25 de jan de 2012

Do Silêncio (Partes I e II de IV)

silencio 1

por Caio Coletti

Parte I

Ele quase não podia suportar aquele som. Ainda que trancado dentro de casa, mesmo depois de tanto tempo tentando conviver com toda aquela balbúrdia de longe de suas fronteiras, cada bater de martelos lá fora era capaz de provocar-lhe um daqueles incômodos e doídos estalos no ouvido. Há muito tempo decidira não mais sair de casa, apenas se acomodar no seu canto, fugindo para o mais longe possível de um mundo selvagem que não sentiria falta dele. Tudo para escutar o silêncio. Sentir a paz, o raciocínio pulando de um lado para o outro sem influências externas, a mente aos poucos se esvaziando, o doce e pacífico vácuo aos poucos tomando conta de um momento de descanso que ele pretendia eterno.

Como era bom, estar em um lugar onde ele podia ser ele mesmo, sem restrições, e ainda se ver livre de uma sociedade que o levava para lugares onde ele não queria ir, onde os sons eram altos demais, as cores eram impactantes demais, a pressão era grande demais. Às vezes ele achava que não nascera para viver naquele mundo. Nas noites mais silenciosas, ele abria a janela e espiava as estrelas, pensando se lá, onde não havia ar para os humanos respirarem, o silencio ainda pairava. Podia pensar em si mesmo flutuando, livre da gravidade, de todo o resto, simplesmente pensando em nada. A mera possibilidade era capaz de desenhar-lhe um sorriso.

Mas não naquele dia. Trazido de volta a Terra pelo som da construção que se iniciara nas horas anteriores, ele agora via que, por mais que tentasse, estava preso e atarraxado àquele mundo barulhento. Nunca poderia fugir completamente, mesmo que desejasse voar para além das estrelas com toda a força do seu pensamento. A julgar pela altura em que os barulhos da construção chegavam aos seus ouvidos, algum vizinho de apartamento havia resolvido derrubar uma parede, ou algo do tipo. Nunca tivera queixas em relação a vizinhos, sempre discretos na medida que um ser humano comum é capaz de ser sem ofender a própria vaidade. Agora, porém, eles eram seu tormento.

Bem verdade, devia haver um motivo forte para criaturas tão pacíficas quanto aquelas que esporádica e gentilmente apareciam para lhe convidar a um almoço, ao que ele sempre respondia inventando algum compromisso, estarem de repente perturbando sua paz silenciosa para algum ato vil de construção. Qualquer que fosse a motivação por trás da barulheira, porém, ele começou a ficar realmente irritado depois de alguns dias de incessante movimento. Pensou em ligar para a portaria do prédio pedindo explicações, mas há tempos não tocava em um telefone. Não se atreveria, tampouco, a passar um passo além da soleira da porta. Se ali, dentro de sua zona de segurança, o som penetrava pelas paredes e fazia seus ouvidos doerem, o que seria dele quando estivesse de volta a selva lá fora? Não, o corredor não era seguro, para seu próprio bem.

Sua cabeça latejava a cada martelada no dia em que tudo pareceu acabado. Mais alguns sons estranhos, que ecoavam em seus ouvidos como um objeto grande sendo arrastado por um chão de madeira que rangia, e então silêncio. Sua paz voltara. Naquela noite, porém, ele não se sentiu seguro o suficiente para observar as estrelas. Talvez devesse esperar mais alguns dias para ter certeza de que era seguro se expor a qualquer elemento externo. Depois de tamanho tormento, então, ele preferia nem pensar em mover um dedo sequer para além da soleira da porta, dos limites daquela casa, seu santuário agora restaurado.

Naquela noite, ele dormiu bem. Mas não sonhou com suas estrelas. Algo estava vazio.

Parte II

Ele abriu os olhos, as pupilas vivamente castanhas, ainda não apagadas pelo tempo, se ajustando aos poucos a luz que entrava pelas frestas da janela mais uma vez fechada. Dois dias já haviam se passado desde que a movimentação no apartamento vizinho parara, e embora ele não tivesse ouvido mais nada que se fizesse notar de longe, prestara atenção o bastante para captar que a garota mais nova, provavelmente filha da boa senhora que sempre vinha a sua porta lhe convidar para o almoço, estava saindo com mais freqüência. Claro, seu instinto de curiosidade por qualquer coisa externa de seu pequeno mundo já estava irremediavelmente inativo há algum tempo.

Levantou-se, olhando cuidadoso pela fresta da janela e constatando, feliz, que o céu continuava limpo como no dia anterior. Não gostava do barulho que a chuva, por mais suave que fosse, fazia ao cair sobre o telhado do prédio. Observou por um instante a água que se acumulava entre suas mãos em forma de concha, saindo da torneira da pia do banheiro. Seus dedos pareciam tão fracos ali, diante do branco do mármore. Estava envelhecendo. Para a maioria dos seres humanos, isso seria motivo para repensar sua vida com, digamos, um prazo mais reduzido para acertar as coisas. Ele apenas levou a água ao rosto. Desperto, afastou as preocupações mundanas da cabeça e tentou apreciar o silêncio restaurado enquanto tomava seu café da manhã.

Porque deveria se preocupar, afinal? O que tinha para acertar? Quando deixara tudo para trás, seu objetivo era justamente que chegasse ao final da vida sem nenhum sonho irrealizado, nenhuma expectativa frustrada. Porque escolhera não sonhar, não planejar, a não ser quando o assunto era o seu divino silêncio. Poderia estar lá fora hoje, bem-sucedido (ou não), mas escolhera aquele rumo, consciente de que ele lhe levaria para um final de solidão. Ele só queria morrer em paz. Esse fora o seu propósito durante toda a vida. Sempre fizera sentido. Para ele, ao menos.

Por onde sua família andava, ele nem mesmo sabia. Lembrava-se da infância, da época em que era uma pessoa normal, não por escolha, mas por obrigação. Costumava ter nojo de si mesmo naquela época. Era apenas mais um. Em sua visão, não deveria ser assim, e quando se tornou (ou se julgou) experiente o bastante para fazer suas próprias escolhas, optou por fugir das amarguras, das emoções, das quedas e das feridas. Não fora tão mais sensato? Até hoje não entendia como tanta gente era capaz de ser feliz com tanta dor as afligindo. Aquele era o mundo delas, sombrio e escuro. Naquela casa, ele pedia paz, e construíra seu próprio mundo, iluminado... e vazio. Deliciosamente vazio.

Ele levava o pedaço de pão a boca quando aconteceu. Do nada, sem que ele nem mesmo percebesse ou pressentisse, seu silêncio sagrado foi quebrado pela segunda vez em tão pouco tempo. Dois toques, delicados e suaves, casualmente calculados, quase como se um fosse conseqüência do outro. Como a gota de orvalho caindo e a terra que se espalhava com seu impacto. Mais dois. E outros. Não havia um ritmo definido, apenas um passeio de toques rápidos, que ecoavam e não terminavam antes dos seguintes começarem. Era uma sinfonia.E, de repente, ele não estava mais incomodado que seu silêncio houvesse sido quebrado.

Aquele arranjo meio exato, meio caos, havia o tirado do estado de espírito que construíra para si mesmo. Toques mágicos de tons que se sobrepunham com elegância, enquanto ele, aturdido, parado em meio ao movimento de levar o pão a boca, escutava. E não importava se seus ouvidos davam pontadas. Era simplesmente lindo demais para ignorar. Ele se levantou e se aproximou. Pôde ouvir mais claramente, e percebeu que aquilo não era algo natural. Quase pôde ver os dedos cuidadosos e preocupados que deslizavam por aquelas teclas. Preto, branco, branco, preto. Alto, baixo, longo, curto. Pausa. E de volta outra vez. Ele não compreendia, mas admirava.

E aquilo, mais do que qualquer silêncio, fez-lo mexer-se. Pela primeira vez em tanto tempo que não conseguia se lembrar, sentia-se compulsivo para sair lá fora e descobrir como andavam as coisas. Porque sim, ele podia ver a pessoa por trás daquele som, e aos poucos o silêncio perdeu a graça. Ele ficava de cabeça baixa quando consigo mesmo, ouvidos alertas esperando pela próxima vez que aquela gentil criatura de quem ele nem mesmo conhecia o rosto se disporia a tocar novamente. Aos poucos, a memória do mundo lá fora que ele bloqueara retornou. Agora, o som tinha um nome: piano.

Certo dia, foi demais para o pobre devoto do silêncio. Levantou-se num impulso, e fez o que prometera a si mesmo nunca fazer: saiu. Talvez fosse melhor mesmo aceitar aquele velho e sempre renovado convite para o almoço.

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“Hold, hold your talk now/ And let them all listen to your silence/ No need to listen to yourself/ Or to anybody else” (The Ting Tings em “Silence”)

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