30 de abr de 2013

Sincerely yours, The Breakfast Club: John Hughes e a trilogia jovem que marcou uma geração

john-hughesJohn Hughes (1950-2009)

por Caio Coletti
(@EcoCaio)

“Eu não penso nos jovens como uma forma inferior da espécie humana”. O dono dessa palavras é John Hughes, escritor, produtor e diretor americano que mais e melhor entendeu a juventude e a colocou em filme. E como ele o fez? Simplesmente tratando-os como iguais. Se há algo que une a lendária trilogia jovem que Hughes escreveu e dirigiu entre 1984 e 1986, esse algo é o tratamento dos dramas e dos dilemas de seus personagens com o respeito que eles merecem e deveriam sempre receber. Os problemas da garota cujo aniversário é esquecido, dos cinco desajustados que passam um sábado em detenção e do trio de amigos que está se despedindo da high school e resolve viver de verdade não são menores que os de quaisquer outros. Pelo contrário, dizem muito sobre a humanidade de todos nós.

sixteen-candlesGatinhas e Gatões (Sixteen Candles, 1984)

O primeiro dos filmes, como costuma ser, é o menos sofisticado deles. Mas isso não significa que se deva subestimá-lo. Comédia brilhante, história de Cinderela clássica e o filme que definiu todos os outros filmes de high school que vieram depois dele, Sixteen Candles ainda tem o mérito de nos mostrar uma visão sensível do ponto de vista da personagem de Molly Ringwald. A musa adolescente do diretor, que se tornou a estrela do momento à época, é Samatha Baker, que acorda em seu aniversário de 16 anos e, além de notar que nada mudou subtancialmente, ainda é esquecida pela família, que está envolvida nos preparativos para o casamento da irmã mais velha, Ginny (Blanche Baker, irritante e hilária exatamente nos momentos em que isso lhe é exigido).

Tudo aquilo que viria a ser clichê vinte anos depois, mas a época soava mais verdadeiro impossível, está aqui: o garoto perfeito que tem a namorada perfeita mas não está satisfeito, o nerd super-confiante que quer provar aos amigos que é um garanhão, a house party que estoura os limites e se tranforma em uma bagunça. A diferença é o tratamento que Hughes dispensa a cada uma dessas coisas: o garoto perfeito de Justin Henry (o menininho de Kramer Vs Kramer) está cansado da namorada porque, por baixo do manto de santa, ela é uma louca bêbada sem limites – e, ainda assim, a cena do término entre os dois (talvez em parte pela boa atuação de Haviland Morris) é madura e um tanto amarga; o nerd super-confiante é um garoto sensato com um bom coração, no fundo cansado de não ter nenhuma oportunidade, feito por um Anthony Michael Hall absurdamente carismático; e a cena da house party é carregada de um humor físico maravilhoso, provido especialmente pelo alucinado Long Duk Dong (Gedde Watanabe).

Como se não bastasse, o roteiro acha tempo para pintar um retrato extremamente bem pensado da relação de Sam com a família. A cena entre ela e o pai no sofá de casa é inescapavelmente tocante. Paul Dooley está excepcional. E no que talvez seja o quote mais bobo (e mais verdadeiro) de Hughes, deixamos Sixteen Candles por aqui:

“I know, it just hurts”
”That’s why they call them crushes”

The Breakfast ClubO Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985)

The Breakfast Club é a obra prima da trilogia, e há pelo menos uma dezena de excelentes motivos para se dizer isso. Talvez o fundamental, no entanto, resida no fato de que esse é o filme em que Hughes permite que um grupo de cinco jovens completamente diferentes tome uma posição elevada em termos de moral em relação ao principal personagem adulto do filme, o Richard Vernon do brilhante Paul Gleason. O escritor/diretor não apenas afirma que esses jovens estão longe de serem “uma forma inferior da espécie humana”, como admite que talvez eles tenham uma visão muito mais clara e sincera do mundo do que aquela sombreada pelas experiências e ressentimentos que decorrem de um tempo de vida maior. Com sua carta final, um pedaço de texto para se guardar para sempre, o filme pretende lembrar, àqueles que são como o personagem de Gleason, o porquê era tão bom ser idealista como esses cinco jovens descobrem serem.

Judd Nelson, Emilio Estevez, Ally Sheedy, Molly Ringwald e Anthony Michael Hall (da esquerda para a direita na foto acima) entregam performances definidoras de suas carreiras. Ringwald, Sheedy e Hall principalmente, estourando seus estereótipos e entendendo o texto da mesma forma que ele foi feito para o espectador entendê-lo. Há uma longa cena de diálogo entre os cinco, perto do final, quando a maioria das máscaras já caiu, que é de uma honestidade absurda e, como tal, ressoa profundamente em cada um que o ouve e já passou pela mesma experiência. Esses cinco jovens estão apenas começando a sentir o peso e a pressão da vida sobre eles, é verdade, mas é extraordinária a coragem e a franqueza com que eles a encaram e a fazem menor em vista de tudo que (não) os define.

A clássica "Don't You (Forget About Me)" foi regravada recentemente em jazz por Ringwald, que após a fase Hughes engatou uma carreira oscilantemente bem sucedida, que passeia por cinema, TV, literatura e música. Anthony Hall quase explodiu a própria carreira com problemas de bebida, mas se reencontrou na televisão e em papéis menores no cinema. Emilio Estevez entremeou sucessos e fracassos, casou-se com Paula Abdul (e separou-se em 1994) e hoje escreve e dirige (um de seus últimos filmes foi o absurdamente estrelado Bobby, de 2006). Judd Nelson e Ally Sheedy não reencontraram o brilho oitentista, mas seguem atuando.

“Dear Mr. Vernon,

We accept the fact that we had to sacrifice a whole Saturday in detention for whatever it was we did wrong, but we think you’re crazy to make us write an essay teeling you who we think we are. You see us as you wanna see us. In the simplest terms with the most convenient definitions. But what we found out is that each one of us is a brain, and an athlete, and a basket case, a princess, and a criminal. Does that answer your question?

Sincerely yours,
the Breakfast Club”

MCDFEBU EC004Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986)

O queridinho do trio veio por último. Curtindo a Vida Adoidado já foi reduzido a apenas uma ode ao hedonismo e ao “viver o momento”, mas é muito mais do que isso. Hughes mira a agulha afiada do seu roteiro, aqui, direto no coração mais sombrio do homem (e não só do jovem): o medo. Nada mais alegórico para isso do que a contraposição de Ferris e Cameron. A hesitação desse último em embarcar com o amigo em um “dia de folga” de seu último ano na escola e, mais tarde, o “ataque de pânico” que toma conta do moço quando destrói o carro do pai são simbólicos: Curtindo a Vida Adoidado é, curiosamente para um filme que fecha uma trilogia sobre a juventude, sobre crescer. E perceber que isso tem a ver com responsabilidade, mas apenas sobre seus próprios atos e, principalmente, sobre seus próprios ideais.

Sendo um filme de John Hughes, a mensagem vem empacotada com piadas atemporais. O Ed Rooney de Jeffrey Jones e a trajetória da irmã de Ferris, Jeanie (Jennifer Grey, que se tornaria uma estrela no ano seguinte em Dirty Dancing), são bons exemplos – a cena de Jeanie sendo seduzida por um garoto na delegacia de polícia (ninguém menos que Charlie Sheen) é hilária. Não faltam também performances inesquecíveis: a começar por Matthew Broderick, que ainda é um ator subestimado, encarnando a energia e abraçando a falta de destino definido de toda uma geração em uma performance que tem seu momento máximo em uma das cenas mais deliciosas da história do cinema, a performance de “Twist N’ Shout”.

Alan Ruck, por sua vez, é o centro nervoso e emocional do filme. O ator, que contava 30 anos à época da produção do filme, interpreta o adolescente Cameron com a dose certa de faro cômico, naturalidade e maturidade necessária para entendê-lo. “Cameron Frye, this one is for you”, brada Ferris antes de começar “Twist N’ Shout”. Essa é para todos nós, nos assinala Hughes.

“I don’t know what I’m gonna do”
”College”
”Yeah, but to do what?”
”What are you interested in?”
”Nothing”
”Me neither”
”FERRIS, YOU’RE CRAZY”
”What do you think Ferris is gonna do?”
”He’s gonna be a fry cook in Venus!”

0 comentários: