30 de jul de 2012

Hit EnQuadrado: “Lights”, Ellie Goulding.

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Vértice 1: As Influências

O synthpop é talvez o rótulo mais perto do adequado para “Lights”. O gênero teve seu auge de popularidade nos anos 80, mas suas origens estão no grupo japonês Yellow Magic Orchestra, que já no final da década anterior misturava orquestrações e pianos com baixo sintetizado e blips eletrônicos (vide "Filecracker", de 1979).

A influência da disco music e do rock progressivo completam a receita para o surgimento do synthpop na música ocidental. Em 1981, o sucesso dos britânicos do The Human League com o álbum Dare e o hit "Don't You Want Me" levou para o mainstream a música pop feita com base nos baixos, batidas e sintetizadores. Filhos dessa tendência são o Soft Cell com sua "Tainted Love" (que Rihanna sampleou para a sua “SOS”, vinte anos mais tarde), o Depeche Mode com sua coleção interminável de hits (de "Strangelove", em 1985, até "Precious", de 2006, o som da banda passou quase incólume pelas décadas) e a marca indelével do Pet Shop Boys na cultura pop (vide a clássica "It's a Sin").

Sem grande êxito já no final dos anos 80, o synthpop manteve-se enterrado até o início do século XXI, quando alguns artistas independentes, mais notadamente o Postal Service e sua excepcional "Such Great Heights", emprestaram características do gênero, mescladas a elementos acústicos próprios da música indie, e trouxeram atenção novamente a música feita pelos sintetizadores. Atualmente, quase todos os grandes atos pop se utilizam da influência do synthpop, por vezes com sombras da dance music européia ou do pop acústico. Ladytron ("Runaway"), La Roux ("I'm Not Your Toy") e Little Boots ("Earthquake") são exemplos recentes em que o synthpop se ouve mais claramente como influência.

Vértice 2: A Canção

“Lights” é uma composição pop tecnicamente dentro das regras. Bate em quase redondos 3m30s, e segue uma estrutura verso-refrão-verso2-refrão-refrão, com uma passagem de menor voltagem entre os dois últimos itens em que o instrumental brilha com a cantora repetindo a palavra “lights” em vocais modificados. Por outro lado, é composta em um tom pouco comum para uma canção pop (Sol sustenido menor, quando a maioria das canções nas paradas provavelmente terá tons que não passam nem perto dos sustenidos) e segue uma harmonia descendente, o que tampouco é usual.

A produção por conta de Richard Stannard (Kylie Minogue) e Ash Howes (Marina & The Diamonds) mantem o baixo e a batida em primeiro plano, com as intervenções eletrônicas colorindo a canção. Privilegiam também a voz de Ellie, que se estende aqui por duas oitavas. A performance da cantora foi elogiada, aqui, por “charmosamente tremular, mas nunca quebrar” nos momentos mais agudos.

Vértice 3: A Artista

Ellie só não está na posição de vanguarda de uma nova forma de fazer música pop porque sua música ainda não impactou o público como deve fazer. O Lights, seu álbum de estreia cujo primeiro lançamento data do início de 2010 (a edição especial, Bright Lights, da qual a faixa em questão nesse artigo foi escolhida como single, saiu em torno de um ano depois), é uma interessante proposta de fazer do elemento eletrônico uma adição criativa a baladas que parecem ter sua força no elemento acústico.

Na maioria as vezes, tal força motiz é o violão de Ellie, como no mezzo-hit e primeiro single "Guns and Horses". Algumas são baladas natas, como "The Writer", e outras realçam o elemento eletrônico e dance, como a excepcional "Everytime You Go". Com sua voz personalíssima e a destemida vontade de inovar que demonstrou em "Hanging On", primeira demonstração do novo álbum, Halcyon, com lançamento marcado para 8 de Outubro próximo, Ellie pode muito bem se tornar uma influência decisiva no rumo do pop moderno.

Vértice 4: O Impacto

“Lights” vendeu, até hoje (dia 30), dois milhões e meio de downloads legais apenas em terras americanas. Mas apenas em décima nona semana nas paradas de lá (sendo que a canção entrou na Billboard Hot 100 só quatro meses após seu lançamento como single), a canção atingiu o Top 40, ficando apenas atrás de Norah Jones (“Don’t Know Why”) e KT Tunstall (“Suddenly I See”) como o single de escalada mais lenta da história. E apenas em sua vigésima nona semana que “Lights” atingiu seu topo, na 4ª posição da Hot 100.

A visibilidade da cantora após as parcerias com Tinie Tempah (em "Wonderwoman") e Skrillex ("Summit"), duas estrelas, cada um a sua maneira, da música eletrônica moderna, e as performances do single nos programas de David Letterman e Ellen DeGeneres podem ter dado impulso a esse projetamento americano tardio de “Lights”.

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