13 de jul de 2013

Review: The Newsroom, ou a diferença entre idealismo e maniqueismo

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

Em um review do penúltimo episódio da primeira temporada de The Newsroom, Scott Tobias, jornalista do AV Club, resumiu todo o seu sentimento em relação a série de maneira curta, grossa e (devo dizer) pouco profissional: “Eu não me importo”. Se você, caro leitor, também é do tipo de espectador de televisão que se interessa principalmente por conceitos, a execução dos mesmos e a forma como uma série sustenta a retórica que ela mesma propõe, não assista The Newsroom. Nem mesmo leia o meu review. Você também não vai se importar. No entanto, se você é exatamente o mesmo tipo de espectador que eu, que aprecia quando uma série mantem-se coerente a sua proposta, mas fundamentalmente sabe que nada é mais importante a longo prazo para um programa de TV do que a construção de seus personagens, você vai entender exatamente do que eu estou falando nos próximos parágrafos.

Aaron Sorkin, excelente roteirista que é, também entende. The Newsroom é dona de uma proposta instigante que leva a muitos momentos arrepiantes para quem entende o mínimo do universo que a série explora. É também dona de uma ética idealista, quase quixotesca, mas falemos disso um pouco mais pra frente nesse review. Fundamentalmente, porém, The Newsroom tem um carinho especialíssimo com seus personagens que, no final dos 10 episódios da primeira temporada, os faz mais reais que boa parte das pessoas que assistimos desfilar por aí nas séries de TV de hoje em dia. Sorkin, em um processo parecido com o que ele operou em A Rede Social, não só relata aqui a jornada de um grupo de pessoas lutando para produzir um programa jornalístico que mereça esse nome: mais que isso, reconhece que esse “grupo de pessoas” tem vidas de verdade, dramas de verdade, relacionamentos de verdade uns com os outros. Sinceramente, se não reconhecesse, eu veria The Newsroom com muito menos prazer.

Além disso, essa é uma série que tem um grupo de atores afiadíssimo para representar tanto isso quanto a paixão pelo jornalismo feito da maneira certa. Jeff Daniels está excepcional como Will McAvoy, o âncora de televisão que, após explodir em uma discussão comunitária em uma universidade, perde a imagem de queridinho da mídia. O problema é que, para conseguir essa imagem, Will tem deixado de ser o jornalista que pode ser, não atacando as besteiras ditas por algumas figuras públicas e as hipocrisias de algumas vertentes políticas em nome de ser adorado por toda a audiência. Quem o faz acordar para isso é Mackenzie McHale (Emily Mortimer, absurdamente adorável e totalmente consistente como sempre), ex-namorada de Will que é contratada para produzir o programa do moço por Charlie Skinner (Sam Waterson). O que se segue depois dessa introdução é a tentativa de transformar o News Night em um programa jornalístico que faça jus aos talentos que estão envolvidos nele e à ética que a própria profissão implica.

The Newsroom lida com essa “missão” de maneira interessante. Sim, trata-se de uma lógica idealista e quixotesca. Mas quando, exatamente, essas duas palavras se tornaram armas de uma crítica? O último episódio da temporada, “The Greater Fool”, parece ser a mais definitiva prova de que a lógica de Sorkin é inevitável: o monólogo de Sloan (a ótima Olivia Munn) sobre o que é “o bobo maior” no mundo da economia é cativante, no mínimo. Will e Mackenzie tropeçam em alguns obstáculos pelo caminho nessa primeira temporada, e Sorkin faz toda a questão de mostrar que nem sempre a vontade de fazer bom jornalismo leva ao melhor jornalismo possível. O episódio intitulado “Bullies”, principalmente, faz um excelente trabalho nisso. Às vezes, The Newsroom tem problemas em se equilibrar nessa linha tênue de “moralidade elevada”. Em “Amen”, por exemplo, a superioridade que o roteiro confere a Will e companhia beira o maniqueismo.

Mas esse é justamente o ponto: The Newsroom é, por boa parte dos seus 10 primeiros episódios, uma série idealista sem ser uma série maniqueista. É simplesmente sobre algumas pessoas muito boas no que fazem, tentando fazer o que fazem direito. Assim como é sobre essas mesmas pessoas tentando saber o que é melhor para elas mesmas no âmbito pessoal. E é tão gratificante assistir quando eles conseguem quanto é quando não conseguem.

**** (4/5)

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A segunda temporada de The Newsroom estreia no dia 14 de Agosto

Caio

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