4 de jun de 2012

O Guia Prático do Desapego (em 7 fases musicais)

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Em pleno século XXI, despego é, definitivamente, uma qualidade. Saber deixar as coisas (e as pessoas) irem quando elas não querem mais ficar consiste em requisito essencial para a vida saudável em tempos de dominação da Geração Y/Z, que prega uma mentalidade cada vez mais individualizada e, portanto, cada vez mais familiarizada com o caráter transitório das coisas. Aí você passa a vida inteira se distanciando de tudo, até que resolve se entregar a uma coisa. Aí você se decepciona. E aí? Esse guia prático do desapego (em 7 fases musicais) te ajuda a voltar para a frieza de sempre.

Fase 1: Caindo na real.

“Ele não era o que eu queria, o que eu pensava
Ele nem mesmo abria a porta
Ele nunca me fez sentir-me especial
Ele não é realmente o que eu estou procurando”

Pra não começar a lista já de mau-humor, o desapego fase 01 é com o deboche da Avril para o cara que “nem mesmo abria a porta” em “He Wasn’t”. O hit do segundo álbum da cantora, o Under My Skin (de 2004), tem um clipe clássico e uma letra perfeita pra você começar a cair na real de que a/o fofa/o não é tudo aquilo que parecia. E ainda crava, na ponte final, nos versos sublimes da poetisa Avril: “Na na na na na, todos temos escolha/ Na na na na, todos temos vozes”. Belíssimo.

Fase 2: Dizendo adeus.

“Se você fosse um rei no alto de seu trono
Você seria sábio o bastante para deixar-me ir?
Pois essa rainha que você acha que te pertence
Quer ser uma caçadora de novo”

Direto do reino dos one hit wonders feat você-não-sabe-o-que-está-perdendo, Dido chega para te ajudar a dar o pé na bunda do seu encosto com classe. Terceiro single do primeiro álbum da moça, o No Angel de 1999, “Hunter” tem o estilo mais energético que impregna essa primeira obra de estúdio da britânica, escrita durante sua adolescência. A letra é ótima para uma separação bem amigável, sem descer do salto alto. Em casos mais extremos, talvez seja melhor a segunda dica:

“Arrependimentos eu tenho tantos
Um amor simples com um toque complexo
Não há nada que você pode dizer ou fazer
Eu liguei para avisar que eu estou cheio de você”

Fase 3: Achando o fundo da poço.

“Eu sempre sonhei que pudesse encontrar
Alguém tão lindo quanto você
Mas no processo eu me esqueci
Que eu era especial também”

Fica a dica: como guia do desapego, esse post tem a obrigação de te dizer para NÃO ouvir Adele na ocasião do fim de um relacionamento. “Someone Like You” não é o tipo de música que vai te ajudar a se desprender do passado. Quer curtir uma fossa? Muito melhor optar pela melancolia da rainha do pop em uma de suas composições mais lindas. “X-Static Process”, além de te fazer chorar sob o leite já derramado, ainda vai te lembrar dos seus erros para você corrigi-los. Isso que é eficiência. Dá pra recorrer à Diana Vickers também:

“Você era minha estrela cadente que iluminava o céu
Então você quebrou o espelho e meu coração morreu
Sem esperança, sem fé, sem sorte, sem amor
Você é apenas ordinário agora”

Fase 4: Descarregando a raiva.

“Você cai por terra
Eu me desapaixono por você
Então você reaparece
Seu filho da mãe
Você vai abaixo
Dessa vez eu não vou te salvar
Quando você se afogar
Seu filho da mãe”

Para os hipsters de plantão: é super tendência descarregar a raiva numa vibe pop Leste Europeu. A dinamarquesa Oh Land, logo, é um aboa pedida com sua pegada eletrônica e voz de soprano, rolando na neve em várias iluminações e figurinos no clipe de “Sun of a Gun” (escrito errado mesmo, vai entender). Dá pra cantar (vulgo se esguelar) com ela e começar a exorcizar o filho/a da mãe que você decidiu colocar no passado. Quem prefere algo mais mainstream, no entanto, pode atacar com a nossa segunda sugestão:

“Eu estou cansada da bagunça que você me deixou
Você nunca vai me pegar chorando, oh
Você deve ser cego se não consegue ver
Você vai sentir minha falta até o dia em que morrer”

Fase 5: Começando de novo.

“Primeiro dia, primeiro dia
Começando outra vez
Primeiro passo, primeiro passo
Eu quase não estou fazendo sentido
Por enquanto eu finjo, até eu estar quase fazendo
Do rascunho, começar de novo
Mas agora ‘eu’ como ‘eu’, não como ‘nós’”

Passou a raiva, a depressão? Está esgotada/o emocionalmente e se sente absolutamente vazia/o por dentro? Bom sinal! É hora de dar a partida para um novo começo, e a Alanis te ajuda nisso dando a dica mais importante na bela “Not as We”: “dessa vez ‘eu’ como ‘eu’, não como ‘nós’”. Agora, se pianinho e voz já está muito depressivo para você é hora de dançar (e ensaiar um kung fu ri-di-cu-lo) com a Kelly Clarkson no hit que salvou a carreira da Idol original, “Stronger (What Doesn’t Kill You)”.

“O que não te mata te torna mais forte
Se levante um pouco mais alto
Não significa que estou solitária quando estou sozinha
O que não te mata te faz um lutador
Passos ainda mais leves
Não significa que estou acaba só porque você se foi”

Fase 6: Melhor sem ele/a.

“Desde que você se foi eu parei de guardar rancores
Desde que você se foi eu sinto como se tivesse amadurecido
Desde que você se foi é como se o mundo todo fosse meu palco
Agora que você se foi é como se eu tivesse sido solta da gaiola”

Com sotaque britânico e charme ligeiramente sarcástico, Lily Allen é a pedida certa para aquele momento “e houve boatos de que eu estava na pior” com uma taça de champanhe na mão. Também ajuda você mesmo a perceber que tudo fica melhor longe de algumas pessoas. “I Could Say” é a faixa mais desapego do It’s Not Me It’s You. Só pra sugerir uma alternativa para os que preferem a sensibilidade americana, mas sem perder a classe, tem também a lady vingança Norah Jones:

“Com você longe, estou viva
Me faz sentir como se tivesse tomado pílulas de felicidade
E o tempo parou
Como você se sente?
Como você se sente sendo o que que foi dispensado?”

Fase 7: Enfim, desapego!

“Porque na minha cabeça você era diferente
Mas só por um pequeno tempo
Você não significa nada para mim agora
Eu tive o sentimento mais estranho, me pegou de surpresa
Suas palavras perderam o significado quando desci da minha viagem”

A canção master do desapego, indiscutivelmente, vem da sueca Jonna Lee. “My High” é para juntar tudo (melancolia, depressão, raiva, mágoa) e jogar tudo fora com o brilhante “so fuck you” do último verso. É pra exorcizar a experiência e nunca mais olhar para trás. A moça, o rosto do projeto iamamiwhoami (você vai ouvir falar deles aqui n’O Anagrama ainda esse mês), acertou em cheio. Só para arrematar, nada melhor que dizer que tudo isso não deixou marca nenhuma (quem se importa se é mentira?):

“É como andar sobre a neve sem deixar nenhum rastro
Tudo o que você disse nunca carregou nenhum peso
Eu saí-me intocada e em outro lugar
Quando vai entender? Isso nunca me afetou”

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