7 de out de 2012

Review: Os personagens fascinantes de O Espião Que Sabia Demais.

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

No próximo dia 26 o mundo vai conferir a terceira investida de Daniel Craig como o agente secreto mais famoso do universo cinematográfico, James Bond, com Sam Mendes (Beleza Americana) na direção e Javier Bardem e Ralph Fiennes como vilões. No ano passado, no entanto, o MI6 esteve em pauta no cinema não sob a visão romantizada (apesar de deliciosa) de Ian Fleming, mas na interpretação realista e complexa de John le Carré. O autor britânico, já adaptado para o cinema por John Boorman (em O Alfaiate do Panamá) e Fernando Meirelles (em O Jardineiro Fiel), encontrou na elegância do sueco Tomas Alfredson, responsável pelo Deixe Ela Entrar original sua melhor representação.

O Espião Que Sabia Demais é um libelo de discrição e sobriedade, um pequeno milagre de narrativa e portador de economia exemplar nas formas que dá para sua encenação. A trama acompanha George Smiley (Gary Oldman), operativo do alto escalão do MI6 que é forçado a romper com a organização à ocasião da demissão de seu mentor, Control (John Hurt), mas é chamado de volta, secretamente, para descobrir um informante dentro da cúpula da qual participava. O diretor Alfredson, tendo como aliado o roteiro preciso de Bridget O’Connor (estreante falecida antes do lançamento do filme) e Peter Straughan (Os Homens Que Encaravam Cabras), realiza um filme que, na absoluta pontualidade dos diálogos e ações, torna o espectador atento a cada caminho tomado pela trama. É a direção clássica de um thriller de espionagem silenciosamente tenso como esse.

Outro triunfo do filme de Alfredson é o tratamento artesanal que dá a cada um de seus personagens, e nessa missão seus aliados óbvios estão no elenco. Smiley é o centro nervoso do filme e os olhos do espectador. Por suas lentes analíticas e pela dimensão humana que Gary Oldman confere magistralmente a ele (a atuação é uma das melhores do ator desde Drácula de Bram Stoker), o personagem se torna próximo de quem o acompanha ao mesmo tempo que continua um velado mistério. Mark Strong, o vilão de Sherlock Holmes, por sua vez, surpreende ao descolar de sua imagem eternamente taciturna e criar um Jim Prideaux que representa os caminhos quebrados e paranóias que toda a trama envolve, num plano mais imediato. Benedict Cumberbatch (o protagonista da última encarnação televisiva de Sherlock) é sensibilidade à flor da pele, e Colin Firth combina a expressão patética de seu personagem com uma expressão que denota o quanto ele está, verdadeiramente, em carne viva e cansado.

O Espião que Sabia Demais, como entretenimento, não deveria ser visto como difícil de engolir. O problema está, claramente, na plateia: o espectador contemporâneo as vezes se comporta como uma criança impaciente, que conhece a sensação da adrenalina do cinema hollywoodiano (e, por favor, não me pintem como um detrator do mesmo: são contextos diferentes que exigem visões diferentes do espectador), e não está disposto a descer do carrinho da montanha-russa para fazer um belo e calmo passeio no parque. Às vezes, ele pode ser tão interessante, se você deixar, quanto qualquer aventura radical.

***** (5/5)

O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, França/UK/Alemanha, 2011)
Direção: Tomas Alfredson.
Roteiro: Bridget O’Connor e Peter Straughan, baseados na novela de John le Carré.
Elenco: Gary Oldman, John Hurt, Benedict Cumberbatch, Colin Firth, Toby Jones, Mark Strong.
127 minutos.

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