14 de set de 2012

Review: “Intocáveis”, cinema francês e a força de uma boa história.

intouchables

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

É incrível como, na nossa era de importâncias e grandes temas na arte (e logo, no cinema), somos capazes de nos esquecer do poder simples de uma boa história. E é com pequenas pieces de resistance que depositam toda a sua confiança nessa incrível força que uma narrativa pode encerrar, que o cinema francês tem se feito o mais notável do cenário europeu, senão do mundial, atualmente.

É possível sentir o cheiro do cinema de lá, balançar ao seu ritmo e se deixar levar por sua melodia. Intocáveis é só o mais recente de uma série de produções que encantam porque não precisam ser sobre algo para se suntentarem. São sobre aquelas pessoas que estão representadas na tela, sejam elas baseadas em seres humanos reais (como é o caso aqui) ou não. Entre os Muros da Escola, Há Tanto Tempo que Te Amo e até O Artista são exemplos magistrais dessa safra.

Intocáveis, o filme da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano, que já tem outros quatro títulos no currículo (nenhum deles havia ultrapassado as fronteiras francesas), se encerra em si mesmo e é capaz de emocionar e nos transformar sem precisar apelar a grandes lições de moral para tal. É um feel good movie, no final das contas, mas sabe sê-lo com delicioso humor, adorável realismo e regozijante doçura.

A história acompanha Philippe (François Cluzet), milionário quadriplégico – condição em que não se tem movimentos ou sensibilidade do pescoço para baixo – que contrata Driss (Omar Sy) para ser seu “cuidador”. A relação dos dois homens, de contextos sociais diferentes e dotados de pensamentos absolutamente distintos, é conduzida de maneira encantadora pelo roteiro (também assinado por Nakache e Toledano). É possível ver a cumplicidade que cresce, o encaixe mútuo das personalidades, o conhecimento que um vai tomando do outro. Intocáveis é sobre o nascimento de um amor, não tem como negar. Um amor fraternal que comove ainda mais, talvez por termos desaprendido a vivê-lo dessa forma cheia de aceitação e compreensão mútuas.

As atuações de Cluzet e Omar Sy são, é claro, fundamentais. O primeiro, que já trabalhou até com Robert Altman em Prêt-a-Porter, se mostra dono de carisma imenso e, ao mesmo tempo, controle e método notáveis. Seu Philippe é fácil de amar, e ainda assim tem sombras inegáveis, que Cluzet contorna e realça quando lhe é exigido. É na tão natural passagem do detalhismo denso para o sorriso geunuíno e leve que mora o encantamento de sua atuação. Já o Driss de Omar Sy é essencialmente instintivo, espontaneamente engraçado, e dono de absurda honestidade. A compreensão que transborda dos seus olhos chega tanto a Philippe, que não é tratado com pena pela primeira vez na vida, quanto ao espectador.

O cinema americano e o britânico gostam de tramas complexas, usando como pretexto que “não se deve subestimar o espectador”. E não mesmo. Só é preciso, para eles, entender que, seja sobre o que você estiver falando, é fundamental que os seres humanos dentro da tela e suas jornadas atinjam, toquem e comovam aqueles que se postam diante dela, ávidos por um pouco de emoção.

***** (5/5)

Intocáveis (Intouchables, França, 2011)
Direção e roteiro: Olivier Nakache e Eric Toledano.
Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot.
112 minutos.

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