16 de nov de 2012

Review: Um James Bond entre as tradições e as inovações em “Skyfall”

skyfall

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Desde 2005, quando estreou na pele de James Bond em Cassino Royale, Daniel Craig tem representado uma quebra de tradições para a série: um ator loiro, de charme bronco e origem no cinema independente britânico, interpretando um 007 que chora por amores perdidos, busca vinganças pessoais e se engaja em combates físicos de dar inveja a Jason Bourne. Se Quantum of Solace, o capítulo do meio da trilogia de origem do “novo James Bond” deixou as coisas seguirem seu rumo sem grandes inovações, em Skyfall o que observamos é, ao mesmo tempo, um retorno à antigas tradições e o nascimento definitivo de um Bond que passeia entre o analógico e o contemporâneo com a elegância digna do smoking que veste.

Aqui, acompanhamos o agente 007, depois de férias forçadas (ele foi atingido por outra agente do MI6 por acidente em uma missão, e dado como morto), retornar ao serviço quando o quartel-generel do serviço secreto britânico é atacado por um cyberterrorista anônimo que parece ter como alvo principal a própria M (Judi Dench). A ameaça, bastante contemporânea, é contrabalançeada no roteiro pelo conflito pessoal de Bond, que parece enfrentar a analogia de seu estilo de agir, seja nas cenas divididas com Q (um carismático Ben Whishaw), seja na cicatriz no braço que parece ter deixado sequelas permanentes.

O trabalho de Neal Purvis e Robert Wade, que escrevem a série desde O Mundo Não é O Bastante (de 1999, estrelado por Pierce Brosnan), aqui ganha o adendo de John Logan (indicado três vezes ao Oscar, por Gladiador, O Aviador e Hugo Cabret). A experiência que o americano traz parece ser positiva para a mistura: há um equilibro entre referências à história e aos maneirismos da série – necessárias quando o filme é lançado justamente no aniversário de 50 anos da franquia – e a construção de um James Bond tridimensional e convincente, que engaja-nos na sua história e promete para o futuro. Skyfall é um filme contundente em muitos níveis e, ao mesmo tempo, saboroso para qualquer cinéfilo.

A direção, que caiu no colo de Sam Mendes (Beleza Americana), surpreende na discrição e na elegância com que conduz um filme de 007 apoiado em cenas de ação que se podem contar em uma mão, mas tensão psicológica e personagens fascinantes pipocando na tela a cada segundo. Ele não deixa a desejar quando as coisas esquentam (a perseguição no começo do filme é uma das cenas de ação mais bem orquestradas da série desde a entrada de Craig), e por outro lado trabalha a emoção e a relação entre os personagens de maneira que nem mesmo Marc Forster conseguiu em Quantum of Solace. São fatos importantes os que tomam lugar aqui, e Mendes faz com que eles sejam recebidos com a pompa e a competência que merecem.

No elenco, o grande destaque é Javier Bardem (Onde os Fracos Não Tem Vez), que atua na pele do melhor vilão da série um algumas décadas. O cyberterrorista Silva é cheio de maneirismos, culpadamente divertido, e quase compreensível em suas motivações, mas ainda é distorcidamente perturbado – e perturbador. Bardem carrega o personagem com o gabarito de um dos melhores atores da atualidade. Já o próprio Craig não demonstra sinais de cansaço para construir um Bond mais humano do que nunca, e aos poucos parece se ajustar impecavelmente bem ao terno do espião britânico. Sua interação com Naomie Harris (dona de uma das melhores surpresas do filme) é magnética como deveria ser. Claro, não dá para passar sem citar Judi Dench e sua icônica, e aqui frágil, M. Ela carrega boa parte da emoção e da visceralidade do filme.

Skyfall é excepcional em muitos sentidos, mas talvez o melhor seja a extremamente bem feita amarração de pontas que faz com essa primeira trilogia de Bond. Claro, não machuca ter a melhor canção-tema de um filme de 007 em tempos (“Skyfall”, cantada por Adele). Ele está de volta, sim, e é melhor se acostumar com isso, porque ele não vai embora tão cedo. 2014 tem mais.

***** (4,5/5)

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007 – Operação Skyfall (Skyfall, Inglaterra/EUA, 2012)
Direção: Sam Mendes.
Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade e John Logan.
Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Ben Whishaw.
144 minutos.

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