18 de ago de 2013

Review: Duas visões sobre Hemlock Grove, série do Netflix

Hemlock-Grove-poster

ATENÇÃO: esses reviews contem spoilers!

Com tantos erros quanto acertos, “Hemlock Grove” resulta em um produto mediano

Uma garota é assassinada em uma pequena cidade e em seguida somos apresentados aos suspeitos do crime. Você já deve conhecer esta sequência de Twin Peaks, clássico dos anos 90. É exatamente esta referência que pegamos ao assistir ao primeiro episódio de Hemlock Grove, série original da Netflix.

A série baseada no romance homônimo de Brian McGreevy não esconde a influência da obra de David Lynch, entretanto é eficaz ao mostrar que tem identidade própria quando mistura o recurso narrativo Whodunnit (o nosso Quem matou?) com uma trama que beira ao sobrenatural adolescente. A mistura funciona no primeiro momento, pois gera um mistério em torno de como o programa vai desenvolver a investigação paralela à mitologia.

O problema aqui é que HG comete um erro comum: demora a explorar a mitologia. Com tantos personagens promissores, o erro pode se tornar imperdoável para os espectadores mais críticos. Ok, todo mundo viu a transformação do garoto em lobo no final do piloto, mas depois daquela cena você simplesmente não vê algo relativo a este universo tão cedo. Outro grande problema é a falta de inspiração do elenco jovem, que passaria despercebido se não ocupasse a tela durante a maior parte do tempo.

Há de se reconhecer que a série tem seus méritos, e o principal, eu diria, é apresentar os monstros clássicos da literatura a uma nova geração. O vampiro, o lobisomem e até mesmo o monstro de Frankenstein ganham uma roupagem que funciona de forma satisfatória no contexto contemporâneo. Outro ponto que precisa ser citado é a qualidade dos efeitos especiais. O trabalho feito nos episódios finais é surpreendente.

Com a vantagem de fazer parte do serviço on demand, Hemlock Grove pode ser um bom programa se você estiver disposto a enfrentar a lentidão dos episódios iniciais.

*** (3/5)

Rubens

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Uma carta em defesa de “Hemlock Grove”

Caros críticos e fãs de televisão,

Decidam o que querem da vida. Desde que a mania pelo sobrenatural foi atiçada na televisão com as estréias de True Blood e The Vampire Diaries (ou talvez mesmo antes com as referências pulp de Lost), vocês estiveram pedindo aos berros por uma série que fosse criativa, instigante e estourada de todas as boas maneiras, mas ao mesmo tempo tivesse pés na realidade e mostrasse personagens com os quais vocês pudessem se relacionar. Hemlock Grove se propõe a ser tudo isso, e é verdade que não acerta todas as notas esperadas em suas 13 horas da primeira temporada, mas erra muito menos do que os últimos meses de recepção glacial fizeram crer.

Para falar bem a verdade, Hemlock Grove é uma das melhores coisas que a televisão ofereceu nessa última temporada, e o fato de que ela e a igualmente ótima House of Cards vieram do site de streaming Netflix prova que o sistema de grandes redes da televisão americana, com algumas gloriosas exceções, produz o mesmo tipo de produto comercialmente pautado que o cinema. Essa é uma maldição, é claro, que vem junto com a popularidade do meio, e não há dúvidas que, futuramente, ela vá afetar também o tipo de produção realizada pelo Netflix. Por enquanto, assim como no início da era de ouro da televisão, ficamos com produções comprometidas com a própria visão que tem da história que querem contar, formando uma unidade muito mais coesa do que a maioria das séries que é produzida enquanto os primeiros episódios já estão recebendo feedback do público.

Lançada integralmente no último dia 19 de Abril, Hemlock é a mesma série do começo ao fim, e essa característica é mais do que bem-vinda em uma trama cujo equilíbrio de tom é tão delicado. A aposta aqui é em uma narrativa bizarramente desconexa, como um amálgama estranho de pesadelos costurados, um novelo de lã que vai tomando formas inesperadas a partir do momento que puxamos a ponta do fio. Os pulos de continuidade muitas vezes passam uma sensação brusca de estranhamento, como se a narrativa entrasse naquela nova cena um pouco mais tarde do que deveria, e não são poucas as vezes que a série apresenta uma sequencia de sonho/delírio como parte da narrativa integral, esclarecendo a diferenciação só depois (seja minutos ou episódios depois).

Esse método todo é muito pouco convencional, mas não pode e não deve ser criticado justamente porque é um método. A repetição desse tipo de procedimento acrescenta um semitom perturbador a narrativa, quase como se houvesse um glitch, um deslocamento, entre quem narra a história e quem a recebe. Não é uma estética elitista, mas é perfeita para manter o interesse na história que Hemlock Grove tem para contar, principalmente porque, sem esse tipo de detalhe, ela é bem convencional: uma garota é assasinada brutalmente na cidade título, que é controlada pela família Godfrey, donos de uma empresa de pesquisa científica. O estado do cadáver encontrado leva a crer que o assassinato é obra de um animal, e não de um humano, portanto quando os ciganos Peter e Lynda Rumancek (Landon Liboiron e Lili Taylor) chegam a cidade só um dia antes do acontecido, surgem as suspeitas de que o moço é um lobisomem, levantadas pela aspirante a novelista curiosa Christina (Freya Tingley).

Em Hemlock Grove (a série e a cidade), ninguém parece especialmente chocado com essa suspeita sobrenatural, e é exatamente assim que deveria ser em um programa sobre uma cidadezinha pequena com forças sinistras. A noção de que Hemlock é um lugar em que as regras do mundo em geral não se aplicam, e o fato de que o espectador é jogado em meio a isso sem que se prestem muitas explicações para ele é um dos aspectos mais intrigantes da série. Mais do que Bates Motel, que encontra seu coração na relação entre os protagonistas, e mais do que Under The Dome, nos quais as forças sinistras estão se mostrando cada vez menos sinistras e mais humanas, em Hemlock Grove encontra-se o melhor exemplo de mistério de cidade pequena na televisão americana atualmente.

Outro grande triunfo nesse sentido é a recusa da série de jogar revelações apressadas nessa primeira temporada. No finale, descobrimos algumas coisas que estavam ocultas durante os episódios anteriores, mas a série é mais do que sábia em manter o pathos de perguntas não respondidas. O público precisa aprender que há muito mais graça nas possibilidades do não saber do que na fria certeza do saber, mesmo que Hemlock seja mais do que incisivo e certeiro nos momentos em que descobrimos os grandes mistérios da trama. Há uma lógica cínica e cruel por trás da série, que casa perfeitamente com o clima sombrio, e um estudo bastante profundo sobre a inevitabilidade da morte, perversões reprimidas e a natureza trágica da maldade. Entre simbolismos e estranhezas, Hemlock Grove passa sua impiedosa mensagem com muita convicção.

Ah, e o sotaque de Famke Jansen é um deleite a parte! E tem tempo de sobra para uma referência a Dirty Dancing também (“Nobody puts baby in a corner!”). Além de tudo, essa ainda é uma série divertida. Do que vocês estavam reclamando mesmo?

***** (4,5/5)

Caio

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Hemlock Grove está confirmada para uma segunda temporada!

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