6 de set de 2011

Miss

Winners for this year's Binibining Pilipinas (Miss Philippines) beauty pageant react following their coronation at Manila's Quezon city early Sunday March 8, 2009 in the Philippines. They are, from left, Melody Gersbach, who will represent the Philippines in this year's Miss International, Pamela Bianca Manalo, who will represent the country in the Miss Universe, Marie Ann Umali, who will represent the country in the Miss World. (AP Photo/Bullit Marquez)

Por Caio Coletti

Ela fizera de tudo para chegar onde estava. O sorriso impecável, o andar insinuante e rígido na mesma medida, a proporção perfeita do corpo que havia custado uma vida de prazeres. Ela escolhera o sacrifício, e agora ali estava a sua recompensa. Brilhando em prateado e refletida em seus olhos secretamente ávidos, a coroa subiu milímetro por milímetro, em câmera lenta e flutuando como por mágica (ela jamais poderia ter olhos para a senhora de feição e sorriso plásticos que há algum custo tentava alcançar sua cabeça), até o lugar onde pertencia.

Ela sentiu o metal entrar pelo seu cabelo e tocar de leve o couro cabeludo. E pronto. Sua visão era borrada, surreal, difusa. E de repente ela se sentia como o alpinista que acaba de atingir o topo do Everest. A platéia deveria estar aplaudindo, mas seu rugido era pra ela como o do vento frio que tocava a pele fina e a mente cansada de quem topou o desafio e foi até o fim. Cada rosto que sorria para ela era uma parte daquela imensa, interminável paisagem que se estendia tão longe.

Longe. O mundo todo era longe demais para ela. Onde queria, no topo do mundo que tomara como seu, de repente ela só pensava em voltar. Ou o cachorro não traz de volta a bola depois de correr buscá-la? Ela sentia falta, tanto e de tanta coisa. E o pior não eram as saudades do que o tempo tinha levado. Isso é da vida. Mas ela sentia falta do que ela mesma escolhera deixar para trás. Do que negligenciara e de quem tratara errado porque estava ocupada demais tentando ser perfeita. Mas só pode ser perfeito o que não é vivente, e só pode ser amado o que o é. Eis a ironia da sua pequena tragédia: a miss, a vencedora, a admirável, sentia falta... de amor.

Ela não desfez o sorriso. Não desmediu as palavras. Não parou nem por um segundo para pensar no quão cansada estava. Ela não podia simplesmente parar. Se o fizesse, desmoronaria. Se olhasse para o abismo na beira do qual caminhava, se encarasse a altura do Everest ao qual subira, ela sabia que bastava um segundo para que simplesmente pulasse. Então ela seguia em frente, sem nem dar atenção a pergunta que lhe martelava a cabeça: “para onde?”.

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Nenhum objeto é tão lindo que, sob certa perspectiva, não se torne feio”

(Oscar Wilde, escritor irlandês)

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