31 de mai de 2010

Pandorum (Pandorum, 2009)

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Não existe filme completamente ruim. Há tanta complexidade e detalhismo envolvidos no próprio processo de se fazer uma peça de cinema que soa quase como uma impossibilidade a existência de uma obra descartável ou repugnante em todos os aspectos. Veja Pandorum, por exemplo. Por um lado, é impossível não se ver intrigado pelo mistério que o roteiro de Travis Milloy (o ex-dublê que assumiu a posição de escritor a partir do fraco O Sorriso de Monalisa) ardilosamente propõe, ou até mesmo pela discussão que ele levanta: até que ponto, sem as amarras morais da nossa sociedade, nós somos humanos? É uma questão naturalmente fascinante que a trama trabalha com habilidade, colocando o espectador em uma paranóica viagem envernizada por cenas de ação eletrizantes, mas que pouco esclarece sobre a natureza da trama até o final chocante. Tudo isso, no entanto, é embalado de forma porca por um roteiro que não consegue fugir de alguns clichês (tanto do terror quanto da ficção científica) e por uma direção sem novidades nem ousadias. O resultado é um pacote atraente, amparado por propaganda das boas e produção requintada, mas que nunca cumpre todas as promessas que faz.

O início vai tão direto ao ponto que soa até apressado: a Elysium é uma nave destinada a colonizar o planeta Tamis, um planeta com condições perfeitas para a vida que surge como alternativa a Terra aos pedaços de um século no futuro. Acontece que o Cabo Bower (Ben Foster) e o Tenente Payton (Dennis Quaid) acordam do hiper-sono e percebem que não estão tão sozinhos quanto deveriam em seu turno na viagem de 123 anos. Com a energia da nave desligada e a entrada da ponte de comando travada, Peyton fica para trás, guiando Bower até o reator nuclear que irá reativar a nave através do rádio. Pelo caminho, no entanto, o Cabo descobre que uma parte de tripulação se transformou em monstros canibais, enquanto outra se refugia em lugares seguros, como selvagens. E o Tenente luta contra os sintomas da Pandorum, uma doença psicológica que tende a atacar tripulantes de uma espaçonave isolada de qualquer contato com a Terra destruída. Na intrincada trama, quase nada é o que parece e a sensação de desorientação que o hiper-sono prolongado causou nos protagonistas é estendida de forma habilidosa ao espectador.

Enfim, a verdade é que Milloy mostra-se habilidoso ao carregar uma narrativa coesa e interativa entre suas partes. É uma charada intrigante que vai se desenrolando vagarosamente, quase como uma trama de mistério literária moldada por mãos habilidosas como as de Agatha Christie ou Sir Arthur Conan Doyle. Uma pena que a sutileza não seja a mesma ao tratar a parte mais, digamos assim, entretida da narrativa. Lançando mão de convenções e sem a delicadeza de criar um clima de suspense decente antes de nos apresentar os monstos, Milloy e o diretor Christian Alvart juntam-se para matar todo o impacto e a atmosfera que Pandorum poderia e deveria ter. De um potencial novo Alien, Alvart tira um relaxado terror gore com pitadas do tribalismo do recente Juizo Final que deve agradar aos fãs de Jogos Mortais, e a mais ninguém. Nem um elenco afinado consegue salvar tanto descaminho na direção.

O destaque aqui é Ben Foster, que vem entregando atuações concentradas e impressionantes desde Refém, ao lado de Bruce Willis, mas começou a ser reconhecido com a performance no recente O Mensageiro, em que contracena com Woody Harrelson e Steve Buscemi. Na pele do Cabo Bower, ele empresta credibilidade a um papel destoante, que varia entre pólos quase opostos de personalidade (em uma rara inconsistência da parte do roteiro de Milloy), e quase consegue unir esses dois extremos em um protagonista cativante e digno do próprio mistério da trama. Ao lado de um Dennis Quaid ligeiramente menos canastrão que o normal e um Cam Gigandet (o Cabo Gallo aqui e o James de Crepúsculo) que encarna seu personagem nas cores fortes de sempre, Ben se destaca ainda mais do que o normal. Isso sem contar que é raro vê-lo em um papel de tamanho espaço na narrativa.

Ainda assim, Pandorum é um filme de premissa interessante que, da forma desafortunada que é usual das peças mal-conduzidas, termina sem o refinamento que seria necessário para a questão que levanta ecoar na sensibilidade do espectador.

Nota: 6,5

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Pandorum (Pandorum, EUA/Alemanha, 2009)

Uma produção da Constantin Film/Impact Pictures…

Dirigido por Christian Alvart…

Escritor por Travis Milloy…

Estrelando Dennis Quaid, Ben Foster, Cam Gigandet, Antje Traue, Cung Lee…

108 minutos

2 comentários:

Marcelo A. disse...

É engraçado, mas há filmes que, desde sempre, não me interessam. É o caso desse "Pandorum". Mas sua crítica está tão bem construída, que estou pensando seriamente e dar uma chance a ele...

=)

Mateus Souza disse...

Ben Foster é mesmo um bom ator, não é, ainda, um ator muito badalado, mas sempre apresenta bons trabalhos.

Em relação ao filme, tem razão quando diz que é um amontoado de clichês, o que não seria ruim se o filme não se levasse tão a sério.

Abraço.