22 de mar de 2013

Duas visões sobre a estreia da prequel de Psicose em forma de série, “Bates Motel”

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

Os melhores momentos de Bates Motel acontecem quando o espectador se esquece de um detalhe fundamental escolhido pelo estreante Anthony Cipriano, criador da série, para moldar sua trama: apesar de ser uma prequel de Psicose, cujo lançamento original aconteceu em 1960, Bates Motel se passa em um contexto bem século XXI. Talvez seja a vontade de ser meio Twilight e meio Seven, mas quando a Norma de Vera Farmiga está calmamente cortando a carne para o jantar e um celular toca ao seu lado, na pia, um pouco do interesse do espectador se perde.

O leitor indignado pode começar a me acusar de ser obcecado por detalhes que não fazem a diferença no layout geral da série, mas eu vou ter que discordar. Se Bates Motel se passasse nos anos 50, como deveria, veríamos uma sociedade diferente, uma ambientação diferente (principalmente na porção da série que retrata Norman na high school) e um tipo de pensamento e desenvolvimento de personagem diferente. Há um choque interessante em constatar o relacionamento à beira do doentio de Norman com a mãe num contexto do século XXI, mas por outro lado seria interessante ver o moço frequentando uma escola apenas para meninos na década de 50.

A verdade é que Norman é um assassino com uma psique formada nos moldes de outra época. Um garoto de 17 anos no século XXI não se chocaria e fascinaria com um caderninho de desenhos sadomasô rabiscado por um possível psicopata da forma que um garoto de 17 anos faria nos anos 1950. A mentalidade da época era muito mais restritiva, e esse era o cerne da formação de Norman na sua encarnação original na pele de Anthony Perkins: na segurança e na inocência de sua época, ele subvertia o familiar e frustrava as expectativas do suburbano. Colocado no contexto atual, o Norman de Freddie Highmore, por mais que o ator se esforce brilhantemente, é apenas mais um elemento de caos.

Apesar desse nem tão pequeno pesar, Bates Motel não é uma série da qual se deva fugir. Principalmente porque tem uma quantidade notável de pessoas talentosas envolvidas: Highmore e Vera Farmiga (especialmente ela, magnífica nesse episódio-piloto) fazem a série brilhar nos momentos que dividem a cena, retratando a relação de Norman e Norma com delicadeza e sinceridade ao mesmo tempo tocantes e chocantes; a direção, pelo menos aqui, é puro instinto e excelência nas mãos de Tucker Gates, o responsável por até as cenas do high school não parecerem tão ruins; e não há nada de mal na participação de Nestor Carbonell, que deixaria os fãs de Lost felizes se se tornasse personagem recorrente. Nós estaremos assistindo semana que vem.

**** (3,5/5)

por Andreas Lieber
(Tumblr)

O que lhe vem a mente quando alguém fala “psicose” ou “psicótico” ou qualquer outra derivação do gênero? Impossível pensar em outra coisa: o clássico de Hitchcock, Psycho, com certeza brota em sua cabeça imediatamente e ainda vem acompanhado de faca, banheira e da macabra música de Bernard Herrmann. Em 1960, quando o filme chegou às telas de cinema depois de uma incrível luta da parte do Sr. Hitchcock (que é retratada, inclusive, no filme Hitchcock, de 2012), ele logo dividiu opiniões e se tornou um dos maiores clássicos da história do cinema. Ao matar a mocinha (que não era lá tão mocinha) no meio da história, ao apresentar um personagem com distúrbio mental que se transvestia e acrescentar os famosos plot twists durante todo o filme, Hitchcock inaugurou uma nova fase cinematográfica na história.

Hoje, no entanto, 53 anos depois, estamos bem mais acostumados aos plot twits, distúrbios, diferenças sexuais e comportamentais da raça humana de modo que, para algo nos prender e causar o tumulto mental que Psicose causou em 1960, precisa de grande esforço. É o caso de Bates Motel, nova aposta da A&E. Narrando os eventos que antecedem a trama do filme, a série conta a história de Norma Bates que, após perder o marido, compra um motel na beira da estrada de uma cidadezinha no White Pine Bay e leva o filho adolescente, Norman, junto com ela para recomeçarem após a perda.

Introduzindo vários elementos importantes do filme nesse primeiro episódio, a série narra em seu começo a mudança dos Bates para White Pine Bay e retrata logo em seu princípio a intricada relação entre Norma e Norman, que, por um lado gira em torno do extremo sentimento de possessão da mãe para com o filho, e do outro, da adoração de Norman por Norma, embora neste não falte os momentos de explosão, como bem lembrados do filme. O clime de tensão cresce e se perpetua no episódio quando o ex propietário do hotel e da casa aparece reclamando seu direito sob o lugar e atinge o seu ápice quando o mesmo ataca e estupra Norma, levando à clássica cena do assassinato à facadas do atacante quando Norman chega para salvá-la, embora nada de banheiras dessa vez. Recobrando outro aspecto importante do filme, os Bates tem um encontro com a polícia logo após o assassinato, mas passam impunes (ou aparentemente impunes) para desovarem o corpo na baía próxima.

Contando com um pilot promissor e uma das estreias interessantes da temporada, o maior trunfo de Bates Motel está ainda na escolha do cast. Contando a atuação sempre brilhante de Vera Farmiga, que encarna a dualidade psicótica de Norma Bates tão brilhantemente como poucas atrizes poderiam, contracena com Freddie Highmore, que cresceu desde August Rush e nos entrega uma perfomance digna do adolescente aparentemente calmo, mas que esconde os primeiros vestígios da psicose que o assolará quando adulto. A série incomoda nesse primeiro momento, no entanto, na indefinição temporal; esperávamos algo na década de 40/50, mas no começo do “First You Dream, Then You Die”, parece que fomos transportados para os anos 70 e, de repente, em um loop para o futuro, Norman aparece usando um iPhone. Outra característica meio dúbia nesse início de série foram as cenas de Norman na escola vivendo o papel de “o novato da casa afastada”, dando ao episódio um agridoce tom de lista dos best sellers em YA do The New York Times.

Bates Motel impressiona com seu pilot, mas fica claro que os roteiristas precisam ter cuidado redobrado ao contar essa história, evitando cair nas mesmas “armadilhas” que tantas outras séries cairam no decorrer de temporadas futuras: a desassociação dos personagens para o público e a investida de plots que muitas vezes se tornam enfadonhos. Considerando que essa é uma história já contada e que todos nós sabemos esse final, esse cuidado deve ser maior ainda. Não obstante, Bates Motel provou que pode, sim, impressionar e ficar na memória cultural como Psicose ficou.

**** (3,5/5)

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Próximo Bates Motel: 01x02 – Nice Town You Picked Norma (25/03)

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