1 de nov de 2010

As Melhores Coisas do Mundo (2010)

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Está na hora de falar a verdade: a maioria dos filmes brasileiros não é muito diferente da denúncia válida de mensagem mas vazia de alma que Oliver Stone, tecnicamente brilhante como é, ainda insiste em fazer de vez em quando. E, se o que ele faz sobre o mundo ianque dele não me comove como espectador e crítico, porque deveria quando a situação retratada encontra-se dentro do meu país? O cinema brasileiro é denúncia, sim, mas esquece-se de ser cinema no caminho. Quando não são pesados e estereotipados, a maioria dos filmes brasileiros ainda é apenas vazia. Talvez eventualmente divertida, mas em última instância vazia. Também pouco adianta ser apenas isso, entretenimento puro, sem o tempero a mais de uma intenção, uma profundidade, uma forma do espectador poder relacionar o seu mundo com o dos personagens. É nesse equilíbrio delicado que se encontra As Melhores Coisas do Mundo, o exemplo mais fresco, mais original e mais pulsante de cinema no Brasil desde muito tempo.

Já que começamos de forma tão franca, continuemos assim. Sim, As Melhores Coisas do Mundo é um filme adolescente, e o crítico que vos fala, naturalmente, tem o pendor sentimental correto para se envolver facilmente com esse tipo de história. Acontece que, independente de idade ou geração, é claro no filme de Laís Bodanzky que bom cinema não tem idade ou identificação para ser apreciado como deve. O roteiro de Luis Bolognesi (Querô) é essencial nesse aspecto, colocando a geração jovem no centro da história, mas jamais esquecendo das diferentes mentalidades que orbitam ao redor deles. O resultado é que As Melhores Coisas do Mundo é tanto um filme sobre adolescentes quanto um filme sobre a relação complicada, nem sempre harmoniosa, mas em sua última instância funcional, entre eles e o mundo que os cerca. E assistir a um filme que revela, de forma tão humana, com emoções tão sutis e reais, a visão de mundo de um personagem que se torna simpático ao espectador sem deixar de ser representante de todo um grupo é um prazer cinematográfico dos que mais estavam em falta no panteão brasileiro.

Aqui, acompanhamos Mano (Francisco Miguez), jovem de 15 anos, virgem, interessando pela “garota errada”, cercado pelos “amigos errados”, com uma família de classe-média que entra em colapso após o pai deixar a casa para se juntar ao novo namorado. Ele é o protagonista, mas sua forma de observar e se relacionar com a mãe Camila (Denise Fraga), o sensível irmão Pedro (Fiuk), a melhor amiga Carol (Gabriela Rocha) e o professor de violão Marcelo (Paulo Vilhena) é tão importante para compreendê-lo quanto a narração em off ou os acontecimentos da narrativa. É o mundo de um adolescente sendo virado de cabeça para baixo, numa época em que cada sutil mudança é um choque, em que cada descoberta é um susto, em que cada descisão é um risco. É uma história a beira do abismo que se equilibra nele com sutileza e habilidade ímpares.

Para arquivar esse equilíbrio, o trabalho de Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças) é essencial, no sentido em que orienta o elenco em uma direção bastante natural e ainda assim emocionante, mas também no retrato cuidadoso e autêntico que faz do mundo dos jovens contemporâneos. Música, fotografia em cores vibrantes (cortesia do brilhante Mauro Pinheiro Jr, de Linha de Passe), um roteiro que vai adiante sem se apressar nem perder o foco, tudo converge para a direção cheia de esmero que Bondazky imprime ao filme. Ela conta ainda com um elenco afiado, incluindo a estreia de Francisco Miguez e Gabriela Rocha. Ele, concentrado e vibrante em cada cena, um protagonista merecedor da história que o cerca, e ela encantadora em suas maneiras espontâneas e trato muito gracioso, enérgico. O elenco coadjuvante que os cerca é de qualidade, com uma nervosa Denise Fraga provocando emoções fortes em uma das melhores e mais catárticas cenas do filme (que inclusive merece um bônus só para ela no DVD), e Paulo Vilhena bem sintonizado com seu personagem. Só mesmo o ídolo teen Fiuk, que acaba encarando o personagem mais pesado do filme, deixa a desejar em méritos interpretativos.

Mas ele é mero detalhe, mera exigência mercadológica, para uma produção interessante, vibrante, divertida, esteticamente bela e conceitualmente intrigante, que explora um mundo diferente da maioria da cinematografia brasileira e triunfa no sentido de mostrar, tanto para os estrangeiros quanto para nós mesmos, que parecemos ter esquecido, que nem tudo no nosso país é violência, miséria e tragédia. Lembrar-nos disso, e de que somos todos seres humanos no final do dia. Isso, sim, é proposta de cinema de verdade. E é esse cinema que está, sem dúvida, na minha lista das melhores coisas do mundo.

Nota: 8,5

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As Melhores Coisas do Mundo (Brasil, 2010)

Uma produção da Gullane Filmes…

Dirigido por Lais Bodanzky…

Escrito por Luis Bolognesi…

Estrelando Francisco Miguez, Gabriela Rocha, Fiuk, Denise Fraga, Caio Blat, Paulo Vilhena, José Carlos Machado…

100 minutos

2 comentários:

Renan Barreto disse...

Grande, Caio. Primeiro tenho que dizer... Seu comentário foi ótimo. Eu sei que poderia escrever 100 páginas sobre as eleições, mas preferi deixar só a questão do marketing e da religião como meu norte naquele texto. Ficou raso para o que poderia ser, mas prometo fazer um texto de verdade daqui a pouco ^^.

Bem, sobre o filme, eu não posso falar muito porque não o vi, mas tenho um colega que participou da película. O Smigol. Ele falou que fez parte do filme e eu ri, mas é legal. Eu fiz uma entrevista bem engraçada com ele nesse link http://renanbarretoonline.blogspot.com/2010/09/ucam-drops-03-smigol-e-alex-escobar.html

A sua crítica começou muitíssimo bem. O cinema no Brasil é justamente o que você retratou. É um cinema de denúncia, pesado e muitas vezes vazio. Esse vazio me irrita. Não amo o cinema nacional, mas quando sai algo bacana fico muito empolgado. Eu fico muito feliz que Tropa de Elite tenha se tornado tal febre. Isso mostra que temos bons cineastas e boas produções. Se bem que eu gosto do tropa porque sou do RJ. Então, tudo o que é mostrado nos filmes a gente vê no dia a dia. Inclusive às referências aos deputados, governador e aos programas de TV daqui.

"As melhores coisas do mundo" parece um bom filme e vale a pena ver, mesmo que tenha o Fiuk no elenco... rsr

Grande abraço, Caio!!!

TEIA disse...

Olá Caio.
Sempre com ótimas dicas de filmes para nós.
Seu post foi publicado .
Até mais.