7 de set de 2011

Hoje

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Por Caio Coletti

Hoje escrevo porque vi. Vi que tenho agido da forma errada, ou pelo menos que poderia estar agindo melhor. Vi que a questão nem sempre é o mundo me aceitar, mas sim eu mesmo aceitar o mundo. Vi que não mostro de mim mesmo o tanto que deveria, para as pessoas que poderia. Vi que me protejo demais do mundo e que, talvez justamente por isso, ele todo se afaste de mim, como o bom mensageiro se afasta de quem espera dele apenas notícias ruins. Vi que preciso mudar, e muito, e rápido, se quiser conseguir o que anseio.

Hoje escrevo porque senti. Senti culpa por ter feito algo que me faz ter nojo de mim mesmo. Senti inveja de quem entendeu melhor a vida do que eu pude, tem muito mais do que eu ouso querer. Senti ciúmes irracionais e incompreensíveis. Senti paixão em anestesia, pronta para acordar a qualquer sinal de vida, mas ainda dormindo, distante mas muito presente, em algum canto acessível de minha mente. Senti força para seguir em frente, e fraqueza perante o mundo que me afronta. Senti a alegria de quem vive a infância e a agonia de quem contempla a morte a acha fugazmente bela. Senti o início e o fim, e tudo o que há entre eles. Senti uma vida inteira.

Hoje escrevo porque pensei. E logo, diria Descartes, existi. E duvidei, de mim mesmo e dos outros, de olhares, palavras e intenções. Desconfiei de minha própria sombra. Hoje escrevo porque falhei. Mas também porque venci. Porque vivi. Mas também porque morri, mais um pouco, afogando-me devagar e dolorosamente dentro de mim mesmo. Porque sorri, por alguns instantes. E porque quis chorar, nessas últimas horas, por tudo o que não chorei na minha vida inteira. E escrevo então, principalmente e acima de tudo, porque não consegui.

Hoje escrevo porque posso, porque quero, porque amo e porque preciso. Hoje escrevo porque vivo, e talvez viva porque escrevo. Ou então não saberia para onde ir, daqui, e nada faria sentido. E hoje não escrevo mais, porque já batem as três da manhã, e o hoje de que falo não é mais hoje. É ontem. E o amanhã que espero para continuar sentindo tudo o que senti e para consertar um pouco do que vi, o amanhã que estou esperando para mudar, enfim, nem é mais amanhã. É hoje. Pois que hoje seja um novo (e lindo) dia, então. É tudo o que posso pedir.

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“…And I wanna believe you/ When you tell me that it’ll be okay/ Yeah, I try to believe you/ Not today, today, today, today, today…

Tomorrow it may change.”

(Avril Lavigne em “Tomorrow”)

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