12 de dez de 2012

Review: Rihanna enfrenta o júri e se declara inocente no Unapologetic

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Jean Claude Van Damme, em seu brilhante monólogo em JCVD, o filme que revelou o quanto o crédito dado a ele era pouco em comparação a seu talento, reconta, sob sua visão, a espiral decadente em que sua carreira e sua vida entraram por alguns anos. Envolvido até o pescoço com drogas e lutando (em vão) pela custódia da filha, ele sabe que fez errado. Mas é justamente seu olhar cheio de aceitação para câmera que quebra o espectador (ou deveria quebrar) quando ele diz: “Eu sei que é difícil para vocês não me julgar”. A única coisa que eu, como espectador, consegui pensar, foi: “será que deveria ser?”. Julgar um ser humano, ainda mais um que você realmente não conhece, é um ato tão… mesquinho, porque não considera o que esse julgamento vai causar a quem colocamos no banco dos réus.

Mas o que isso tem a ver com Rihanna e o Unapologetic, no final das contas? O fato é que, se não fosse essa mania estranha e horrível que temos de julgar quem está sob o holofote da mídia, de assistir a sua queda com certo prazer sádico, esse álbum não precisaria existir. Desde que, alegadamente, retomou o relacionamento com o mesmo Chris Brown que, anos atrás, enfrentou processo por ter agredido-a fisicamente (as evidências do espancamento coletadas pela polícia estão em todo lugar da internet), ela não tem recebido as palavras mais gentis nem mesmo de seus fãs, que dirá da mídia em geral.

O que ela faz aqui é louvável num nível em que passa sua mensagem e tenta, sem nunca ser agressiva (não há uma faixa como “Circles” de Christina Aguilera, e vamos concordar que Rihanna tinha muito mais motivo para fazê-lo do que a própria), colocar o ouvinte na posição em que ela se encontra. Isso sempre foi, afinal, o que a barbadiana fez de melhor: transportar, por meio de sua voz, seu repertório e sua incansável experimentação de gêneros, quem a ouve para o seu mundo. A diferença é que aqui, mais do que nunca, ela está querendo que o vejamos pelos seus olhos.

O tão malfadado dueto com Chris Brown, “Nobody’s Business”, este crítico precisa admitir, é ainda um tanto quanto desconfortável de se ouvir. Talvez por isso a tentativa tão clara de fazer da faixa um deleite musical como nenhuma outra do Unapologetic. O soul pop da canção, com sua batida funkeada, seus sintetizadores e seu sample de “The Way You Make me Feel”, de Michael Jackson, é elegantemente calculado para produzir os três minutos e meio mais leves do disco. É um equilíbrio delicado, mas o time de Rihanna acerta o ponto, e no final não dá pra negar que, gostando ou não, o que o improvavel casal tem não é mesmo da conta de ninguém.

“Stay”, a lindíssima balada escrita pela performer nova-iorquina Mikky Ekko (que contribui também com vocais excepcionalmente sensíveis) e pelo requisitado compositor Justin Parker (“Video Games”, de Lana Del Rey), é sobre a dor de admitir que um amor ferido e quebrado pode também ser o amor de sua vida. “Funny, you’re the broken one, but I’m the only one who needed saving/ ‘Cause when you never see the light it’s hard to know which one of us is caving”, Rihanna canta em uma performance admiravelmente contida e emocional. É um lamento, mas também uma afirmação de que só há um caminho, e que, certo ou não, é o verdadeiro. E ela quer que ele fique.

O díptico “Love Without Tragedy/Mother Mary” é o centro emocional do álbum. É uma constatação um tanto melancólica, mas bastante segura: ela termina sobre os sintetizadores agudos e um arpejo sintetizado de violão, dizendo-se “preparada para morrer no momento”, já que “nem mesmo para sempre é para sempre”. Numa canção mezzo disco, principalmente na primeira parte, em que Rihanna faz referência a Marilyn Monroe e James Dean, a cantora parece articular um pedido de desculpas (por mais contraditório que isso seja em um álbum chamado Unapologetic), e o faz a uma meia-voz que é amendrotada (“I felt like love hit me in the night/ I pray that love don’t strike twice”), mas jamais covarde.

A primeira parte do disco é dedicada para as experimentações musicais mais pop. Aqui, Rihanna abraça o amálgama de gêneros que se tornou. Misturando música eletrônica com hip hop de uma forma bem mais uníssona do que seus colegas rappers fizeram, ela passeia por “Phresh Out the Runway”, co-produção entre David Guetta e The-Dream, como se estivesse mesmo saindo direto da passarela.  “Numb”, afora a participação lamentável de Eminem (“eu sou a polícia da bunda/ e estou olhando para o seu traseiro”, I mean), é uma canção bem pensada, com uma escala indiana harmonizando com a batida lenta e os sintetizadores descendentes do refrão, enquanto Rihanna repete, sob uma tonelada de filtros e repetidamente: “I’m going numb”.

Mas não me faça começar a falar sobre o primeiro single do álbum. Há uma dezena de motivos para “Diamonds” ser brilhante: é uma canção belamente composta pela cantora australiana Sia, ganhou arranjo absolutamente genial nas mãos de Benny Blanco e Stargate (preste atenção nas sutis intervenções de cordas e no piano base que se transforma em teclado sintetizado), e possui aquela que é talvez a interpretação mais pura e mais versátil da cantora até hoje. Tudo isso somado resulta no título fácil de melhor single da carreira de Rihanna, e também no bastante disputado de balada mais prodigiosa do ano.

“Perdida no paraíso” parece ser o conjunto de palavras que melhor e mais define a cantora nesse momento de sua vida. Ela tomou um salto de fé, rezando para que “o amor não bata duas vezes”. Você, caro leitor, pode muito bem desaprovar essa decisão. Mas enquanto a última faixa, “Lost in Paradise”, soa com sombras do dubstep e uma das interpretações (e refrões) mais inteligentes da carreira de Rihanna, não dá para negar que Unapologetic é um experimento musical impressionante, uma amostra do porque Rihanna está na linha de frente de uma boa parte do cenário pop atual, tendo se tornado em sete anos uma eficiente conjugadora de estilos. É também um álbum corajosamente sincero, como todos os da carreira da cantora vem sendo desde o Rated R. Ela está cantando a verdade dela, esteja você de acordo com essa verdade ou não. Num mundo ideal, talvez não fosse tão difícil deixar de julgá-la, e talvez só essa sincceridade já fosse o bastante para admirá-la.

**** (4/5)

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Unapologetic
Lançamento: 19 de Novembro de 2012.
Selo: Def Jam, SRP.
Produção: Robyn Rihanna Fenty, Benny Blanco, David Guetta, StarGate, Giorgio Tuinfort, Flippa, Pop Wansel, Oakwud, Mike Will Made-It, Future, Mikey Mike, Chase & Status, Nicky Romero, Parker Ighile, Mikky Ekko, Justin Parker, Elof Loelv, The-Dream, Carlos McKinney, Brian Kennedy, No I.D., Labirinth, Naughty Boy.
Duração: 55m06s

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Notas (glossário):

Disco:
A disco music é um gênero de música pop que teve seu auge no final dos anos 70, tendo com ocaracterísticas os vocais produzidos com ecos, percussões de influência latina e o uso de instrumentos de sopro ao lado dos teclados e sintetizadores. A recentemente falecida Donna Summer é considerada uma das rainhas do gênero (vide"Bad Girls").

Arpejo:
Execução consecutiva das três notas que formam o acorde musical. Por exemplo: no caso do acorde de Dó, composto por Dó-Mi-Sol, ao invés de executar essas três notas juntas, executta-se uma de cada vez. O início da versão de Leonard Cohen para "Hallellujah" é um bom exemplo de arpejo.

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