22 de fev de 2010

Batalha em Seattle (Battle in Seattle, 2007)

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“O filme a seguir é baseado em fatos e acontecimentos reais, mas seus personagens são estritamente ficcionais”. O aviso que enfeita a tela preta logo no começo de Batalha em Seattle não faz nada além de constatar algo tão óbvio quanto falso. Como forma de contar histórias por excelência, qualquer obra cinematográfica deveria vir com esse tipo de prerrogativa já incutida na cabeça do espectador quando a primeira imagem chegasse aos seus olhos. Por outro lado, é impossível não se perguntar se as pessoas que povoam os acertadíssimos 99 minutos do filme de estréia do ator Stuart Townsend (A Rainha dos Condenados) na direção não são na verdade espécies de representações etéreas, em alguma linha entre ficção e realidade, dos personagens que protagonizaram o fato histórico e político que o filme representa.

Batalha em Seattle é a obra cinematográfica que resgata dos arquivos históricos as manifestações ocorridas na cidade-título entre Novembro e Dezembro de 1999, quando ativistas de todas as áreas imagináveis se reuniram para bloquear as ruas da cidade e impedir a chamada “Rodada do Milênio”, reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC) com o objetivo de avaliar as ações dos anos que se passaram com o livre-comércio mundial sob sua jurisdição. A época, a OMC era vista como vilã pelos neoliberais, que viam na organização uma espécie de segregação dos países subdesenvolvidos e a valorização de lucro acima da própria vida humana, por ambientalistas, que discutiam o quanto as ações da organização afetavam a longa lista de espécies em extinção (mais especialmente um item especial de tal lista, a tartaruga marinha), e, claro, por anarquistas que protestaram contra o capitalismo global de forma violenta. Assim, meio desunidos em sua própria estrutura, 100 mil pessoas enfrentaram repressão policial e política exageradas, se viram como os mais badalados vilões da imprensa internacional e, no final de dias e mais dias de confronto direto, saíram vitoriosos. Ou quase.

Como bem o filme de Townsend faz questão de nos lembrar em seu emocionante final, quase nenhuma promessa feita naqueles dias de protesto pela OMC foi cumprida. “A luta continua”. Essas, as últimas palavras que nos chegam da tela de Batalha em Seattle, não são mais que uma pequena demonstração de que, por mais que tentemos, o mundo não vai mudar. O que não pode e nem deve significar que ele não pode ficar melhor. Uma mensagem de esperança, de persistência e uma tocante, envolvente e recompensadora viagem cinematográfica por princípios, protestos, violências, motivos e sonhos. Mas, acima de tudo, uma viagem pela história e pela natureza da humanidade, sempre insatisfeita consigo mesma, sempre em busca do que parece melhor para si. Há os que pensam em dinheiro, há os que saem as ruas para tentar alcançar o que querem, e há também os que decidem não julgar e se sentam confortavelmente atrás de uma câmera para, em silêncio, com talento e ousadia, (tentar) mudar o mundo. Pouco a pouco, dia a dia, ação a ação, vida a vida. Ver A Batalha de Seattle, por mais fugaz que possa ser a sensação, é se sentir por dentro dessa luta que nunca vai terminar. E nunca foi tão bom estar na linha da frente dessa guerra, não importa de qual lado.

No caminho para reproduzir essa sensação de participação e acender no espectador a vontade de continuar com essa luta, o diretor Stuart Townsend talvez tenha errado apenas ao requisitar controle demais sobre a própria obra. Ao mesmo tempo que isso lhe permite desfilar suas idéias, opiniões e observação com competência, seu controle de um roteiro tão complexo bem que se daria bem com um pouco de ajuda. Não que, como escritor, Townsend transgrida regras fundamentais ou mesmo se mostre sem talento. Mas de uma forma ou de outra, sua abordagem de estreante em uma área fundamental e complicada como o roteiro transparece um pouco de desajuste na hora de lidar com as tramóias políticas reunidas sobre seu comando. Como ator, ele sabe criar personagens como ninguém, e conduzi-los pela trama com competência é uma missão que Townsend tira de letra, guiando cada persona singular de sua trama por um caminho distinto e aos poucos assumindo o controle do que mostrar ou não ao espectador. O diálogo de sua obra nunca é banal ou descartável, e as linhas escritas por ele para os personagens vão se ajustando com leveza e elegância as personalidades que passam pela tela. Ainda que não sejam as palavras mais inspiradoras da história, seus diálogos moldam-se a trama com cuidado e inteligência.

Sua falha maior aparece mesmo quando o filme sai de toda a esfera de princípios e protestos para uma mais objetiva, onde precisa conduzir a trama em uma estrutura dramática mais clara que Townsend mostra que ainda não é um roteirista completamente amadurecido, deixando transparecer uma inexperiência que não se mostra por boa parte de Batalha em Seattle, mesmo com tantas variáveis postas na equação. A principal delas é Jay (Martin Henderson), um neoliberal que perdeu o irmão em um protesto anterior e desde então se tornou uma espécie de mártir e líder para todo um grupo de protestantes. Ao lado dele nos acontecimentos de Seattle, entre as milhares de pessoas, conhecemos melhor Lou (Michelle Rodriguez), um estereótipo suavizado da mulher durona, Sam (Jennifer Carpenter), a advogada do grupo, que tem suas dúvidas sobre os métodos e princípios do tal protesto, e Django (Andre Benjamin), o ambientalista e eterno otimista que parece ser a energia vital do grupo. Do lado oposto da contenda vemos Dale (Woody Harrelson), um policial que é chamado para lidar com as manifestações e espera a todo custo que sua esposa grávida, Ella (Charlize Theron), tenha escapado da confusão das ruas. Sua determinação nobre encontra um lado oposto em Johnson (Channing Tatum), o típico policial novato louco por um pouco de ação que aos poucos vai vendo que o lado contrário não é tão demoníaco quanto seus chefes gostam de pregar. A equação se fecha com Jean (Connie Nielsen), uma repórter muito obstinada a cobrir tudo que acontece na cidade, e Jim Tobin (Ray Liotta), o prefeito de Seattle, que tenta conter os manifestantes sem violência ao mesmo tempo que é posto sob pressão de todos os lados para declarar estado de emergência e, conseqüentemente, começar uma guerra civil em suas ruas.

Townsend, no comando do roteiro, foi muito esperto em tirar o foco do que acontece nas ruas para o que se passa na psique dos personagens, ao mesmo tempo em que expôs seu ponto, seu próprio protesto, com sutileza, elegância e um sentimento de entrega inédito em um roteiro. Se ele necessitou de muita astúcia para escapar das armadilhas que redigir um roteiro pode trazer a tiracolo, então como diretor Townsend parece vacinado contra os exageros que podem arruinar um filme. Aqui, ele mostra uma familiaridade impressionante com a câmera, focando seus personagens com cuidado e ponderação e conduzindo a trama com cautela nunca exagerada. Mesmo que não fuja sempre do óbvio e ainda precise encontrar um estilo só seu, Townsend mostra que tem futuro operando as câmeras, talvez até mais que na frente delas, onde havia mostrado apenas carisma e o tipo de sorriso ambíguo que faz a platéia feminina suspirar. De galã juvenil a diretor talentoso é um pulo e tanto, e não deixa de ser surpreendente quando o Lestat arrogante de A Rainha dos Condenados se mostra despido de vaidade o bastante para passar o bastão para outros atores. Decisão sábia, diga-se de passagem. Por mais que sua atuação pudesse render a pelo menos um personagem uma força dramática maior, já deve ter sido complicado o bastante equilibrar roteirização e direção. Aqui, ele mostra que tem todo o talento necessário para se dar bem em ambas as funções.

Uma pena, de fato, que dessa forma o ativista Jay tenha ido parar nas mãos de alguém como Martin Henderson (Fúria em Duas Rodas). Ele passa longe de ter a carga dramática necessária que o personagem exige, e é exclusivamente por sua apática e apagada presença que Jay se torna a persona menos interessante de toda a trama. O restante do elenco, por outro lado, leva suas missões mais a sério. A começar por Michelle Rodriguez, que parece sempre encontrar a força e o talento para fazer de seus personagens quase invariavelmente estigmatizados alguma coisa original e interessante. Aqui, Lou se torna uma figura quase icônica, como um personagem que surge nos momentos mais fortes da narrativa com a competência e o simbolismo que apenas uma atriz instintiva como Rodriguez poderia representar. Ao lado dela quase o tempo todo, o músico Andre Benjamin, uma das metades do duo de hip hop Outkast, põe todo o carisma de palco que demonstra em seus shows para funcionar e faz de Django uma figura cativante, encantadora e marcante. Seu eterno otimismo é o espírito de um protesto pacífico, cheio de princípios, encarnado por um ator de mais recursos do que se pode imaginar. Mais visceral só mesmo o desempenho de Woody Harrelson, que parece estar mesmo no melhor ano da carreira. Depois de 2012 e Zombieland, ele nos aparece aqui despido do carisma um tanto desvairado que marca seus melhores momentos, encarando um personagem de carne e osso, crível e interessante, numa perspectiva que poucos atores conseguiriam alcançar ou simular. Ele é a presença mais vibrante de todo o filme, deixando a atuação vagamente carismática do galã juvenil Channing Tatum (Comandos em Ação) absolutamente apagada. Risco que Charlize Theron, atriz cheia de seus recursos para se conectar ao espectador, não corre. Como a esposa traumatizada do personagem de Woody, ela é emoção a flor da pele, e abrilhanta algumas das cenas mais aflitivas e devastadoras de Batalha em Seattle com competência incontestável. Mais espaço mesmo merecia (como sempre), Ray Liotta, mais uma vez a encarnação perfeita de seu personagem como o manipulador, desonesto e ainda assim simpático aos olhos do espectador, prefeito de Seattle. Seu personagem ganha os contornos mais vagos do roteiro, mas Liotta se esforça e alcança uma interpretação bem delineada e que grita por mais tempo em tela.

Assim, com (poucos) erros e (muitos) acertos, Batalha em Seattle é um filme interessante, bem realizado, bem atuado e escrito com competência oscilante. Ainda assim, é inspirador. Porque a luta continua. E sua parte na batalha Townsend e sua equipe cumpriram com louvor. Resta saber se vamos escolher cumprir a nossa.

Nota: 8,5

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Batalha em Seattle (Battle in Seattle, EUA/Canadá/Alemanha, 2007)

Uma produção da Redwood Palms Pictures…

Escrito e dirigido por Stuart Townsend…

Estrelando Martin Henderson, Michelle Rodriguez, Woody Harrelson, Charlize Theron, Jennifer Carpenter, Andre Benjamin, Ray Liotta, Connie Nielsen, Channing Tatum…

99 minutos

2 comentários:

bones disse...

Nunca vi este filme. Sequer ouvi falar dele. e tem todo esse elenco....
Vou procurar para ver, gostei da sua crítica.
onde vc encontra esses filmes criança???/
abraços.

Thiago Nardi disse...

Beleza cara.. valeu mesmo
estou colocando seu blog na minha lista de parceiros também
abraços!