15 de nov de 2011

Tributo à Inspiração (ou “Um Melhor Amigo me Disse”)

tributo 2

por Caio Coletti

O dia frio era daqueles que instigava e provocava qualquer um a (re)encontrar aquele motivo meio longínquo, escondido na profundeza de tudo o que a gente deixa de dizer para nós mesmos, para ficar triste. Senão triste, melancólico pelo menos. Era um dia de blues, de jazz, de soul. De música meio empoeirada. As nuvens fechadas são conhecidas por inspirar poetas de beira de estrada, daqueles que cantam as desilusões sem grandes pretensões nem grandes conquistas, mas fazem sorrir de boca fechada, de canto de rosto, de relance, virando para seguir o caminho. Aquele sorriso que esconde um mundo de outras coisas por trás dele, e não faz questão de ser um disfarce muito bom, porque, afinal, os olhos falam mais do que qualquer camuflagem.

Nesse dia, naquela cidade cinza ainda mais árida por ser tão movimentada, ele sentava-se esperando a sua linha. O ouvido enterrado nos fones discretos, os olhos atentos a tudo ao seu redor, virando-se inquietos para observar melhor, sentir melhor, o que o cercava se misturar com a batida que entoava em seus ouvidos, fazendo vibrar as cordas certas em sua mente. E, claro, os cheiros. Ele sentia os perfumes de quem passava por ele. Doces, amadeirados, cítricos, aquela qualidade indefinível do perfume no ponto certo para ser simplesmente atraente. E, especialmente, o asfalto gelado rescendendo da marca da graxa nos lugares em que os carros costumavam passar e ainda passavam, no fluxo ininterrupto das seis da tarde de sol poente (e cinzento) no horizonte.

A claridade hesitante do crepúsculo não era aquele brilho intenso do verão, mas apenas um reforço aquela sensação de um dia que já acabou e, ao mesmo tempo, ainda pode dar muito sobre o que se pensar. É de fato impressionante como os dias nublados tendem a incitar as dúvidas, e todas elas. Ele duvidava, agora, e de muita coisa, a começar por si mesmo. Duvidava que pudesse chegar em casa e lidar com o que lhe esperava lá sem cometer nenhum erro. Duvidava que pudesse ir dormir sem pensar em mil coisas que o dia seguinte aguardava e dez pessoas de quem ele sentia falta ou que desejava que estivessem mais perto. Mas, acima de tudo, ele duvidava da surpresa. E se convencera a pensar que não mais a aguardava todos os dias, nem sabia apreciá-la. Talvez tivesse se convencido que não a merecia.

Ele ouviu o ônibus se aproximando antes de vê-lo. Bastou uma rápida olhada de esgueiro para a esquerda e ele soube que era naquele que deveria embarcar. Suspirou de leve e catou suas coisas, tirando os fones de ouvido justamente quando uma música acabava e colocando o aparelho de MP3 dentro da mochila que ajeitou nas costas no tempo certo do ônibus frear com um ruído característico bem a frente do ponto. Ele foi o primeiro a subir, o que era um lance de sorte, porque o ônibus estava a beira da lotação. Passou pelo motorista e pagou a passagem, só então levantando os olhos para procurar por um lugar. Passava o olhar pelos lugares ocupados sem nem pensar. Dormindo, lendo, mal-humorado, dormindo, lendo, mal-humorado, sorrindo... que sorriso! Ele disfarçou bem, mas seus olhos foram rápidos o bastante para registrar muita coisa.

Aquela aparição repentina era alta, e era possível notar mesmo no assento. Os ombros meio encolhidos, talvez arcados pelo cansaço, ostentavam uma jaqueta preta surrada que lhe caía bem, e o cabelo bem caído sobre a testa não deixava esconder o rosto lindo que tinha. Talvez fossem os olhos grandes, pretos, ou talvez fosse simplesmente o brilho que aquele sorriso, aquele leve enrugar no canto do rosto, lhe dava. A boca ligeiramente aberta o tempo todo, como que numa eterna expressão de dúvida, a qual só faltava o franzir de sobrancelhas. As covinhas na maça do rosto, ou só o jeito como a mão segurava o celular conectado a pessoa que havia provocado aquele riso. Ele não sabia explicar. Só era... um contraste. Com aquele dia, com aquele momento, com aquela rotina. Era a surpresa em forma de ser humano.

E ele escolheu lhe dar as costas, para não precisar encarar o tempo todo. Por vergonha, talvez. Por insegurança, ou por medo de simplesmente não ser o bastante. Ele sentou-se no único lugar vago que não lhe dava visão para sua surpresa. E ali ficou, tentando pensar em outra coisa, tentando observar outras pessoas, tentando se interessar de novo pelos odores ao seu redor. Mas só o que havia era o mormaço que desprendia daqueles que o rodeavam e muito provavelmente haviam tido um dia tão ordinário e extraordinário ao mesmo tempo quanto o seu. Ele só se perguntava se tinha sido o único a notar aquela figura tão contrastante. Ele virou a cabeça devagar, tentando não ser notado, mas quando conseguiu ver alguma coisa o olhar da surpresa estava tão perto do dele que não pode fazer nada a não ser voltar bruscamente a sua posição inicial.

Encostou a cabeça no vidro, enfim, e suspirou de novo. Encarou as nuvens do outro lado da janela e as amaldiçoou por tantos motivos diferentes que era preciso contar. Primeiro, por simplesmente não condizer com o Sol do sorriso que havia acabado de encarar. E então, logo depois, por ter simplesmente o feito pensar no fato de que não tinha algo assim na sua vida. Fechou os olhos por um instante, e deixou-se envolver na escuridão e no som do silêncio mortal dentro do ônibus, quebrado apenas pelo ronco do motor e pelo barulho do vento se chocando contra as janelas do veículo que seguia quase sempre em linha reta. Tentou não pensar em nada. E assim foi por um tempo, até que sua mente começou a deslizar por entre nomes e cores, sensações e vertigens, e pelo rosto que se encontrava a algumas fileiras... Estava tão cansado.

Ele recuperou lentamente a consciência, e sentiu de repente uma respiração que andava descompassada com a sua, mas tão próxima que ele podia senti-la como um movimento perto de si. Hesitou por mais de um momento, mas abriu os olhos enfim e deixou-os registrar o ônibus um pouco mais cheio, o céu um pouco mais escuro do outro lado da janela, o silêncio um pouco mais perturbado por um casal que cochichava confissões alto demais alguns assentos a frente dele. E foi isso, tudo isso, antes de notar que sua surpresa estava ao seu lado. E não só sentado ali, de repente, como se tivesse apenas sumido de um lugar e aparecido em outro, mas também com aqueles olhos negros fechados, aquele cabelo ligeiramente desarrumado para um dos lados. A cabeça encostada em seu ombro. Como se tivesse sido com sua permissão. Como se fossem, eles, os dois, um só. Ou algo assim.

Ele sentiu a própria respiração entrecortar, como se não houvesse oxigênio o bastante. Ele sentiu a música lenta dos dias nublados começar a soar em sua mente, mas não era mais aquela dos poetas melancólicos de beira de estrada. Era aquela balada despreocupada, do violão meio doce e talvez da voz grave que entoava as palavras certas, no tempo certo. Ou talvez fossem os toques mais agudos, meio colaterais, do piano. Os acordes mais simples. Era estranho ele ouvir aquela música. E era ainda mais estranho ficar ali, parado, simplesmente observando sua surpresa dormir em seu ombro. Perguntou-se se ele estava mesmo adormecido. Importava? Aquele sorriso de leve, de lado, com um milhão de coisas para esconder, se formou no rosto dele. E, em um instante, ele soube que deveria também fechar os seus olhos e fingir que não tinha notado. Não havia motivo pra simplesmente estragar o que havia acontecido. Encostou de novo a cabeça no vidro, e se deixou de novo envolver pela escuridão.

Mas não dormiu. Ou talvez tenha dormido. Só sabia que havia sentido o tempo todo a sua surpresa respirar ao seu lado. Até que, um tranco um pouco mais perceptível do ônibus, e ele sentiu que ia acontecer. O local onde a sua cabeça havia descansado ficou morno por um tempo. E ele enfim abriu os olhos, pra ver o lugar vago ser preenchido por um qualquer ao seu lado. Lá fora, por entre as nuvens, o Sol terminou de desaparecer do horizonte. A noite ainda era fria, daquelas que nos fazem ouvir músicas tristes e (re)encontrar aquele motivo esquecido para ficar melancólico. E daquelas que nos fazem escrever, e escrever, e escrever, e escrever... O que seriam das linhas sem a inspiração da vida?

tributo 1 tributo 3

“…And I dare you to let me be your one and only/ I promess I’m worthy/ To hold in your arms/ So come on, and give me a chance/ To prove I am the one who can/ Walk that mile/ Until the end starts…
I know it ain’t easy giving up your heart (Nobody’s perfect/Trust me I’ve learned it)”

(Adele em “One and Only)

2 comentários:

Babi Leão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Caio Coletti disse...

Obrigado pela parte que me toca, Babi. Confesso ter lido alguns de seus textos nesses meses, e também continuo achando você uma ótima escritora.