16 de fev de 2011

A Rede Social (The Social Network, 2010)

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Sempre foi difícil para o ser humano pensar em uma vida que é vivida na solidão. Quase que por um instinto primitivo, procuramos conexões e relações com as pessoas ao nosso redor, como se o próprio conceito de sociedade nos exigisse esse comportamento. Ninguém consegue o que quer sozinho, e viver sem ninguém é assinar um atestado de insanidade. Ainda mais em pleno século XXI, quando a Internet, em seu próprio propósito, nos possibilita estar em constante contato com as pessoas, mesmo quando não estamos realmente em contato com as pessoas. É um paradoxo já bem estranho, e David Fincher não faz nada nesse A Rede Social, com a considerável ajuda de uma história real e do roteiro de Aaron Sorkin, a não ser adiconar mais um ponto de interrogação a essa história toda. Afinal, a Internet está aqui para nos conectar mais ou apenas nos deixar ainda mais separados e, portanto, mais perto desse isolamento que tanto tememos?

Como qualquer boa discussão, A Rede Social não chega a conclusões, na mesma medida que foca um caso isolado, verdadeiro e absurdamente irônico nesse contexto temático todo. A premissa não deve ser novidade para ninguém: estudande de Harvard, o estereótipo do gênio anti-social e cínico, Mark Zuckenberg (Jesse Eisenberg) termina com a namorada e cria, certa noite em seu laptop, um site que compara fotos de garotas da Universidade e pede para os internautas rankearem as mais, digamos assim sem perder a elegância, interessantes. O barulho é tanto que, mesmo com o site colocado abaixo no dia seguinte pela rede de Harvard, Mark é contatado pelos gêmeos ricos e populares Cameron e Tyler Winklevoss (Armie Hammer) com uma ideia para uma rede social que seria exclusiva para alunos da Universidade. Mark vê mais longe, expande a ideia e lança, com seu parceiro de quarto e melhor amigo, Eduardo Saverin (Andrew Garfield), o thefacebook.

Contar o resto, para quem já não conhece toda a história real, seria estragar uma narrativa muito bem engendrada pelo roteirista Aaron Sorkin. Com a elegância e sobriedade que são suas marcas, ele trata cada personagem de forma muito particular e muito precisa, inserindo uma racionalidade intrincada em sua trama ao mesmo tempo que não deixa o foco se perder do estudo intenso que ele faz de uma parte da natureza humana. E é aí que entra a ironia. Da história do criador de uma das mais populares rede sociais do mundo, Sorkin tira um filme sobre… o isolamento. E sobre como podemos ser facilmente levados por um caminho que não temos real intenção de percorrer. Quando nos damos conta, não tem mais volta.

A figura do criador do Napster, Sean Parker (Justin Timberlake) é a tentação nessa história, e Fincher acertou nessa escolha de elenco como acabou acertando em praticamente todos os papéis de destaque da trama. Justin não é um grande ator, mas é carismático o bastante para levar nas costas o papel de um homem de negócios que não é também tão bom no que faz, mas sabe tirar vantagem de uma boa ideia e de uma matéria de manipulação fácil. Enfim, sua atuação é peixe pequeno, de qualquer forma, quando Jesse Eisenberg está em cena. De forma muito sutil, ele cria aos poucos um personagem que, se pensarmos bem, é complexo e absurdamente diverso do que estamos acostumados a vê-lo representar. Como seu personagem, e de forma muito inteligente, Eisenberg não faz questão de parecer simpático ao espectador. Ainda assim, é impossível não ver a si mesmo, um pouquinho que seja, lutando entre decência e oportunidade, seus princípos e seus sonhos. Não, Mark não é um cara legal, e fez muita coisa errada no caminho para se tornar o bilionário mais jovem (e mais solitário, diga-se) do mundo. O que não significa que ele não seja humano. E Eisenberg nos mostra isso de uma maneira sublime.

Por fim, Andrew Garfield fecha o trio principal com sua atuação natural e fluída de sempre, com seu Eduardo Saverin muitas vezes sobrepondo-se ao próprio Zuckenberg como o protagonista de toda a história. Garfield é um ator maduro e completo, que encontra no comando de David Fincher um potencial ainda a ser muito explorado nos próximos anos. Falando em Fincher, seu trabalho aqui em A Rede Social pode muito bem ser o mais sutil e acertado de sua carreira. Se em Seven ele revolucionou o cinema do suspense, em O Clube da Luta ele mostrou que jogos pop e reflexões de verdade sobre a sociedade podem andar juntos e em O Quarto do Pânico ele desfilou técnica, é nesse A Rede Social que Fincher se sobrepõe a própria e notada frieza presente em suas obras para apresentar um estudo denso, instigante, ainda ligado a toda no entretenimento, mas uma reflexão muito mais humana do que os antecessores de sua filmografia.

O trabalho absurdamente elegante de Jeff Croneweth na fotografia é uma assistência e tanto nesse sentido, e não seria injustiça se o homem responsável pelos planos do próprio Clube da Luta se saísse como o vencedor da categoria desse ano no Oscar. Trent Reznor e Atticus Ross são uma aposta mais arriscada, mas fazem um trabalho certamente competente. Como tudo na carreira de Fincher aliás, sempre foi e sempre será. A diferença que faz de A Rede Social seu auge é que, por uma vez e finalmente, não estamos mais falando de finais aterradores, teorias sociológicas ou os incríveis efeitos especiais para envelhecer/rejuvenescer Brad Pitt. Estamos falando da natureza humana. Do que o cinema, por definição, foi feito para refletir. E se identificar com A Rede Social vai acabar sendo muito mais fácil do que você imagina.

Nota: 9.5

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A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010)

Uma produção da Columbia Pictures, Relativity Media…

Dirigido por David Fincher…

Escrito por Aaron Sorkin, baseado no livro Milionários Por Acaso de Ben Mezrich…

Estrelando Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara, Brenda Song, Max Minghella…

120 minutos

4 comentários:

vcortez disse...

Que artigo legal, Caio!

Mas sabe o que acho que cairia bem nesse tipo de postagem? Vc dedicar umas linhas a um palpite de se o Social Network (ou algum outro do páreo) levará ou não os Oscars a que foi indicado. Vi que vc tocou no assunto no final do texto, mas seria interessante vc apontar mesmo, ou criar um post só pra isso :)

Guiherme disse...

É intrigante como essa história tem conquistado o público. Acredito que o excelente roteiro e a perfeita direção transformaram uma história que poderia conquistar a antipatia do espectador em um conto que coloca o criador do site como um rapaz deslumbrado com o que a fama e o dinheiro podem lhe dar, mas que no fundo é solitário e infeliz.
Gostei do blog e estou seguindo. Por favor, visite os meus


http://acervodocinema.blogspot.com
http://memoriadasetimaarte.blogspot.com

Babi Leão disse...

Que crítica divertida! Você sempre me faz me interessar pelos filmes! E com certeza eu vou gostar desse ! Beijos!

Rubens Rodrigues disse...

Não gostei do filme. Gostei do Andrew Garfield, e só.

O que "estragou" Mark foi justamente o estereótipo. Ele é tão desinteressante, não muda em nada durante o filme, não há uma evolução do personagem, nem o contrário.

Ah, também gostei da trilha sonora.

E sobre o Oscar... A Rede Social não deve levar o de melhor filme, mas como a academia gosta de "chocar", não acho impossível.