21 de jul de 2013

Review: Os meandros do poder romantizados em “Political Animals”

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No jogo de peixe grande da indústria televisiva (que se tornou muito parecida, ao seu modo, a hollywoodiana de cinema), uma série, antes mesmo de ter o direito de ser uma série, é uma aposta alta da emissora que decide vieculá-la. Agora, vejam bem: este que vos fala não é um dos críticos que se apressam a condenar a lógica mercadológica do entretenimento contemporâneo, simplesmente porque, se fosse fazê-lo, era preciso condenar a estrutura toda do capitalismo. Além disso, aceitar como um fato o status de produto de uma minissérie como Political Animals é um passo a frente para entender a própria estrutura dessas seis horas de televisão.

Ao contrário da recentemente resenhada Top of The Lake, o drama político do canal USA não procura fugir da estrutura episódica. Essa não é uma história unificada contada de maneira progressiva por um número definido de capítulos, e sim um drama altamente serializado, que de muitas formas se aproveita desse esquema de vários segmentos de narrativa para cobrir as tribulações de diversos personagens envolvidos em uma mesma trama política. Há uma marcação muito clara nesse sentido: o recurso dos flashbacks, que só não é utilizado no piloto e no finale da série (preocupados com, respectivamente, apresentações e desfechos), foca a cada episódio em um personagem particular. É assim, pedacinho por pedacinho, e não em uma única linha do tempo transformativa, que ficamos conhecendo a família Hammond-Barrish.

E a expressão “ficamos conhecendo” não é incidental: ao final de Political Animals, a impressão que fica é a que apenas começamos a descobrir esses personagens, e o final desembaraçadamente aberto deixa no ar a possibilidade da produção de uma segunda temporada (ou seria uma “segunda minissérie”?). Não seria a primeira vez que o USA operaria essa transição, já que Debra Messing viu sua originalmente limitada The Starter Wife ganhar um segundo ano no canal. Com ou sem continuação, Political Animals nos coloca lado a lado com uma família americana obviamente inspirada nos Clinton, completa com um ex-presidente cujo mandato foi assolado por escândalos sexuais (o Bud Hammond de Ciarán Hinds) e uma esposa que superou a polêmica e se tornou Secretária de Estado da nova administração (a Elaine Barrish de Sigourney Weaver). Para colorir a coisa, o criador e roteirista Greg Berlanti, que desde Brothers & Sisters é chegado a um drama familiar, incluiu um filho gay (o TJ de Sebastian Stan), outro prestes a se casar (o Douglas de James Wolk), uma jornalista ambiciosa (a Susan Berg de Carla Gugino), e até a mãe irreverente da personagem de Weaver (a Margaret da grande Ellen Burstyn).

Esse resumo diz muito sobre o tom da narrativa em Political Animals, pendendo para o lado novelesco e romantizado, o que fica bem claro no retrato tanto da política quanto do jornalismo. Essa não é House of Cards. Aqui, as pessoas ainda arriscam sua pele e seu emprego por princípios éticos e se deixam facilmente levar por suas paixões, colocando-as acima da integridade da própria família. Há quem argumente que há algum realismo nisso, e a questão é muito mais o lado para o qual se vira a lente de aumento da narrativa do que a veracidade daquilo que aparece sob ela. O fato é que, de tão focalizada no drama pessoal dos personagens que é, Political Animals acaba transparecendo algumas inconsistências na construção dos mesmos: o flashback de Elaine, no segundo episódio, a retrata de forma que contradiz tudo o que vimos dela até então, e não é de forma positiva; o personagem de TJ nunca é interessante mais do que como um conceito rascunhado que só encontra ressonância emocional na reação de outros personagens a ele; entre outras pequenas falhas.

No entanto, com seu foco incansável nas personas fictícias que passeiam na tela, Political Animals encontra seu caminho para ser bastante envolvente, em grande parte com a ajuda de seu elenco fenomenal: não há nenhuma outra atriz além de Sigourney Weaver que poderia fazer Elaine Barrish de forma tão convicta e determinada a ponto de fazer-nos acreditar de verdade nela, e ao mesmo tempo incluir sub-tons emocionais tão sutis em cada expressão; Ellen Burstyn, por sua vez, mostra porque atuar não tem segredo para quem realmente se entrega com toda a alma para a personagem, e ela é dada alguns momentos realmente impressionantes no decorrer da série; Ciarán Hinds, muito criticado por alguns, é um oceano de maneirismos e expressividade na pele do homem do povo, e a inabalável certeza do personagem em si mesmo encarnada pelo ator é comovente; Carla Gugino é uma adversária a altura de Weaver, dando o controno perfeito, sem muita expansividade, a sua personagem; e por fim, James Wolk entende o Douglas Hammond humanamente falho construído pelo roteiro, e é só sua atuação que o torna tão simpático ao olho do público cínico contemporâneo.

Political Animals é uma narrativa que confia no público para ainda conseguir se enredar pelos dramas pessoais de personagens que são ao mesmo tempo ideais puros e seres humanos complexos. Pode ser que não seja realista, mas sem dúvida nenhuma é bom entretenimento.

**** (3,5/5)

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Political Animals está indicada a 5 Emmys, incluindo:
- Melhor Atriz em Minissérie ou Filme (Sigourney Weaver)
- Melhor Elenco para Minissérie, Filme ou Especial para TV
- Melhor Minissérie ou Filme
- Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Filme (Ellen Burstyn)

Caio

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