13 de mai de 2011

BOT, por Vinícius Cortez (Parte II de II)

Conto (nunk excl)v 1

O inspetor rodou pela sala por mais alguns minutos. Ora parava em frente à janelinha da porta como se quisesse chamar alguém a quem pedir ajuda, ora caminhava junto à parede com uma mão apoiando a testa. Se não fossem dois bots, Gabriel e Ian se assustariam com a aspereza da voz com que o inspetor ordenou ao último que saísse da sala. Houve uma breve hesitação, mas o bot acedeu e se retirou em silêncio.

— Gabriel, preciso que você desfaça sua ligação com a Central agora. — o tom imperativo que o inspetor usou não devia dar brecha alguma à desobediência, mas demorou algum tempo até que o bot respondesse que suas comunicações por ora estavam desligadas. O inspetor voltou a se sentar e juntou as mãos em frente aos rosto, com os cotovelos apoiados na mesa. Parecia estar prestes a implorar por algo. — Se te desativarem, sujando ou não o nome do Ministro, que diferença faz?

Pela segunda vez desde que entraram naquela sala, Gabriel pareceu esboçar alguma emoção, mais duradoura que a última. Aos olhos do inspetor, podia ser tanto surpresa quanto indignação, mas talvez fosse apenas uma emulação simples do movimento dos músculos de um rosto humano de verdade. O certo é que mais uma vez o bot alinhou sua cabeça ao resto do corpo, e só uma nota sutil como a de alguém que sentisse nojo de repente se revelou em sua voz:

— Você me pede que ignore as leis do seu próprio mundo.

— Eu não lhe peço nada. Só estou... sugerindo. Imagino que você se preocupe com o destino das nações, e acho que você sabe como o Presidente se preocupa em escolher homens bons para o ajudar. E o Figueira é um homem bom. — o inspetor deu um sorriso convidativo, esperando que suas palavras surtissem algum efeito positivo sobre a indiferença hostil de Gabriel. Dessa vez, porém, sem esperar um segundo para anunciar sua resposta, este disse:

— Um homem bom que eu encontrei estrangulando uma garota de vinte anos na cama do seu hotel. Será preciso que eu mostre meu vídeo mais uma vez? O Ministro teve sorte. Se eu soubesse do que ele era capaz, teria perdido mais do que um braço. — Sua voz ressoou no vazio da sala como um tinir metálico, completamente despido de piedade. — Eu acessei alguns dos registros policiais dos últimos períodos em que o Ministro estava viajando a trabalho, e tenho boas razões para acreditar que Helena nem sequer foi a primeira. É quase um esporte para ele, sempre antes das convenções em que discursa. Se eu o deixar ir, ele fará de novo...

A essa altura o Inspetor já segurava a cabeça nas mãos, como se estivesse quase desistindo. Não precisava que Gabriel lhe lembrasse de coisa alguma, porque da última vez fora ele mesmo que resolvera o problema. Era um outro bot secretário, um modelo bem mais antigo em cuja programação fora possível inserir uma linha de execução pela qual certos períodos de tempo bem específicos podiam ser apagados sem deixar vestígio. O inspetor ficara bem orgulhoso ao conseguir alterar o firmware original do bot, mas não podia prever o que estava por vir — um robô com crise de consciência. Se ela, a consciência, tivesse metade da força que tinha em humanos, não havia a menor esperança de que ele concordasse em apagar suas próprias memórias.

— ... e o problema de vocês humanos é tolerar demais. — Concluiu Gabriel, sem que ficasse muito claro porque chegara à última afirmação.

O inspetor se lançou para trás na cadeira, balançando gravemente a cabeça.

— E você achou que poderia consertar tudo?

— Aos poucos, sim. É muito menos do que vocês humanos imaginam, o quanto de atenção que precisam colocar para conseguir aquilo que realmente os faria felizes. Pelo aumento da sua frequência cerebral, vejo que não acredita em mim. Mas nós nos tornamos necessários para salvar o que ainda há de bom entre vocês. E o ministro é um homem mau.

O inspetor escutava sem dar muita atenção, seus olhos pousados em algum ponto debaixo da mesa, provavelmente sobre os seus pés. Quando Gabriel parou de falar, grunhiu baixinho da mesma forma que tinha grunhido quando ele mencionou sua frequência cerebral de novo. Finalmente, decidiu responder alguma coisa. Os olhos de Gabriel faiscavam atenção enquanto os lábios do inspetor se moviam devagar.

— Bem, Gabriel, você venceu: agora sei que tudo é possível. Até as calculadoras podem ter um senso de justiça de que nós não precisamos. — Lamentou. E aos poucos foi levantando os olhos até encarar o bot que o observava sem deixar escapar um movimento sequer. — O único problema de vocês, idealistas de carne ou de lata, é que são sinceros demais. Demais.

Dizendo isso, voltou a se endireitar na cadeira e sorriu como uma criança que acaba de ganhar um jogo. Levantou-se rapidamente e, dando passagem aos três bots escuros que marcharam porta adentro, segurava numa das mãos um pequeno quadrado preto, menor do que a sua palma. De repente, Gabriel também se ergueu, batendo com as duas mãos na mesa ao perceber a minúscula luz de rede do celular do inspetor acesa.

— O sinal não está tão forte, mas serve. — comentou em tom brincalhão — Já viu o seu?

v 2 v 3

Trevize franziu as sobrancelhas. ‘Como se decide o que é prejudicial ou não para toda a humanidade?’
’Precisamente, senhor’, disse Daniel, ‘Na teoria, a lei zero era a resposta para todos os nossos problemas. Na prática, nós nunca poderemos decidir Um ser humano é um objeto concreto. Dano a um ser humano pode ser medido e julgado. A humanidade, por outro lado, é só uma abstração’”

(Isaac Asimov, em “Foundation and Earth”)

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