6 de fev de 2012

Sobre… – Os ateus e a “superioridade” de uma crença sobre a outra.

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Grace Kelly, John Wayne, Alfred Hitchcock, Michael Moore, Martin Scorsese, Frank Sinatra, Bruce Springsteen, Jack Kerouac. Richard Gere, Steve Jobs, Oliver Stone, Tina Turner. Cat Stevens, A.R. Rahman, Mos Def. Querendo ou não, gostando ou não, o caro leitor vai ter que admitir que as personalidades listadas acima (entre atores e atrizes, cantores e diretores de cinema, escritores e pensadores) tiveram algum impacto na cultura mundial. Os nove primeiros são (ou foram) católicos. Os quatro seguintes praticam ou praticaram o budismo. E os três listados por último converteram-se ao islamismo em um certo ponto de suas vidas. Com um rol de praticantes de tal calibre, qualquer uma dessas religiões poderia usar essa lista como arma de persuasão em plena época de inclusão digital, mesmo sabendo que seria contar uma vantagem inexistente (já que as outras religiões possuem tantos praticantes célebres quanto). Mas não usa.

É bom observar que não estou aqui para defender religião alguma ou mesmo para decifrar os motivos desse artifício não ser explorado pelas mesmas. Pode ser que não tenha nada a ver com a consciência de que a crença de uma pessoa não define e nem delimita o que ela é capaz de fazer pelo mundo, mas o fato é que os únicos que parecem querer desfrutar de tal “superioridade”, e os únicos que, ironicamente, parecem querer pregar a meio mundo a sua crença, são justamente aqueles que desprezam a própria noção de crença: os ateus. Entre no seu Facebook, caro leitor, e a depender do grupo de amigos que você possui, é fácil achar uma dessas imagens. Sim, é fácil também achar imagens religiosas fazendo referência a Deus, milagres e ao catolicismo, mas é parte da cultura católica acreditar e louvar a Deus. O argumento “Facebook não é Igreja” deixa de ser válido no momento que a  rede social é reconhecida como expressão da vida real da pessoa em questão. Se a pessoa crê em Deus e em louvá-lo dessa maneira, é o que ela vai fazer.

“E por quê os ateus não tem direito de expressar sua crença também, então?”.  A questão não é exatamente essa. A questão é como os ateus estão fazendo isso. Listas como a linkada acima são uma demonstração petulante de uma noção de superioridade preconceituosa: quer dizer que para ser uma pessoa interessante ou fazer algo relevante é preciso ser ateu? E há ainda a contradição que existe em tornar o ateísmo uma instituição. É o equivalente a realizar um movimento organizado e coletivo pela implantação da anarquia: a própria noção de anarquia reside no “cada um por si”, e não na organização por um interesse comum. Através de páginas que exaltam o ateísmo, este está lentamente se tranformando, de uma simples descrença declarada na existência de Deus ou de uma força que governe o universo, em uma “religião” tão devota quanto aquelas que eles criticam. Aos poucos, os ateus estão transformando a não existência de Deus na sua própria divindade.

Não quero ser mal-interpretado aqui. Não discrimino o ateísmo tanto quanto não discrimino nenhuma outra religião. Tenho minha crença, e ela não vem ao caso aqui. Apenas não me agrada ver um grupo de pessoas com uma mesma crença diminuir outro grupo de pessoas apenas por acreditar em algo diferente. Essa é a fundação básica de um preconceito que pode levar a consequências muito maiores, e, ao menos aos meus olhos, parece que por enquanto apenas um dos lados está praticando esse tipo de discriminação. E ainda, no caminho, caindo em contradição.

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PS: Alguns dias depois de ter finalizado esse texto, essa pérola apareceu na minha home do Facebook. Aparentemente, a mania de petulância dos ateus da rede social inspirou um “contra-ataque”. Ponto número 1: essa “guerrinha” de religiões é ridícula. Ponto número 2: a quantidade de estereótipos e generalizações de imagens e presunções como essa é absurda. E apelo único: caros praticantes de outras religiões, NÃO façam esse tipo de coisa. NÃO se considerem superiores a ninguém por sua crença. Essa é SUA crença, apenas. Querendo ou não, o preceito de inferiorizar alguém pela sua crença religiosa é, em uma definição feita para chocar mesmo, NAZISTA. E é uma lástima que algo assim tenha chegado ao espaço livre da internet.

“Tem gente que acha que religião é pra consertar o mundo. Não é. É pra te ajudar a suportá-lo como é. Na hora que se usa religião para consertar o mundo, é a hora que ela começa a cumprir o papel oposto do que deveria. A religião é uma ferramenta pessoal, e não coletiva.”

(Vini Cassares)

4 comentários:

Julia disse...

Muito bom!! Eu absolutamente concordo com o que disse. As pessoas deixaram de manter para si as suas crenças e passaram a nao so a tentar impor aos outros, como tambem repudiar quem nao concorda. Claro que eles tem o direito de defender o que quiserem. So precisam de argumentos sensatos, em vez de simplesmente agredir... ;)

Juliano disse...

"E há ainda a contradição que existe em tornar o ateísmo uma instituição...este está lentamente se tranformando, de uma simples descrença declarada na existência de Deus ou de uma força que governe o universo, em uma “religião” tão devota quanto aquelas que eles criticam. Aos poucos, os ateus estão transformando a não existência de Deus na sua própria divindade."

Cara, perfeito esse texto, parabéns. Eu já estou farto de ateus no Facebook querendo impor a sua falta de fé à todo aquele que crê. Eles tem até uma associação, a ATEA- Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. Um dia entrei lá só para comentar como achava estúpido querer vincular agnósticos e ateus, como se toda pessoa que não segue uma religião estivesse de acordo com a descrença ateísta. Ainda falei nessa mesma comunidade, que não entendia a necessidade de associar agnósticos com ateus, e sabe o que um dos membros respondeu? "Não tem que existir o requisito "necessidade" para uma associação, felizmente." Ou seja, é a ignorância pelo simples prazer da ignorância, e quem não tem uma religião definida que venha junto conosco. Lamentável, como se todo mundo que não vai numa igreja seja descrente da existência de Deus.Eu quero deixar claro que repeito quem é ateu, mas como você mesmo disse, ateísmo é algo para ser "praticado", digamos assim, individualmente, pois, a partir do momento que as pessoas começam a se reunir em grupos para perpetuar a descrença e impor suas ideologias contra os que creem, vira uma igreja às avessas, algo sem o menor nexo.

Anônimo disse...

Cara.. eu acho que vc forçou a barra. Veja bem, a imagem que vc coloca no texto não está dizendo que ateus são melhores que os outros e sim que ateus também praticam atos bons e são úteis para a humanidade como qualquer outro, ponto, é isto que a imagem quer demonstrar.
Segundo, qual o problema dos ateus defenderem sua idéia de não existência de um deus!? Vocês vem com uma falácia infantil de que o fato de um ateu tentar provar que deus não existe já é uma prova de sua existência... ateus não tentam provar que deus não existem, eles não combatem deus, eles combatem a idéia imposta por séculos nos homens pelas falsas doutrinas religiosas.

Caio Coletti disse...

Caro anônimo,

Pra começar, respeito sua opinião. Mas tenho algumas objeções a fazer.

"Vocês vem com uma falácia infantil de que o fato de um ateu tentar provar que deus não existe já é uma prova de sua existência...". Não coloque palavras na minha boca. Eu não uso nesse texto nem nunca usei esse argumento.

"ateus não tentam provar que deus não existem, eles não combatem deus, eles combatem a idéia imposta por séculos nos homens pelas falsas doutrinas religiosas."

Na sua crença, qual seria essa "ideia imposta por séculos no homem pelas falsas doutrinas religiosas"? A existência de Deus. Veja bem, eu não estou apontando do dedo para o ateísmo. Eu estou dizendo que, como qualquer crença (não vou entrar no mérito do ateísmo estar se tornando uma "religião" com as mesmíssimas características daquelas que eles desprezam), ele deve ser uma coisa de si para si, e não de si para o mundo.

Sou contra a manifestação de uma crença em detrimento da outra. Ou chamar o catolicismo, e qualquer religião que não o ateísmo, de "ideia imposta por séculos nos homens pelas falsas doutrinas religiosas" não é inferiorizá-las?