1 de abr de 2012

Review: Madonna quer te viciar no MDNA.

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

O ato de se fazer arte pop, ao contrário do que o senso comum parece pensar, é consideravelmente complexo. É preciso pensar-se, a princípio, em uma sentença pop com a qual o público possa se identificar em diversos níveis, desde o reconhecimento imediato da estética musical da canção (música pop, afinal, tem a obrigação de te deixar cantarolando por dias a fio) até uma assimilação mais inserida no contexto da obra em que se encaixa e, principalmente, da imagem da artista que a produz. Em meio a esse processo todo, no entanto, e justamente para que ele todo não seja em vão, a alma da arte pop precisa ser injetada com a alma do artista pop. Madonna não joga esse jogo desde o acertadíssimo Confessions on a Dancefloor, de 2005, mas isso não significa que ela esteja enferrujada.

A começar por “I’m Addicted”, travestida de alegoria romântica, que na verdade tem a cantora se apresentando como a artista pop por excelência e, mais ainda, por necessidade.  “Quando seu nome mudou de linguagem para mágica?”, ela pergunta, versos antes de recitar o nome de seu álbum sob os bips e sintetizadores dos irmãos Benassi, nos convidando a reconhecer que, altos e baixos a parte, fazer isso está no DNA de Madonna. É esse tipo intenso de afirmação, essa sentença pop que evidencia o envolvimento e a integração do artista com sua obra, que faz do MDNA um refresco para os ouvidos que notaram, no Hard Candy, uma sensibilidade pop excepcional enterrada sob a função de fantoche para uma série de produtores.

“Girl Gone Wild”, o segundo single, a encontra em um retorno temático e oportunamente escapista a artista pop que a ítalo-americana era nos anos 1980. Madonna consegue retornar a era em que clamava ser uma “material girl” como forma de libertação via música. E é muito oportuno que ela o faça, mostrando que em parte seu erro nos últimos anos tem sido se levar a sério demais. Especialmente depois de um divórcio público, Madonna tem a necessidade de afirmar que ainda é apenas uma garota querendo se divertir. E também de reafirmar que é uma mulher forte, dona de pensamentos desafiadores, e “I Don’t Give A” realiza esse serviço com louvores. As batidas de Martin Solveig ajudam a marcar o ritmo para que Madonna desfile uma metralhadora de versos bastante explícitos, e há certo charme e razão no “há apenas uma rainha, e essa rainha é Madonna” de Nicki Minaj antes da apoteótica escalada de corais que fecha a canção.

A ideia de se manter atual grita em “Gang Bang”, na queda dubstep que marca a reviravolta da canção. Mas o que chama a atenção é a produção sempre muito elegante de William Orbit, casando as batidas sledgehammer das paradas atuais com toques sutis de sintetizadores e sons orgânicos (tiros, baques surdos e derrapadas de carro). Assim escoltada, Madonna entrega um vocal essencialmente interpretativo, na veia de uma Beatrix Kiddo de Kill Bill, e bastante cativante. Há momentos em que sua voz ganha mais destaque, como “Turn Up The Radio”, que a mostra usando e abusando de seu fôlego e leveza vocal em um refrão feito especialmente para elevar-se a alma as alturas. É também ocasião oportuna para observar que a entrada de Martin Solveig no time de produção de Madonna lhe dá o frescor que ela precisava não só para emplacar mais uma vez nas paradas, mas também, e principalmente, para renovar seu repertório como artista.

A porção final do álbum poderia ser, dentro do jogo entre MDNA e MDMA (uma abreviação comum para o ecstasy), o momento em que a droga age no sistema apagando toda a euforia que ela mesma havia causado. Há certa amargura no trio “Love Spent”, “Masterpiece” e “Falling Free”, e certa melancolia, que ficam escondidas no restante do álbum, musicalmente sob orientação dance e tematicamente sob instinto vingativo (“Gang Bang”), auto-afirmação (“Some Girls”) e desafio (“I Don’t Give A”). Desenhando uma série de comparações entre amor e dinheiro, Madonna retrata em “Love Spent” a queda de um ideal. Na produção, Orbit externa isso na forma de delicadezas (toques de cordas, guitarras) postas em uma mistura essencialmente eletrônica.

“Masterpiece” é uma balada levada por guitarra espanhola, batida fragmentada e pacote de cordas, e uma bela declaração de amor, se não fosse colocada em um contexto tão diferente. “E eu não posso dizer porque dói tanto estar apaixonada por uma obra-prima/ Porque afinal, nada é indestrutível”, ela canta, e há certa tristeza aí. Assim como é um choque sônico ouvir tamanha lágrima na voz de Madonna nos últimos versos de “Falling Free”. Talvez seja o clima que ela e Orbit preparam, remetendo a uma viagem para dentro de uma caixinha de música e, portanto, para um contexto mais intimista. Mas não sejamos tão cínicos e analíticos. Madonna se mostra mais nua e mais vulnerável aqui do que em qualquer momento de sua carreira que a memória desse que vos escreve consegue resgatar. E o resultado é, em duas palavras simples, belíssimamente humano. Da forma que arte pop pode, deve e precisa ser.

**** (4/5)

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MDNA

Lançamento: 23 de Março de 2012.
Selo: Interscope, Live Nation.
Produção: Madonna, Klas Ahlund, Alle Benassi, Benny Benassi, The Demolition Crew, Free School, Jimmy Harry, Michael Malih, Indiigo, William Orbit, Martin Solveig.
Duração: 50min52s

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