15 de mar de 2010

Dominante, por Caio Coletti

Conto (nunk excl) dominante 1

Uma nova estrada se estendia a sua frente. Ele estava atrás do volante do novo carro reluzente de anos, décadas, séculos atrás. Em suas narinas ardia o cheiro do couro, o mesmo que ele aprendera a amar naquele tempo distante em que chamava algum lugar de “lar”. Mas diferente. Mais livre.

A verdade é que ele havia mudado. Seus olhos cor-de-mel brilhavam mais, sua pele era mais lisa sem as marcas de preocupação inútil que um dia ali moraram. Essas, idas já há muito, não teriam problemas em encontrar outro alguém atarefado para enfeiar. A rua estava cheia de devotos sofridos do tempo, reféns de sua própria e implacável passagem. Não mais ele, não agora.

E o mundo mudara com ele. Ou talvez fossem apenas seus olhos. Porque, antes, estava envolto em escuridão, voltado para si mesmo, e não enxergaria nem mesmo com um holofote a sua frente, se alguém sequer se dispusesse a colocá-lo lá. Porque, por muito tempo, ele estivera ocupado demais para fazê-lo.

Agora, no entanto, via. O escondido, o oculto e o além dos limites, nada disso existia mais para ele. O mundo não mais lhe inspirava medo, e sim fascinação. Era agora como um novato em uma enorme arena, que enfrentava o adversário com coragem, inteligência e um novo frescor a cada golpe. A cada queda. Cada derrota só o fazia querer mais e mais a vitória. Ele sabia, agora sabia, que um dia a alcançaria. E nesse dia seria com uma mão estendida ao inimigo caído que ele responderia aos golpes de outrora.

E com um sorriso.

Aquele mesmo, que lhe iluminava o rosto jovem enquanto ele encarava a imensa e tortuosa estrada a sua frente. Assim, no volante do carro que era sua máquina do tempo apontada diretamente para o futuro, ele encarou o desconhecido olho a olho... E sorriu. Com a boca, com os olhos, com o coração. Com a alma.

Tomou sua decisão.

Deu a partida.

Pisou no acelerador.

E a estrada voou embaixo dele, deixando-se vencer por sua força.

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E à viva crepitação da música baiana calaram-se as melancólicas toadas de além-mar. Assim à refulgete loz dos trópicos amortece a fresca e doce claridade da Europa, como se o próprio sol americano, vermelho e embraseado, viesse, na sua luxúria de sultão, beber a lágrima medrosa da decaída rainha dos mares velhos”

(Aluísio Azevedo, em O Cortiço)

P.S.: A partir de hoje, nas semanas de ficção, essa finalização será feita com um trecho do livro que ocupa minhas horas livres no momento.

2 comentários:

V disse...

Obrigado pelos bons votos, Caio, vc sempre é muito gentil :) Pode usar o Simone (mas continue escrevendo ficção tb, vc é bom nisso tb!)... E ah, vou fazer mais uma só postagem, de despedida. Acabar assim sem mais nem menos ia ser grosseria com quem me lia :D

Marcelo A. disse...

Eu sempre me impressiono com o seu texto... daí, um tipo de coisa que eu não sei fazer! Seus contos são ótimos, rapaz! Você brinca com as palavras, forma frases, parágrafos e quando a gente vê...

Gostei dessa ideia de finalizar com um trecho do livro. Acompanhando lá no Skoob suas leituras...

Vergonha... você sempre tão presente, e eu ando tão relapso com os blogs amigos.

Abração!