, à sombra da Disneylândia, sem dúvida merecia reconhecimento como um dos pedaços de cinema essenciais de 2017. O mesmo vale para o esquecimento de Brooklynn Prince, em mais uma demonstração da relutância da Academia em reconhecer atuações infantis – sua Moonee é uma personagem cheia de reentrâncias. Ela é ridiculamente adorável, sim, mas é também uma demonstração profundamente sentida do poder que imagens da infância, com suas alegrias e melancolias inteiramente incluídas, tem no cinema.

Um Willem Dafoe precisamente sutil e cheio de coração escondido nos momentos mais inesperados completa o retrato caloroso que Projeto Flórida faz de personagens que raramente povoam produções de Hollywood. Se não bastasse a nobreza da missão de Baker, que tem feito essas “buscas sociais" pelos oprimidos em seus filmes há algum tempo, o longa resultado da exploração honesta das ações dessas pessoas é rigorosamente primoroso, inegavelmente tocante, e possui a rara habilidade de ficar com o espectador muito depois da chegada dos créditos. Quantas obras-primas o Sr. Baker terá que estregar para chegar onde merece?

✰✰✰✰✰ (5/5)

4O Artista do Desastre (The Disaster Artist, EUA, 2017)
Direção: James Franco
Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, baseados no livro de Greg Sestero, Tom Bissell
Elenco: Dave Franco, James Franco, Seth Rogen, Ari Gaynor, Alison Brie, Jacki Weaver, Paul Scheer, Zac Efron, Josh Hutcherson, June Diane Raphael, Megan Mullally, Jason Mantzoukas, Sharon Stone, Melanie Griffith, Bob Odenkirk, Tommy Wiseau
104 minutos

Para assistir O Artista do Desastre, antes me submeti a uma sessão de The Room, o filme de cuja produção este dirigido e estrelado por James Franco faz crônica. Considera o “pior filme do mundo”, o “Cidadão Kane dos filmes ruins”, The Room é hilariantemente, envolventemente terrível – a obra de Tommy Wiseau infringe regras tão básicas do cinema que as damos por garantidas mesmo nas piores atrocidades de Uwe Boll e Michael Bay. Ele tem o charme de uma obra que acredita em si mesma e em sua visão, ou não funcionaria como curiosamente funciona, e até escrever sobre ele traz um sorriso ao rosto. Totalmente sem querer, Wiseau criou com The Room uma celebração do ridículo, da ambição cega, um deboche das próprias regras que assumimos do nosso cinema.

Querer ver O Artista do Desastre é inevitável após assistir The Room. Com Franco irreconhecível no papel de Wiseau, o filme se baseia no livro de Greg Sestero, co-astro melhor amigo do diretor do “clássico”, e busca ao mesmo tempo desvendar e manter a aura de mistério ao redor dessa figura mítica que ele se tornou. Ninguém sabe ao certo de onde Wiseau é, quantos anos ele tem, de onde saiu todo o dinheiro para produzir The Room… O que sabemos é o que está na obra: a paranoia parcialmente justificada de rejeição, a visão de si mesmo que é quase adoravelmente divorciada da realidade, a tirania desmedida e egocêntrica. Wiseau não é nenhum anjo, e O Artista do Desastre é fascinante por não pintá-lo assim.

Como diretor, Franco faz um trabalho decente ao guiar um filme que busca se desprender das mesmas noções de grandeza de The Room – a fotografia (de Brendan Trost) é sempre próxima e calorosa, enquanto a edição (de Stacey Schroeder) não deixa escapar as deliciosas gotas de ridículo dessa história fascinantemente, inacreditavelmente real. Como astro, Franco cria um Wiseau que faz por merecer o exame minucioso que muitos espectadores fascinados por The Room sem dúvida lançarão para sua representação aqui. As performances de Franco jamais podem ser classificadas como sutis, mas aqui ele encontra um personagem que se presta à sua marca particular de exagero inadequado.

Assistir O Artista do Desastre não desmistifica a experiência de The Room, ainda bem. É uma peça complementar interessante, mas que certamente não cava um lugar tão único no panteão do cinema quanto o filme que tenta destrinchar.

✰✰✰✰ (4/5)

5Tomb Raider: A Origem (Tomb Raider, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção: Roar Uthaug
Roteiro: Geneva Robertson-Dworet, Alastair Siddons
Elenco: Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins, Daniel Wu, Kristin Scott Thomas, Derek Jacobi, Hannah John-Kamen
118 minutos

Desde sua estreia durante os anos 1990, a parte desafiadora e envolvente dos games de Lara Croft/Tomb Raider sempre foi a aventura intrépida, os feitos físicos e a essencial solidão da protagonista. É verdade que é impossível (pelo menos nas amarras de um grande estúdio de Hollywood) fazer um filme do porte de Tomb Raider: A Origem que consistisse inteiramente de Lara invadindo sozinha uma tumba recheada de animais selvagens, armadilhas e desafios logísticos, mas o longa estrelado por Alicia Vikander vai muito radicalmente para a direção oposta ao invés de buscar uma conexão com o material de origem. Isso não seria nenhum pecado se Tomb Raider: A Origem substituísse o charme do original por uma trama bem costurada, personagens coadjuvantes carismáticos, ou um vilão convincente. Infelizmente, ele não faz nada disso.

Os roteiristas Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons procuram um equilíbrio entre trama e cenas de ação, mas erram fatalmente ao basear a primeira em preceitos básicos entediantes e a segunda em premissas mirabolantes. Tomb Raider: A Origem seria melhor se fosse justamente o contrário – um filme de ação direto, que focasse com mais gosto na autoconfiança física e emocional de sua protagonista, e a introduzisse a um mundo construído em pautas mais criativas. Da forma como está, ele nos apresenta uma Lara Croft vacilante, salva múltiplas vezes pelos homens ao seu redor, mas que ao mesmo tempo não passa por arco de personagem algum durante o filme.

Interpretar essa cifra de protagonista é missão difícil para Alicia Vikander, que impressionantemente consegue injetar uma personalidade vencedora nessa nova Croft, sublinhando na interpretação todos os traços que o roteiro teima em esconder, ignorar ou disfarçar. Em palavras mais claras, Tomb Raider: A Origem tem uma estrela que merecia um filme melhor, e até um diretor (o norueguês Roar Uthaug) com sério acúmen para ação que merecia um cenário mais carismático e convincente no qual brincar. Fica para a próxima, Hollywood.

✰✰ (1,5/5)

6Extraordinário (Wonder, EUA/Hong Kong, 2017)
Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Stephen Chbosky, Steve Conrad, Jack Thorne, baseados no livro de R.J. Palacio
Elenco: Jacob Tremblay, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Julia Roberts, Mandy Patinkin, Noah Jupe, Daveed Diggs, Elle McKinnon, Danielle Rose Russell
113 minutos

Extraordinário é dirigido e coescrito por Stephen Chbosky, o homem responsável tanto pelo livro As Vantagens de Ser Invisível quanto pelo filme que o adaptou. Saber disso talvez ilumine para alguns a sensação curiosa de familiaridade na narrativa, tirada do livro best-seller de R.J. Palacio sobre um garoto com deformidade facial encontrando as dificuldades da vida escolar pela primeira vez. Em grande medida, como As Vantagens de Ser Invisível, o novo Extraordinário não tem receio de manipular as emoções do espectador para passar sua mensagem, nem de lançar mão de recursos óbvios e batidos para isso – e, ainda assim, ele funciona espetacularmente bem porque esconde por baixa dessa obviedade uma corrente de pensamento tão positiva, e tão essencial para o mundo de hoje, que não nos importamos.

Os 113 minutos de Extraordinário são guiados com sensibilidade exemplar pelo eterno otimista Chbosky. Como cineasta e como roteirista, ele não se esquiva das partes mais difíceis do seu material, mantendo uma linguagem direta e identificável para espectadores infanto-juvenis, enquanto presenteia adultos com uma estrutura agradavelmente complexa em que mergulhamos em mundos diferentes, com profundidades diferentes, a cada ato da história. É verdade que o filme sinaliza essas mudanças de perspectiva com títulos enormes na tela, mas é preciso perdoar a falta de sutileza de um filme que demonstra tanta compaixão e empatia em um mundo tão desprovido dela.

No coração de Extraordinário, um astro mirim que merece esse mesmo adjetivo: na pele de Auggie, Jacob Tremblay demonstra a mesma habilidade para expressar emoções intensas em expressões certeiras que revelou em O Quarto de Jack. Cercado por Julia Roberts e Owen Wilson em piloto automático, mas invariavelmente impossíveis de odiar, Tremblay conduz os momentos mais manipulativos de Extraordinário com o carisma e a gravidade de um ator muito mais experiente, mas o charme inimitável de uma criança de 12 anos se divertindo à beça. É um prazer assisti-lo, e fica difícil colocar defeito no filme que o coloca sob os holofotes.

✰✰✰✰ (4/5)

7O Destino de Uma Nação (Darkest Hour, EUA/Inglaterra, 2017)
Direção: Joe Wright
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Lily James, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Nicholas Jones, Samuel West
125 minutos

Eu sou um grande fã de Joe Wright, como não deve ser mais segredo para ninguém que lê O Anagrama. O que as melhores obras do cineasta britânico falham em sutileza, elas acertam em instinto, técnica e humanidade extravagante. Orgulho & Preconceito, Desejo e Reparação, Anna Karenina, até O Solista… Wright mostra no novo O Destino de Uma Nação a mesmíssima maestria estética de suas obras anteriores, e não lhe falta nem um pouco da coragem narrativa tampouco – o que “breca” do filme de ser tão bom quanto poderia ser só tem um nome: Gary Oldman, que inexplicavelmente venceu o Oscar de Melhor Ator por sua performance histriônica, estridente e superficial como Winston Churchill.

O lendário primeiro-ministro britânico é retratado aqui durante a crise de Dunkirk (vista por outro ângulo no filme de mesmo nome, de Christopher Nolan), e o roteiro de Anthony McCarten o cria como essa figura icônica para desfazê-lo desse mesmo status e mostrar tanto sua fragilidade e sua senilidade quanto seu domínio absoluto das influências, do pulso cultural e do espírito nacional do país que governa. McCarten talvez admire demais o seu protagonista para desconstruí-lo como Peter Morgan magnificamente fez em The Crown, mas na série da Netflix o roteirista teve também a ajuda de um John Lithgow que capturou tanto os maneirismos quanto as motivações e humanidades por trás deles. Oldman não o faz em O Destino de Uma Nação, criando um Churchill histérico e antagônico sem nem sombra das justaposição de arrogância e sacrifício que assombrava o de Lithgow – e, a tempo, não se trata de uma comparação direta entre atuações diferentes, mas sim da constatação de que um ator buscou interpretar um ser humano, e outro só buscou imitá-lo.

O lamentável é que Oldman seja uma presença tão obliterante em filme cheio de virtudes que nada tem a ver com ele – mesmo no elenco, gente como Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn e Stephen Dillane criam personagens secundários vívidos que parecem existir em outra órbita de humanidade e, muitas vezes, fazem com que o espectador deseje que o filme fosse mais centrado neles; uma fotografia (de Bruno Delbonnell) e um design de produção (de Sarah Greenwood) sofisticados completam o pacote de um filme que prova mais uma vez o talento coesivo de Wright como cineasta, mas é bloqueado na estrada para a grandeza por seu protagonista.

✰✰✰ (3/5)

10 de mar de 2018

Os 15 melhores álbuns de 2017

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Olha só quem chegou ligeiramente menos atrasado nesse ano! O Anagrama quebrou o tabu dos anos anteriores e elaborou a lista mais completa e mais maravilhosa de melhores discos do ano antes do fim de março (é brincadeira, gente!). Confira abaixo as nossas escolhas, com textos maravilhosos dos nossos colaboradores refletindo sobre mais um ano fenomenal no mundo da música.

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Relaxer
(alt-J)
Lançamento: 2 de junho
Selo: Infectious/Atlantic
Produção: Charlie Andrew
Duração: 38m59s

por Caio Coletti  

Há poucas coisas mais contemporâneas no cenário musical atual do que a eterna busca por autenticidade dentro do artificial que desenha a carreira dos britânicos do alt-J. Uma das bandas indie mais perenemente surpreendentes e intrigantes do nosso tempo retornou com Relaxer, que, por todas as suas oscilações, faz jus ao nome – é um disco de fácil audição, que esconde sua riqueza de detalhes por baixo de um exterior suave e inteligente, de forma que ela talvez só fique aparente na segunda ou terceira vez que você ouví-lo de ponta a ponta casualmente, enquanto trabalha ou faz qualquer outra coisa do seu dia a dia. O trio principal do alt-J, formado por Joe Newman (guitarra, baixo, vocais), Thom Sonny-Green (bateria) e Gus Unger-Hamilton (teclado, vocais), se encaixa naquele estereótipo de jovens adultos com atenção dispersa e mente superativa, e isso se reflete na música – Relaxer é um ensopado de referências, inserções instrumentais inesperadas, sentimentos espalhados e oscilantes pelas letras narrativas e oblíquas assinadas juntamente pelos três integrantes.

Exemplo primário: o single “In Cold Blood” (abaixo), que conjura uma sessão de sopros no refrão para incrementar sua estranha história em staccato sobre uma festa na piscina que se transforma em uma cena de crime. Quer mais um? Em “Hit Me Like a Snare”, Newman “calibra” seu vocal com o discurso decadente dos cantores do punk setentista para resmungar a maliciosa história de um homem visitando um hotel de sexo e usando uma longa frase em japonês como “palavra de segurança”. Já em “Adeline”, o alt-J empresta ressonância emocional de um sample da trilha de Além da Linha Vermelha, escrita por Hans Zimmer, e transforma o lamento de um demônio da tasmânia apaixonado por uma nadadora humana (é sério!) em um conto surpreendentemente tocante com sua metáfora simples.

Nem todas as ideias musicais do alt-J são proposições ridículas que só funcionam espetacularmente por causa do talento de quem as executa, no entanto. Na sublime versão de “House of the Rising Sun”, a banda grava 20 guitarristas clássicos dedilhando a canção folk ao mesmo tempo, criando uma sensação acústica profundamente humana que combina com os novos versos que a banda adiciona à faixa, suportando a história de uma família despedaçada pelo vício em jogos do pai. Em “Pleader”, que fecha o disco, o coral e o órgão da Ely Cathedral, em Cambridgeshire (Inglaterra), se integram à melodia que remete a canções sacras e aos interlúdios banhados em guitarra espanhola, uma mistura que só o alt-J poderia imaginar para uma canção nostálgica por dias mais simples.

Em meio a todas essas referências saídas de Deus sabe onde, o alt-J ainda é uma banda indie marcantemente contemporânea, inserindo sintetizados e pacotes de cordas inesperados em todo o canto, mas recorrendo ao bom e velho folk de violão quando é hora de fechar (emocionalmente) o disco, com a meditativa e mórbida “Last Year”. É aqui que a busca do alt-J pela autenticidade crua de outras eras musicais se casa melhor com suas ambições alternativas e experimentais, conjurando um folk-pop essencial para entender o espírito musical da nossa geração. 

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MASSEDUCTION
(St. Vincent)
Lançamento: 13 de outubro
Selo: Loma Vista
Produção: Jack Antonoff, St. Vincent, Lars Stalfors, John Congleton
Duração: 41m36s

por Caio Coletti

Há poucos álbuns que se prestam menos a uma crítica acadêmica do MASSEDUCTION, a quinta gravação de estúdio de Annie Clark sob o pseudônimo de St. Vincent. Sua inspiração é tão pura, e suas influências reveladas de forma tão cândida e sem alarde que ele é capaz de desconcertar até o jornalista de música mais experiente (que dirá este que vos fala!). Em MASSEDUCTION, Clark é uma “dominatrix do santório”, como ela mesma definiu ao falar da influência de arquétipos narrativos em sua obra – e enquanto cada uma das faixas introduzem ideias espetacularmente inesperadas, essa personagem da artista (que, como sempre no mundo pop, representa, paradoxalmente, muito do seu eu autêntico) surge para emprestar coesão e essência ao disco. Em 13 faixas, St. Vincent é a rainha das roqueiras alternativas, uma clone mais perturbada de Kylie Minogue, uma artesã do dream-pop sintetizado, uma poetisa da decadência ao piano, e muito mais. Tudo isso sem nunca parecer nada além de uma artista em busca da expressão mais verdadeira de si.

Em muitos momentos, aliás, ela é tudo isso que eu descrevi acima na mesma música. “Pills” é o primeiro exemplo que vem à cabeça – a canção é um deleite pop mordaz levado pela batida, com um refrão que se assemelha a um jingle publicitário (cantado pela modelo Cara Delevingne, ex de St. Vincent), até a sessão final, onde Clark e os coprodutores Jack Antonoff e John Confleton introduzem um improvável interlúdio melódico acompanhado por guitarras distorcidas e cordas, que evoca os momentos mais melodramáticos de David Bowie. A canção título, “Masseduction”, vem logo depois para quebrar completamente com essa impressão, como infalivelmente o disco faz a cada troca de faixa – aqui é que a influência de Kylie aparece mais marcada, com seu refrão repetitivo e seu instrumental que mistura batida eletrônica com intervenções pontuadas de guitarra. É uma música que não estaria fora de lugar no X, disco de Kylie de 2007.

Pouco depois, no single “Los Ageless” (ouça abaixo), Clark mostra todas as suas facetas de uma vez – a mistura é explosiva, com o apelo pop inegável dos ganchos da melodia dos versos se misturando à decadência progressiva das guitarras no refrão e a um interlúdio gritado na sessão central. É o primeiro sinal que MASSEDUCTION não é só um álbum incrivelmente variado e inteligente, como também um tomo de honestidade social, um tratado honesto, afiado e constantemente niilista sobre os nossos impulsos mais básicos (e menos agradáveis) como humanos. St. Vincent passeia por fantasias sexuais e metáforas religiosas na cadenciada “Savior”, mas essa é só a superfície de sua sentença, a provocação pop pintada por cima de um delírio lúcido sobre seduções sociais e o mal que elas podem fazer para um indivíduo.

Essa reflexão é amarrada com o triplo soco no estômago que compõe o final do álbum: as devastadoras “Young Lover”, “Slow Disco” e “Smoking Section” fazem crônica de um relacionamento assombrado por dependência química e psicológica, mas rimam com o disco de forma a representar a visão de St. Vincent sobre a vida em sociedade, suas desesperanças e suas belezas. Enquanto “Young Lover” é levada por gritos e baques percussivos, as outras duas diminuem a intensidade para introduzir reflexões profundas – “Slow Disco” vê a vida como “a slow dance to death” (“uma dança lenta para a morte”), enquanto a autodepreciativa “Smoking Section” termina em uma nota curiosamente esperançosa com os versos “What could be better than love?/ It’s not the end” (“O que pode ser melhor que o amor/ Não é o fim”).

Grandes obras de arte são capazes de casar o opressivo peso do cotidiano, suas hipocrisias e tentações, com a aspiração maior que é própria da narrativa, do espírito e da natureza humana. MASSEDUCTION nunca é menos do que uma obra de arte.

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The Architect
(Paloma Faith)
Lançamento: 17 de novembro
Selo: RCA/Epic
Produção: Paloma Faith, Jesse Shatkin, Starsmith, TMS, Klas Ahlund, Eg White, James Reynolds, Sam Klempner, Jonathan Green, Ghostwriter, Samuel Dixon, Empre Ramazanoglu, Arnbor Birgisson, Jamie Hartman, Knox Brown, Thomas Brenneck, Homer Steinweiss
Duração: 48m42s

por Caio Coletti

Se você quer prova de que Paloma Faith é uma grande vocalista, não procure além de “Still Around”, uma das faixas mais marcantes do seu quarto disco de estúdio, The Architect. Aqui, a normalmente poderosa Faith contem a voz colossal em tons lânguidos, passeando pelos graves e pelas extensões cristalinas de agudos suaves até o refrão, onde deixa o timbre ardido (no melhor dos sentidos) voar para criar uma pérola de blues que ainda é inseparavelmente contemporânea. Tudo só com a voz – a linha de piano deliciosa da faixa é mera coadjuvante aqui. O que é mais impressionante sobre Faith e seus álbuns, no entanto, é que essa voz extraordinária não é o único instrumento que ela domina perfeitamente como artista.

Não estou falando de instrumentos físicos, mas instrumentos de expressão. Com crédito de composição em 14 das 15 canções do The Architect, e de produção em quatro delas, a britânica cria uma obra que é espetacularmente precisa tanto no sentimento que quer passar quanto na estrutura que usa para passá-lo. Todas as canções do The Architect seguem um desenho minucioso de verso-refrão-verso-refrão-ponte-refrão, em durações que raramente passam dos 4 minutos, mas poucas vezes ficam abaixo dos 3:30. Seu instrumental é imediatamente identificável para fãs do soul pop da cantora, mas ainda ligeiramente modificado para conter as multidões de angústias desse disco em específico. The Architect é a obra de uma artista verdadeira.

Essa verdade aparece nas letras diretas e honestas, mas que ainda assim buscam expressar algo mais profundo do que parece. “Crybaby” e “I’ll Be Gentle” (com John Legend) advogam, em solo e dueto, por uma masculinidade mais vulnerável para construir um mundo mais pacífico – é uma mensagem íntima que se transforma em universal, política. “Kings and Queens” e “Lost and Lonely” falam da glória de uma juventude contemporânea perdida e dos aspectos mais patéticos dela, quando olhados do ponto de vista da experiência, mas clamam também por compreensão dos machucados dessa juventude. “’Till I’m Done” e “WW3” parecem aludir à libertação de padrões violentos, noções onerosas de amor e paixão; e por aí vai.

O significado desses temas é unificado pelos três interlúdios do disco – em “Evolution”, Samuel L. Jackson fala sobre tomar controle de nossas próprias vidas e impelir o mundo ao nosso redor a um novo paradigma; em “Politics of Hope”, Owen Jones faz o mapa das motivações e justificativas de um grupo muito ironizado nessa era da internet, os justiceiros sociais; e em “Pawns”, o trio Baby, Nym & Janelle dá a perspectiva de como um grupo marginalizado se sente com a inclusão hipócrita de uma parte desses justiceiros sociais.

As 15 faixas luxuosas de The Architect passeiam entre guitarras quentes (“Lost and Lonely”), filtros de voz inesperados (“Warrior”, composta por Sia), sintetizadores e cordas que remetem a uma releitura contemporânea da música disco muito mais inspirada do que a de outros artistas que tentaram fazer o mesmo (“Kings and Queens”, “’Till I’m Done”)… É uma experiência musical cheia de repertório, propósito, e o talento necessário para cumpri-lo. Tudo culmina na muscular “Love Me As I Am”, que sintetiza um álbum sobre aceitação, compaixão e a vontade incessante de entender o outro e o mundo que o formou.

Poucos artistas atualmente sabem contar uma história com a paciência e o esmero que ela demanda, e precisamos apreciá-los. Paloma Faith é um deles.

gorillaz12)
Humanz
(Gorillaz)
Lançamento: 28 de abril
Selo: Parlophone/Warner
Produção: Gorillaz, The Twilite Tone, Remi Kabaka Jr, Fraser T Smith
Duração: 49m19s

por Nathalia Nasser

Depois de um intervalo de seis anos fortemente sentido pela indústria, Damon Albarn e Jamie Hewlett injetaram uma dose de caos no mundo da música.

Mais ingleses do que os Beatles, a dupla fez do Gorillaz uma banda americana: dos Estados Unidos e bem aceita pelos norte americanos. Não por menos, o Humanz nasceu de uma das grandes tragédias mundiais e distópicas dos últimos tempos: Donald Trump eleito presidente dos Estados Unidos da América. Uma catástrofe política, social, que resume o álbum em uma playlist feita para o fim do mundo.

Em um momento em que muitos dos grandes artistas pop têm trazido seus álbuns mais como playlists do que como conceito, o epicentro do Humanz foi objetivo. Albarn selecionou as parcerias desejadas para o disco e deu aos músicos uma tarefa: a de imaginar nos EUA no pior cenário possível que poderia acontecer - e aconteceu. Como eles se sentiriam na noite da eleição de Trump? Desse ponto de partida, a construção do Humanz se baseou somente nisso: em fazer um disco sobre o mundo caminhando para um cenário caótico.

O disco é mais uma compilação de faixas bem produzidas e colecionadas do que um álbum coerente. A tentativa de trazer uniformidade à playlist-de-fim-do-mundo são as 6 (!) interludes que trazem referências ao filme A Vida de Brian (1979) e ao clássico disco London Calling (The Clash, 1979). Talvez a junção dessas lâminas de arte que tratavam também de um cenário caótico foram o nó dos pontos dados ao longo das 26 faixas do álbum.

“Ascencion” abre o álbum com Vince Staples numa batida apocalíptica que decola o disco em um nível já alto de velocidade. Com um tom crítico sutil, mas perceptível, Staples ironiza “This the land of the free/ Where you can get a glock and a gram for the cheap/ Where you can live your dreams long as you don't look like me/ Be a puppet on a string hangin' from a fuckin' tree” (“Essa terra é a terra dos livres/ Onde você pode comprar uma arma e uma droga baratas/ Onde você pode viver seu sonhos, a não ser que se pareça comigo/ Seja um boneco pendurado por uma corda, enforcado na árvore”).

Lançada um dia antes da posse de Trump e talvez o momento mais emocionante do álbum, “Hallelujah Money” marca a primeira parceria do cantor inglês Benjamin Clementine com a banda. Os tons vocais de gospel e a batida eletrônica típica do Gorillaz formam a embalagem perfeita para uma letra fortemente crítica e política que ironiza a celebração do dinheiro e discute a construção de muros entre países, num momento de sensibilidade e delicadeza social.

Ao criar um álbum que se desloca rapidamente entre vocalistas, gêneros e tempos, o Gorillaz avançou em suas habilidades pop digitais sem perder qualidade. Peven Everett, D.R.A.M, De La Soul, Danny Brown, Pusha T e Carly Simon: Albarn buscou, como sempre, no mais longe e no mais perto do que lhe parece fazer sentido na música atual.

Em sua gigante pluralidade, o Humanz chega no seu momento final, em “We Got The Power” com uma mensagem emocional e saudosa para os que acompanham Albarn desde os primórdios, na era do britpop. Numa dose de otimismo e bandeira branca, o inglês se junta a Noel Gallagher (Oasis) e Jehnny Beth (Savages) para cantar “We got the power to be loving each other no matter what happens/ We got the power to do that” (“Tempos o poder para amar uns aos outros não importa o que aconteça/ Temos o poder para fazer isso”. Liam Gallagher se revirou em algum lugar da Inglaterra.

Das faixas essenciais, “Andromeda” (com D.R.A.M), “Busted and Blue” (balada solo de Albarn) e “Let Me Out” (com Mavis Staples e Pusha T) estão entre as que não podem ser ouvidas somente uma vez.

A última coisa que Humanz sugere é qualquer tipo de declínio na inspiração da dupla por trás do disco. Pelo contrário, suas ideias são tantas e tão grandes que foram precisos mais de 20 artistas colaboradores para que a abrangência delas pudessem fazer sentido. O disco é menos sobre o que o Gorillaz foi nos últimos quase 20 anos e mais sobre o futuro para o qual se encaminha.

Para uma banda que existe unicamente através da tecnologia, não existia momento melhor para a volta do Gorillaz, que criou um strobo de músicas que piscam em alta velocidade e conseguiram fazer do caos uma festa agradável.

drake11)
More Life
(Drake)
Lançamento: 18 de março
Selo: OVO Sound/Young Money/Cash Money/Republic
Produção: Drake, Olivier El-Khatib, 40, Allen Ritter, Akira Woodgrain, Boi-1da, Charlie Handsome, Chef Pasquale, Cubeatz, Deejae, FrancisGotHeat, Frank Dukes, G. Ry, Hagler, iBeatz,Jazzfeezy, Kanye West, M3rge, Murda Beatz, Nabeyin, Nana Rogues, Nineteen85, Noah Goldstein, Ness, PatryNextDoor, S1, Steve Samson, Stwo, Supah Mario, Top FLR, T-Minus, Vinylz, Wallis Lane
Duração: 81m42s

por Andressa Cruz

Desde If You're Reading This It's Too Late (2015), Drake vinha de lançamentos musicais anuais. Ele foi um dos artistas que mais entendeu a dinâmica do streaming e a importância de se manter em relevância. More Life nasceu sob o conceito de playlist, reunindo 22 faixas e sendo lançado primeiramente nas plataformas digitais. Com os singles "Fake Love" (abaixo), "Passionfruit”, "Free Smoke", "Portland" e "Glow", a playlist teve uma boa recepção pela crítica e quebrou vários recordes de streaming, mostrando que Drake sabe como lançar música na era digital.

O "álbum" pode parecer desconexo, mas a vida não é assim? Em cada momento necessitamos de uma música que dialogue com ele, e Drake, em entrevista para a Complex, disse que sua "intenção em criar uma playlist era entregar uma coleção de músicas que se tornam a trilha sonora da sua vida". Então, More Life nos trouxe diversos gêneros um único lugar: afrobeat, dancehall, hip-hop, R&B, entre outros. A diversidade não para nos estilos musicais e Drake explora diferentes colaborações, produtoras e estúdios.

More Life traz a mesma fórmula usada pelo artista desde Nothing Was The Same: rimas, diversos samples e vozes emprestadas dos artistas que colaboram com ele. E, assim como em Views, o pop e dancehall se faz presente no trabalho. Se em DAMN., Kendrick Lamar conta uma história através de um conceito, Drake não tem essa pretensão em More Life. As músicas nada mais são que ideias, atos isolados formando um conjunto.

Sabe aquele serviço de curadoria que fazemos ao selecionar canções para determinada playlist? Podemos identificar isso por aqui. Drake escolhe bem os artistas para dar corpo ao seu trabalho e traz nomes como Jorja Smith, Kanye West, Sampha, Travis Scott, PARTYNEXTDOOR, Skepta e até a atriz Zöe Kravitz para fazer parte de More Life.

Os grandes destaques da coletânea são a sentimental "Teenage Fever”, "Glow", "4422" e a chiclete "Passionfruit". Os samples marcantes são uma característica dos trabalhos de Drake e podemos ouvir inserções instrumentais de J.Lo, Lionel Richie, Hiatus Kaiyote e Earth, Wind & Fire. em suas composições, Drake traz versos intimistas sobre relacionamentos e conflitos pessoais, tornando More Life uma playlist acessível ao público.

fjm

10)
Pure Comedy
(Father John Misty)
Lançamento: 07 de abril
Selo: Bella Union/Sub Pop
Produção: Jonathan Wilson, Father John Misty
Duração: 74m17s

por Nathalia Nasser

Ao criar um mundo paralelo dentro de um universo completamente real, Josh Tillman ultrapassou algumas linhas impostas no pop barroco e triunfou nas composições no seu terceiro álbum solo.

Depois de conquistar corações com I Love You, Honeybear, Tillman abraçou toda a sua inquietude. Pure Comedy vem com promessas anunciadas e mais do que cumpridas- talvez sua primeira grande oportunidade de confrontar de frente o pop.

Tillman reduziu o ser humano a uma espécie quase animal e discutiu ao longo de 13 faixas a bizarra capacidade humana de construir significado onde não existe ao tentar ressignificar a existência monótona e vulnerável. Dois takes por música foram o suficiente para um álbum primoroso nas mãos de Father John Misty, um neurótico apocalíptico que passa longe de qualquer tipo de humildade e quase implora por arte em cada acorde. Na primeira faixa (abaixo), que carrega o nome do álbum, os seis minutos de música discorrem sobre o nascimento da política e ironizam a instituição das religiões: “The religions are the best.” A letra crítica e impaciente é envolvida por um arranjo cru e sofisticado ao mesmo tempo.

“Can we recommend some similar artists?/ This is totally the song of my summer /Are you feeling depressed?/ This guy just gets me/ But your feedback's important to us” (“Podemos recomendar artistas similares?/ Essa é totalmente a minha música do verão/ Você está deprimido?/ Esse cara me entende/ O seu retorno é importante para nós”). “The Memo” são cinco minutos de completa insatisfação nada disfarçada. O piano parece existir estritamente para acompanhar o quase protesto e a composição agressiva atinge todo o sistema com um vocal gentil e uma personalidade artificial ilustrando um estilo de vida nada saudável.

“Ballad of the Dying Man” é uma balada trágica, por assim dizer. Aqui, a persona de Tillman se mostra exatamente como é: patético, crítico, genioso. Um dos pontos altos do álbum, a faixa é envolvente e bem produzida: corais qualificados, um piano agradável e um arranjo notável.

O disco transita entre revolta crua e um humor invejável. Em “Leaving LA”, faixa quase declamada, Tillman desce do púlpito em que se colocou até então, “Oh great, that's just what we all need/ Another white guy in 2017/ Who takes himself so goddamn seriously” (“Ah, que ótimo, é disso que precisamos/ Mais um cara branco em 2017/ Que se leva tão malditamente a sério”), assumindo uma insignificância citada incansavelmente durante todo o álbum.

“When The God of Love Returns There’ll Be Hell to Pay” é facilmente uma de suas canções mais corajosas e enfrenta questionamentos atormentadores diretamente com Deus, sem rastro de medo ou submissão: “You must know the first thing about human beings, we’re the Earth most soulful predator, try something less ambitious the next time you get bored” (“Você precisa saber a primeira coisa sobre os seres humanos, nós somos os predadores mais cheios de alma da Terra, tente algo menos ambicioso da próxima vez que ficar entediado”).

Tillman não fez questão de esconder seus problemas com a depressão e como um pensamento quase niilista foi a saída - mesmo que temporária - possível nesse momento. Só mesmo no final do álbum, em “In Twenty Years or So”, o cantor permite-se despir em sentimentalismo através da melodia, carregada por um piano robusto e sofisticado, e afirma - por meio de um vocal impecável e um falsete muito bem colocado: “It’s a miracle to be here alive/ One more time/ There’s nothing to fear” (“É um milagre estar aqui vivo/ Mais uma vez/ Não há nada para temer”).

Talvez o grande trunfo de Pure Comedy seja mesmo a capacidade de Josh Tillman em soar tão agradável enquanto está sendo crítico e desconfortante. O violão e pianos bem pontuados e a produção - que ainda soa como um despretensioso instrumentista em Los Angeles na década de 70 - são uma soma com um resultado positivo e, no mínimo, agradável. É preciso somente um passo a frente para que o desconforto seja sentido.

Desafortunados os que escolheram apreciar de fato a arte de Josh Tillman. Pure Comedy conceitua uma crítica inabalável sobre a humanidade vista de um lugar frio, embalada em um pacote delicado e gentil.

the 1st

9)
The 1st
(Willow)
Lançamento: 31 de outubro
Selo: Roc Nation
Produção: Blood Orange, Willow Smith
Duração: 34m

por Gabryel Previtale

No Halloween de 2017, 31 de outubro, Willow Smith, que comemorava seu aniversário de 17 anos, decidiu lançar esse seu segundo álbum de estúdio, The 1st. Composto por 11 faixas, o LP é bem possivelmente um mergulho mais aprofundado dos temas tratados no seu primeiro disco, o ARDIPITHECUS (2015), mas dessa vez lançando mão de mais experimentações e novos estilos que o tornam complexo musicalmente, já que este trabalho por exemplo não tem sessões muito bem definidas e nem uma linearidade instrumental e sonora. Digamos que as faixas não são construídas com o instrumental de uma banda, por exemplo - as canções são colocadas tendo a voz da Willow como instrumento principal e, portanto, daí a construção em volta dos vocais, mesclando instrumentação e voz. É uma coisa que a jovem cantora já costumava fazer, principalmente nas suas apresentações ao vivo, onde ela explora e brinca com as vibrações e melodias da sua voz em meio ao background de instrumentos.

É perceptível a evolução da cantora dos últimos projetos para esse mais recente. Não sei se foi proposital, mas chamar esse álbum de The 1st faz parecer que esse, sim, é o primeiro trabalho que exprime o paladar de Willow e sua bagagem musical ao longo desses anos em que já esteve inserida (desde muito cedo) no meio musical. Parece que é o primeiro em que ela coloca sua identidade musical de uma maneira mais séria - claro que o disco trata em sua maioria das faixas de amor, paixão da adolescência, sentimentos, ansiedade, mas também traz um pé em críticas sociais, e até um pouco de raiva em certos vocais. Esse ar juvenil de estudante de filosofia, os arranjos elegantes e o instrumental acústico fazem o CD ser muito bom de ouvir e apreciar. Sabemos que Willow já passeou por vários ritmos: pop, hip hop, eletro e agora folk, mas isso é totalmente compreensível já que a cantora ainda é uma adolescente e está na fase de experimentações e mudanças - amamos quando um artista se renova e traz sempre uma nova tentativa de se reinventar. É de se pensar que tudo que havia de “errado” com seu primeiro LP, The 1st veio consertando, porque o mais genial de todo o trabalho é que apesar de se tratar de temas de adolescentes, as faixas conseguem ser bem maduras e concisas.

O álbum abre com “Boy”, e já percebemos violinos e uma voz intimista, com pouco volume, porém firme e presente. É uma faixa que dá o tom do que está por vir, são compartilhamentos de histórias e segredos que ela nos convida a conhecer e fazer parte, nos contando seus sentimentos. Essa faixa tem um tom doce e os violinos mesclaram muito bem com todo o resto. Em seguida nós temos um interlúdio, “An Awkward Life of an Awkward Girl” , sem letra, apenas uma orquestra conduzida por um piano clássico, que faz com que o disco não tenha essas sessões muito bem dividas de que falei anteriormente. É algo que pode causar certo estranhamento, mas nada que vá interferir de modo negativo no resultado final.

Indo mais para o miolo do projeto, temos “Warm Honey” (abaixo), que é o álbum resumido em uma faixa - é a essência desse todo, é uma faixa doce e leve, dos mesmos assuntos tratados, mas ao mesmo tempo séria, madura, nostálgica e até filosófica. O instrumental já é uma guitarra com bateria que me lembrou referencias do ANTI, da Rihanna. “Oh no!!!!” é uma faixa muito boa, com colaboração de Dev Hynes, puxando mais pro eletro e os vocais soando inegavelmente como Lorde, até o estilo com o qual a música foi construída.

Por fim, o CD termina com “Romance”, a faixa mais agressiva do álbum, com vocais e notas mais altas e extensas. É uma música sobre reflexão do amor na sociedade, traz mais questões de gênero e liberdade social, com muita critica, mas também uma música com um peso super relevante para o projeto, deixando o CD mais dinâmico e com mais nuances do que só um amor juvenil. Em resumo, é o projeto mais completo lançado por Willow, muito bem construído melodicamente, bem pensado e de muito bom gosto, principalmente no uso dos instrumentais. Por outro lado, não acho que é todo mundo que vai se identificar com a mensagem do projeto, é musicalmente complexo e exige uma mente mais aberta para desfrutar das nuances de Willow como artista, mas realmente vale a pena dar uma chance para o mundo dessa jovem cantora que amadurece a cada trabalho.

9 juli

8)
Lua Full
(Juliana Kehl)
Lançamento: 13 de janeiro
Selo: Deckdisc
Produção: Gustavo Ruiz, Luiz Chagas
Duração: 44m

por Caio Coletti

É difícil fazer música brasileira contemporânea que não se encaixe em rótulos estritos e sufocantes. Em um país cuja tradição musical é tão vasta e tão identificável (para nós mesmos, pelo menos), a impressão é que ou se faz a MPB emulada das décadas “de ouro” ou se faz música pop/eletrônica que quebra completamente com ela. Uma geração de artistas vem tentando borrar essa linha há muito tempo, embora estejam conseguindo mais notoriedade agora – Céu, Tiê, Karina Buhr, Alice Caymmi, por aí vai. Em 2017, Juliana Kehl se destacou desse grupo com o singularmente preciso e sutil Lua Full, seu segundo disco de estúdio, uma coleção de canções que trabalha duro para manter a identidade melódica e sônica brasileira em (quase) todos os seus sentidos e vertentes, mas mesmo assim incorpora a sofisticação e a globalização do pop. Kehl tem em seu favor uma voz quase insultantemente melódica, que passeia com fluidez, elasticidade, expressão e afinação pelas canções escorregadias do álbum que criou ao lado dos produtores Gustavo Ruiz e Luiz Chagas, além de diversos co-compositores.

“Ladainha” (ouça mais abaixo), que abe o disco, nos introduz a essa voz de forma espetacularmente inteligente – é a canção mais melodicamente “redonda” do disco, com uma linha de baixo constante nos versos que deixa sua marca pelo restante do disco. Da canção título, “Lua Full”, à poética “Desoriente”, o baixo não deixa o ritmo escapar das composições esbeltas e expressivas de Kehl e seus colaboradores (entre eles, familiares como Ana Kehl de Moraes e Pedro Piccardi Kehl, além de amigos célebres como Marcelo Janeci), ou das belas reinterpretações de faixas gravadas originalmente por Reginaldo Rossi (“Desterro”) e Zé Pi (“Anoiteceu”).

Colorindo a levada do baixo, você encontra de tudo – guitarras que desaguam em solos desenfreados (“Sagitário”), sintetizadores rasgados (“Fuori da Questa Stanza”), teclados inspirados no soul e no R&B (“O Mundo Dela”). Lua Full faz de tudo, mas faz com um sabor que é intrinsicamente brasileiro, com composições em tons abertos e uma vocalista que não busca impor potência, mas canta de forma notavelmente sublinhada, projetada, calorosa. Seus adereços são cosmopolitas e sua sabedoria pop ao utilizá-los e inegável, mas seu espírito é, de forma respeitosa e consciente, nacional.

Liricamente, Lua Full é uma obra-prima sobre amores desconectados. A faixa-título dá a dica com seu verso principal: “A tua lua full aí/ A minha cheia aqui” – mas nem todos os amores do disco são desencontrados pela distância geográfica. Na minha faixa favorita, “Sete Salomés”, Kehl canta: “E o seu corpo que insiste em tocar/ Meu corpo solto em nenhum lugar”. É um manifesto de desconexão mais profundo – emocional, mas também beirando o social, que rima elegantemente a melancolia, a revolta e a liberação em um pedaço de música tão cheio de camadas escondidas.

Music Review The Killers

7)
Wonderful Wonderful
(The Killers)
Lançamento: 22 de setembro
Selo: Island
Produção: Erol Alkan, The Killers, Jacknife Lee, Stuart Price
Duração: 43m

por Nathalia Nasser

Trazer a década de 80 pros anos 2010 já está mais do que previsto por qualquer banda que risca um ruído indie. O The Killers conseguiu, de novo, fazer do previsto uma boa surpresa. A aura do último disco solo de Brandon Flowers, The Desired Effect, paira sobre o Wonderful Wonderful numa viagem à década oitentista condensada e de qualidade.

A identidade do The Killers não foi perdida: eles continuam soando como uma banda de fechamento de festival, o grande headliner esperado por 70% do público e também assistido pelos outros trinta. Mas talvez aqui seja o momento em que Flowers se mostra mais do que nunca. “The Man” (ouça abaixo), primeiro single do disco, elege o frontman como um “household name” (uma gíria americana para “nome estabelecido” ou famoso) em meio a batidas de groove e vocais que remetem facilmente aos anos 80 dos grandes Michael Jackson e David Bowie.

O álbum é recheado de melodias com guitarras ardidas, synth e letras doloridas, como os versos de “Rut”, terceira faixa do álbum, na qual Flowers pede: “Don’t give up on me/ Cause I’m just in a rut/ I'm climbing but the walls/ Keep stacking up” (“Não desista de mim/ Porque eu estou só em um barranco/ Eu estou escalando mas as paredes/ Surgem uma em cima da outra”). A evolução da faixa se dá ao final, quando ela cresce em mil por cento e, com grandeza, assume o refrão como um mantra.

A postura de banda-de-rock-alternativo-com-grande-bagagem-e-ainda-acima-da-média do The Killers se mantém intacta em canções gigantes e lindas como “Life to Come” (se fechar seus olhos, consegue ver Brandon Flowers cantando para uma arena lotada com jogos de luzes milimetricamente ensaiados), que declama amor, casamento, paixão e vidas futuras. “The Calling” vem para mostrar a imersão oitentista que Flowers e seus companheiros fizeram - há alguns anos, aparentemente - sendo quase um Depeche Mode e a-ha (muito bem) cuspidos. O ar futurista da canção traz a equação declarada dos anos oitenta: guitarra sensual, synth e doses homeopáticas de batidas eletrônicas, que transformam a faixa quase em uma viagem no tempo.

“Wonderful Wonderful”, faixa de abertura, e “Some Kind of Love” trazem em si uma característica comum: um instrumental muito bem produzido e incansavelmente trabalhado, acompanhado de vocais que tocam quase como um carinho, proeza que a voz de Flowers tem o poder de fazer desde “Everything Will Be Alright”.

Canções queridinhas pela crítica, como “Tyson vs Douglas”, faixa que claramente saiu de um congelador de 1986 e foi lindamente encaixada no álbum, seguram a onda profunda do álbum. “Out of My Mind” é das composições que não deixam escapar a identidade de Flowers para qualquer um que o conhece ao longo dos anos.

A meditativa “Have All The Songs Been Written?” fecha o álbum com maestria e doçura. Com uma guitarra bem pontuada e gentil, a canção é quase como espiar Flowers olhando seu próprio reflexo no espelho brigando dolorosamente com bloqueio da composição que teve de lidar nos últimos anos: “Has ever ship gone sailing? / Has every heart gone blue?/ Have all the songs been written?/ Oh i just need one to get through to you” (“Todos os navios já saíra do porto? / Todos os corações já se entristeceram? / Todas as canções já foram escritas?/ Oh, eu só preciso de uma para te tocar”).

Que o The Killers nunca aceitou ser pouco a gente já sabe. Canções massivas como “All These Things That I’ve Done” e “When You Were Young” podem assombrar para sempre uma carreira. Não por menos, o disco foi mais uma prova de que a banda continua puxando suas capacidades ao limite há mais de uma década e se provando ainda grande. Mais uma vez, por parte da produção - assim como Flowers fez em 2015 - o disco é um masterclass de truques de produção da década de 80.

O Wonderful Wonderful foi mais como uma revisita aos anos de Sam’s Town - onde os companheiros de banda de Flowers ainda estavam. É certamente um álbum de grandes músicas: íntimas, tocantes, confusas e grandemente sinceras. Uma ideia quase simples executada de forma sofisticada – talvez o grande benefício da dúvida entregue aos fãs do indie rock dos anos 2000.

7 pp

6)
Tremendous Sea of Love
(Passion Pit)
Lançamento: 24 de março
Selo: Wishart Group Recordings
Produção: Michael Angelakos
Duração: 35m25s

por Caio Coletti

Muita coisa aconteceu na vida de Michael Angelakos, que é o líder (e único membro) do Passion Pitt, desde o lançamento do disco Kindred, em abril de 2015. Ele se divorciou em agosto do mesmo ano, e se assumiu gay publicamente, em entrevista ao autor Bret Easton Ellis, em novembro. Enquanto continuava a lidar com o transtorno bipolar e a depressão, Angelakos, como todo americano, se viu surpreso pela eleição de Donald Trump à presidência – o título de seu novo disco, Tremendous Sea of Love, é tirado de um discurso do agora presidente dos EUA durante a cerimônia de posse. Em meio a uma retórica de ódio e divisão, as palavras atingiram Angelakos e o álbum, quarto do projeto Passion Pit, o coloca na desconfortável (e, ainda assim, tão apropriada) posição de consertar a distorção que elas representam em meio ao discurso do presidente. Tremendous Sea of Love é um disco luminoso, mas não bobo ou deslumbrado – uma corrente de melancolia corre por ele, mas Angelakos a envolve em sintetizadores cortantes, percussões inesperadas, pianos de melodias simples e referências surpreendentes.

“You Have the Right” e “Hey K” são as duas baladas dreamy do disco, com o falsete inconfundível de Angelakos passeado por melodias leves como uma pluma por cima de digitalizações graves e batidas sintéticas de R&B clássico. “Somewhere Up There” e “I’m Perfect” substituem a placidez por euforia – a primeira, descrita por Angelakos como “um ataque de pânico em três atos”, é uma caixinha de surpresas técnica que mistura uma composição pela metade com dois trechos falados, um por um amigo de Angelakos (desvendando os mistérios psicológicos do laço mãe-e-filho) e outro pela própria mãe do artista, respondendo com profundidade desavisada um recado deixado pelo filho. “We’re here, and everybody else is elsewhere” (“Nós estamos aqui, e todo mundo está em algum outro lugar”) diz ela entre avisos e recados de importância trivial.

Tremendous Sea of Love, em muitos sentidos, é sobre essa mesma “profundidade desavisada” do mundo, sobre a forma como nossas vidas comuns e tentativas tolas de transcendê-las ganham uma beleza contemplativa quando vistas de fora, de longe, de cima. Na crua “To the Other Side”, Angelakos eleva o ato de sobreviver a um feito heroico, tudo enquanto não deixa de reconhecer a dimensão inegavelmente patética das nossas ferramentas de sobrevivência: “Fight your war wrapped up in a blanket on your living room floor/ What do you need? / You’re a goddamn human, you’re already set free” (“Lute sua guerra enrolado em um cobertor no chão da sua sala/ Do que você precisa? / Você já é um maldito humano, você já foi libertado”).

Duas das faixas finais do disco,  “Inner Dialogue” e “The Undertow”, pintam o retrato dessa liberdade que Angelakos encontrou nos últimos anos de sua vida. Na primeira, em meio a batidas fragmentadas e experimentações mais esquizofrênicas (no melhor dos sentidos) do que nunca, Angelakos testa diversas entonações, efeitos e cadências na frase “give me your love” (“Me dê seu amor”), uma rara intervenção romântica que continua em “The Undertow” – aqui, o Passion Pit mistura a cadência particular de alguns de seus hits anteriores, como “Constant Conversations”, com a liberdade luminosa de tons e sintetizadores que o Tremendous Sea of Love representa.

Como de costume, um artista livre das amarras convencionais da indústria (Angelakos lançou o disco independentemente, on-line, postando-o só depois nas vias oficiais, como o Spotify) é indubitavelmente um artista melhor. No seu melhor disco até hoje, o Passion Pit criou uma obra-prima de esperança madura, equilibrada e deliciosa pelo prazer que tira de cada nota, escolha instrumental e harmonia vocal.

6 k

5)
Rainbow
(Kesha)
Lançamento: 11 de agosto
Selo: Kemosabe/RCA
Produção: Kesha, Body Brown, Rogét Chahayed, Stuart Crichton, Ben Folds, Ryan Lewis, Nate Mercereau, Rick Nowels, Drew Pearson, Ricky Reed, Pebe Sebert
Duração: 48m39s

por Maurício Sobrinho

Cinco anos após o lançamento de Warrior (2012), Kesha nos presenteia com o brilhante Rainbow. Foram cinco longos anos em que vimos publicamente a cantora enfrentando uma batalha judicial sem fim contra o seu próprio produtor, que abusou da cantora física e psicologicamente desde o início de sua carreira, quando tinha apenas 18 anos. Um período longo e doloroso em que vimos uma artista presa criativamente à sua gravadora, lutando por sua carreira e sobretudo, por justiça.

Quem acompanhou a trajetória sabe que a cantora anteriormente já havia deixado claro o seu desejo em fazer algo fora do padrão que lhe era imposto pela gravadora, mas até então o futuro desse novo disco e dessa nova sonoridade era incerto.

Com o lançamento do lead single “Praying” (abaixo), tivemos a doce surpresa de finalmente conhecer a verdadeira voz potente da cantora, que foi silenciada ao longo dos discos anteriores. Por meio de versos fortes, coesos e autobiográficos, Kesha nos inunda em emoções ao ouvir um dos melhores singles de 2017.

Se engana quem acredita que o álbum é de todo frágil, ainda nas canções mais emotivas como “Praying” e “Rainbow”, Kesha se impõe, mostra força, determinação e, por meio dos versos, nos diz que ela está de volta e veio pra ficar. A cantora não só nos diz que vai lutar, mas também nos convida a lutar com ela, como na sublime “Bastards”, o abre-alas do álbum e uma de suas faixas mais poderosas.

A surpresa não fica apenas na voz, mas sim no conjunto da obra. O disco não se encaixa apenas no pop, sua pluralidade faz com que a artista fuja do que já conhecemos de seu trabalho. A cantora passeia pelo rock, country e surpreende também nas parcerias, como Eagles Of Death Metal, The Dap-Kings Horns e a consagrada Dolly Parton na ótima “Old Flames (Can’t Hold A Candle To You)”.

Mesmo nas faixas mais dançantes, como “Let ‘Em Talk”, de sonoridade alternativa, que poderia ser facilmente de alguma banda indie atual, ou até mesmo “Woman”, nenhum verso passa sem uma mensagem a ser entregue. Os versos chicletes de “Woman”, que ficam em nossa cabeça e que cantamos despretensiosamente, nos lembram que Kesha não precisa de ninguém a não ser ela mesma para fazer toda essa mágica acontecer.

Ainda que sob o selo da Kemosabe Records, temos em nossas mãos o melhor trabalho de Kesha até hoje, que merece respeito não só empaticamente, mas merece por um trabalho denso e honesto. Ela está de volta e pronta para nos mostrar a artista que ela sempre foi, e que infelizmente só hoje tivemos a oportunidade de conhecer.

Que lindo arco-íris após um período de tempestades violentas e cinzas.

6 g

4)
Silver Eye
(Goldfrapp)
Duração: 31 de março
Selo: Mute
Produção: Leo Abrahams, John Congleton, Goldfrapp, The Haxan Cloak
Duração: 44m49s

por Maurício Sobrinho

O sétimo álbum de inéditas dos britânicos do Goldfrapp é exatamente o que o alternativo precisava. O sucessor do Tales Of Us (2013) não é apenas um ótimo álbum, mas sim uma obra necessária. Em uma época em que os artistas anteriormente dito alternativos se recuam em produções mais radiofônicas, é reconfortante ouvir os vocais alongados e sussurrados de Alison.

Com o lançamento do lead single “Anymore” (abaixo) já ficou claro que a dupla não voltaria com a sonoridade obscura do Tales Of Us, mas que sim mais uma vez se reinventaria, fazendo que a curiosidade em torno do Silver Eye crescesse ainda mais.

O disco soa como algo novo, porém ainda encontramos elementos dos trabalhos anteriores, como em “Moon In Your Mouth” e “Faux Suede Drifter”, que, ouvidas de os olhos fechados, nos proporcionam a sensação de pertencer à outra dimensão, algo muito presente, por exemplo, no Seventh Tree (2008).

Em conjunto com um time de produtores, o álbum traz surpresas deliciosas e até, diga-se de passagem, animadas - como em “Systemagic”, que de modo despretensioso e crescente te convida a dançar e se entregar ao poderoso jogo de sintetizadores cuidadosamente alinhados à voz devidamente colocada de Alison. As poderosas “Everything Is Never Enough” e “Become The One” são as provas de que esse casamento com os sintetizadores deu certo.

O álbum não comete erros e não peca por excesso, o que pode soar pretensioso - porém, parece que o Goldfrapp sabia exatamente o que queria nos entregar. O álbum surpreende, faz dançar, pensar e se entregar. Era de um álbum alternativo e bem construído assim que a cena precisava em 2017. E se o hiato até o próximo álbum for de mais 4 longos anos, certamente vai valer a pena, pois os britânicos voltarão com algo tão bom e milimetricamente bem construído quanto o Silver Eye.

3 s

3)
Process
(Sampha)
Lançamento: 03 de fevereiro
Selo: Young Turks
Produção: Sampha, Rodaidh Mcdonald
Duração: 40m17s

por Nathalia Nasser

Conhecer o talento e a profundidade de Sampha Sisay foi um processo feito pela indústria fonográfica em doses homeopáticas. Suas colaborações pontuais com Solange, Kanye West e Frank Ocean trouxeram à tona uma estrela ascendente. Ao lado dos grandes, o londrino de 29 anos se mostrou tão gigante quanto. Em seu álbum de estreia, Sampha não deixa dúvidas da sua grandeza. Produzido por Rodaidh McDonald (The XX, Adele, Daughter, Vampire Weekend), Process se revela maduro e sofisticado.

Das composições que atingem o âmago da sensibilidade, “No Ones Knows Me (Like The Piano)” (abaixo), através de uma delicadeza notável e diálogo íntimo entre o compositor e o piano, traz à tona a dor de Sisay ao perder sua mãe para a volta de um câncer repentino. Com polidez, Sampha se debruça em versos doloridos ao lembrar da sua infância e seu primeiro contato com o piano, e atravessa o tempo para 20 anos depois, ao voltar pra sua cidade natal. Em “Kora Sings”, mais uma vez a perda é colocada com um timbre gentil e melodia agradável. Sisay dialoga quase sozinho: “You’ve been with me since the craddle, you’ve been with me, you’re my angel, please don’t you disappear” (“Você esteve comigo desde o berço, você esteve comigo, você é o meu anjo, por favor, não desapareça”). A quebra vem na faixa seguinte, “Take Me Inside”, uma grande produção nos efeitos vocais.

O álbum como obra completa traça o mesmo caminho de “No Ones Knows Me”: uma trilha oriunda de um lugar reflexivo e sentimental vivida por um jovem que lida ainda com uma perda dolorida. Na primeira e última faixas do álbum, os problemas de saúde familiares são o gás de composição e performance. A abertura do álbum, com “Plastic 100ºC”, Sampha revela um susto de saúde envolvendo o crescimento de um nódulo na garganta: “Sleeping with my worries/ I didn’t really know what that lump was” (“Dormindo com as minhas preocupações/ Eu não sabia o que aquele nódulo era”).  Ao fim, em “What Shouldn’t I Be?”, há um espectro de relação consigo mesmo que discorre o impacto das suas relações familiares ao mencionar seu irmão, que sofreu de um sério derrame.

Ao lado de uma produção primorosa, “Incomplete Kisses” traz falsetes impecáveis e detalhes sombrios sobre sua convivência familiar, situada quase em inércia: “In this house, we’re sinking but we’re far too numb to care” (“Nessa casa estamos afundando, mas estamos anestesiados demais para nos importarmos”).

Blood On Me”, segundo e aclamado single do disco, é escrito como uma cena de filme. No refrão, a respiração forte de Sisay não vem por erro ou falta de cuidado, ele entrou em sua narrativa: Sisay perdeu o fôlego durante as gravações. “Eu estava genuinamente sem ar ao cantar essa música. Fiz de tudo para me sentir genuinamente dentro da situação que criei para ela”, disse em entrevista.

O disco é performado a nível catártico, atingindo um drama e sensibilidade dificilmente vistos em narrações atuais. Os versos delicados (tanto quanto doloridos) de Process são a revelação perfeita e clara de dores e traumas. “Under” é uma equação perfeita: um refrão delicioso e densidade na amostra dos vocais, coro e sintetizadores - uma aula de produção e voz.

Process pode ter sido a primeira aparição perfeita de Sampha em sua totalidade: uma soma de sensibilidade, vocais notáveis e impecáveis, uma produção sofisticada e uma performance de peso. Embora a construção de Process seja absolutamente não-comercial, o primeiro tiro na indústria fonográfica foi muito bem mirado para a criação e crescimento de uma grandiosíssima estrela improvável.

2 kl

2)
DAMN.
(Kendrick Lamar)
Lançamento: 14 de abril
Selo: Top Dawg/Aftermath/Interscope
Produção: Top Dawg, Dr. Dre, 9th Wonder, The Alchemist, Bekon, BadBadNotGood, Cardo, DJ Dahi, Greg Kurstin, James Blake, Kuk Harrell, Mike Will Made It, Mike Hector, Pluss, Ricci Riera, Sounwave, Steve Lacy, Terrace Martin, Tae Beast, Teddy Walton, Yung Exclusive
Duração: 54m54s

por Andressa Cruz

O hip-hop ao longo de sua história teve diversas vozes que transformaram o gênero, a música e até a sociedade. Kendrick Lamar é uma dessas vozes e To Pimp a Butterfly o consolidou como um artista que dialoga com o movimento negro, tornando "Alright" um hino durante protestos do Black Lives Matter, em 2016. O contexto social mais os dois grandes álbuns anteriores de Kendrick nos fez perguntar “o que virá depois de To Pimp a Butterfly?”.

A resposta foi DAMN., seu quarto álbum de estúdio, lançado em abril de 2017 após o single promocional “The Heart Part 4”. Se “ser ou não ser, eis a questão” é uma dúvida que permeia Hamlet, em DAMN., K-Dot nos pergunta “Is it wickedness? Is it weakness?” (É maldade? É fraqueza?) em “BLOOD.”, primeira faixa do disco, e introduz as duas forças principais do álbum.

A música serve como entrada na narrativa do álbum, onde somos convidados a decidir entre uma dessas forças que estão dentro dele, mostrando a dualidade como artista e ser humano. DAMN. é, sem dúvidas, o trabalho mais íntimo feito por ele. “BLOOD.” ainda traz um sample de um noticiário da FOX News, onde o jornalista faz uma crítica à apresentação de Lamar no BET Awards 2016, dizendo que não gostou de como o rapper rima sobre a violência policial contra os negros norte-americanos.

O antagonismo continua a percorrer as faixas: “PRIDE.” (Orgulho) & “HUMBLE.” (Humilde) (ouça abaixo) ou “LOVE.” (Amor) & “LUST.” (Luxúria). Todas os nomes tem uma única palavra que estão ligadas de alguma forma. A simplicidade apresentada nos títulos também está presente nas batidas das faixas. Em To Pimp A Butterfly, Kendrick experimentava e flertava com blues, soul, funk e jazz; em DAMN. ele aposta no bom e velho arroz e feijão do hip-hop. Se a sonoridade parece simples, as rimas carregadas de significados mostram que o equilíbrio é a chave para um disco memorável.

O álbum ainda traz participações de grandes artistas da música, como o U2, em “XXX.”; e Rihanna, na comercial “LOYALTY.”, faixa que contém sample de “24K Magic”, de Bruno Mars. Ao longo da obra, Kendrick Lamar não busca encontrar uma resposta sobre qual lado é certo ou errado, ele nos apresenta o equilíbrio como melhor saída.

No fim de 2017, o rapper divulgou o Damn. Collectors. Edition. e mostrou o seu trabalho sob uma nova perspectiva: as músicas estão em ordem oposta, o que resultou em um novo disco, com outros significados e simbologias. Se na versão oficial, DAMN. começa com a morte de Lamar em “BLOOD.”, nesta versão, o álbum acaba com sua morte na mesma faixa. Isso tudo reforçando a dualidade que o disco trouxe aos nossos ouvidos: o antagonismo está presente em tudo na nossa vida e dentro de nós mesmos.

O projeto de Kendrick Lamar tornou-se o disco de hip-hop mais aclamado do ano, levando o megafone de Melhor Álbum de Rap. Antes de DAMN. nós nos perguntávamos o que viria depois de To Pimp A Butterfly, agora nós nos perguntamos: quando Kendrick Lamar irá ganhar (finalmente) o Grammy de Melhor Álbum do Ano?

1 l

1)
Melodrama
(Lorde)
Lançamento: 16 de junho
Selo: Lava/Republic
Produção: Lorde, Jack Antonoff, Jean-Benoît Dunckel, Flume, Frank Dukes, Kuk Harrell, Joel Little, Malay, S1, Andrew Wyatt
Duração: 40m58s

por Nathalia Nasser

Um coração quebrado e o afogamento na imensidão complexa da vida adulta podem ser a soma perfeita para resultar em uma obra-prima. Ella não deixou detalhe algum para trás na construção minuciosa e lustrosa de seu segundo álbum, que presenteia o mundo pop e permite que ele embale e os anos dançantes da cantora.

Inocente o lado do universo pop que esperou mais do mesmo ou, na melhor das hipóteses, uma evolução de Pure Heroine, disco de estreia da neozelandesa. Ao lado do grandioso Jack Antonoff (fun. e Bleachers), que produz o álbum com maestria, Lorde aprimorou suas composições junto a Joel Little, velho conhecido e parceiro nas letras de Pure Heroine.

Referida por Bowie como ‘the future of music’, Ella viaja por batidas nada óbvias até nos momentos mais previsíveis do álbum, como a faixa-chefe e primeiro single, “Green Light” (abaixo), que abdica de rimas e comprova, mais uma vez, a força da sinestesia de Lorde nas suas composições e produções.

Lorde envolve o ouvinte em uma montanha-russa vivida por todo e qualquer jovem adulto minimamente intenso. O Melodrama faz enxergar o profundo poço que é o fim de um primeiro grande amor com “Writer In The Dark”, que melancoliza na medida perfeita voz, piano e atraso na quase-fala rouca das bridges da balada. Com versos machucados, Ella agoniza o antigo amor: “But in my darkest hours/I stumbled on a secret power/I’ll find a way to be without you, babe” (“Na minha hora mais sombria/ Eu tropecei em um poder secreto/ Eu vou encontrar uma forma de continuar sem você, querido”). Em “Liability”, momento íntimo e pessoal, é quase invasivo que o ouvinte esteja em contato com tamanha insegurança e fragilidade expostas em forma de letra e melodia.

No outro extremo, o álbum se tele transporta para canções galácticas como “Supercut” - um dos destaques de produção do disco - e celebra momentos de efervescência jovem com “Homemade Dynamite” (não à toa que o remix da faixa seja com três dos mais jovens artistas da música atual, todos com menos de 22 anos; e seja composta em parceria com a sueca party-person Tove Lo). Aqui, Ella ironiza a superficialidade de relações que se limitam a uma só noite e, no melhor dos mundos, é capaz de gozar do momento.

A habilidade de Lorde em surpreender fica evidente e indiscutível em “Hard Feelings/Loveless”, faixa subestimada quando se olha para o Melodrama como obra. O trecho “Guess this is the winter/ Our bodies are young and blue” (“Parece que  é o inverno/ Nossos corpos são jovens e azuis”) é uma conexão quase perfeita com a capa do álbum, interpretação artística de Sam McKinnis sobre o conceito que permeia o Melodrama. Talvez a composição mais sofisticada do álbum, a canção é dolorida e abre portas para uma citação do genioso Paul Simon no início de “Loveless”, faixa que se esconde atrás da grandeza de “Hard Feelings”.

Os dezoito meses que duraram o processo de composição e gravação resultaram em momentos de contato quase direto com o formato do Pure Heroine, como “Sober”, talvez o momento mais cru e sofisticado do álbum. Nesse momento, os instrumentos são escolhidos a dedo em cada centésimo de segundo. Antonoff sabe exatamente onde pontuar coral, baixo e instrumentos de sopro no crescente e envolvente refrão. A masterclass de produção combina por completo com a letra profunda que fala sobre um romance não dialogado: “Played it so nonchalant/ It’s time we dance with the truth” (“Fingimos fazer tudo casualmente/ Está na hora de dançarmos com a verdade”). A notável referência desse trecho com o momento lá atrás em que Ella cita, em “Team”, “dancing around with the lies we tell” (“dançando por aí com as mentiras que contamos”) é a evidência perfeita de evolução do seu debut album para o Melodrama.

Uma boa surpresa vem em forma de entrelaço de guitarras de new wave com a produção eletrônica de Flume em “The Louvre”, faixa sofisticada e lúdica em meio ao melodrama. “Sober II (Melodrama)” e “Liability (Reprise)” aparecem quase como um ponto para o nó final do álbum como obra, que se encerra em uma faixa que pode facilmente ser denominada como a equação perfeita do pop. “Perfect Places”, canção preferida de Lorde no disco, expressa em um momento as intermináveis noites de verão e os exercícios mentais que são a sobrevivência em festas constantes, enquanto ao mesmo tempo se desveste em confissões, como a dor da perda de ídolos como David Bowie e Prince, e a diversão entrelaçada com a tristeza de um sexo casual.

Para os ouvintes de primeira ou milésima viagem, o Melodrama permanece na mesma definição: uma viagem magistral.