26 de mai de 2010

Cannes 2010 – Polêmicas, protestos e a participação brasileira na Riviére Francesa

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A premiação estava cada vez mais próxima e Mike Leigh despontava cada vez mais favorito com seu sensível Another Year (favoritismo que, hoje, sabemos frustrado) mas, antes que o “melhor do cinema mundial” fosse celebrado em Cannes, muita conversa séria ainda haveria de rolar. Afinal, cinema, engajamento e arte (e Cannes, quase sinônimo para tudo isso) não são feitos só de festa.

O caso Jafar Panahi

Iraniano, vencedor da Camera D’Or em 1995 por O Balão Branco e do prêmio da seleção alternativa Un Certain Regard em 2003 por Crimson Gold, Jafar Panahi era um dos selecionados do Festival 2010 para compor o júri encabeçado por Tim Burton. Acontece que, em 2 de Março último, dois meses antes do começo da festa, Panahi foi preso pelo governo Mahmoud Ahmadinejad, acusado de estar preparando um filme contra o regime do presidente, e não havia qualquer indicação de sua soltura até o início do festival. O resultado: o caso do cineasta virou assunto recorrente nas entrevistas e mobilizações de Cannes.

Também iraniano, Abbas Kiarostami iniciou a entrevista coletiva dedicada ao divisor de opiniões Copie Conforme, estrelado por Juliette Binoche, protestando contra a repressão artística em seu país natal. Outros cineastas do país assinaram uma carta aberta que pedia pela libertação de Panahi, e um petição online inciada por brasileiros pedia o cancelamento das premiações de Cannes enquanto o cineasta não fosse solto. Na carta para a família que mandou no último dia 19, Panahi declarou: “Não tenho comido nem bebido nada desde domingo de manhã, e declaro que, se minhas vontades não forem respeitadas, continuarei com essa postura. Não quero ser um rato de laboratório, vítima de jogos doentios, ameaçado e torturado psicologicamente”.

Benfeitorias e polêmicas

Já é tradição a maior concentração de celebridades por metro quadrado em Cannes ser na festa da amfAR, a Fundação de Pesquisas sobre a Aids. Com a responsabilidade de seguir Sharon Stone como a apresentadora principal do evento, Marion Cotillard (Nine) contou com a ajuda de Alan Cumming, conhecido por aqui como o Floop de Pequenos Espiões, para levar a arrecadação a impressionantes 6,7 milhões de dólares, que ajudarão nas pesquisas em busca da cura da síndrome. De novidade mesmo, só o desfile paralelo de beldades pela passarela, cedendo roupas usadas para um leilão destinado a ajudar o Haiti. Jennifer Lopez, Salma Hayek, Penélope Cruz, Charlize Theron, Diane Kruger, Demi Moore e Gwyneth Paltrow foram algumas que leiloaram roupas usadas em premiações passadas.

Enquanto o clima luxuoso ainda pairava sobre a reunião de estrelas por uma boa causa, no entanto, a exibição de Hors la Loi, obra sobre a independência da Argélia realizada pelo cineasta francês Rachid Bouchareb, foi responsável pelos momentos mais tensos do Festival. Os aplausos após a sessão para a imprensa não abafaram o protesto do lado de fora da sala de projeção, e um forte esquema de segurança precisou ser montado na entrada da sessão. A relação tensa da França com suas ex-colônias e especialmente com a Argélia, independente apenas 1962, fez o diretor emitir uma carta aberta dizendo que sua intenção era começar uma “serena discussão de ideias” em relação ao assunto.

O Brasil em Cannes

Espremido em um tempo entre as estréias do dia 18 e as coletivas de imprensa dos filmes exibidos, 5X Favela – Agora Por Nós Mesmos, não fez tanto barulho quanto prometeu, mas deu espaço aos diretores dos cindo curtas-metragens que compõe o filme de se expressarem sobre as intenções de suas realizações. Estruturado e entitulado em referência a um dos filmes seminais do Cinema Novo, a coleção de curtas Cinco Vezes Favela, em que realizadores jovens de classe média davam sua visão sobre a pobreza dessas comunidades, a nova obra é uma visão mais otimista e alternativa do que se sabe sobre as favelas brasileiras. Escrita, dirigida e atuada por membros da comunidade, a coletânea de visões de diferentes comunidades cariocas conta com histórias consideras perdoavelmente ingênuas, mas infalivelmente eficientes em mostrar um lado das favelas pouco conhecido tanto fora quando dentro do Brasil.

Em vertente oposta do nosso cinema, a Quinzena dos Realizadores acolheu A Alegria, longa-metragem dos jovens Marina Meliande e Felipe Bragança, uma mistura de drama com fantasia, centrado no mundo imaginário da adolescente Luiza. Usando linguagem subjetiva, sensibilidade a flor da pele e se conectando com produções como Os Famosos e os Duendes da Morte e As Melhores Coisas do Mundo, o filme recebeu aplausos tímidos, graças a falta de ritmo e preparação de elenco. Mas o destaque mesmo veio da seleção oficial de curtas-metragens disputando a Palma de Ouro, com Márcia Faria e sua estreia em Estação sendo calorosamente recebido pelo público do Festival. A história mostra uma garota que chega em São Paulo e Brasília e acaba se instalando na Rodoviária do Tietê.

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Entre aquele Cinco Vezes Favela e este, há quase cinqüenta anos. Muita coisa mudou: o mundo, o Brasil, o cinema e a própria favela. Nosso primeiro filme era um projeto generoso, antenado, mas feito por jovens de classe média. Este novo é uma visão por dentro, em que esses diretores tentam construir sua identidade”

(Cacá Diegues, coordenador do projeto, compara os dois “5X Favela”)

Como todo mundo está cansado de ver favela no cinema, eu quis humanizar os estereótipos que ainda existem sobre os moradores. Há um conflito entre amigos, mas não um conflito de classes, não é uma história de ódio. Já vivi situações como ser obrigado a dar calote no ônibus, mas meu personagem não podia ser depreciativo. Não é um cara de baixa auto-estima, é um rapaz inteligente que não perde sua originalidade”

(Wagner Novais, ator do segmento “Fonte de Renda”, discute estereótipos)

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