14 de dez de 2012

Review: Você não é uma história triste – As lições de “As Vantagens de Ser Invisível”

The-Perks-of-Being-a-Wallflower-poster

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Nós não somos uma geração fácil de capturar. Correndo por aí como rios (eles também não tem consciência de para onde vão), fluidos e aparentemente despreocupados como eles, às vezes não é tão claro que, por baixo da corredeira, descansa uma pilha enorme de arrependimentos, dúvidas, equívocos e paixões escondidas. Nós não deixamos transparecer. Somos a geração que diz estar bem sem pensar, a geração que prefere se encolher em si mesma, ser instrinsicamente única (e ferida), mas externamente ordinária.

As Vantagens de Ser Invisível (a começar pelo título!) entende isso, e entende também que no fundo de toda a quieta e calma trajetória que queremos aparentar, todos nós pensamos que somos os protagonistas uma história destinada a ser triste. Esse é o grande trunfo do filme, na verdade. Claro, ajuda que As Vantagens de Ser Invisível entenda também que estamos constantemente criando memórias para nós mesmos: erramos, agimos em instintos frequentemente equivocados, encontramos gente que se parece conosco e gente que escolheu lidar com tudo de um jeito completamente diferente. As Vantagens de Ser Invisível entende o drama adolescente sem fazê-lo pequeno nem mesquinho, ou julgá-lo egoísta. Mas entende que, no final das contas, é só drama. E a vida é bonita o bastante para subjugá-lo, mesmo com todas as feridas que pode causar.

Charlie (Logan Lerman) entra no primeiro ano do high school americano sabendo o que esperar: uma versão piorada da middle school, em que basicamente tentava passar sem ser notado em meio a uma horda de pessoas que, justamente, haviam escolhido um caminho totalmente diferente. Mas eis que ele encontra Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), melhores amigos e, coincidentemente, irmãos (o pai de Patrick se casou com a mãe divorciada de Sam). E não é que eles sejam como ele. É que eles o aceitam como ele é, e o acompanham durante sua jornada para mudar algumas coisas sobre si que ele mesmo não gosta.

Este é um filme sobre os deslocados do high school americano, e é mais do que claro que os atores escalados para o trio principal entendem bem isso. Logan Lerman, o próprio Percy Jackson, encontra uma sensibilidade impressionante na pele de Charlie. Sua hesitação e sua pouca naturalidade no trato são traços que poderiam fazê-lo um mau protagonista, mas no final das contas fazem-no o representante dos olhos do público. Ou melhor, de um público específico. Não somos todos nós um pouco como ele é, afinal, de uma forma extrapolada? O mesmo vale para Ezra Miller (Precisamos Falar Sobre o Kevin) e seus trejeitos adoráveis e para Emma Watson (seriously? the girl is Hermione Granger) e sua doçura anti-ingenue. São três performances realmente tocantes, absoluta e instantaneamente empáticas.

O fato de que o filme foi dirigido e escrito pelo autor do livro original, Stephen Chbosky (ele havia dirigido um fracasso absoluto em 1995, The Four Corners of Nowhere, e escrito roteiros para a série Jericho e o musical Rent), garante tanto fidelidade ao texto primário quanto, especialmente, ao espírito e a mensagem dos personagens. Fazendo um trabalho pouco intrusivo nas duas áreas, Chbosky deixa a trama e o elenco brilharem. E é preciso louvar o esforço empreendido em ambas as áreas.

As Vantagens de Ser Invisível é um feel-good movie incompleto. Seu clamor de “nós somos infinitos” na brilhantemente escrita carta final do protagonista para o seu correspondente misterioso é uma afirmação agridoce de que sabemos o que a vida pode nos trazer. De ruim, inclusive. E temos nossa própria forma de lidar com isso, nosso próprio critério de em quem escolhermos acreditar, confiar, em quem resolvemos nos apoiar. Nossa geração olha o mundo com olhos tão críticos por um motivo muito especial: olhamos para nós mesmos com esses olhos. E nos entendemos nesse cruzamento de auto-julgamentos porque gostamos de saber que um outro meritíssimo por perto bate o martelo a nosso favor e, bem, desfruta da nossa companhia. Eu acho que isso é um pouco perturbado, talvez, se você olhar de fora. Mas é o que nós somos. Infinitos em nós mesmos, e em quem mais escolhemos ser.

***** (5/5)

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012)
Direção e roteiro: Stephen Chbosky, baseado em sua própria novela.
Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Paul Rudd.
102 minutos.

0 comentários: