24 de mai de 2010

Cannes 2010 – Os premiados, en fin!

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Palma de Ouro – Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives (Tailândia)

Quando meio mundo virava os olhos para Mike Leigh, que poderia ter levado sua segunda Palma por Another Year e alguns outros apostavam em Alejandro Iñárritu e Biutiful, Cannes jogou uma carta inesperada. Premiado na mostra Un Certain Regard em 2002 e vencedor do prêmio do júri em 2004, com seu Tropical Malady, o tailandês Apichatpong Weerasethakul subiu ao palco para receber a Palma de Ouro de Cannes 2010 ao mesmo tempo como uma zebra e uma escolha mais do que merecida. Apaludido entusiasticamente em sua exibição no dia 20, Uncle Boonmee retrata um homem que se cerca das pessoas que ama, em uma cabana isolada no meio da selva, quando descobre que seus rins pararam de funcionar, acelerando sua morte. Comparecem a essa última “confraternização” a esposa, morta há anos, e o filho, desaparecido, que é simbolizado por um macaco de olhos brilhantes.

Com a trama budista-espiritista e as texturas fortes do cinema sensorial de Weerasethakul, o filme parece ter agradado em cheio ao presidente do júri Tim Burton, confirmando que os prêmios de Cannes, quase sempre, saem a semelhança de quem comanda o julgamento. Ainda bem que o diretor foi sagaz o bastante para reconhecer isso em seu discurso, com um final um tanto quanto lisongeiro em relação a Burton. “Este é como outro mundo para mim, é meio surreal. Acho que é um momento importante para o cinema tailandês. O prêmio é para vocês. Gostaria de beijar todos vocês do júri, principalmente Tim Burton, porque gosto de seu corte de cabelo”.

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Prêmio de Atuação FemininaJuliette Binoche, por Copie Conforme (França)

Prêmio de Atuação MasculinaJavier Bardem, por Biutiful (Espanha)

Uma francesa e um estrangeiro. A disposição do ano passado, em que Charlotte Gainsbourg levou por Anticristo fazendo companhia ao unânime (e austríaco) Christoph Waltz pelo Coronel nazista de Bastardos Inglórios, prevaleceu também nessa edição 2010 de Cannes. Estampada no cartaz oficial do evento, a sempre encantadora Juliette Binoche surgiu como uma surpresa faturando a Palma de Melhor Atuação Feminina por sua participação na produção multi-nacional Copie Conforme. Rodado em Florença, co-estrelado pelo britânico William Shimell e dirigido por Abbas Kiarostami, o nome mais conhecido do apreciado cinema iraniano, o filme sobre um escritor e uma fã que discutem filosofias de vida e a validez de”uma cópia bem-feita” (ou certificada, como o título sugere) se reveza entre três línguas e Binoche na pele de uma adorável francesinha. Papel que cai bem ao seu talento e carisma e que lhe rende o primeiro e merecido prêmio em Cannes.

Se não bastasse só um reconhecimento um tanto tardio para Cannes 2010, o outro premiado nas categorias de atuação foi Javier Bardem, já detentor de um Oscar por seu psicótico no filme dos irmãos Coen, Onde os Fracos Não Têm Vez. Dessa vez ele impressionou até os franceses, que não puderam deixar de reconhecer a intensidade de sua atuação como o desafortunado Uxbal de Biutiful, dirigido pelo mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu. Sua atuação é o centro nervoso do filme e o coração que bate por trás das histórias quase sempre mecânicas do diretor. Mas nada de unanimidade para ele, no entanto. O prêmio (e um pouco dos holofotes) teve de ser dividido com o italiano Elio Germano, que emocionou a platéia com sua composição do capataz que vê sua vida mudar em La Nostra Vita, de Danniele Luchetti. Em seu país, Germano é até comparado ao Robert DeNiro dos anos 1970, época de Taxi Driver e Touro Indomável.

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Grand Prix  do Júri Ecumênico – Des Hommes et des Dieux (França)

Prêmio do Júri – Um Homme qui Crie (Bélgica)

Historicamente, em Cannes, os prêmios dos dois Júris (o ecumênico e o principal) são distribuídos a produções que teriam pouca chance no mercado regular, seja por sua origem, temática ou estilo alternativo, dando a essas produções uma chance de se revelarem, senão ao grande público, ao menos a uma platéia maior do que teriam naturalmente. Às vezes, como no ano passado, em que o drama de prisão Un Prophéte levou o certificado, o prêmio fica com gosto de consolação para os que ficam a margem do vencedor da Palma de Ouro. No caso de Cannes 2010, o resultado foi uma mistura dessas duas coisas. O Júri Ecumênico favoreceu o time da casa, dando ao burocrátivo Des Hommes et des Dieux, do francês Xavier Beauvois, um prêmio que, apesar de diplomático, acaba se mostrando, em última instântica, óbvio.

Uma vez que o Grand Prix é feito para premiar filmes com fundos humanitários e denúncia social, nada mais natural do que laurear uma obra contundente (apesar de nunca ousada) sobre um grupo de frades católicos que se dá bem com a população mçulmana de uma região belga e luta pelos direitos dessa população até a morte. Muito mais condizente, no entanto, teria sido ceder a dupla glória a Mahamat-Saleh Haroun, cineasta de origem africana que fez um filme sobre o conflito bélico em Chade, seu país natal, à beira de uma Guerra Civil. Financiado pela Bélgica, o drama impressionou boa parte dos críticos e levou o prêmio concedido pelo júri principal, em mais uma demonstração de sagacidade e isenção de preconceitos de Tim Burton e seus asseclas.

Prêmio de DireçãoMathieu Almaric, por Tournée (França)

Prêmio da Crítica (FIPRESCI) – Tournée (França)

No final das contas, quem saiu mesmo com dois prêmios na mão foi Mathieu Almaric, conhecido por aqui como o vilão de 007 – Quantum of Solace, que atacou de diretor pela terceira vez em longas de ficção com um retrato do novo burlesco em Tournée, considerado por muitos o filme mais divertido (e mais bem-estruturado) do festival. Estrelado por  verdadeiros artistas dessa espécie de espetáculo e contando a história de uma trupe comandada por um ex-trambiqueiro que pretente realizar um tour por toda a França, Tournée aposta em uma obra sem mensagens, feita para apresentar um mundo de arte, deslumbramento e diversão a um público acostumado com dramas sisudos e pesados. A ousadia de quebrar os padrões de Cannes rendeu a Almaric o prêmio de direção do festival, que não ia para um cineasta francês desde (pasmem), 1995, quando outro ator-diretor de nome parecido, Mathieu Kassovitz, levou a Palma por O Ódio. O curioso é observar que Kassovitz e Almaric, além do primeiro nome, tem em comum o crédito em Munique, obra de 2005 de Steven Spielberg, como coadjuvantes de Daniel Craig e Eric Bana.

Quem também apreciou a visão de Almaric sobre o burlesco foi a crítica, que laureou Tournée como seu preferido de Cannes 2010. Os prêmios da FIPRESCI, formada por críticos de diferentes países que mudam a cada edição, ainda louvaram o hispano-marroquino Todos Vós Sodes Capitáns, documentário do jovem e estreante diretor espanhol Oliver Laxe. Para completar a lista de prêmios da seleção principal, o coreano Poetry, apesar das críticas que recebeu a ocasião de sua exibição para a crítica, acabou levando o troféu de melhor roteiro para o também diretor Lee Chang-Dong, mais conhecido por seu anterior, Secret Sunshine.

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Prêmio Un Certain Regard – Ha-Ha-Ha (Coréia do Sul)

Prêmio do Júri Un Certain Regard – Octubre (Peru)

Prêmio de Elenco Un Certain Regard – Los Labios (Argentina)

Em uma edição em que o cinema asiático, depois de anos relegado a exibições recebidas com frieza, acabou saindo como o maior vitorioso, nada mais contundente do que fazer de um filme coreano o grande ganhador da sempre alternativa mostra Un Certain Regard. Para quem gosta de cinema de arte, a seleção paralela é um prato cheio, e ao que tudo indica a seleção de HaHaHa, comédia coreana do diretor e roteirista Sang-soo Hong, mereceu a vitória cedida pelo júri chefiado pela diretora Claire Denis. O filme sobre dois amigos que descobrem ter passado um verão muito parecido em uma cidade turística pouco conhecida da Coréia em sua reunião de despedida (um deles vai partir ao Canadá) dividiu as atenções com a produção latino-americana de Octubre, premiado com o troféu do júri, e Los Labios, que levou pelo espetacular elenco feminino, condutor da trama sobre três mulheres que viajam a um lugar distante na procura de trabalho, ainda que ilegal. Estreantes, os diretores Santigao Loza e Ivan Fund representam uma nova geração do cinema argentino que vem fazendo sucesso no cirtuito de festivais internacionais.

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P.S.: Na França, Cannes acabou. Mas, aqui no Anagrama, ele tem mais uma semana inteira para brilhar. Tudo, ou quase tudo que rolou por lá, vai acabar aparecendo por aqui. Aguardem!

Eu não cheguei a ver outros filmes de Apichatpong Weerasethakul, mas vários outros membros do júri conheciam o seu trabalho. O que eu realmente gosto em Cannes é ter acesso a filmes que não são fáceis de se ver em nenhum outro lugar. Esse é um filme de fantasia, mas tem algumas coisas que eu nunca vi antes” – Tim Burton

A lista de vencedores desse ano é muito ampla. Juntos, nós conseguimos encontrar um tipo de balanço entre filmes mais radicais e trabalhos de grande escala. A lista incui todo tipo de filme de todos os lugares do mundo” – Alexandre Desplat

Um prêmio é como um consenso, como na política. Mas o verdadeiro juiz é o tempo. Ideias vem e vão, e os filmes ficam. É possível que no futuro apenas um filme desses premiados seja lembrado. E se esse for o caso, nós nos deculpamos” – Victor Erice

Nós tentamos inventar novos prêmios, mas não foi possível! Os filmes que acabaram não ganhando nada também tiveram defensores no júri” – Kate Beckinsale

Para um escritor, é tentador contar tudo o que aconteceu em detalhes nesses dez dias. A única coisa que estava faltando, de um ponto de vista dramatúrgico, era um cara mau” – Emmanuel Carrère

(Em clima de paz, o Júri fecha os trabalhos em Cannes 2010)

1 comentários:

Cintia Carvalho disse...

OI Caio!

Lendo seu texto, vi que dois atores que gosto muito ganharam a palma de ouro. Juliete Binoche é uma ótima atriz da qual tenho grande admiração, pois gosto de seu trabalho. De expressão suave e comedida ela consegue passar muito sentimento e verdade em cada atuação (Perdas e danos, A insustentável leveza do ser, Chocolate, Os amantes da Ponte Neuf).

Já Javier Bardiem tb se mostra um ator talentosíssimo e por tudo que li recentemente sobre sua atuação e sobre o filme acho que foi merecido. Eu gostei muito da forma como vc relatou a trama no texto anterior. Me parece ser um bom filme, dirigido por um diretor que conheço de nome, pois embora ja tenha escutado falar muito dele não vi "Amores Brutos" e nem "Babel".

Ficou muito boa sua cobertura sobres os principais concorrentes deste ano e sobre os ganhadores.

Gostaria de destacar no texto anterior, quando vc colocaou comentários de cada diretor sobre seus filmes, o quanto achei forte e bem agressivo a fala do diretor japonês Takeshi Kitano. Não conheço sua filmografia,mas fiquei curiosa em ver algum de seus filmes.

Caio, por acaso, vc conheço algum filme dele que possa me indicar?

Um beijinho carinhoso.