15 de out de 2012

Review: “Jogos Vorazes”, uma lição sobre como não subestimar o próprio público.

Hunger_Games_Movie_2012

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Não vamos fugir do óbvio: a grande maioria das adaptações de grandes sucessos literários, especialmente os infanto-juvenis, chupam a história de suas fontes originais com o único objetivo de fazê-la de suporte para os feitos de produção dos quais são capazes (e fazem questão de mostrar que são). Se Harry Potter conquistou, foi por causa de um elenco excepcional e uma série de diretores que se esforçou para deixar a mostra o conteúdo as vezes até subversivo com o qual J.K. Rowling impregnou sua série. Crepúsculo, por sua vez, mesmo que não tenha grandes ambições conceituais, foi melhor na sua primeira investida cinematográfica, quando ainda era apenas uma história de amor com vampiros, do que quando se tornou um show de efeitos especiais que deixou exposta a fragilidade da trama de Stephenie Meyer. Jogos Vorazes é, até hoje, o único grande filme adaptado de uma grande série literária a fugir dessa regra.

Talvez seja o fato de ter um diretor que também se prestou a redigir o roteiro da produção que tenha feito Jogos Vorazes um filme tão bem-sucedido em submergir o espectador na sua trama. A progressão narrativa é tão absolutamente fluída, a jornada dos personagens é tão brilhantemente desenvolvida, que a produção e os efeitos especiais (que não deixam a dever a nenhum Harry Potter, diga-se de passagem) se tornam, como deveriam sempre ser, a ambientação, os detalhes e os meios usados para contar uma história. História essa de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), que é escolhida para participar dos Hunger Games, competição em que 24 jovens, dois de cada distrito de um mundo distópico no futuro, são levados a digladiar até que permaneça apenas um vivo.

A própria Lawrence é parte essencial para o funcionamento do filme. Com seus 22 anos e uma indicação ao Oscar nas costas (por Inverno da Alma, em 2010), ela é capaz de transmitir emoções com destreza, e cria para Katniss uma persona forte e contida, que no padrão de Hollywood não deveria ser simpática ao público, mas o é. Seu companheiro de cena pela maior parte do tempo, Josh Hutcherson, não faz por menos. Inserido no mundo da atuação desde os dez anos, o astro constrói seu personagem como um ator experiente, encontrando o ponto certo do mesmo e tornando cada cena e palavra coerente com o que conhecemos dele. Do elenco coadjuvante, o grande destaque precisa ir para Stanley Tucci, na performance brilhante de sempre como o astro de TV Caesar Flickerman, e para Donald Sutherland, que promete crescer para se tornar um dos maiores vilões do cinemão atual na pele do Presidente Snow.

O tal diretor-roteirista que parece ter insuflado vida e precisão ao filme é Gary Ross, americano conhecido por Pleasantville – A Vida em Preto e Branco e Seabiscuit – Alma de Herói. Aqui, sua condução é absolutamente segura, trabalhando sensações e impressões com habilidade (a cena do início dos jogos é absolutamete genial) e se unindo ao diretor de fotografia Tom Stern, o preferido de Clint Eastwood, para equilibrar a visceralidade necessária nas cenas dos jogos e a discreta e fria elegância dos traços da Capitol, cidade central onde são conduzidos os preparativos para os Hunger Games. No roteiro, o trabalho de Ross é condensar a excelente trama de Suzanne Collins de forma que ela não perca sua essência e seu ponto.

Jogos Vorazes é um filme sobre desafiar o sistema (e vencer), e sobre mostrar que seres humanos não pertencem a ninguém. É um filme que discute totalitarismo, a política da punição e da esperança, os limites da sobrevivência, e que não se furta de uma quantidade bem maior de sangue que seus companheiros citados no início do texto. Jogos Vorazes é, portanto, o primeiro filme feito para “jovens adultos” que reconhece a segunda palavrinha da expressão “jovens adultos”. E é sempre muito bom, como espectador, não ser subestimado.

***** (4,5/5)

Jogos Vorazes (The Hunger Games, EUA, 2012)
Direção: Gary Ross.
Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray, baseados na novela de Suzanne Collins.
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Stanley Tucci, Wes Bentley, Donald Sutherland, Liam Hemsworth, Toby Jones.
142 minutos.

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