21 de abr de 2013

Review: Duas visões sobre a pioneira série do Netflix, House of Cards

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House of Cards: uma série inovadora no lançamento e na estrutura

por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

ATENÇÃO: esses reviews contem spoilers!

A primeira série produzida pelo Netflix, serviço online de streams que vem ganhando cada vez mais adeptos entre cinéfilos e espectadores de televisão, House of Cards estava fadada a fazer história em seu formato desde a concepção. Tudo porque o site resolveu liberar todos os 13 episódios da primeira temporada do programa no dia 01 de Fevereiro, para os clientes do serviço poderem assistí-la cada um ao seu próprio ritmo. Tirando o fato de que a decisão mexeu com críticos de TV do mundo inteiro, que se viram quebrando a cabeça para pensar em uma forma de cobrir a série sem afastar o público (que estaria em alturas diferentes da temporada), House of Cards provou que o formato pode funcionar muito bem para o Netflix.

Insatisfeito com destruir o próprio conceito de “temporada de televisão”, House of Cards mostra ousadia na hora de lidar com a estrutura narrativa do formato. Essa não é uma série com o tipo de sotrylines que você poderia esperar. Com poucas exceções ao longo da temporada, não é uma série que tem episódios mirando o desenvolvimento de uma trama geral mas com temas isolados em si mesmos. Mesmo que seja apenas levemente inspirada pela novela de Michael Dobbs, já adaptada para a televisão britânica em 1993, House of Cards parece muito mais estuturado literária do que televisivamente. E isso significa storylines que se estendem por episódios antes de mostrarem qual é sua função no grand design da trama, pequenas pistas logo no início da série que vão reaparecendo na fase final e, especialmente, um desenvolvimento de personagens diverso do da TV.

Quando embarcamos em uma série, mesmo em um drama, em pouco tempo podemos saber quem são os personagens que estão a nossa frente. Talvez com o passar dos episódios acabemos por conhecê-los melhor, mas suas motivações estão claras quase sempre desde o início. Pra citar exemplos atuais: Rachel Berry coloca acima de tudo seu plano de ser uma estrela da Broadway em Glee, Tessa Altman tenta se adaptar mas sempre acaba entrando em conflito com o modo de vida fútil de Chatswin em Suburgatory, Mr Reese e Mr Finch pretendem redimir seus passados salvando pessoas em Person of Interest. Em House of Cards, nós sabemos o que o Frank Underwood de Kevin Spacey quer, porque ele mesmo nos diz (em um recurso de quebra de quarta parede que é um deleite com Spacey em cena), mas ainda precisamos descobrir até onde ele pode ir, e de que forma ele pretende proceder, para chegar lá.

A mesma prerrogativa se aplica aos coadjuvantes. Zoe Barnes (Kate Mara) parece uma repórter desesperada por uma história quando começa a receber informação de Underwood, ocasionalmente sendo valiosa para o prosseguimento de seu plano para se infiltrar e/ou derrubar a administração presidencial que quebrou a promessa de nomeá-lo Secretário de Estado, mesmo que ele tenha sido fundamental para a eleição do candidato. Com o tempo, a série mostra que há mais do que isso nela: há ali uma jornalista cujos valores são subvertidos muito cedo e muito radicalmente, e no final da temporada estamos assistindo a Mara interpretar uma versão totalmente diferente de Barnes. Não são muitas séries que podem arriscar jogar com arcos de transformação, e não arcos de revelação. House of Cards vira o clichê de ponta cabeça ao fazê-lo.

A série ganha tantos pontos por fazer isso tudo funcionar, a longo prazo, que o que mais vier é lucro. E há muito para se contabilizar nesse campo. A direção fica por conta de David Fincher (episódio 1 e 2), James Foley (3, 4, 9), Joel Schumacher (5, 6), Charles McDougall (7,8), Carl Franklin (10, 11) e Allen Coulter (12, 13). Todos com currículo respeitável, sendo McDougall o único que não tem histórico notável no cinema – e ainda assim faz um excelente trabalho no sétimo capítulo, um dos mais incisivos quanto a personalidade de Underwood. Schumacher faz um trabalho tradicional, o que não combina muito com o pré-estabelecido por Fincher, mas arranca alguns bons momentos de thriller político by-the-book. As espertezas visuais de House of Cards são parte do prato de inovações da série.

O elenco, por fim, faz um trabalho sólido. Spacey é absolutamente magnético como Underwood, ao mesmo tempo que não esconde ao espectador o fato de que não se trata de um personagem escrito para ser agradável. Ao curso de House of Cards, Underwood manipula colegas políticos, a amante jornalista e a própria esposa. Em um ápice, é responsável por um homicício. Spacey é implacável quando se dirige a audiência, e emerge no papel com seu sotaque sulino e sua figura tornada impressionantemente imponente. Robin Wright é agraciada com a storyline menos atrativa das três principais da série, mas ainda assim é capaz de trazer a mistura certa de instrospecção e perturbação para Claire Underwood. Sem contar, é claro, uma boa dose de classe. Mara, por fim, lida com o arco de mudança de sua personagem brilhantemente. Sua Zoe é um cuidadoso equilíbrio de iegnuidade e ambição. E prende a atenção sempre que está em tela.

Talvez seja mais adequado chamar House of Cards de “long-form narrative”, como alguns críticos tem preferido, uma vez que ela quebra tantos tabus televisivos. O que importa é, com seu final em cliffhanger e sua curiosa forma de nos envolver na história, essa série emerge de suas 13 horas triunfante.

***** (4,5/5)

O ás na manga do Netflix

por Rubens Rodrigues
(Twitter - Box de Séries)

Uma série produzida por David Fincher e disputada pela maioria dos canais a cabo deve ser mesmo imperdível, certo? House of Cards causa essa impressão no primeiro momento, e à medida que somos apresentados aos planos do cínico Francis Underwood fica claro que o Netflix sabe o que está fazendo.

Kevin Spacey está soberbo como o implacável congressista Underwood que, obcecado pelo poder, arquiteta uma série de planos para se vingar daqueles que atrapalharam seus objetivos. Aqui não temos um herói querendo fazer justiça como os vingadores de Arrow ou Revenge, por exemplo. O personagem de Spacey é exatamente o contrário, aquele com quem você não iria querer cruzar o caminho.

Apesar do contexto político muito bem explorado, a cereja desse bolo é o relacionamento de Francis com Claire, sua esposa que na trama é interpretada de forma brilhante por Robin Wright. O casamento mais parece uma obscura aliança profissional, o que fica ainda mais claro quando observamos o clima sombrio que a fotografia estabelece nas cenas “íntimas” do casal, diga-se de passagem.

O time de atores coadjuvantes também foi bem escolhido. Principalmente Kate Mara e Corey Stoll, que se destacam quando contracenam com o protagonista e ajudam a elevar o nível do programa.

Talvez o que falte em House of Cards para conquistar ainda mais público seja um personagem carismático, aquele por quem você torce para que termine bem no final de tudo. Ou talvez eu esteja falando bobagem e isso não se faça necessário no show, já que aqui ninguém é bonzinho o suficiente.

A verdade é que o cinismo de Underwood e a narrativa que envolve esse castelo de cartas que é o jogo político americano me conquistaram rapidamente, e felizmente, já foi renovada para uma segunda temporada. Eu não sei o que Francis pretende no próximo ano da série, mas estou decidido a descobrir.

**** (4/5)

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Uma segunda temporada de House of Cards já foi confirmada, e começa a ser filmada no próximo mês de Maio!

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