19 de ago de 2012

A Geração Beat.

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por Andreas Lieber
(Tumblr)

Decidi estrear esta coluna com um dos movimentos literários modernos mais expressivos e com o qual todos nós já nos identificamos pelo menos uma vez na vida: a geração Beat. Quem nunca sentiu uma grande aversão pela enorme pressão que a sociedade exerce sobre nossos ombros e quis arrumar uma mochila e cair no mundo? Os Beatles com certeza sim e até nomearam sua banda em decorrência do movimento. Janis Joplin, Bob Dylan e Pink Floyd também encontraram inspiração nessa onda de antimaterialismo e, mais recentemente, vários cantores usam temáticas beat em suas músicas, como a adorável “I’ll Hold My Breath”, de Ellie Goulding (igualmente adorável). Na Literatura, que é o que mais nos interessa, ele alcançou um status de frenesi social e revolucionou a maneira de escrever, encontrando nas figuras de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Neal Cassady e Gregory Corso seus principais representantes.

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela
    loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
    em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
    contato celestial com o dínamo estrelado da
    maquinaria da noite (...)”

Assim começa “Howl” (Uivo, no português), poema de Allen Ginsberg (na foto) que faz parte de seu livro Howl and other poems (Uivo e outros poemas), que é considerado uma das obras mais significativas da geração Beat. Tendo início em meados dos anos 1950 e encontrando seu ápice nos 1960, quando eclodiu no movimento Hippie, essa trend cultural encontra suas raízes em uma corrente bem mais antiga, o Existencialismo de Sartre, com sua visão de contracultura.

Tendo começado oficialmente, na Literatura, em 1944, o termo beat surgiu de John Clellon Holmes – autor do manifesto This is the Beat Generation, publicado no The New York Times em 1952 –, introduzido para o grupo de intelectuais por Herbert Huncke e rebatizado por Jack Kerouac, denotava antes o submundo dos vigaristas, toxico-dependentes e marginais. Para Kerouac, no entanto, esse termo conotava uma transcendência espiritual e uma ideia de realização, de encontro.

Vivendo em uma sociedade americana pós-guerra extremamente positivista e consumista, esses artistas encontraram no pessimismo, na liberdade de expressão e no engajamento político, um escape para os seus ideários e uma forma de contestação social. Em 1958, em artigo para o San Francisco Chronicle, o jornalista Herb Caen lançou a palavra beatnik (junção de beat com Sputnik, satélite russo). Controversa até hoje, tal expressão foi utilizada para se referir aos participantes da geração Beat de forma pejorativa e estereotipá-los como antiamericanos.

Influenciados por esse contexto social e por suas visões próprias de mundo, baseadas no nomadismo, drogas, álcool, sexo e liberdade de expressão, esses escritores têm em comum certas características na escrita, como por exemplo, a intensidade literária, a não preocupação com o fluxo da narração, a escrita caótica e uma linguagem informal. Dentro dessa corrente temos alguns livros que fizeram história:

On the Road, de Jack Kerouac retrata a viagem de carro de dois amigos, Sal Paradise e Dean Moriarty, pelo território americano. Repleto do ideal de liberdade, o livro é um verdadeiro grito interno do autor, que o escreveu apenas em três semanas ajudado pelo café e por anfetaminas. Dono de uma narração alucinante e frenética, ele transforma uma simples roadtrip em uma busca pela liberdade espiritual e corporal de suas personagens, acabando por transformar a nós, leitores, também. Em 2012, o livro foi adaptado ao cinema com roteiro de Jose Rivera e direção do brasileiro Walter Salles (na foto, os protagonistas).

Naked Lunch (Almoço Nu, no português), de William S. Burroughs é talvez um dos livros mais complicados de serem explicados. Usando uma narrativa completamente não linear, o autor nos transporta para várias situações vividas por Willian Lee, seu alter ego. Começando com a personagem fugindo da polícia nos Estados Unidos, de repente somos levados para o México, depois para certo tipo de limbo islâmico, passando por pontos de venda de heroína e estadas em hospitais. Ao longo da história, percebe-se que mais do que uma narração fragmentada, o livro esmiúça a vida da personagem de uma forma perturbada e arrebatadora, totalmente agonizante e crua, contendo, também, princípios confessionais. Foi adaptado ao cinema em 1991 com roteiro e direção de David Cronenberg, recebendo o infeliz título de Mistérios e Paixões no Brasil.

Into the Wild (Na Natureza Selvagem, no português), de Jon Krakauer é um exemplo de literatura não ficcional mais recente - publicado em 1996 -, que contem características do movimento Beat. O livro narra a história verídica de Christopher McCandles, um jovem que após graduar-se, doou todo o seu dinheiro para a caridade e jogou-se em uma viagem rumo ao Alasca. Baseado em um diário encontrado junto ao corpo do viajante, em 1992, Krakauer pode reproduzir a história de sua peregrinação e os encontros com pessoas, das mais diversas, ao longo caminho (que passa até pelo México). Influenciado por ideais beat e por autores como Jack London e Henry David Thoreau, McCandles desprezava o materialismo da sociedade americana e sonhava em viver em reclusão, optando a utilizar o nome de Alexander Supertramp em seus registros e seguindo viagem sem dar nenhuma satisfação à família. Em 2007, a história foi adaptada e dirigida por Sean Penn para o cinema, com Emile Hirsch no papel principal.

Autorretrato de Christopher McCandles em frente ao onibus abandonado que serviu de base no Alasca (Magic Bus 142, Alaska)

Howl, de Allen Ginsberg é um poema considerado como pilar de sustentação da geração Beat. Com um forte teor confessional, Ginsberg cria um poema extenso e ritmado, retratando uma sociedade fechada e excludente de minorias. Utilizando-se de forte apelo à obscenidade e a subjetividade de imagens, ele narra um universo de marginais e pessoas que se arrastaram para labirintos intermináveis. Em 2010, partes da história do autor e cenas do poema ganharam vida na adaptação cinematográfica dirigida e escrita por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, cabendo a James Franco a interpretação do conturbado autor.

Atualmente, o caldeirão efervescente que foi a geração Beat já esfriou e se difundiu por outras culturas, embora ainda possam ser encontradas pequenas comunidades fechadas. A ideia de liberdade, de transcendência espiritual e contestação sociopolítica que caracteriza o movimento beat simbolizam muito mais do que apenas a publicação de alguns livros; ela modificou todo o pensamento de uma geração e vive até hoje na cultura punk rock, nas reivindicações estudantis, no movimento homossexual e na liberdade feminina. O beat ainda influencia todas as formas de arte, principalmente a Literatura, e incita o pensamento crítico.

Hal Chase, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Morningside Heights, New York City, 1944 - 1945

Andreas Lieber escreve todo dia 20.

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