9 de abr de 2013

Duas visões sobre a estreia da nova encarnação do Dr. Lecter, a série Hannibal

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

Desde que Heroes estourou orçamentos para uma série de TV e Lost montou uma estrutura de produção extremamente complexa, virou clichê dizer que uma série tem “linguagem de cinema” como um elogio. Como costuma acontecer, na maior parte das vezes é muito barulho por nada, mas leve a sério quando você ouvir algum crítico dizendo isso de Hannibal, que estreou na última quinta-feira na NBC e lança novo episódio amanhã (11). Essa é uma série dirigida com perícia técnica, conhecimento e refinação no uso dos efeitos de imagem e som na percepção do espectador. É uma experiência audiovisual (sem trocadilhos) saborosa, ao mesmo tempo bela, envolvente, fascinante e assustadora. Exatamente os adjetivos que definem Hannibal Lecter.

Anthony Hopkins é um ator difícil de ser superado, mas o dinamarquês Mads Mikkelsen (o vilão de Cassino Royale) faz um trabalho a ser aplaudido nesse primeiro episódio. Ele é sutil e silenciosamente ameaçador, ao mesmo tempo em que consegue ser sedutor e calculista. O jogo de gato e rato estabelecido pela série é complexo: aqui, Hannibal é ainda um respeitado psicólogo, ao qual o Agente Crawford (Laurence Fishburne, sempre um prazer de se assistir) do FBI recorre quando precisa traçar um perfil de Will Graham (Hugh Dancy), outro psicólogo, escolhido para consultorar o bureau na investigação de uma série de assassinatos.

O roteiro de Bryan Fuller (Wonderfalls, Pushing Daisies, Heroes) é bravamente inteligente e presume, numa atitude louvável e sempre bem-vinda para uma série de televisão, que sua audiência também é. Inspirado pelo personagem título, Hannibal não atira sua premissa na cara do espectador: melhor, se insinua aos poucos como um dos dramas criminais mais instigantes e pouco usuais dos últimos tempos. Dispensa a violência pela violência de séries como The Following e, ao usar o ponto de vista do personagem de Hugh Dancy para retratá-la, torna-a chocante sem ser sensacionalista. Pelo contrário: há certa empatia em Hannibal que nos desafia a nos perguntar até onde nossa própria imaginação vai. Até onde podemos entender os atos de um psicopata? Não é a primeira vez que vemos essa discussão, mas poucas vezes ela esteve tão bem retratada.

A direção de David Slade (30 Dias de Noite) dispensa comentários, e é provavelmente um dos trabalhos mais excepcionais não só da temporada na televisão americana, como também da carreira do moço, que sempre foi bom em visuais mas nunca teve um roteiro que o apoiasse tanto na criação dos mesmos. Quem também faz ótimo trabalho é Dancy, que também tem um predecessor complicado (Edward Norton interpretou o personagem em Dragão Vermelho, de 2002) mas captura o espírito e a essência de Will Graham de maneira minuciosa, e se torna um protagonista com quem é fácil de se engajar.

O segredo de Hannibal, no fim das contas, é esse: a série não nos aparece, nesse primeiro episódio, como um trabalho “em construção”. É um pacote pronto, lindamente embrulhado e entregado na porta das nossas casas. Só tome cuidado com quem toca a campainha.

***** (5/5)

por Marlon Rosa
(Twitter)

Aculturação! Se você já estudou antropologia cultural, provavelmente deve saber que o termo é usado para explicar quando duas culturas distintas ou parecidas são absorvidas uma pela outra formando uma nova cultura diferente. Além disso, aculturação pode ser também a absorção de uma cultura pela outra, onde essa nova cultura terá aspectos da cultura inicial e da cultura absorvida... e essa foi a melhor palavra que eu consegui pensar e que descreve possivelmente o tom dos episódios subsequentes, de Hannibal, a grande aposta da NBC para o ano de 2013.

Entretanto, o que é mostrado na série, não é necessariamente um processo de aculturação, não no sentido puro da palavra, para entender o que acontece com Graham, personagem principal do episódio (e possivelmente de toda temporada), é preciso que se troque a palavra cultura por personalidade. O que acontece no decorrer do capítulo não são duas culturas distintas ou parecidas sendo absorvidas, são personalidades e pontos de vistas diferentes entrando em conflito e sendo absorvidos por um único ser. Graham consegue pensar como os criminosos, entendê-los, e possivelmente, agir como eles. Isso faz com que ele tenha problemas psicológicos e dificuldades para conviver em sociedade.

A capacidade que Graham possui chama atenção não só do FBI, que busca pela ajuda do professor para conseguir solucionar crimes, mas também a do homem que dá nome a série, Hannibal Lecter, um psicólogo frio e calculista que passa a analisar Graham até o final do episódio.

O cuidado e investimento da série são notados logo na primeira sequência, onde há um processo reverso da cena de um crime. Os efeitos visuais utilizados no decorrer do capítulo ajudam a manter uma atmosfera de mistério, carnificina e até um pouco de fantasia (como nas das cenas em que o veado aparece).

O elenco da série é OK! Mads Mikkelsen, que faz Hannibal, ainda está um pouco longe de alcançar uma atuação a lá Anthony Hopkins, mas não é de todo pior; talvez com o tempo ele tenha espaço para mostrar melhor sua capacidade interpretativa. Já Hugh Dancy, que interpreta Will Graham, faz o que lhe foi designado, nada mais, nada menos. Destaque para Laurence Fishburne, que interpreta o chefe de Graham, e framboesa de ouro para Hettienne Park, membro da equipe de análises do FBI, que interpreta a personagem Beverly Katz, e para Dra. Bloom, personagem interpretado por Caroline Dhavernas, terapeuta responsável por ficar de olho em Graham.

A série parece ter uma pegada mais policial do que dramática, me lembrou um pouco Dexter – só que sem a atuação incrível do Michael C. Hall. No entanto, vale a pena dar uma chance e descobrir se esse primeiro episódio, que recebe o nome de “Apéritif”, antecede um bom prato principal.

*** (3/5)

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Próximo Hannibal: 01x02 – Amuse Bouche (11/04)

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