28 de jan de 2012

Do Silêncio (Partes III e IV de IV)

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por Caio Coletti

Parte III

Ela estava a sua frente, o rosto delicado em uma mistura de espanto e aborrecimento. Mas continuava linda. A pele branca, ao mesmo tempo frágil e radiante, reluzia aos raios de Sol que entravam delicadamente pela janela aberta logo atrás do robusto piano de cauda preto um pouco adiante da porta, no centro de uma sala quase vazia. Ainda em reforma, com toda a certeza. Ele simplesmente observou tudo por um tempo, as pernas bambeando um pouco pelo medo inevitável de quem há muito não vivia a experiência de confrontar-se com o mundo. Um mundo que estava a um abismo de distância daquele que ele construíra para si mesmo.

Seria hipocrisia dizer que o arrependimento não passou pela sua cabeça. Foi, de fato, seu primeiro pensamento: simplesmente dar alguma desculpa, virar as costas e se enfurnar no apartamento, onde era seguro. Estava quase virando o pé para a esquerda, para voltar pelo corredor sem nem mesmo se dar ao trabalho de dar qualquer satisfação quando a voz dela veio para desfazer sua intenção. O tom era meio debochado, quase displicente, e o sorriso frouxo no rosto mostrava que ela não estava nem mesmo se esforçando. E, ainda assim, o som lhe soava tão belo quanto a música do piano.

- Pois não, senhor?

Ele não sabia como se mantivera em pé, tamanho o choque que a voz lhe provocou nos ouvidos e na percepção. Precisou de tempo para juntar as palavras, lembrar-se de como produzir alguma coisa com as cordas vocais e responder com um tom meio rouco, inseguro, vacilante, quase como se incitasse novamente a fuga pelo corredor. Mas dessa vez ele não tinha intenção nenhuma de concretizar o impulso que piscava insistente em sua mente. Já havia se arriscado, descobrindo um novo mundo. Voltar atrás não era mais uma opção.

- Bom, sua... mãe, eu suponho... ela me convidou para o almoço alguns dias atrás. Resolvi aceitar o convite.

Ela observou-o por um instante, o cenho franzido e os olhos analisando-o de alto a baixo. Não sabia se estava com uma boa aparência, mas não se importava muito, tampouco. Bastava-se em observá-la. Os olhos azuis, claros e cristalinos, mexiam-se com a vivacidade da juventude e com o brilho de quem sabe demais para o tempo que está no mundo. O vestido branco, solto no corpo, revelava as pernas finas até as canelas, os ombros delicados meio escondidos pelos cabelos castanho-claros. A boca pequena, em forma de coração, de repente saiu da posição franzida em que estava para abrir um sorriso de cortesia. Um sorriso verdadeiramente encantador.

- Ah, o senhor é o vizinho aqui do lado! O senhor não sai muito, não é? – ele não respondeu, para não constatar o óbvio: achou que era uma pergunta retórica, mas aparentemente estava errado. Ela se mostrou um pouco constrangida. – Bom, entre! O senhor está meio adiantado, mas acho que logo minha mãe vai chegar, então posso trazer algo para o senhor beber. O que acha?

- Ah não, não é preciso – ele respondeu, apressado, abrindo também o seu sorriso. Estava começando a lembrar-se de como aquilo funcionava. Era quase instintivo, apesar de tudo. – Percebi que estava tocando piano antes de eu chegar. Se importa de continuar?

Ela pareceu assustada por um momento, de novo. Surpresa, talvez fosse essa a palavra certa. Não assustada. Não sentia medo dele, e talvez ele devesse agradecer por isso. Talvez ele devesse se contentar com isso. Mesmo que ele quisesse, e soubesse que queria, muito mais. Seus olhos não desgrudaram dela enquanto era conduzido para um assento do sofá marrom a um canto da sala quase sem mobília, e muito menos quando ela se dirigiu ao piano.

Sentou-se e olhou para ele, com um sorriso meio apagado. Pela concentração ou pela vergonha, ele quis saber. Não teve a coragem de perguntar. Talvez fosse mais um mal de viver naquele mundo barulhento, o constrangimento. Talvez o silêncio dele, na sala, a incomodasse. Não pensou em quebrá-lo, no entanto. Apenas esperou, o olhar eternamente paciente cravado no rosto dela, que fechou os olhos e respirou fundo, ajeitando a postura e as mãos sobre o instrumento.

E então começou. As notas doces que o fizeram acordar de um mundo de estagnação ecoaram novamente, as mesmas, mas diferentes. Agora, seus ouvidos não doíam. Eles agradeciam, massageados até pelas notas mais agudas, enquanto os olhos acompanhavam ávidos cada expressão da garota, cada movimento da sua mão, a forma como os pés prendiam-se firmes, quase tensos, ao chão. Não, não era medo. Não era incômodo, tampouco constrangimento. Era humanidade.

E era tudo o que ele precisava para dizer, ou melhor, pensar, porque quebrar aquele silêncio tão musical nunca fora uma possibilidade para ele, algo que nunca havia pensado antes: estava apaixonado.

Parte IV

Ele não sabia exatamente o que havia acontecido. Seus olhos doíam, agora, com a luz que entrava sabe-se lá por onde, e ele não ouvia mais nenhum murmúrio. Seu divino silêncio, que agora era tão terreno e real, de repente não era mais o bastante. Ele continuava sendo ele mesmo, mas o mundo ao redor dele tomara um curso que ele jamais poderia esperar, devoto experiente e vivente ingênuo que era. De uma hora para outra, a música que ela, o anjo que lhe tirara de um retiro agora impensável, a mulher por quem ele estava estupidamente apaixonado, parara de tocar.

Agora, não via mais o rosto dela. Apenas uma vaga sombra, de bordas desfocadas, que se estendia cautelosa a frente de seus olhos, recortada contra a luz ofuscante. Sabia que não era ela porque a luz que brilhava de algum lugar perto do rosto não era azul, mas puramente castanha, e a moldura negra que viria dos cabelos dela dava lugar ao loiro platinado que refletia mais ainda a luz do Sol. A mulher que tinha em frente a si era bonita, sim, ele podia reconhecer. Desejável, até, ele supunha. Mas não era ela. E foi esse fato que o fez abrir a boca, enfim.

- Onde... onde estou? – ele conseguiu murmurar, a voz mais falha e áspera do que nunca por baixo dos anos em silêncio.

- Você pergunta como se alguém tivesse a resposta – a mulher respondeu-o com o tom debochado de quem dispensa uma pergunta muito aquém do esperado. – Sério, mesmo? Você acaba de morrer e me pergunta onde está? Você, mais do que qualquer um, deveria saber.

E silêncio, mais silêncio. E menos luz, gradativamente, para que ele pudesse enfim observar mais e melhor o ambiente ao seu redor e a pessoa que se inseria nele ao seu lado. Era loura, sim, e estava debruçada sobre ele. Os olhos de contas o observavam, com cuidado, analíticos, intensamente castanhos. A pele era da cor tingida de quem passara muito tempo sob o Sol, o rosto aparentava uma idade indefinida, menor que a dele, maior que a da garota de quem se lembrava.

Ao redor dos dois, nada. E por mais que fosse difícil para sua mente saber disso, por mais que ela pudesse explodir a qualquer momento, o nada era o nada. Nenhum detalhe para ser descrito, nenhuma particularidade observável. Nada. Como ele sempre sonhara e como, agora, ele simplesmente não podia suportar. Um estranho, estúpido sonho o dele. Como se o nada fosse páreo para tudo o que ele deixasse de aproveitar do mundo lá fora.

- Bem, meu querido, cada um tem o que merece. Não somos do tipo que aceitamos renegociações, sabe? – a loura respondeu aos seus pensamentos, literalmente, e ajudou-o a levantar-se, puxando-o pela mão sem aparentar fazer força nenhuma. – Vamos, tenho que cumprir meu horário e minha função, que é te mostrar seu maravilhoso... Nada!

- Mas,como assim, nada? – ele teve o impulso de perguntar. Foi o bastante, como parecia ser naquele mundo. Ele percebeu isso e aproveitou para bombardear a loura de perguntas mentais. – E como eu morri? Por quê? O que houve comigo? Com ela?

- Quieto! – ela berrou mentalmente, e assumiu o tom de voz automático de quem fazia seu trabalho há muito tempo. – O nada é o que teus sonhos mais profundos tem pedido nos últimos decênios, e tudo o que fazemos é te dar o que você quer, depois de ter sido um ser humano exemplar em vida. Bem-vindo ao seu paraíso particular! Quanto aos detalhes de sua morte e o destino de quem ficou, recebi ordens expressas para não revelar nada ao senhor. Agora, me dê licença...

De novo, sem dizer uma palavra, ele transpôs toda a profusão de questões para a cabeça dela, em um estalo. Ele viu que ela ficou meio tonta, mas não entendeu sua própria ação, por um momento. Sempre quisera ser deixado sozinho, no silêncio. O nada deveria ser seu sonho. Porque agora, que ele o vivia, não era mais? Algo lhe acordara e, assim que estivera vivo, talvez pela primeira vez, o que quer que seja o havia ceifado da vida? Não parecia justo!

A loura, ouvindo tudo, fez cara de “eu avisei”, como se realmente houvesse avisado. E então os dois ficaram frente a frente, encarando o silêncio tanto material, ensurdecedor, quanto mental, quase impossível, e ao mesmo tempo esperado naquele vácuo total. Ela quebrou ambos, comunicando-se com a voz mais compreensiva que poderia armar.

- Não, não é justo, meu caro. Ninguém nunca te disse que seria, ou disse? Você escolheu se retirar da vida por tanto tempo que, assim que percebeu o erro que tinha cometido, acabou que a vida te matou. Não existem coincidências, existe muito pouco destino, e ele é tão maleável que nem mesmo para quem eu sirvo ele é claro. Como vocês, aí embaixo, nós só esperamos o momento chegar. Mas nós temos o direito de esperar. Vocês não. Nossa missão é dar a vocês o que vocês querem, e a missão de vocês é construir, conquistar, deixar clara essa vontade. E isso, meu amigo, foi o que você conquistou na sua vida.

- Nada? – ele perguntou, mentalmente, porque temia que a voz saísse embargada.

- Um belíssimo pedaço de nada, se você me permite – ela sorriu de lado. – Acho que eu posso deixar você mesmo explorá-lo a contento. Boa sorte.

E, então, a loura sumiu num farfalhar de vento, e ele foi deixado sozinho no nada. Eventualmente, ele viria a entender. Não lhe importava mais o que acontecia no mundo em que (não) vivera. De uma forma ou de outra, todos lá eram fortes o bastante (só ele não tinha sido) para conquistar sua própria noção de felicidade. Inclusive ela, a garota que tão brevemente amara, embora fosse tão difícil admiti-lo. Não era tão injusto, afinal. Ele, o fraco, se contentar com o nada que conquistara. Nem sempre há uma próxima chance. E ele não aproveitara nenhuma das que tivera.

Certo dia, foi demais para o pobre devoto do silêncio. Num impulso, como o ar que sopra de um lado a outro no planeta, ele decidiu simplesmente parar de estar com o nada: e então, tornou-se parte dele. Mesmo sabendo que nunca seria completo novamente.

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“I swallow the sound and it swallows me whole/ Till there’s nothing left inside my soul/ As empty as that beating drum/ But the sound has just begun” (Florence + The Machine em “Drumming Song”)

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