22 de mar de 2010

Vingança entre Assassinos (The Tournament, 2009)

critica (nunk excl)Tournament 1

Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, diria Shakespeare. Não que estejamos aqui analisando um material retirado das obras do bardo inglês, tampouco uma narrativa digna de sua eloqüência e criatividade, mas é fato que a afirmação de Hamlet na peça homônima do autor mais célebre do século passado produziu e ainda produz muito efeito sobre o subconsciente humano. Afinal, qual não é o charme de James Bond a não ser o segredo, a suposta discrição necessária para se manter incógnito sobre uma chuva de inimigos e balas em um submundo que nossa mente rotineira acharia dificílimo de aceitar como real? O que não é a arte a não ser os sonhos mais loucos dessa tal vã filosofia que não cobre nem um pingo do enorme mar de segredos, conhecimentos e mistérios que guarda o nosso mundo? Talvez seja muita imprudência minha comparar Vingança Entre Assassinos com qualquer coisa que leve a marca de Shakespeare, mas não dá para negar que uma breve incursão em um mundo tão imaginário quanto real, constituinte da própria rotina do cinema como forma de ficção e expressão humana, é também uma imersão em tudo aquilo que não sonha nosso pensamento mais delirante. O mundo é assim, queridos. Cruel, seco... e delicioso.

Vingança Entre Assassinos não é uma obra-prima, e talvez nem mesmo mereça ser chamado de um bom filme de ação. Mas de uma forma estranha, com seus exageros, personagens caricatos e pretensão dramática que só funciona em uma parte do tempo, o filme consegue a proeza de divertir e chegar ao final sem decepcionar em nada do que promete. Temos cenas de ação impressionantes, um mosaico de personagens que vão da coloração primária para os sub-tons de interpretação com facilidade, um elenco que dá conta do recado e até mesmo um rouba-cenas que, a princípio, é um outsider na trama. Tudo com o toque de refinação inglês. Chega a ser impressionante como a própria atmosfera do filme relembra produções européias, achando sofisticação até nos momentos sangrentos e velozes que não faltam em Vingança Entre Assassinos. É divertido, tenso, intenso e ainda acerta, eventualmente, em um tom um pouco mais “sério” do que aparenta. Mesmo que a narrativa seja tão falha em sua dinâmica com o espectador e suas percepções quanto os piores momentos da Hollywood que prefere dar prioridade a estilo do que a narrativa. Aqui, a inversão não acontece. Uma pena que o lado privilegiado vem a ser também o mais fraco da contenda.

Escrito a seis mãos pelo trio Gary Young, Jonathan Frank e Nick Rowntree, o roteiro trabalha com idéias originais e personagens interessantes, mas não consegue dinamizar suas relações e tramas paralelas a contento. O resultado é uma narrativa atravancada, que perde tempo demais em algumas situações que causariam mais impacto como imediatas e nervosas. Aqui, como o “produto” esperado da equação é um filme de ação que passa por olhos e pensamento ao mesmo tempo, faria bem a Vingança Entre Assassinos uma levada mais objetiva de trama, que deixasse os personagens mostrarem a si mesmos em situações-limites, mais através de atos do que diálogos. Enfim, o trio confunde mesmo a famosa progressão “cada-coisa-a-seu-tempo” do cinema europeu com o tipo de andamento que é esperado de um filme de ação. As duas coisas postas juntas não funcionam muito bem, uma quase neutralizando a outra, ainda mais quando a exploração de personagens se deixa ocorrer em situações no limite entre o bizarro e o elegante, uma estranha oposição que está no cerne de Vingança Entre Assassinos. É um mundo sangrento, cruel e violento, mas é também o universo de apostadores, matadores de classe e seres humanos complexos. O trio, formado por um desconhecido e dois antigos parceiros do diretor, não tem a habilidade necessária para equilibrar as duas coisas.

Por falar no diretor, Scott Mann, é fácil observar sua falta de experiência com filmes dessa escala na câmera hesitante que permeia Vingança Entre Assassinos. Estreando em longas-metragens, ele realiza uma direção seca e exagerada que chega funcionar nas cenas de ação, especialmente pelo impacto visual e por seus cortes rápidos, que acham facilmente o limiar entre agilidade e histeria, mas não encontra seu ponto de equilíbrio para levar os outros momentos do filme. Especialmente na conclusão, escrita de maneira um tanto relaxada pelos roteiristas, Mann parece tão perdido entre personagens, personalidades e situações que o filme encontra sua imagem derradeira sem o impacto que era esperado. Uma pena quando ela pertence a um personagem como o Padre Jospeh MacAvoy (Robert Carlyle), um sacerdote em decadência, alcoólico, que é jogado em meio a um torneio de assassinos profissionais que acontece, em segredo, a cada sete anos. Vigiados pelo chefão Powers (Liam Cunningham) e por milionários que colocam seu dinheiro no competidor preferido, figuras como a chinesa Lai Lai Zhen (Kelly Hu), o desvairado Miles Slade (Ian Somerhalder) e o experiente Joshua Harlow (Ving Rhames) competem em uma mortal corrida por US$10 milhões de dólares. Quem sair vivo da batalha, é claro, leva o prêmio. Apesar dos dramas e particularidades de cada matador serem interessantes, é o Padre que ganha status de protagonista, provendo ao espectador a visão inocente e surpresa que é justamente a de quem conhece um mundo (ou um submundo?) novo, assustador e excitante.

Ainda bem, então, que o personagem mais cativante da trama ficou com o ator mais talentoso envolvido. Robert Carlyle, conhecido pelos ótimos trabalhos em Extermínio 2 e Eragon, entre outros, ganha aqui status de astro britânico e confere ao Padre o ar de decadência adorável que é o ponto certo do personagem. Com seu rosto fino e gestos desajeitados, ele é a figura perfeita para representar o outsider que vem para abalar as estruturas do torneio e torná-lo, assim digamos, mais imprevisível. Não é a toa que ele é também o personagem cujo dilema moral acompanhamos com mais avidez e atenção. Afinal, não é sempre que vemos um Padre precisando lidar com três dezenas de assasinos profissionais o perseguindo. Alguns honrados, é claro, outros nem tanto. Sua companheira de cena mais freqüente, Kelly Hu empresta a beleza que Lai Lai Zhen exige, mas não consegue encontrar a interpretação certa para a angústi

a que domina a personagem por boa parte do tempo. Pouco favorecida pelo roteiro, a personagem soa ainda mais apagada em cena quando ao lado de Carlyle e representada por Hu. Mais visceral, diventindo-se (e ao espectador), Ian Somerhalder arquiva mais um crédito memorável ao seu insuspeito talento. Lembrado pelo Boone de Lost e pelo papel na série The Vampire Diaries, o ator mostra excepcional habilidade em encarnar o típico lunático divertido dos filmes de ação. Personagem pouco usual para ele, que cai como uma luva em seu estilo de atuação. Por fim, Ving Rhames mostra que sabe ser sutil e não deixar a peteca cair nas cenas de ação mesmo aos 50 anos, mas não vai muito além disso e acaba fazendo de Harlow, no papel o personagem mais explorado do texto, em um coadjuvante pouco cativante.

No final de seus 95 minutos, a verdade é que Vingança Entre Assassinos cumpre a missão de mostrar que os “intelectualóides” ingleses também saber um filme de ação dos mais empolgantes. Uma pena, de fato, que eles insistam em se levar tão a sério. Guy Ritchie, sem dúvida, desaprovaria. Eu só digo para todos conferirem por si mesmos. Afinal, há mais coisas entre o escrito e o leitor do que supõem os mais vãos escritores.

Nota: 6,5

the torunament 3the torunament 2

Vingança entre Assassinos (The Tournament, Inglaterra, 2009)

Uma produção da Buzzfilms…

Dirigido por Scott Mann… 

Escrito por Gary Young, Jonathan Frank, Nick Rowntree…

Estrelando Robert Carlyle, Kelly Hu, Ian Somerhalder, Liam Cunnigham, Ving Rhames, Craig Conway…

95 minutos

1 comentários:

Pedro Sombra disse...

Gostei muito do seu texto e eu, como sou daqueles que ouviu "Isso aqui" de qualquer filme já corre para a locadora pra aluga, assim que der farei isso. Confesso que estou em falta com o cinema inglês, mas irei conferir. Ah, e adorei a forma como você escreveu, dando uma certa poesia à sua resenha. Gostei muito mermo! Parabéns, ótimo blog ;D