22 de jul de 2012

Review: Os novos ares com aromas familiares de “Drive”.

drive

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Em sua resenha de Drive (intitulada “Centrífuga de referências”), a crítica Neusa Barbosa, da Revista Bravo, se referiu ao primeiro filme americano do dinamarquês Nicolas Winding Refn como uma combinação de “estilos tão diversos quanto os de Clint Eastwood e Tarantino”. É uma colocação intrigante, uma vez que a própria resenhista da Bravo, em seu texto, insiste que Refn, com essa sua estreia hollywoodiana, “renovou o gênero do thriller”. É possível renovar, e mais, inovar, tendo referências tão claras e explícitas de feitos cinematográficos já realizados? Drive tem um pouco do Tarantino de Pulp Fiction, sim, e talvez uma pitada do Eastwood de Gran Torino, mas é essencialmente uma experiência cinematográfica própria.

O diretor Refn, cuja única produção a dar as caras no Brasil até hoje havia sido Medo X, de 2003, parece realizar dois filmes em um, mas é isso que o roteiro de Hossein Amini (Branca de Neve e o Caçador) exige em sua adaptação do livro de James Sallis. No início, observamos um suspense com lances espertos e um drama suburbano bastante eficiente. O protagonista sem nome de Ryan Gosling (que esteve em outro dos melhores filmes do ano passado, o injustamente relegado Tudo Pelo Poder) se divide entre três ocupações em Los Angeles: motorista-dublê de cenas de ação, mecânico, e motorista de fuga contratado para assaltos e furtos. Ele se envolve com Irene (Carey Mulligan), mas precisa ajudar Standard (Oscar Isaac), marido da moça, quando este sai da cadeia e precisa pagar algumas dívidas que deixou. Caso não pague o que deve, não só ele, mas também sua familia – logo, Irene e o filho – será punida. Desnecessário dizer que as coisas não saem muito bem.

É aí que a explosão do protagonista, com a situação com que tem que lidar, escancara um lado muito ambíguo de sua personalidade e o filme muda. Refn não faz questão de ser sutil nessa transição: ele põe em contraste, sem concessões, a vida lenta e a serenidade quase impossível de seu protagonista com a violência e a intensidade de seu arco de revelação. Mas é nessa “descoberta” que ele e principalmente Gosling fazem sua parte. Nos detalhes e nos olhares fixos é que Refn e o diretor de fotografia Newton Thomas Sigel (Frankie & Alice) registram com precisão e linguagem clássica a atuação brilhantemente discreta de Gosling. Ele emerge no personagem e parece o tempo todo um tanto desligado da realidade, mostranho um ou dois sorrisos, deixando os olhos aguçarem-se em dois ou três momentos, mas encontrando uma maneira de ser absurdamente expressivo nessa sua intepretação “vazia”. É o trabalho de um dos mais brilhantes jovens atores da atualidade.

Os coadjuvantes fazem um trabalho decente, com destaque para a sempre bem-vinda presença de Carey Mulligan (Educação) com seu charme discreto e a doçura que lhe parece ser inerente. Você já viu o sangue jorrando em Pulp Fiction, e você já viu o herói improvável, real e calado em Gran Torino. Drive renova a roda do thriller urbano como gênero porque é, para além de uma trama que se desdobra com consequências que extrapolam a sua aparência inicial, um arco de descobrimento dramático dos bons, como a muito tempo não se via no gênero. Refn não é o entendedor da cultura pop e criador de diálogos brilhantes, ou o explorador da alma masculina e das dores do envelhecimento. É um artista próprio, que tem algo a dizer: por mais mal que tenhamos feito, como a trilha-sonora canta, podemos ser “um ser humano de verdade, e um herói de verdade”.

***** (4,5/5)

Drive
(EUA, 2011)
Direção: Nicolas Winding Refn.
Roteiro: Hossein Amini, baseado no livro de James Sallis.
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac.
Duração: 100 minutos.

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