5 de dez de 2011

O Discurso do Rei (The King’s Speech, Inglaterra, 2010)

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 por Caio Coletti

2010, em quase todas as avaliações críticas, foi dado como um ano fraco para o cinema. Apesar do Festival de Cannes ter feito muito mais barulho que a edição desse ano ousou causar, a lista de indicados para o Oscar acabou decepcionando muita gente, que inclusive achou desnecessária a continuidade dada pela Academia a nomeação de 10 concorrentes ao prêmio de Melhor Filme. Por outro lado, a lista demonstrou a pluralidade da linguagem cinematográfica como poucas na história do prêmio-maior do mundo do cinema, sendo que a grande contenda do ano ficou entre pólos absurdamente opostos desse contexto: A Rede Social, de David Fincher, representa a forma de fazer cinema verborrágica, dinâmica, em que as emoções superficiais são extrapoladas, mas os dilemas profundos são protegidos pela casca quase invulnerável de uma geração que aprendeu a ser assim num mundo que gira rápido demais; esse O Discurso do Rei segue na direção oposta, expondo sem pudor as vísceras de seus personagens, mas não os fazendo sujos como o cinema independente americano. Trata-se da exposição européia da polida educação que demorona assim que se olha, um pouco mais de perto, os olhos de quem está em cena.

E que olhos, que interpretações. Seja nos cacoetes típicos de Helena Bonham-Carter, aqui um deleite crucial como a esposa praticamente perfeita do protagonista ou na deliciosa insistência e brilho de um ator magnífico (e subestimado na mesma proporção) como Geoffrey Rush, O Discurso do Rei é o grande filme que é em parte por causa de seu elenco. Não foi por acaso que deixei Colin Firth para uma sentença só dele: sua atuação é absolutamente singular, de uma complexidade impossível de mapear, demonstrando toda a insegurança de sua persona com a mesma ousadia que constrói, aos poucos, de fragilidade em fragilidade, um ser humano que qualquer um é capaz de admirar pela perseverança e pela bravura. É uma contradição, pensar que são as neuroses e gagueiras do seu Rei George VI que o fazem um protagonista tão admirável, uma figura na qual se espelhar. Mas diz-se, na vida real, que simpatizamos pela qualidade, e amamos pelo defeito. É fácil amar o personagem de Firth. Por mais temperamental, dificil, inseguro e imaturo que ele seja. Ou talvez justamente por tudo isso, e por superar tudo isso.

Se o verdadeiro herói é aquele que passa por uma transformação, o Rei George é um herói e tanto.  O roteiro de David Seidler, veterano dos filmes para TV e autor do script de O Rei e Eu, também ganhador do Oscar, sabe quando ser divertido e leve, quando pegar pesado na construção de seus personagens, e quando deixar a trama fluir pela própria grandeza de sua história real. Mas talvez sua melhor qualidade seja manter a fleuma britância e fazer de O Discurso do Rei um filme, além de grandiosamente emocional, esteticamente charmoso. Isso é trabalho dele e de Danny Cohen, o diretor de fotografia, responsável também pelas câmeras de Os Piratas do Rock, entre outros. Seu trabalho é de classicismo exemplar, mas também de certa ousadia que é essencial para a estética do filme não parece desgastada e totalmente sem sintonia com o espectador. Amparado, assim, o trabalho de Tom Hooper, conhecido pelo filme de TV Longford, na direção, é bem mais fácil. Mas sua perícia em guiar toda a hisótira e mecanismo do filme adiante é também inegável.

Independente da dança das estatuetas, O Discurso do Rei não decepciona quem, assim como este que vos fala, confia na Academia para premiar, sempre, filmes brilhantes como esse. Talvez eles nem sempre acertem aquela produção que vai ser considerada “o filme do ano” daqui a algum tempo, mas é inegável que, ao colocar para rodar um filme amparado pelo ouro do Oscar, você raramente vai se decepcionar. O Discurso do Rei tem uma ótima história pra contar, uma porção de gente talentosa para contá-la, e ainda pode nos ensinar, quem sabe, a acreditar um pouco mais em nós mesmos. E você não vai me ver negando prêmio nenhum a um filme assim.

Nota: 9,0

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O Discurso do Rei (The King’s Speech, Inglaterra, 2010)

Dirigido por Tom Hooper…

Escrito por David Seidler…

Estrelando Colin Firth, Helena Bonham-Carter, Geoffrey Rush, Derek Jacobi…

118 minutos

2 comentários:

Fabioc disse...

Eu particularmente gosto quando vc fala de cinema. Acho que tem propriedade e procura ver os pontos positivos, sempre!
É raro ver isso.

Sobre o filme. Sinceramente, achei a história fraca, porém, como vc destacou, a atuação do elenco foi brilhante. Tão brilhante que transformaram essa história fraca em um grande momento do cinema em 2010. Esses detalhes de atuação, enriqueceram muito a obra. E é por isso que eu considero um GRANDE filme.

Junior disse...

Adorei :]
Adoro esse filme e adorei o que você falou sobre ele, parabéns!