15 de out de 2012

Quem nasceu primeiro: O Cortiço ou Gotham City?

batman

por Marlon Rosa
(Beco 203)

Descubra o que Batman, o comerciante Miranda, Bane e João Romão tem em comum.

Despertar, é assim que eu chamo a epifania que invadiu minha cabeça e implantou a ideia de que a obra de Aluísio Azevedo era muito similar à do herói criado por Bob Crane e Bill Finger. Eu sei que pode parecer uma piada louca comparar duas realidades que parecem ser TÃO distintas e de séculos diferentes assim, logo de cara, mas quando se olha mais atentamente para cada uma delas, se torna um pouco assustador/interessante descobrir o quão parecidas essas duas histórias são.

De um lado, temos a obra de Aluísio, que tem como cenário uma habitação coletiva onde o romance difunde as teses naturalistas, que explicam o comportamento dos personagens com base na influência do meio, da raça e do momento histórico. Do outro, há um vigilante órfão, milionário ou bilionário, dependendo da época, que tem como missão proteger uma cidade castigada que outrora seus falecidos pais acreditavam que poderia ser salva.

“Mas e então ô do texto, o que uma coisa tem a ver com a outra?”. Quase tudo oras! Observem abaixo como Aluísio descreve o cortiço, cenário que dá o nome para a história de seu livro:

“E durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que serpentes, minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo.”

A comparação do cortiço com uma estrutura biológica é clara, é como se a construção fosse um organismo vivo que cresce, evolui, fica mais forte e determina o caráter de quem o habita. E é aí que entra Batman e sua cidade protegida, Gotham City. Na primeira edição da nova mensal, o atual roteirista Scott Snyder, retrata a cidade como uma caçadora no seguinte trecho, onde um detetive dialoga com o homem morcego:

“...meu ponto de vista é de que quando se trata de Gotham, você não a conhece, cara. Ela conhece você. E no momento em que você passa a acreditar no contrário e fica mais confortável... é quando ela te esfaqueia diretamente pelas costas. Porque acima de tudo isso, Gotham é... um MISTÉRIO.”

imageBatman #1 (DC Comics)

O tipo de abordagem é bem parecido com o d’O Cortiço, né?! Sendo que na obra de Aluísio, o meio é algo mais natural e selvagem, já em Batman, é mais animalesco e de instintos. Notem ainda, que nos cartazes de Batman – The Dark Knight Rises (no cabeçalho do texto), filme que encerra a trilogia do morcego, Gotham está sempre como plano de fundo e ocupa mais espaço que os próprios protagonistas. No primeiro, há Batman junto a polícia, que fazem parte de uma classe mais favorecida do povo de Gotham e representam a burguesia e a ordem. Já no segundo, Bane vem ao lado dos menos prestigiados, o povo, representando o caos e o proletariado.

A editora Escala Educacional fez uma versão de O Cortiço em HQ, que traz duas imagens bem parecidas e que representam as mesmas características dos cartazes em duas de suas páginas:

imageimage

O que se conclui de tudo isso é que, obviamente, um não se inspirou em outro, a não ser que Bob Crane tenha vindo do futuro e chamado Aluísio para tomar uma cerveja num bar, o mais lógico é que as duas obras tomam como base a teoria marxista de que o homem é produto do meio em que vive, o que não muda o fato de a comparação ser válida. Gotham fabricou Batman, assim como construiu todos os seus arqui-inimigos no filme de Christopher Nolan como: Coringa, que tem o canto de sua boca cortado pelo pai em um momento de raiva, ou o Duas-Caras, promotor público de Gotham City e aliado próximo de Batman, que posteriormente enlouquece depois que o chefe da máfia Sal Maroni joga ácido nele durante um julgamento, desfigurando o lado esquerdo do seu rosto, se tornando o vilão.

O povo de Gotham é modificado pela cidade, assim como o Cortiço modificou seus moradores e quem estava ao seu redor. Ele começa no caos habitado por seus moradores desordenados, e em determinado momento do livro, deixa de ser um cortiço para se tornar uma vila, o que faz com que João Romão tenha como objetivo deixar Bertoleza, que representa sua antiga vida e um empecilho para seus planos de ascensão resultando no suicídio da amante, para o posterior casamento com a filha do comerciante Miranda. Se analisado desse ponto de vista, o Batman de Nolan se torna ainda mais fantástico, pois transporta essa influência do meio em que os protagonistas vivem, para as telas do cinema, assim como Scott Snyder vem trabalhando nos quadrinhos.

Vale lembrar que a DC Comics recentemente zerou todas as edições de seus principais títulos e decidiu apagar a maior parte do passado de seus heróis, porém, Gotham e Batman ainda continuam em sua longa relação matrimonial.

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