24 de dez de 2011

Luis Lima #1 – Clarice Lispector e a Epifania

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A estética literária da ruptura como forma de encontro consigo mesmo.

Clarice Lispector, uma das mais importantes artistas do modernismo brasileiro, que escreveu inúmeros livros e foi responsável pelas mais profundas análises ontológicas, é um mito. Afirmo sem receios que essa mulher foi transfigurada em uma personagem fictícia e o que resta dela são vestígios de uma voz que balbucia aqui e acolá frases impactantes de gosto popular. Os adolescentes que se dizem apaixonados gostam de citá-la; os pseudo-intelectuais, ansiosos pela incursão em filosofias existencialistas, também a citam, ousando, às vezes, parafraseá-la; algumas pessoas taxam-na de feminista; outras, de complicada; ainda há aqueles que concordam que “liberdade é pouco” e que também acham que aquilo a que eles aspiram “ainda não tem nome”, mas, sobretudo, o mais importante é saber que não devemos nos preocupar “em entender, porque viver ultrapassa qualquer entendimento”.

Cabe mais uma vez a ênfase: a figura tão popular é uma personagem que, à mercê de uma vasta digitalização de conteúdo literário de crítica social, acabou sujando a imagem da grande escritora que Clarice Lispector foi. Curioso que ninguém verdadeiramente a lê - são apenas frases soltas, arrancadas de alguns livros bons e outros nem tão bons assim, que apenas servem para disseminar a cultura daqueles que não a lêem, mas que jamais confessariam isso. Clarice é como um deus - não se pode senão adorá-la. Tão popular e tão idolatrada que está, que não se pode remar contra a maré e dizer alto e com segurança “não gosto dela”. Se isso for dito, virão afirmações torrenciais e agressivas que deliberarão que você não gosta porque não reconhece o que é bom na literatura, ignorando aqui que o bom - qual o belo, o feio, o torpe, o incômodo - é relativo, ou então que não gosta porque não entende a estética dela. E provavelmente as pessoas que estarão com as cinco pedras na mão são justamente aquelas que, tendo lido A paixão segundo G.H., entenderam apenas uma a cada quatro páginas - mas isso também não se confessa, né?

Finalizando essa breve explanação a respeito da figura mítica - aquela que é protagonista do aplicativo “Conselhos de Clarice Lispector”, no facebook -, me empenho agora na análise da escritora verdadeira, a ucraniana de nome Haia Lispector, nascida em 1920, que veio para o Brasil ainda criança, onde lhe foi dado o nome abrasileirado “Clarice”, e que, desde a infância, em Pernambuco, nas redações escolares, escrevia textos [que se distinguiam] por registrar sensações em vez de fatos. Iniciou uma carreira de jornalista, trabalhando para a Agência Nacional e recebeu o prêmio Graça Aranha com Perto do coração selvagem, considerado o melhor romance de 1943, livro no qual ela trabalhou bastante a relação professor-aluno, inspirada pelos tempos de colégio. Pode-se dizer sucintamente que sua obra percorre várias temáticas, mas todas elas estão associadas a uma abordagem ontológica - ou seja, um estudo sobre o ser humano - e não em enfoques psicanalíticos, psicológicos ou religiosos, ainda que, a respeito disso, deve-se abrir um parêntese a fim de explicitar que o termo “epifania” - objeto desse texto - está relacionado à religião, mas também significa, segundo definição do dicionário, “apreensão, geralmente inesperada, do significado de algo”.

É importante que, antes de adentrar na análise prática de dois contos nos quais a epifania se verifica, posicionar a escritora dentro de um contexto literário. À época do lançamento do livro, a literatura nacional – bem como as artes de um modo geral – passava por um momento de reformulação na sua estrutura básica. Antes, os escritores davam prioridade à formalidade da obra, apresentando-a já completa ao leitor; à época de Clarice, que pertence à escola modernista, era importante mostrar também o processo de criação do escritor, já que ele é uma figura importante no discurso da narrativa – as impressões do escritor são igualmente importantes, porque elas mostram a perspectiva dele em relação à história que ele escreve. No caso de Clarice, talvez essas características sejam mais notáveis no romance A hora da estrela (1976), lançando apenas um ano antes de sua morte. Mais especificamente, ela pertence à terceira fase modernista e sua primeira publicação, Perto do coração selvagem (1943) foge à temática regionalista que parecia dominar a estética literária do momento e traz a problemática existencial num estilo fragmentado e elíptico, o que definitivamente atrai a atenção de estudiosos, como Alfredo Bosi, Antonio Candido, Walnice Galvão e Gilda de Melo Souza, que se dedicaram a análise da obra dessa escritora.

Vamos, por fim, à análise da epifania em dois contos, sendo eles “O amor” e “A imitação da rosa”, estando ambos reunidos no livro Laços de família (1960). Cabe previamente apontar que em todos a epifania acontece: primeiro, ela surge associada a algum sentimento para então ocasionar a ruptura interna da personagem, tornando-a suscetível a uma perspectiva que ela jamais tivera e, por conseguinte, embora sua vida siga aparentemente igual, a personagem foi modificada, uma vez que agora compreende a existência de uma nova visão de mundo. Vale apontar também que as personagens dos contos são mulheres e, a tempo, acrescento a informação de que a maioria do trabalho clariceano tem como protagonistas mulheres, mas a incursão pelo universo feminino jamais a impediu de discorrer ontologicamente, e, ainda, de tornar suas personagens bastantes densas psicologicamente como forma de se contrapor à instauração do pensamento de que à típica dona de casa do século XX não cabe inteligência e perspicácia. Feito o esclarecimento, cabe que conheçamos as histórias de Ana e Laura

Ana, de “O amor”, é uma dona de casa ocupada com os seus afazeres domésticos: preparar comida, limpar a casa, auxiliar os filhos com seus deveres escolares etc. Numa tarde, tendo acabado os ovos, ela vai repô-los e, ao voltar do supermercado, estando no bonde, vê um homem cego a mascar chicletes. A naturalidade dele a assusta e a primeira reação que ela tem é de nojo - como pode um cego tão à vontade mascando a goma sem nem sequer poder vê-la? E analisá-lo a choca, porque, afinal, como pode ela, uma mulher bem instruída, educada para ser polida, sentir nojo de uma figura humana que, não fosse a deficiência, seria exatamente igual a ela? Os pensamentos a perturbam, obrigando-a a percorrer um caminho de auto-análise também - qual o homem cego, ela também vê pouco, já que nem sequer consegue reter-se às características humanas, uma vez que ao homem cabe a solidariedade e não pejo e, como ela mesma conclui, ela está tão cega quanto ele, mas sua visão é tampada por um véu invisível, uma deficiência que não nasceu com ela nem foi causa por um acidente; foi ela mesma que se permitiu cegar-se.

Laura, por sua vez, é outra dona de casa de “A imitação da rosa” a cuja vida, diferentemente da de Ana, não se associam nenhumas atividades domésticas. A empregada faz todo o serviço e o que resta a ela é organizar a sua casa de modo impessoal, uma vez que ela acredita que a impessoalidade é o mais bonito. Como vai receber um casal de amigos à noite para o jantar, ela decide separar as rosas do vaso sobre a sala de visitas e entregá-la a Carlota, sua melhor amiga. Antes de começar o processo de manutenção das plantas, ela se senta e as observa: em sua vida vazia, talvez fossem as rosáceas a única coisa unicamente sua. Toma-as nas mãos e dedica-se a elas, moldando-as cuidadosamente, uma vez que agora existe uma proximidade irreparável entre elas. E entregar, agora, as plantas à amiga, não seria tirar-se de si um pedaço e dar à outra? E não havia agora tudo se tornado pessoal e não teria ela gostado disso?

Há ainda outros onze contos do mesmo livro nos quais um acontecimento no cotidiano é responsável pela reestruturação das vidas de alguns personagens, como, por exemplo, uma mulher enraivecida que decide encontrar o ódio em “O búfalo”, um homem cujos instintos primitivos são despertados pela visão da galinha sobre a mesa na ceia em “Uma galinha”, além de outros livros que poderiam caber aqui de exemplo, como é o caso de A paixão segundo G.H. Mas como o nosso foco é justamente “O Amor” e “A imitação da rosa”, é necessário apontar as distinções entre as epifanias que ocorrem nesses contos.

É evidente que ambas as protagonistas se deparam com um questionamento acerca das suas características humanas e a epifania delas acontece devido à divergência de seus caminhos em relação às expectativas do que é ser humano. Ana afasta-se da solidariedade, enxerga o outro como inferior, sente por ele nojo - assim, distancia-se da humanidade e somente se reencontra quando percebe a aproximação sua em relação ao objeto com o qual se compara, no caso, o homem cego. Laura, em contrapartida, percebe-se já desde o começo desumanizada, uma vez que adota a impessoalidade como estilo de vida e vive confortavelmente no vazio de sentimentos - está em oposição à figura humana, pois. Seu momento de reflexão surge a partir do preenchimento de seu vazio, uma vez que o contato com as rosas - as únicas coisas das quais ela realmente se sente próxima - começa a torná-la efetivamente uma pessoa, logo, dotada da capacidade de sentir. Percebemos que há ponto de semelhança e ponto de diferença entre as personagens, sendo que elas confluem no que diz sentido à sua desumanização e então consciência disso, e divergem no que tange ao modo como suas epifanias acontecem: enquanto à Ana acontece um efeito de comparação e, por fim, aproximação (ela e o cego são, afinal, muito parecidos), à Laura acontece a infiltração do sentimento e, em breve, o preenchimento de sua languidez existencial. Podemos sugerir aqui que a ruptura é necessária para a re-integração do ser com ele mesmo. Curioso notar que suas vidas “voltam ao normal” depois desses acontecimentos: Ana chega a sua casa e volta às suas atividades domésticas enquanto Laura simplesmente opta por entregar as flores à sua amiga, como planejado antes. Mas, a partir de seus momentos apocalípticos - leia-se “momento de revelação” -, ambas tornaram-se figuras em transição, a caminho de outro campo de compreensão, aquele no qual podem, respectivamente, compreender a naturalidade das coisas e ser livre para sentir.

Como percebemos, o trabalho de Clarice se torna bastante notável quando se verifica a fronteira indefinível entre os elementos ontológicos como a vida e a morte, Deus e o homem, tudo e o nada, a angústia e o prazer, corpo e alma. A idéia é de que esses elementos se fundem em algum momento do cotidiano e formam um todo indivisível e isso aparece nos momentos epifânicos. Jamais podemos nos esquecer de que é importante compreender a possibilidade da epifania no elemento cotidiano, uma vez que ele é uma experiência coletiva, sugerindo implicitamente que todos estão sujeitos a essas transformações.

Enfim, espero ter podido, mesmo que brevemente e sem me aprofundar muito, mostrar que Clarice Lispector é muito mais do que a criatura indiscutivelmente sábia que permeia e assombra. Minha sugestão sincera, parafraseando a monstra do facebook, é que vocês se rendam, como ela se rendeu; mergulhem no que vocês não conhecem, como ela mergulhou - assim, que leiam um pouco da obra dela e que a conheçam muito mais, talvez gostem, talvez não; e se não gostarem, digam alto e em bom tom, de modo que talvez possamos desmistificar toda a encenação que se criou em torno dela.

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Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

(Clarice Lispector em “A Hora da Estrela”)

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