26 de jul de 2010

Cheio, por Caio Coletti

reflexão (nunk excruir) cheio 1

A luz batia contra os seus olhos, tornando quase claras as íris escurecidas pela preocupação com o que tinha a sua frente. A cidade se movia sem piedade, passando por ele como se fosse qualquer outro transeunte em direção a um destino que, na verdade, estava longe de almejar. Mas ele era diferente. Sabia onde queria chegar e andava com a confiança de quem tinha princípios e não largaria deles nem que isso custasse um preço doloroso. Não media nenhum esforço para que cada passo do seu caminho valesse a pena, e para que sua longa estrada, quando chegasse ao fim, tivesse deixado alguma marca no mundo mecânico das pessoas-fantoche, das engrenagens e da infelicidade.

Disso tudo ele sabia, e era em direção ao destino que aquele caminho o levara que ele caminhava, resoluto, sem hesitar. Ainda assim, ás vezes se sentia cheio. Como se o mundo lhe desse informações, dúvidas, inseguranças, tristezas e melancolias demais em muito pouco tempo, como se tudo fosse se acumulando em um peso que ele não sabia se podia carregar por todo o caminho. Mas o tempo passava, o relógio virava e o Sol nascia mais uma vez, e ao cantar do galo lá estava ele, fiel e constantemente, feliz ou triste, seguindo em linha reta ao que não era conhecido, mas já era almejado.

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Todos nós amamos a jornada, mas nossa fascinação está mesmo no destino. Talvez por isso seja tão doloroso passar pelas provações e obstáculos que o caminho nos impõe, pensando se tudo aquilo vale mesmo a pena, tem mesmo algum significado, algum propósito, ou é apenas uma gigantesca, colossal ilusão. A maior de todas, talvez.

Porque a verdade é que estamos cheios. Cheios da informação falsa e alienante que o mundo coloca a frente dos nossos olhos a cada minuto, cheios da futilidade do que nos cerca e da falta de um propósito para a vida vazia que muitos de nós escolhemos levar, cheios de ter medo de encarar a verdade de frente, cheios de sermos tentados a escolher a estagnação em vez do movimento, cheios de temer a perspectiva de passar pela vida sem deixar nada para quem vier depois, cheios de ponderar em palavras inúteis e imperfeitas o quanto estamos “cheios” de viver.

Tudo isso é verdade, e importa. Mas talvez o fundamental mesmo seja entender que, por mais que estejamos cheios dos altos e baixos de uma vida difícil, devemos estar todos, também, cheios de alegria por continuarmos vivos.

Porque, quase sempre, é o bastante para as lágrimas secarem com o vento que, de súbito, sopra a nosso favor, e não contra o nosso rosto. E assim seguimos em frente.

cheio 2 cheio 3

Todos queremos ajudar-nos uns aos outros. Seres humanos são assim. Nós queremos viver pela felicidade do outro, não por sua tristeza. Nós pensamos demais e sentimos de menos”

(Charlie Chaplin, diretor, roteirista, ator, produtor… e ser humano)

2 comentários:

Babi Leão disse...

Que personagem forte este do começo ! E é no final do texto que você prova que é assim que precisamos ser: "FORTES" ou " CHEIOS", né ?!
Veja que engraçado: eu, justo eu, precisava de força e foi muito bom ler isso !
Um texto CHEIO de vida e de Charlie Chaplin ! A-D-O-R-E-I !
Escreve mais, escreve mais ! rsrsrs
Parabens !
Beijao :D

Marcelo A. disse...

Rapaz, essa última parte, onde você faz alusão à jornada e ao destino de cada um... putz, a carapuça serviu! E pra matar, as imagens do Chaplin! Faço coro com a Babi: Adorei! Escreva mais!