12 de dez de 2010

Do que eu não sei, por Caio Coletti

Conto (nunk excl)o q eu nao sei 1

Às vezes, quase nada faz sentido. Os dias passam e me vejo debandando de um lado para o outro, sem destino certo, me perguntando qual é o motivo de tudo isso, de todos esses erros acumulados de forma tão dolorosa. Nada do que sou, muito pouco do que faço, quase nada do que sei me conforta, muito ou tudo parece me destruir, peça por peça, até que tenha sobrado só a sombra do que um dia eu fui. Será que fui? Busco na memória grandes imagens, grandes momentos, grandes dramas e grandes feitos. Talvez a vida não seja tão grande. Talvez a sua beleza esteja nas sutilezas, nos cuidados, nos pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Porque não consigo vê-los, tocá-los, senti-los, manipulá-los, então? Talvez não caiba a mim.

A verdade é que eu não sei. Ou melhor, que eu pouco sei, e pouco vou saber. O mundo me dá pistas, as resposas as minhas perguntas, aos meus atos. São sutis dicas do que pode ou não levar para o caminho que desejo alcançar e seguir. Mas nada é definitivo, nada é garantido, não há uma maldita certeza nesse mundo que não possa ser destruída com um estalar de dedos, um minúsculo fio se rompendo sem o menor estardalhaço em um imenso tear de destinos e acasos entrelaçados ao capricho de sabe-se lá quem (ou o quê). Meu mundo está para cair a qualquer momento, a todo instante. Mas, se acontecesse, ninguém ouviria se não fosse meu grito desesperado, patético, por socorro. Quando o mundo nos massacra, lutar é tão inútil quanto inevtitável.

Talvez seja melhor, portanto, não saber. Viver na expectativa de uma queda, viver da sombra do que fomos e do Sol que nasce, no horizonte, que nos indica o que podemos ser. Onde fica o agora, em tudo isso? Numa eterna espera, pelo tique-taque de um relógio, pelo momento infinito e belo de um segundo, em que nada de extraordinário acontece. E talvez nunca aconteça. Talvez seja apenas esse pequeno jogo do tédio de um domingo a tarde, a tensão quase palpável entre os fios daquele tear, o tecido esticado de uma rede estendida sobre um lugar em que bate o Sol. Pequenos detalhes, pequenos conflitos em meio a um envolto em que nada, ou quase nada, pode mudar.

E talvez, só talvez, sejamos capazes de colocar as mãos naqueles fios e rearranjá-los, com todo o cuidado do mundo, medindo cada movimento, cada olhar e cada respiração, sem nunca realmente nos darmos conta de que qualquer coisa pode trazer o tear todo abaixo. Talvez o capricho seja nosso. Talvez sejamos donos do nosso próprio destino. Mas isso é o que eu acho, não o que eu sei. Porque saber, mesmo, não sei de nada. E aí está a beleza de especular, advinhar e testar, a cada nascer do Sol, com a coragem daqueles que ousam desafiar a gravidade em uma rede estendida na praia, ouvindo os instantes infinitos passarem a cada batida do relógio, pensando em tudo que não são capazes de realmente saber.

o q eu nao sei 3o q eu nao sei 2

[Kate]: “Eu estou com medo de decidir…”

[Bobby]: “Eu não tenho medo de nenhuma das duas opções, mas é que – eu quero que isso seja algo que estamos fazendo, não algo que nunca fizemos”

[Kate]: “Isso o quê?”

[Bobby]: “Isso, o que quer que a gente decida”

(Lynn Collins e Joseph Gordon-Levitt em “Uncertainty”)

4 comentários:

Renan Barreto disse...

Caio, é impossível eu não comentar neste texto sensacional. Me fez tão bem lê-lo. Cheio de certezas dúbias, mesmo que paradoxal me sinto assim. Tenho percebido que os meus textos estão perdendo a alegria... Bem... você não tem ideia de como gostei do seu texto. Queria até que eu o tivesse escrito. Não por inveja, mas por admiração. Garoto, pude perceber em cada linha que escreveu quais são suas influências e como és inteligente. Uma esponja cultural como prefiro chamá-lo.

E cara... "Mas isso é o que eu acho, não o que eu sei. " Que foda!!!

Achei lindo o seu texto. De verdade.

Parabéns!

PS: tô sem tempo pra tecer comentários, mas foi impossível não fazê-lo aqui.

Babi Leão disse...

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O !
"Talvez seja melhor, portanto, não saber. Viver na expectativa de uma queda, viver da sombra do que fomos e do Sol que nasce, no horizonte, que nos indica o que podemos ser." Também acho isso e me vi muito nesse texto! Tem dias que fico me perguntando muito, pensando muito, tentando SABER muito, mas ao mesmo tempo eu vejo que não encontro nada. Isso leva a loucura, sério! Bom mesmo é se jogar na água gelada quando ela estiver batendo na cintura e ver no que dá! Pode ser interessante testar nossa profundidade!
Amei! Parabéns! Como sempre me fez refletir muuuuito e deu aquele apertinho no coração de tanta admiração!
Beijão!

Marcelo A. disse...

Engraçado. A tag do texto é "contos", mas ele tem um ar de autobiográfico. É exatamente assim que eu me sinto. E eu acredito que, tudo que a gente escreve tem um pouco da gente. E sobre o texto que você comentou lá no "Diz"... imagina, tu é de casa! Sinta-se à vontade!

=)

Abração!

Vinícius Cortez disse...

As parcas estavam coçando a sua mão enquanto você escrevia, não? É bom se livrar da ideia de que três velhas cegas cuidam dos fios do nosso destino. Tomamos o tear das mãos delas -- só não podemos nos emaranhar neles. Seu texto me deixou na margem.

E li o post de cima, também. Contribuição de muito boa qualidade. Vou tentar desenvolver o Quasar nas próximas semanas; talvez se torne mais pessoal. Sempre que encontrar alguma coisa que lhe chame a atenção, pedir é só falar.

Abraço!