17 de fev de 2013

Jogo Rápido: Os indicados a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2013

amourDa esquerda para a direita: o diretor Michael Haneke, e os protagonistas Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant no set de Amour, francês favorito ao prêmio

por Amanda Prates
(TwitterO Que Vi Por Aí)

Desde o anúncio do vencedor da Palma de Ouro em Cannes, já se poderia dizer que Amour seria um dos indicados pela Academia à categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, e os mais confiantes apostam (outros até afirmam com total convicção) que Michael Haneke já tem a estatueta garantida – e a indicação à categoria principal só eleva essas chances. O longa-metragem austríaco concorre com as produções de Joachim Ronning (Kon Tiki), Pablo Larraín (No), Nikolaj Arcel (En Kongelig Affære) e Kim Nguyen (Rebelle) e, com exceção de No, seriam fortes concorrentes à estatueta mais cobiçada do cinema, não fosse o favoritismo precoce.

Filmes estrangeiros sempre atraem menos a atenção do espectador, mas desde o início da década passada, a Academia tem se mostrado mais aberta às culturas estrangeiras e aceitado as produções legendadas. Foi a partir de O Tigre e O Dragão (Ang Lee) e Cartas a Iwo Jima (Clint Eastwood), filmados em japonês, que os eleitores dos Oscars se figuraram mais interessados no entretenimento estrangeiro, já que consideram que esses filmes têm uma forma peculiar de contar histórias. Neste ano, Dinamarca, Canadá, Chile, Noruega e Áustria formam a lista das superproduções legendadas, e mostram que eles podem fazer chorar, sorrir e sonhar tão bem quanto as produções hollywoodianas. Sendo assim, a gente analisa os nomes desta categoria (com exceção de Amour, que já fora resenhado aqui). Confira:

Rebelle 1

A Feiticeira da Guerra (Rebelle/War Witch, Canadá, 2012)
Direção e roteiro: Kim Nguyen
Elenco: Rachel Mwanza, Serge Kanyinda, Alain Lino Mic Eli Bastien
90 minutos

Um dos pontos louváveis de Rebelle é não contar uma história, mas sim, nos inserir nela. O espectador vive o sofrimento da personagem, mas não torce para que ela tenha um final feliz. Ele deseja seguir todos os passos de Komona, desde a mera apresentação pela mesma por narração em off, indo ao momento em que ela é recrutada como soldado para a guerrilha na África Subsaariana (o local em específico não importa), até o resultado de suas últimas decisões. Kim Nguyen em nenhum momento tenta emocionar seu espectador ou provocar sentimentos semelhantes, ele joga sobre seu público todo realismo miserável da África no momento da Guerra Civil, numa alternância entre o indigente e o idílico, com cenas em que a personagem principal é brutalizada, seguidas de momentos poéticos, o que talvez torne o filme tão impactante.

Mas, o foco em Komona do início ao fim da história é o que mais se nota. Há momentos maçantes, diálogos quase escassos e imprecisos – mas nada que nos faça querer desistir do filme. A partir do momento em que a personagem é forçada a fazer parte da guerrilha Grande Tigre Azul, toda a história de desenrola na trajetória dela em voltar à sua aldeia e enterrar seus pais, que a perseguem como fantasmas – outro destaque à produção. O diretor não destrincha os fatos, não ignora a inteligência de seu espectador e o deixa por entender alguns detalhes, mas peca na extensão de algumas cenas. Rachel Mwanza, atriz que dá vida a Komona, é a surpresa da vez pela capacidade com que ela mergulha no submundo da personagem, tornando seu sofrimento tão real e palpável. Rebelle quebra com a premissa de que produções deste tipo tendem a ser meramente documentais e denúncias sociais.

**** (4/5)

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A Royal Affair 1

O Amante da Rainha (En Kongelig Affære/A Royal Affair, Dinamarca/Suécia/República Tcheca, 2012)
Direção: Nikolaj Arcel
Roteiro: Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg
Elenco: Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boe Følsgaard, David Dencik, Trine Dyrholm, Cyron Melville, Laura Bro
137 minutos

Ao contar a história de Caroline Mathilde (Alicia Vikander), que, no auge da sua juventude, se vê rainha da Dinamarca, casada com um homem que ela não idealizara e presa a uma relação fadada ao sofrimento e aparências, o que a leva a um relacionamento extraconjugal, Nikolaj Arcel faz de O Amante da Rainha uma história com fatos reais, pincelada pela ficção e longe de ser um romance de época que se vale apenas pelo belo visual que proporciona. A partir da relação amorosa e intelectual desenvolvida entre Caroline e Johann Struensee (Mads Mikkelsen), ambos os roteiristas constroem um filme que nada deve ao seu espectador e é capaz de tratar de romance e história política com igual intensidade e verdade.

Somos inseridos dentro de uma Dinamarca que ainda muito relutava contra os ideais iluministas e onde nobreza e o clero detinha todo o poder de organização socioeconômica, até a personagem principal descobrir sua luz liberal em um alemão iluminista e contribuir significativamente para a saída do país das “trevas da Idade Média” (termo como é tratado preconceituosamente o período que antecede o Moderno). A dupla Arcel-Heisterberg dá uma verdadeira aula de história e filosofia que o público dificilmente se cansa de acompanhar.

Entretanto, os maiores destaques de O Amante da Rainha são mesmo os seus personagens e as composições que os encarnam. Caroline exala elegância e beleza, e se mostra uma mulher forte o bastante para tomar atitudes firmes frente às manias de seu marido. Alicia Vikander compõe seu papel sem se fazer do tom teatral que adotam muitos atores e atrizes, ela prefere encontrar em olhares, mínimos gestos e diálogos naturais a força de sua representação. Mads Mikkelsen dá a seu Johann toda intensidade e aspectos que o permitem ser admirado. Já o vencedor do Urso de Prata, Mikkel Boe Følsgaard, provou o quão merecedor era de tal reconhecimento, ao utilizar-se, invejavelmente, da doença de Christian VII para nos irritar e, gradualmente, nos conquistar com o jeito infantil como ele enxerga a vida, sem tornar-se mais uma caricatura, que ronda personagens tão enérgicos. No mais, o longa se provou eficiente, sem dever absolutamente nada às recriações de época hollywoodianas ao tratar da luta entre o conservadorismo e os ideais da “nova razão”, consciente de sua força.

***** (4,5/5)

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Kon-Tiki 1

Kon-Tiki (Kon-Tiki, Noruega, 2012)
Direção: Espen Sandberg, Joachim Roenning
Roteiro: Allan Scott, Petter Skavlan
Elenco: Pål Sverre Valheim Hagen, Anders Baasmo Christiansen, Gustaf Skarsgård, Odd Magnus Williamson, Agnes Kittelsen
118 minutos

Kon-Tiki poderia estar, facilmente, dentre os indicados à categoria de Melhor Filme no Oscar, ao lado do aclamado Amour, e não faltam motivos que comprovem isso. O que poderia ser mais uma tentativa desastrosa de recriar um documentário histórico da década de 40, acabou se tornando uma grande produção ao nível das hollywoodianas do gênero. A narrativa se centra na corajosa expedição liderada pelo explorador Thor Heyerdahl em tentar tornar verídica sua teoria de que a Polinésia fora povoada por uma antiga civilização peruana e não por asiáticos, como se acreditava até então, refazendo o trajeto de 8000 km dos “Tikis” do Peru à Polinésia em uma jangada rústica, similar à dos nativos.

Ao encarnar o explorador norueguês, Pål Sverre Valheim Hagen impressiona pela representação do herói sem superpoderes, homem que erra, mas audacioso e que se perpetuará na memória de um povo e, mesmo que caricata (o que neste caso, é impossível não ser), cativa por suas expressões dotadas de veracidade, porém não se pode dizer que ele tenha grande destaque entre os coadjuvantes, todos têm sua parcela de importância. A produção é luxuosa e os acontecimentos relativos à história e ao técnico são inteligíveis, coesos e bem arquitetados, sem exageros ou qualquer ensaio de elevar os personagens a um status de “herói destemido e maniqueísta”. Kon-Tiki é o típico filme que se destaca das produções nacionais e se aproxima da maneira mais tradicional americana ou britânica de se contar uma história com fundo verídico.

***** (4,5/5)

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NO 1

No (No, Chile, 2012)
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Pedro Peirano
Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Luis Gnecco, Alejandro Goic, Jaime Vadell
118 minutos

Mesmo sendo o filme mais fraco da categoria e longe de levar a estatueta, No não deixa de ser uma produção de destaque. Todo filmado em U-matic, formato de fita de vídeo analógico de gravação usado nos anos 80, a história se centra no plebiscito anunciado por Augusto Pinochet – quando pressionado pelo resto do mundo –, para decidir se ele continuaria no poder por mais 8 anos, o que perduraria a ditadura implantada durante seu governo, ou se o país adotaria uma política democrática. A partir daí, a publicidade assume toda a sua importância na missão de convencer o país a dizer “não” ao presidente ditador. E esse foi o grande acerto do diretor e roteirista: colocar a política como um produto para se chegar a uma democracia, e não como uma questão social. Talvez possa parecer contraditório, mas o filme que encerra a trilogia do diretor sobre a ditadura no Chile se foca em apenas descrever com fidelidade toda a corrida publicitária que se estabeleceu no país naquela época, sem envolver um cunho histórico mais detalhado.

Gael García Bernal encarna o personagem fictício René Saavedra, que se toma como a alma da luta pelo “não”. O elenco desempenharia seu papel com louvor, não fossem os diálogos imprecisos, confusos e outros muitos desnecessários que permeiam todo o filme, mas o retrato eficiente, inteligente e criativo da situação em que se encontrava o Chile no final da década de 80, foi a grande sacada de Larraín.

**** (4/5)

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