29 de nov de 2010

Kick-Ass: Quebrando Tudo (Kick-Ass, 2010)

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Ninguém nega que O Cavaleiro das Trevas é um grande filme. Não há como discordar que, apesar de não ter saído bem como se imaginava, Watchmen seria, conceitualmente, uma obra de arte. A pergunta que toda a crítica vem fazendo desde 2008, quando esses dois filmes abriram a fronteira final dos quadrinhos para o público cinematográfico, no entanto, é porque tal obras tem o poder de fazer o público acreditar, de verdade, nos seres heróicos que eram tão étereos no tempo em que Clark Kent ainda andava por aí na pele de Christopher Reeve. Sem descreditar as adaptações anteriores da nona arte, mas é na porta aberta pela modernidade e pelo filme de Chris Nolan que Kick-Ass encontra seu diferencial. Não se trata de buscar por um super-herói como ideal utópico e impossível. Trata-se de fazer uso desse conceito para explorar  dilemas básicos de qualquer ser humano normal. E depois ainda tem gente com a coragem de dizer que não se fazem mais filmes como antigamente.

O fato de inserir-se cuidadosamente em nosso próprio mundo para em seguida quebrar com ele mais do que claramente faz da narrativa de Kick-Ass uma bom-bolada armadilha para o público. Não que ele reclame, é claro. O roteiro de Jane Goldman e Mathew Vaughn, dupla responsável por Stardust, é divertido, chocante e corajoso o bastante para não cair nos própios engodos. Divertido porque não deixa de explorar as possibilidades fantasiosas de uma trama que envolve gente de collants e máscaras combatendo o crime. Chocante porque insere esse contexto num mundo muito nosso, de problemas complexos e humanos, que faz de cada personagem ao mesmo tempo uma caricatura e um retrato fiel e detalhado de um ser humano de verdade. Corajoso porque não foje de polêmicas e até parece ter o cuidado de instigá-las, pelo puro prazer de cutucar Hollywood e suas regras absurdas.

Em Kick-Ass, crianças empunham armas e sangue adulto jorra pela ação dessas mesmas crianças. Pode parecer absurdo, mas é bem aí, de forma muito inteligente, que Goldman e Vaughn impõem a barreira da ficção. Especialmente ele, também creditado como diretor, que manipula câmera, fotografia, trilha-sonora e direção de arte com precisão e dinâmica admiráveis, criando um tipo de cinema contemporâneo que raramente se vê fora as obras de Quentin Tarantino. Claro, o filme deve muito ao texto esperto-até-demais de Mark Millar, talvez o mais moderno dos autores de quadrinhos em atividade, um homem com faro o bastante para criar um super-herói adolescente em um contexto real, numa época em que os filmes jovens estão se tornando cada vez mais honestos com a própria realidade. Na era dos filmes indies, Millar criou um super-herói com pinta de cult sem precisar abandonar a parte divertida da história.

Aqui o portagonista é Dave Lizewski (Aaron Johnson), o típico nerd fã-de-quadrinhos com poucos amigos e invisível para as garotas do colegial americano. Apaixonado pela gracinha com conteúdo Katie Deauxma (Lindsy Fonseca), logo após uma discussão banal com os amigos Marty (Clark Duke) e Todd (Evan Peter) ele resolve comprar um traje de mergulho extravagente, dois bastões de luta e se tornar o combatente do crime Kick-Ass. Tudo isso num mundo onde os heróis só existem nas revistas em quadrinhos, filmes e séries. Enfim, no nosso mundo. Na primeira vez que vai as ruas, Dave leva uma surra. Na segunda, vai parar o YouTube e vira celebridade nacional. É o que basta para atrair a atenção dos estranhos-e-treinados Hit-Girl (Chloe Moretz) e Big-Daddy (Nicolas Cage), mascarados em busca de vingança contra o bandido Frank D’Amico (Mark Strong), que provocou a prissão de Daddy anos atrás. É aí que Kick-Ass se permite desprender um pouco da realidade, se tornando uma espécie de Homem-Aranha mais contemporâneo, com um histórico mais realista e, por isso, mais interessante.

O elenco também ajuda. O ascendente Aaron Johnson, que interpretou um jovem John Lennon no recente O Garoto de Liverpool, pode não ser um grande ator (ainda), mas tem carisma e é dirigido com eficiência para fazer do protagonista uma figura simpática aos olhos do público. Nicolas Cage enfim realiza o sonho de vestir um collant de super-herói (ele foi por muito tempo atrelado ao papel de Superman nos primeiros anos do nosso século), e Big Daddy é um papel humanamente grotesco, na medida para seu estranho talento de interpretar desajustados. Não é um dos grandes momentos de sua carreira, mas já é algo melhor que Mark Strong, cujo ar imutável como o novo vilão preferido de Hollywood já está cansando. Só não dá para negar que quem rouba a cena é Chloe Moretz, jovem, enérgica, concentrada e certeira como Hit-Girl. Esperar pelo futuro da carreira dessa garota de meros 13 anos é aposta garantida, ainda mais com a refilmagem de Deixe Ela Entrar estrando em breve por aqui.

É a Chloe, apesar de todas as suas qualidade, que Kick-Ass deve, no final de suas quase duas horas, o frescor. E talvez seja esse ingrediente excepcional em um conjunto realista e coeso o grande trunfo do cinema moderno. Uma pitada de fantasia para um prato cujo sabor já conhecemos, e nem por isso deixamos de devorar.

Nota: 7,5

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Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, Inglaterra/EUA, 2010)

Uma produção da Marv Films/Plan B Entertainment…

Dirigido por Matthew Vaughn…

Escrito por Jane Goldman, Matthew Vaughn, baseados na obra de Mark Millar…

Estrelando Aaron Johnson, Chloe Moretz, Christopher Mintz-Plasse, Nicolas Cage, Mark Strong, Lyndsy Fonseca, Clark Duke, Evan Peters…

117 minutos

2 comentários:

Mateus Souza disse...

Kick Ass é um filme divertidíssimo! Chloe Moretz rouba mesmo a cena.

Em um gênero que já começa a se desgastar, filmes com ele e Scott Pilgrim Contra o Mundo vem bem a calhar!

Abraço.

Rubens Rodrigues disse...

Kick Ass é tão bom que nem Nicolas Cage estragou o papel.