29 de ago de 2012

Dois filmes, duas gerações, uma Diablo Cody: “Juno” e “Jovens Adultos”.

OSCARS/Diablo Cody com seu Oscar de Melhor Roteiro Original por Juno.

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Diablo Cody não é a sua estrela de Hollywood padrão. Nascida Brook Busey no subúrbio de Chicago, em 1974, a moça foi parar em Minneapolis no final dos anos 1990, trabalhando como stripper e escrevendo para pequenos jornais da região. Mas foi com seu blog, o The Pussy Ranch (mais tarde tirado do ar) que ela conseguiu um contrato para escrever, aos 24 anos, a autobiografia de seus anos na cena underground. Candy Girl: A Year in The Life of an Unlikely Stripper foi a porta de entrada para Hollywood. E o primeiro resultado do trabalho dessa outsider no jogo foi Juno (Oscar de Melhor Roteiro Original). Depois, Garota Infernal. E, agora, Jovens Adultos.

A verdade é que poucas pessoas em Hollywood escrevem como Cody hoje em dia. A americana é uma artesã de personagens como não se via a tempos e, talvez, como nunca se viu antes. A honestidade com que trata suas crias, com quem clama ter “uma relação maternal”, é tão notável quanto a forma como sabe conduzir suas tramas. Atenhamo-nos, para o propósito desta análise, a Juno e Jovens Adultos, filmes complementares de maneiras que poucos espectadores devem suspeitar.

Juno é de uma sensibilidade absurda. Não que Jovens Adultos não o seja, que fique claro. Mas é importante destacar que, na história sobre as desventuras da adolescente grávida que dá nome ao filme (Ellen Page), tal sensibilidade se nos apresenta à flor da pele, calmamente borbulhando em dúvidas, emoções e complexidades, mesmo que a panela de pressão não realmente exploda em nenhum momento do filme. Essa é a grande sacada que Cody, como boa escritora, tirou da manga para representar a geração de sua personagem principal: ainda que seja uma bomba-relógio de incerteza, Juno lida com suas emoções de forma jamais apática, mas extraordinariamente serena.

Se é assim na adolescência, Jovens Adultos é com uma continuação que quer mostrar que a vida deixa todos nós quebrados de alguma forma. Só é nossa escolha a forma como lidamos com isso. Charlize Theron é Mavis Gary, escritora de livros infanto-juvenis divorciada que, ao receber um e-mail do ex-namorado de colégio Buddy Slade (Patrick Wilson) com uma foto do filho recém-nascido do mesmo, entra em crise e resolve ir atrás do amor perdido, retornando a sua cidade natal para isso. Jovens Adultos não é um filme esperançoso como Juno, mas não poderia ser. Há certa amargura nele que, talvez, complemente o açúcar depositado em sua contrapartida na forma de filme adolescente.

Tanto Theron quanto Page são peças fundamentais para a completa realização de seus respectivos filmes. E, não por acaso, ambas fazem um excelente trabalho. Page é uma metralhadora de diálogos rápidos, mas também um véu transparente de emoções que sabe trabalhar tanto a expressão facial quanto a lingugagem corporal para compor uma Juno única e inesquecível. Do outro lado do ringue, Theron se desprende de sua própria elegante persona para encarnar uma personagem que é toda baseada em falsas aparências, frieza e metodismo. E, em poucos minutos de tela, é impossível separar Charlize de Mavis Gary.

Em Juno e em Jovens Adultos, a câmera está nas mãos de Jason Reitman (direção) e Eric Steelberg (fotografia). A dupla trabalha em afinadíssima conexão com o roteiro de Cody, e é possível estabelecer paralelos, aqui: em ambos os filmes, a exploração de partes isoladas dos corpos dos atores em cenas chaves, registrando detalhes como elementos de cena, contribuí com a gradual e eficiente construção de personagem que é um trabalho há oito mãos entre roteiro, direção, fotografia e atuação. As coadjuvâncias ganham mais nota em Juno, que, devemos admitir, tem uma trama mais ramificada. Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Allison Janney e J.K. Simmons são partes fundamentais (e absolutamente competentes) das engrenagens do filme.Young Adult, por sua vez, tem Patton Oswald em marcante atuação como o “companheiro de dores” de Mavis.

Juno é um filme sobre tentar acreditar na existência do amor de verdade, que pode durar pra vida toda. Jovens Adultos é um filme sobre amadurecer e tentar ver o mundo para além do próprio umbigo. Ambos são retratos pouco indulgentes, mas ao mesmo tempo muito afetuosos, da geração de seus protagonistas. E pode ser que nenhum deles tenha um final feliz perfeito, se você prestar bem atenção, mas essa é a natureza da escrita de Diablo Cody (e, eu ousaria dizer, o detalhe que mais a faz excepcional): ela ama e perdoa seus personagens, tal e qual uma mãe o faria, mas não precisa fazê-los perfeitos para isso.

Juno ***** (5/5) – Jovens Adultos **** (4/5)

Jason Reitman e Diablo Cody

Juno (EUA, 2007)
Direção: Jason Reitman.
Roteiro: Diablo Cody.
Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Allison Janney, J.K. Simmons.
96 minutos.

Jovens Adultos (Young Adult, EUA, 2011)
Direção: Jason Reitman.
Roteiro: Diablo Cody.
Elenco: Charlize Theron, Patton Oswald, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser.
94 minutos.

1 comentários:

GuiAndroid disse...

Amo Juno :3 E acho que vou amar Jovens Adultos também.