6 de set de 2010

Salt (Salt, 2010)

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“Quem é Salt?”. A pergunta usada na promoção do thriller de espionagem de Philip Noyce pipoca na tela, na cara do espectador, sempre sem resposta, ao menos uma par de vezes durante os 100 minutos de Salt. E não falo algum tipo de legenda que apareça entrecortando as cenas, mas de um confrontamento ideológico dessa questão com a percepção de quem assiste. Com suas constantes reviravoltas e trama espertamente incompleta, Salt é diversão surpreendente, que não ofende a inteligência do espectador e, ao mesmo tempo, não se furta dos exageros quase necessários para criar uma heroína de ação que possa carregar o que pretende claramente ser uma franquia nas costas. Evelyn Salt não é James Bond de saias, mas não faria feio em uma missão ao lado de Ethan Hunt e, ao mesmo tempo, nos aparece com personalidade própria e indentificação o bastante para se tornar uma marca própria. Salt é a máquina de Hollywood a todo vapor, mas com as frenéticas engrenagens que a movem azeitadas por gente muito talentosa.

A começar por Kurt Wimmer, um dos mais subestimados e talentosos roteiristas americanos, o homem que escreveu e dirigiu o brilhante Equilibrium, foi ignorado por isso, e depois da mancada com Ultravioleta, acabou uma figura secundária na indústria. Aqui, ele compõe uma trama engenhosa e inteligente, apoiada em uma premissa intrigante, que não se furta dos clichês de seu gênero mas os perpetua com o verniz bem cuidado de personagens desenvolvidos com esmero e diálogos rápidos, rasteiros e inteligentes. Há uma ressalva, contudo: na visão de Wimmer, no seu script original, Salt era Edwin Salt, o agente da CIA acusado de ser um infiltrado russo prestes a assassinar seu próprio presidente. Foi só com a entrada de Jolie e de Randall Wallace (Coração Valente, Pearl Harbor), chamado para as adaptações necessárias, que surgiu a Evelyn Salt que carrega o filme nas costas e mantem a unidade da rede de intrigas de Wimmer. Fica difícil imaginar a figura do espião sisudo (ou mesmo de Tom Cruise, considerado para o papel) cumprindo essa missão. Mas talvez isso seja culpa da própria Jolie.

Não, a atriz que vemos aqui não é a mesma da atuação superlativa em A Troca, mas também não é a estrela prezada apenas por seus atributos físicos de Tom Raider. De alguma forma, vigiada pela câmera experiente de Noyce, Jolie encontrou a linha tênue entre os dois extremos, trazendo para a personagem a convicção, a crença, o carisma de que ela precisa para convencer e envolver o público. O filme é todo dela, de sua presença e, como sempre, de sua forma estonteante. Mas, aqui, nem a ala feminina vai reclamar. Como Salt, Jolie reúne o melhor de dois mundos: continua linda, mas sabe como poucas protagonizar uma história complicada e inconstante. Mesmo o sempre competente Liev Schreiber, recentemente a encarnação do Dentes de Sabre em Wolverine, lhe rouba a cena, apesar da presença marcante. Chiwetel Ejiofor (2012), então, se limita a pano de fundo e peão em um xadrez de puro entretenimento.

É aí que entra Philip Noyce. Australiano, experiente de quase 30 títulos no currículo, ele traz o faro de diretor que já adaptou duas histórias protagonizadas pelo clássico espião americano (Jack Ryan, em Perigo Real e Imediato e Jogos Patróticos) para o começo de uma franquia que surge promissora para quem gosta de filmes de ação. Noyce realiza perseguições empolgantes e cenas de luta viscerais, equilibrando uma câmera trepidante com o senso de espaço e movimento de quem entende da coisa. E, não só isso, traz também a delicadeza de quem já fez o sensível Geração Roubada para as sequencias dedicadas a desenvolver o personagem de Salt, trabalhando ao lado do diretor de fotografia Robert Elswit em um tratamento esteticamente estonteante do passado frio, quase aterrorizante, de sua personagem. Enfim, mostra que experiência tem, sim, seu valor, desde que usada da forma certa.

Salt começa e termina enchendo a cabeça do espectador de dúvidas, mas fecha seu arco temático no sentido que provém ao espectador ao menos uma resposta clara para a pergunta no começo desse texto. Quer saber quem diabos é Salt? Veja o filme. Mas eu posso adiantar que vai ser um nome que você ainda vai ouvir muito nos próximos anos.

Nota: 7,0

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Salt (Salt, EUA, 2010)

Uma produção da Columbia Pictures…

Dirigido por Philip Noyce…

Escrito por Kurt Wimmer, Randall Wallace (não-creditado)…

Estrelando Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, Hunt Block, Olek Kupra…

100 minutos

3 comentários:

bones disse...

O 7,0 foi uma surpresa, achei que você daria uma nota mais alta.
Gostei dessa análise, geralmente eu vejo um filme sem nem olhar os nomes do cartaz, devo dizer que entendi o porque de tanta gente esperar mais do filme.
Abraços Caio.

ps. já viu o trailer do filme da Hayden Panettiere para o próximo ano?
Eu já coloquei na minha lista - Sucker Punch - péssimo título mas bom trailer.

Babi Leão disse...

Vamos confessar : Se não fosse por Jolie, que graça o filme teria ?
Acho ela maravilhosa, e é por isso que quero assistir! Sou fã até de Tom Raider, rsrss
A crítica tá ótima e me surpreendi com o 7,0 tambem !

Beijao !

Rubens Rodrigues disse...

Não imagino Tom Cruise nesse papel. Na verdade, o único filme dele que eu realmente gostei foi De Olhos Bem Fechados, mas isso tem muito mais a ver com o próprio Kubrick do que com o ator.

Quando li que Salt seria uma mistura de Jason Bourne e James Bond eu criei minhas reservas, mas não demora muito pra Angelina Jolie mostrar muito mais do que a gente espera.

Acho incrível como ela compõe cenas dramáticas no meio das cenas de ação. É isso que faz dela uma atriz completa.