8 de abr de 2012

Lúgubre.

lugubre 2

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Ele pensava no que havia além daquele teto. As paredes que o prendiam eram cinza gelo, a luz solitária no meio do seu firmamento de concreto brilhava fluorescente, mas iluminava o vazio. O vazio daquele cômodo, o que era tudo o que ele conhecia, e o vazio dele mesmo. Ele permanecia uma tabula rasa, continuava sem saber se seus delírios em sono eram verdadeiros fora do ar parado daquele seu lugar, e sentia culpa. Mais culpa a cada batida do relógio, ainda que, lá dentro, entre as paredes, o tempo fosse um mero detalhe.

Seus passos ecoavam no espaço vazio quando ele pisava no sujo chão de azulejos, tentando manter a mente parada e, na prática, observando-a pular de imagem a imagem, lembrança a lembrança, invenção a invenção. Às vezes pensava que nem tudo que estava em sua cabeça realmente pertencia a ela. Talvez nada pertencesse. E então procurava pelas sondas e fios de uma lavagem cerebral que nunca de fato existira.

Um passo, delírio. Dois passos, flashes de algo que ele não sabia se tinha mesmo vivido. Três passos, a agonia de não saber. Quatro passos, culpa. Culpa por quê? Gritava, ainda que em silêncio, a dilacerante agonia de ver o negro de seus olhos transbordar e manchar o cinza-gelo das paredes, o branco dos azulejos, a alvura do seu próprio espírito. E o que era essa sujeira que transbordava senão tudo o que aquela prisão não lhe permitira fazer?

Caiu de joelhos, a pobre e lúgubre criatura. Permitiu-se a fraqueza. O ato de coragem abriu-lhe feridas, sim, os joelhos reclamavam de dor, mas ele viu a faísca, e em seguida uma mínima fresta. Um rasgo negro espiava-lhe como um olho que se abria preguiçoso de manhã. Um negrume que aos poucos avançou em sua direção, e do qual ele sentiu óbvio medo. Mas não cabia recuar agora, e voltar a rotina dos passos ecoados no vazio que aos poucos conduziam ao puro desespero. Qualquer tribulação que viesse seria menor (mesmo que pior fosse), do que aquelas que ele já havia enfrentado.

Em segundos, a escuridão lhe engoliu. E ele sentiu toda a culpa esvair do seu corpo.

lugubre 1

2 comentários:

Renan Barreto disse...

Eu adorei o texto, Caio. Inquietante, tenso, sinistro e libertador. Amei de verdade. Parabéns pelo belo trabalho. Só terminei de ler o texto por essa frase "ais culpa a cada batida do relógio, ainda que, lá dentro, entre as paredes, o tempo fosse um mero detalhe." Isso me tocou profundamente. Um mero detalhe... Rebaixar o tempo a um mero detalhe é muita coragem sua. Grande Caio, mandou muito bem!

Caio Coletti disse...

Renan, muito obrigado! Elogio vindo de alguém tão talentoso é sempre muito gratificante. :3