19 de dez de 2012

Review: Brad Pitt vê a América cínica em “O Homem da Máfia”

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Ao sair da minha sessão de O Homem da Máfia e encontrar com um casal de amigos na saída do cinema, um deles prontamente perguntou, como é de costume: “é bom o filme?”. Eu sinceramente não soube responder, como é de meu costume, pois ainda não havia digerido a obra de Andrew Dominik, mas uma outra amiga, que a havia assistido comigo, não pareceu hesitar: “é com o Brad Pitt”. Todos riem da piada feminina, mas a verdade é que o astro realmente faz uma diferença muito grande aqui. O Homem da Máfia não seria tão contundente quanto é se não tivesse Brad Pitt, e não estou dizendo que se trata de uma performance genial (embora ela seja bastante competente) do Sr. Jolie. Acontece que, como símbolo máximo da engrenagem hollywoodiana, é um choque e uma ironia que combinam com o mote do filme vê-lo expressar um ponto de vista tão cínico quanto o de seu personagem.

Este é um filme baseado em uma novela de George V. Higgins. Conhecido por Os Amigos de Eddie Coyle, citado em quase todas as listas existentes de melhores romances de mistério e adaptada para o cinema em 1973 por Peter Yates, o escritor morto em 1999 foi advogado antes da publicação de sua primeira novela, e na profissão exerceu tanto a defesa do líder do movimento negro por direitos sociais Eldridge Cleaver quanto a do conspirador do escândalo de Watergate e criminoso político G. Gordon Liddy. Essa ambiguidade (ou simplesmente falta de) moral está marcada como ferro em O Homem da Máfia. Brad Pitt é Jackie, o assassino de aluguel contratado pelo misterioso personagem de Richard Jenkins (indicado ao Oscar por O Visitante) para aparar as pontas soltas de um assalto a uma casa de jogos que mexeu com um chefão da máfia.

Na direção e no roteiro, o neozelandês Andrew Dominik ressalta ainda mais o cinismo da trama do escritor ao adicionar trechos de discursos do final da última administração Bush, e inserir a trama no contexto da eleição de Barack Obama. Em tempos em que a política é vendida de forma utópica, O Homem da Máfia quer provar que o Sonho Americano está mais para vã ilusão. O discurso final do personagem de Pitt é um libelo de descrença, mas vem em um momento em que é impossível negá-lo. A própria trama que o precedeu o confirma. O trabalho de Dominik, que vem se mostrando um cineasta bissexto (três filmes nos últimos doze anos) e brilhante (O Assassinato de Jesse James, alguém?), é de primazia estilística e alguma competência narrativa, mantendo o espectador atento a uma trama que não se furta de seus desvios verbais – um artifício dominado por Quentin Tarantino, e que Dominik está começando a domar.

De certa forma, O Homem da Máfia aproxima-se de Tudo Pelo Poder, drama político de George Clooney estrelado por Ryan Gosling que foi injustamente ignorado na temporada de prêmios do ano passado (assim como esse filme será na atual). O laço que os une pode muito bem ser, aliás, o motivo para o corte cego desses filmes do circuito de grandes prêmios: ambos mostram-nos um ângulo, uma tese, que não gostamos de ouvir. Clooney é mais sutil em sua crítica a visão utópica de política vendida por Obama, mas Pit e Dominik disferem aqui um golpe na própria noção dos Estados Unidos como uma unidade em que todos olham por todos e todos tem a liberade para tudo. Não se trata de dizer que era melhor ter Bush do que Obama na Casa Branca. Se trata de dizer que, se realmente queremos que os discursos cheios de idealizações do atual presidente (a quem tanto Clooney quanto Pitt apoiam, aliás!) sejam algum dia críveis, ainda há muito o que fazer. E um mar de tons de cinza morais com o qual se incomodar.

**** (4/5)

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O Homem da Máfia (Killing Them Softly, EUA, 2012)
Direção: Andrew Dominik.
Roteiro: Andrew Dominik, baseado na novela de George V. Higgins.
Elenco: Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, Richard Jenkins, Ray Liotta.
97 minutos

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