14 de mai de 2010

A Verdade, por Caio Coletti

Conto (nunk excl)a verdade 1

Então, essa era a verdade. Eu a via a minha frente tão clara quanto o nascer do Sol, e mesmo que soubesse que amanhã, talvez, ela fosse diferente, aproveitava cada minuto em que podia caminhar com um destino um pouco mais do que certo. Ia a frente apenas, ainda sem saber o que esperar, mas agora, mais do que em qualquer tempo ou lugar, sem nada a temer.

Eram os olhos dela que me guiavam, aqueles caramelos brilhantes incrustados em uma expressão ora severa, ora doce. Mas eu sabia que, não importa o quanto as palavras que saíam daquela boca pudessem machucar, aquele coração batia querendo meu bem. O nosso bem. Eu me alegrava em me entristecer, ao menos enquanto corria a caneta pelo papel tentando descrever o indescritível e decifrar o indecifrável, porque os caminhos tortuosos levam aos lugares melhores.

Sim, essa era a verdade, e quem me contava era sua voz melodiosa, que entoava cantigas de outros tempos e fazia promessas que, eu sabia, não poderia cumprir. Ainda assim, não podia fazer nada além de sorrir e prometer também, embriagado pela plácida beleza do seu sorriso ambíguo, entre zombeteiro e sonhador. E eu acompanhava as linhas angulosas do seu rosto pequeno, o andar lânguido e elegante de quem não se importava com os perigos que vinham a frente, e sabia que olhava para o espelho do meu ideal.

A verdade era ela. Uma garota de olhos castanhos, boca pequena, eterna e belamente contemplado as sutis estranhezas da vida, que me sorria e prometia sem pensar. Seu nome pouco importava. Mesmo porque, para mim, e só para mim, ela sempre se chamaria destino.

a verdade 2 a verdade 3

A denúncia de José Dias alvoroçara-me, a lição do velho coqueiro também, a vista dos nossos nomes abertos por ela no muro do quintal deu-me grande abalo, como vistes; nada disso valeu a sensação do beijo. Podiam ser mentira ou ilusão. Sendo verdade, eram os ossos da verdade, não eram a carne e o sangue dela. As próprias mãos tocadas, apertadas, como que fundidas, não podiam dizer tudo:

- Sou homem!”

(Machado de Assis em “Dom Casmurro”)

2 comentários:

Babi Leão disse...

Que texto lindo ! O destino sorrindo, entao ? Rs
Viajei por cada linha, por cada detalhe e delicadeza !
Parabens por mais um texto maravilhoso !

Beijos !

Marcelo A. disse...

Belo texto, Caio... pra variar, né?

Concordo com a moça aí de cima! A construção de cada frase, a escolha de cada palavra, me fez "viajar" por sua escrita!

Abração!

=)