17 de nov de 2010

Enquanto ele vivia, por Caio Coletti

Conto (nunk excl)enquanto ele vivia 1

Talvez estivesse, mesmo, na hora de acabar com tudo aquilo. Ele pensava assim, andando de um lado para o outro, a arma pendendo da mão, frouxa, os olhos negros arregalados para si mesmo, ainda mais turvos do que já o eram normalmente, um sorriso doentio, forçado, mergulhando o rosto já absurdamente marcado em ainda mais sombras. Respirava mais pesado a cada passo, como se seu próprio peso fosse se tornando insuportável a medida que a consciência de seu ato o atingia. Ele quase podia ouvir o coração, cada vez mais baixo, preparando-se para, em breve, não mais bater. E esse era o único som daquela sala enorme, apropriadamente imersa num silêncio sepulcral.

Isso porque, a poucos passos de onde ele fazia seu trajeto opressivo de um lado para o outro, um cadáver esfriava. E ele podia sentir o próprio peito cada vez mais gelado, também. Estranho, ele deveria estar mais feliz do que nunca, agora que havia eliminado, com uma única bala certeira, o causador de todos os seus problemas e sofrimentos. Estranhamente, nem um nem outro haviam feito nada a não ser assomar assustadoramente a sua cabeça desde que disparara o tiro. Tinha agora a culpa para carregar, os olhos que se voltavam, todos cheios de lágrimas e raiva, para ele. tudo agora se desenrolava em sua mente como uma tragédia grega, ele o próprio Édipo, preferindo arrancar os olhos a encarar a verdade do que fizera. Só que, mau ator que era e ser humano pobre que sempre fora, não tinha coragem de fazê-lo.

Ouviu o baque da arma que deixou cair no chão, sem nem mesmo perceber. Onde teria ido parar a força que demonstrara, vidas atrás, ao tentar negar de forma definitiva qualquer envolvimento com aquele que agora mesmo alvejara? Logo, foram suas pernas que perderam o jogo contra o peso da consciência que levavam sobre si. As mesmas pernas que, um dia, haviam corrido de qualquer chance de comprometimento com qualquer coisa. Especialmente com a vida que pulsara no corpo frio que se estendia a poucos centímetros dele, agora.

Ele estendeu a mão e tocou sua própria vítima, esperando que algum milagre acontecesse. Nada. O milagreiro de verdade nunca é capaz de curar a si mesmo. Uma última pontada no peito, e o corpo todo cedeu a desesperança dessa vez, e ele se viu gelado, o coração quase inaudível, encaranto o teto eterno e salpicado de luz daquela sala. Até que mesmo essas luzes começaram a se apagar, na lenta e triste cadência de um blues noturno daqueles que faziam pensar em todas as besteiras que já fizera.

E então, por fim, ele estava no escuro. Sozinho. Tremendo. Só esperando o momento em que seu coração pararia de bater, como o de tantos outros que ele conhecia. E se arrependia, porque não havia parado de doer, só doía mais intensamente.

Ele não havia matado uma pessoa. Ao menos não literalmente. Antes houvesse. Pelo seu crime ele não seria julgado, embora achasse que deveria. Naquele mundo estranho em que vivia, pode ser que fosse até louvado por sua coragem. Ele havia matado, como muitos antes dele, como tantos até hoje, o amor de dentro de sua própria alma.

Mas descobrira, tarde demais, que sem ele não havia mais nada.

enquanto ele vivia 2

E assim, quando mais tarde me procure/ Quem sabe a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”

(Vinicius de Moraes - “Soneto de Fidelidade”)

1 comentários:

Babi Leão disse...

Eu diria que mais do que de escrever, voce tem o dom de descrever! Texto maravilhoso, senti o que o personagem tava sentindo, de verdade!
E para completar, Vinicius de Moraes não poderia estar em um lugar melhor!

Amei! É sempre bom passar por aqui, parabens!
Beijos, boas férias :)