29 de out de 2011

Fabio Christofoli #3 – Analogias

Fabio opinião

Toda vez que eu leio a frase “Brasil: Onde politicos são levados na brincadeira e comediantes são levados a sério”, eu fico indignado.  Primeiro porque é uma falácia fazer essa analogia. Em que mundo humoristas e políticos estão no mesmo contexto?  Em que mundo? E só pra derrubar essa frase ignorante, cabe lembrar que este país SEMPRE se indigna quando acontece um escândalo político. Sempre. O nosso problema é que isso nunca segue em frente. Como essa indignação com humoristas não vai seguir.

Depois porque a imagem que acompanha a frase é a foto do Rafinha Bastos. Eu não consigo aceitar que alguém ache certo ou bobagem o que ele falou. Sinceramente. Eu não consigo ver argumentos pra defender a bosta de piada que ele fez, onde insinuou que faria sexo como uma grávida e seu bebê. Desculpe eu ser repetitivo, mas em que mundo isso é normal? Se você acha isso certo, por favor, pare de ler esse texto.

Na verdade, eu adorei saber que as pessoas se indignaram. Odiei ver que pessoas se indignaram com essa indignação. Se alguém se indignou com o que ele falou, é porque há esperança para essa sociedade. Não me venha dizer que foi “só uma piada”. Não brinque com a minha inteligência. Foi muito mais que isso. Antes de ser humorista (nada engraçado, no meu ponto de vista), ele é formador de opinião.  É assistido por milhões de jovens, que estão formando seu caráter, adquirindo seus valores. Sabe o que acontece quando um adolescente assiste um imbecil desses falando isso? Na maioria das vezes, ele reproduz. E isso vai se tornando comum, até, talvez, se tornar uma cultura. Antigamente respeitávamos nossos pais, as crianças eram crianças, a escola era levada a sério... Isso tudo mudou da noite pro dia, e uma das principais culpadas é a mídia de massa, os formadores de opinião presentes nela.  Desculpe ser careta, alguém tem que ser.

Pra ser sincero, há muito tempo eu tava de saco cheio do Rafinha Bastos. Ele andava extrapolando  o nível da arrogância e do mal gosto.  Antes dessa, eu vi ele debochar dos órfãos no dia das mães e de mulheres feias que são estupradas.  Em nenhum momento eu ri disso. Eu apenas me indignei. Que espécie de humor é esse que indigna? Que humilha? Humor pra mim é aquele que faz rir. Raramente eu vejo alguém rir do Rafinha, apenas vejo muita gente achar legal, debochar com ele. O humor dele é agressivo, tem o objetivo de ofender, antes de fazer rir.

Lembrei agora que há um movimento entre os humoristas que levanta a bandeira do “Humor sem censura”. Infelizmente eles confundem censura com limite. E, numa sociedade decente, tudo tem limite. Minha liberdade acaba quando ela invade a do outro. E quando humoristas se tornam agressivos com as palavras, eles ultrapassam o limite. Vir com esse papinho de que “hipocrisia” é apelo. Todo mundo pensa merda, é verdade. Mas imagina se todos fossemos sair por aí falando o que pensamos. Há uma coisa chamada bom senso e graças a ele que nossa raça ainda não foi extinta.

E já que algum “sábio” fez essa analogia do caso do Rafinha com o dos políticos, concluo meu texto fazendo outra. Sabe o que vai acontecer com ele? Nada. Assim como acontece com os políticos, a indignação vai sumir, da noite pro dia, e a maioria das pessoas que ficou indignada vai esquecer e até voltará a aplaudi-lo. Ele vai continuar ganhando uma fortuna pra ser agressivo e todo mundo vai dormir feliz, menos quem for agredido por ele.

rafinha 1 rafinha 2

Muitas pessoas enviaram mensagens me pedindo para perdoá-lo, mas só se perdoa quem pede desculpas e está arrependido. Eu não tive essa opção.
Essa é a minha verdade e também a primeira e última vez que falarei publicamente sobre esse assunto. Tudo o que eu tinha para dizer, disse aqui. Não sei se todos compreenderam minhas razões lendo esse texto, mas peço, encarecidamente, pelo respeito a meu silêncio de agora em diante”

(Wanessa em seu blog pessoal)

1 comentários:

vcortez disse...

(Desculpe pelo comentário gigantesco)

Fabio, sou daqueles que não gostam do modo como nos indignamos com o Rafinha Bastos, mas não obedeci sua dica de parar de ler, porque você escreve bem e quis chegar ao fim do texto :)

Dito isso, vamos à questão em si. Eu tendo a pensar que, assim como dizem que a pior crítica a um artista é o silêncio, o silêncio também é a pior vingança contra um comediante. Imagine um show de standup. O sujeito sobe no palco, começa a fazer piadas de extremo mal-gosto. As pessoas toleram os absurdos na primeira frase ofensiva, dão um sorriso amarelo com a falta de tacto do comediante. Daí ele faz de novo. E de novo. Até que todas as caras estão carrancudas, não há nem rastro de riso. As pessoas simplesmente se levantam, dão à mão ao acompanhante que haviam levado para uma noite que era pra ser divertida, e vão embora. Depois não voltam à mesma casa de show ou, no trabalho, recomendam aos colegas que não vejam o show do Fulaninho, que é sem graça e estúpido.

Agora, levando a metáfora adiante: o sujeito sobe no palco, faz a burrada uma, duas vezes. As pessoas se levantam indignadas, mas não saem mantendo a compostura. Tiram tomates dos bolsos, que arremessam contra o comediante antes de se lançar contra ele no tapa e chute. Pedem uma ordem judicial para fechar o teatro que o admitiu. Criam um pequeno comitê que elabora uma lista de palavras ou minorias que não podem ser abordados em piadas nos teatros de Standup. No futuro, o Sicrano, que não é o Fulano e tem noção de que violência gratuita não diverte, vai pensar duas vezes antes de se sujeitar a ser linchado no meio do show
, mesmo que suas piadas sejam inofensivas. “Será que se eu contar aquela piada do negão as pessoas vão me prender por racismo? E a piada do menino gordinho, pode ou é bullying?...”. Qual o resultado? Menos risos, menos liberdade no palco, menos gente assistindo e se apresentando. Tentando não ofender ninguém, a premissa já estará aberta para que o comitê censure outro comediante ou jornalista. O poder de decisão mudou da pessoa com bom senso, que se levantou da platéia, para um sabichãozinho que dirá o que é bom ou não de ouvir.


Esse é o modo como a questão tem sido tratada. Eu queria que tivesse acontecido como no primeiro exemplo. As pessoas que não assistissem a Band ou o CQC (como não assisto), que o ridicularizassem no Twitter pra que a comunicação da emissora entendesse a razão de a audiência ter caído e qual participante, em qual quadro, pela sua falta de educação, era responsável por aquilo.
“Ó, Rafinha, o IBOPE mostrando que você está exagerando. Ou você maneira, ou maneiramos o seu salário!” Como um boicote espontâneo, ao invés de criar o perigo de que gente bem intencionada no futuro não possa se expressar por causa de um idiota no passado.

É claro que nosso sangue latino borbulha quando nos insultam. É difícil pra gente se manter impassível e sair da sala. Mas não acho que seja impossível!