16 de fev de 2011

Paws up, little monsters, we were born this way!

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Música pop, além de extremamente depreciada, tende a ser muito mal-compreendida. Porquê? Bom, talvez por termos perdido aos poucos, nesse anos em que toda a informação deve ser clara e objetiva, além de preferencialmente instantânea, a capacidade de interpretar de uma forma um pouco mais cuidadosa um tipo de informação que exige mais da nossa mente. É mais fácil pôr rótulos e aferir defeitos do que realmente entender o que a canção, a obra, o conjunto de tudo o que se refere a ela, nos quer dizer. Porque arte pop, mais do que qualquer outra, é assim. É preciso ir além do entretenimento, da sensualidade, da iconoplastia própria dos videoclipes e singles, e extrair de tudo isso a reflexão de mundo e de crença que toda boa música pop é capaz de fazer.

Ponto feito, não dá pra julgar Born This Way, o primeiro single do a ser lançado segundo álbum de Lady Gaga, como uma simples canção de balada. Não que ela deixe de o ser, com sua batida constante que remete ao tecno, os sintetizadores que já são a marca da ítalo-americana e a a letra sobre, superficialmente, se libertar dos rótulos. As comparações com Express Yourself, de Madonna, também são justificadas. Mas Gaga está acima de fazer cópias. Primeiro argumento, fazer referência a Madonna na música pop é como falar sobre o Papa em uma missa católica. Além do mais, o pop é isso mesmo, uma colagem de referências e cópias. Se não houvesse cópia, não haveria arte. Mas a boa arte é a que copia para dizer algo novo. E Gaga definitivamente tem mais a dizer do que Madonna.

Antes que os fãs da rainha do pop me linchem em praça pública, explicações: em sua época, Express se tornou sucesso pelo apelo indiscutivelmente inteligente de Madonna, pela habilidosa mistura de artista pop e marketeira brilhante que ela sempre foi. E é música pop de primeira. Mas o que Gaga nos diz em Born This Way não é sobre fazer os homens se declararem, ou sobre sair de algum tipo de repressão. É sobre como todos nós nascemos superstars, e podemos ser o que quisermos, quando quisermos, como quisermos. É sobre liberdade pura. E a metáfora do “nascido desse jeito”, mas a encenação da saída da cápsula que movimentou o Grammy 2011 no último domingo, diz claramente que podemos renascer da forma como quisermos, a qualquer momento.

Uma mensagem muito mais profunda do que as linhas de sintetizadores, e que é capaz de justificar qualquer dito “exagero”, como foi tratada sua aparição no mesmo Grammy que adicionou mais uma camada a plena compreensão dessa nova empreitada de Gaga. Assim como, pode ter toda a certeza do mundo, caro leitor, o clipe adicionará mais um pouco de profundidade a essa mensagem. Porque Gaga não está para brincadeiras. Irreverente como sabe ser, ela está sempre querendo dizer alguma coisa sobre a fama, sobre a sociedade, e sobre nós mesmos. Não é exagero dizer que Gaga vai além de “a nova Madonna”. Gaga é ela mesma, e ao mesmo tempo aparece cada vez mais com uma missão parecida com a de seu ídolo pessoal, Andy Warhol: a de elevar, de novo, e quem sabe de uma vez por todas, o pop a categoria de arte. Aprender com ela, no entanto, ao invés de criticar sem pensar, parece ser privilégio de poucos.

Como um tweet de um usuário anônimo me fez lembrar outro dia: “Express Yourself é só sobre sexo. Born This Way é sobre todos nós”. Com justiça a música de Madonna, talvez seja sobre anseios femininos adolescentes, mas disso não passa. Mas Born This Way é também sobre o conceito mais arraigado do que Gaga acredita e quer passar para os seus fãs. Em uma entrevista, a comovente peça saiu-lhe da boca: “Se eu puder, apenas por um momento, inspirar você a amar a si mesmo, então tudo terá valhido a pena”. Alguém mais precisa de uma desculpa para virar fã? Eu te amo, Gaga. E eu me amo, agora. Por mim, você pode dormir tranqüila. Aguardo o álbum com toda a expectativa do mundo. We were born this way, baby.

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I’m beautiful in my way/ ‘Cause God makes no mistakes/ I’m on the right track baby/ I was born this way!

Don’t hide yourself in regret/ Just love yourself and you’re set/ I’m on the right track baby/ I was born this way!”

(Lady Gaga em “Born This Way”)

3 comentários:

Fabioc disse...

Ainda não ouvi o single, mas tenho uma opinião confusa sobre Lady Gaga.
Já odiei e critiquei mto seu jeito exagerado, que dá a impressão que ela quer chocar o tempo todo. Já fui compreensível, tentando entender que é isso o que vc falou, ela quer chamar atenção da sociedade para questões mais profundas. Já admirei sua coragem.

Enfim, ainda não tenho nada concreto sobre ela. Só posso afirmar que ela é uma artista, isso é inegável. Existem muitos artistas que usam o pop de forma superficial. Outros sabem usar o estilo e vão além de uma música bem produzida. Pra mim, toda arte é uma reflexão. Quando não há reflexão a arte não existe. Um funk pode trazer uma bela reflexão, assim como um pagode. Basta não ser feito apenas para vender ou feito baseado em uma fórmula que deu certo.

Espero que em breve eu possa ter algo concreto pra falar sobre Lady Gaga... Ou, quem sabe, seja melhor deixar assim. Muitos artistas não nasceram pra serem compreendidos e sim pra confundir e criar questionamentos.

Talvez seja essa a missão de Gaga.

Talita disse...

Concordo plenamente com você! Certas artes não nasceram para ser compreendidas. E qualquer expressão delas deve ser aceita e analisada por nós da melhor forma possível.
O problema é que a maioria dos fãs não sabe aceitar que o mundo está cheio de pessoas competentes, e resolvem estragar o sucesso alheio. Infelizmente!
Ótimo texto Caio! Sua visão me fez prestar mais atenção na GaGa e nas mensagens das músicas.
Parabéns, beijo :*

Rubens Rodrigues disse...

A sonoridade de Born This Way é comum, diferente das músicas do The Fame Monster (L). Porém, o conceito é interessante, não é novo, mas cabe muito bem no momento de bullyng (escrevi certo?).

Enquanto outros artistas insistem em dizer como você é bonito, tratanto vítimas de bullyng como coitados, Gaga vai além, cria o hino da libertação de todos que em algum momento sentiram que eram diferentes e tiveram problemas por isso.

Eu digo que uma música pode te tirar do buraco por experiência própria, agora imagina aqueles que cometeram suicídio porque não aguentavam mais viver sob pressão, chacota, talvez só precisassem de alguém que lhes dissessem de como eram especiais.