11 de jun de 2012

Review: Iron Sky, heróis, vilões e o totalitarismo vendável.

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

É fácil condenar Iron Sky como maniqueista. Afinal, essa co-produção entre Finlândia, Alemanha e Austrália resgata os temas do nazismo, da obsessão bélica americana e da propaganda eleitoral manipuladora. Você já viu tudo isso, e não faz muito tempo, em algum filme. E você está cansado dos tipos retratados: o vilão ambicioso que quer se tornar o Fuhrer, a presidente caricata que só se interessa pela reeleição, a heroína ingênua e o herói relutante. Mas calma, ainda não fuja desse filme. Como uma comédia, é natural que o roteiro brinque com estereótipos. Raros mesmo são a inteligência e o direcionamento de trama certeiro que se vêem aqui.

Michael Kalesniko (O Rei da Baixaria) é quem assina o script, mas talvez se deva a Johanna Sinisalo, escritora de ficção finlandesa creditada aqui como autora do “conceito original”, o trunfo de Iron Sky. A história que parte da premissa de que os nazistas escaparam no final da Segunda Guerra Mundial e até hoje se refugiam no lado escuro da Lua, onde planejam sua grande invasão. Os planos são adiantados quando o primeiro americano a pisar naquela região, James Washington (Christopher Kirby), é capturado e lhes apresenta novas tecnologias para colocar a grande nave de guerra construida nesse refúgio para funcionar. Voltam a Terra, então, dois dos nazis (Julia Dietze e Götz Otto), a principio para recolher mais recursos.

A primeira grande sacada do roteiro é torná-los, por acidente, o centro da campanha da atual presidente americana (Stephanie Paul) para a reeleição. Iron Sky pincela a noção de que a ideologia totalitarista é extremamente vendável e, de forma disfarçada, está no cerne de diversas democracias mundo afora. A ideia de “soberania” americana não é, afinal, para dizer o mínimo, ligeiramente parecida com a nazista? O incentivo absurdo ao nacionalismo que existe não só nos EUA, mas mais destacadamente lá (pela própria posição do país no cenário internacional), não soa como os hinos tocados nos megafones alemães? Em certo ponto do filme, a presidente simplesmente repete, em um discurso eleitoral, as palavras ditas a ela pela visitante lunar, aprendidas como uma forma de doutrinar as crianças desse refúgio totalitarista espacial.

A direção do desconhecido Timo Vuorensola é limpa e até elegante, contando com uma boa produção de efeitos especiais e fotografia que ganha alguns pontos pelos bons enquadramentos espaciais. O elenco se encaixa bem nas finas caricaturas que lhes são distribuídas, com destaque para a pequena participação de Udo Kier (Blade, Melancholia) como o Fuhrer que o personagem de Götz Otto quer depor e para a carismática Julia Dietze, em papel que, se não pode, ao menos deveria alçá-la ao estrelato.

Nessas finas ironias e cutucadas talvez nem mesmo sutis, Iron Sky termina escapando totalmente de qualquer acusação de maniqueismo, porque desenvolve sua trama de maneira tão inteligente para chegar a conclusão de que, numa guerra, o vilão é sempre aquele que dispara o gatilho. Caricatura por caricatura, os papéis são invertidos, e na Terra acabamos todos brigando por algo que nem mesmo vale tanto quanto o que os verdadeiros heróis do filme começam a conquistar, nos minutos finais, na Lua. Aqui está um filme que mexe brilhantemente na ferida americana (o memorável “agora eu sou uma presidente de tempos de guerra. todo presidente de guerra é reeleito”, o ataque a base lunar que é obviamente uma referência nem um pouco agradável – para os americanos – à bomba de Hiroshima, e ao fato de que eles não hesitariam em cometer tal erro mais uma vez), mas não deixa de apontar o dedo, na verdade, para todos nós.

*** (3,5/5)

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Iron Sky
(Finlândia/Alemanha/Austrália, 2012)
Direção: Timo Vuorensola.
Roteiro: Michael Kalesniko, Johanna Sinisalo.
Elenco: Julia Dietze, Peta Sergeant, Udo Kier, Stephanie Paul, Christopher Kirby, Götz Otto.
Duração: 93m

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